20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Três

Winter estava acordada horas antes de a luz iluminar o céu artificial do domo, quase sem ter conseguido dormir. Ela não foi ver Jacin receber as chibatadas por saber que, se ele a visse, se controlaria para não gritar de dor. Ela não faria isso com ele. Então, que gritasse. Ele ainda era mais forte do que qualquer um deles.
Ela mastigou obedientemente as carnes curadas e queijos levados para o café da manhã. Permitiu que as servas a banhassem e vestissem de seda cor-de-rosa claro. Ficou sentada durante uma aula inteira com o mestre Gertman, um taumaturgo de terceiro nível e antigo professor dela, fingindo tentar usar o dom e pedindo desculpas por ser difícil demais, dizendo que estava muito fraca. Ele não pareceu se importar, já que passava boa parte das aulas encarando o rosto dela com a boca aberta. Winter não sabia se ele seria capaz de perceber se ela realmente usou um glamour nele ao menos uma vez.
O dia artificial chegou e foi embora; uma das empregadas levou uma caneca de leite quente e canela e preparou a cama dela, e finalmente Winter foi deixada em paz.
Seu coração vibrava de expectativa.
Ela vestiu uma calça leve de linho e uma blusa frouxa, depois colocou o robe noturno para que parecesse estar de pijama por baixo. Ela pensou nisso o dia todo, com o plano tomando forma em sua mente, como pequenas peças de quebra-cabeça se juntando. A determinação pura sufocou qualquer alucinação.
Ela afofou o cabelo para parecer que tinha acabado de acordar de um sono profundo, apagou as luzes e subiu na cama. O candelabro pendurado roçou em sua sobrancelha e ela se encolheu, deu um passo para trás e recuperou o equilíbrio no colchão grosso.
Winter se preparou, inspirando uma lufada de ar cheia de intenções.
Contou até três.
E gritou.
Ela gritou como se um assassino estivesse enfiando uma faca em sua barriga.
Gritou como se mil pássaros estivessem bicando sua pele.
Gritou como se o palácio estivesse pegando fogo ao redor.
O guarda posicionado em frente à porta entrou com a arma na mão. Winter continuou gritando. Cambaleando para trás por cima do travesseiro, ela se encostou na cabeceira e puxou os cabelos.
— Princesa! O que foi? Qual é o problema? — Ele olhava por todo o quarto escuro, procurando um invasor, uma ameaça.
Batendo o braço atrás do corpo, Winter arranhou o papel de parede e arrancou um pedaço. Estava ficando mais fácil acreditar que ela estava apavorada. Havia fantasmas e assassinos ao redor, se aproximando.
— Princesa! — Um segundo guarda entrou no quarto. Acendeu a luz, e Winter se encolheu por causa dela. — O que está acontecendo?
— Não sei. — O primeiro guarda tinha ido para o outro lado do quarto e estava olhando atrás das cortinas.
— Monstro! — gritou Winter, incrementando a declaração com um soluço. — Eu acordei e ele estava de pé do lado da minha cama… um dos… um dos soldados da rainha!
Os guardas trocaram olhares, e uma mensagem silenciosa ficou clara, até para Winter. Não tem nada errado. Ela só é maluca.
— Vossa Alteza… — começou o segundo guarda na hora em que um terceiro apareceu na porta.
Bom. Normalmente, só havia três guardas de serviço nesse corredor entre o quarto dela e a escadaria principal.
— Ele foi por ali! — Escondendo-se atrás de um braço, Winter apontou na direção do closet. — Por favor. Por favor, não deixem que escape. Por favor, encontrem-no!
— O que aconteceu? — perguntou o recém-chegado.
— Ela acha que viu um dos soldados mutantes — resmungou o segundo guarda.
— Ele estava aqui — gritou ela, as palavras rasgando a garganta. — Por que vocês não estão me protegendo? Por que estão aí parados? Vão procurá-lo!
O primeiro guarda pareceu irritado, como se essa brincadeira tivesse interrompido algo mais do que ficar de pé no corredor olhando para a parede. Ele guardou a arma, mas disse com autoridade:
— Claro, princesa. Vamos encontrar esse criminoso e garantir sua segurança.
Ele fez sinal para o segundo guarda, e os dois saíram andando na direção do closet.
Winter se virou para o terceiro guarda e se agachou.
— Você tem que ir com eles — insistiu ela, com a voz trêmula e fraca. — Ele é um monstro, enorme, com dentes ferozes e garras que vão fazê-los em pedacinhos. Eles não vão ser capazes de derrotá-lo sozinho, e se falharem…! — As palavras dela viraram um grito de terror. — Ele vai vir atrás de mim, e não vai ter ninguém para impedi-lo. Ninguém vai me salvar! — Ela puxou o cabelo, e o corpo todo tremeu.
— Tudo bem, tudo bem. Claro, Alteza. Espere aqui e… tente se acalmar. — Parecendo grato por deixar a princesa louca para trás, ele saiu andando atrás dos colegas. Assim que ele desapareceu, Winter desceu da cama e tirou o robe, que deixou em cima de uma cadeira.
— O closet está vazio! — gritou um dos guardas.
— Continuem procurando! — berrou ela. — Sei que ele está aí!
Ela pegou o chapéu simples e os sapatos que deixou ao lado da porta e saiu correndo.
Ao contrário dos guardas pessoais, que a teriam interrogado infinitamente e insistido em escoltá-la para a cidade, os guardas que estavam vigiando as torres fora do palácio mal se mexeram quando ela pediu que o portão fosse aberto. Sem guardas e vestidos elegantes, e com o cabelo denso preso e o rosto baixo, ela podia se passar por uma criada nas sombras.
Assim que passou pelo portão, saiu correndo.
Havia aristocratas andando pelas ruas da cidade, rindo e flertando, com suas roupas elegantes e luxuosas. Luz escapava pelas portas abertas, música dançava pelas janelas, e para todo lado havia o cheiro de comida e o estalo de copos e sombras se beijando e suspirando em becos escuros.
Sempre era assim na cidade. A frivolidade, o prazer. A cidade branca de Artemísia, o pequeno paraíso embaixo do vidro protetor.
No centro de tudo ficava o tablado, uma plataforma circular onde dramas eram encenados e leilões aconteciam, onde espetáculos de ilusão e humor obsceno costumavam tirar as famílias de suas mansões para uma noite de diversão. Humilhações públicas e punições também costumavam estar na programação.
Winter estava ofegante, sentindo-se exausta e eufórica com o sucesso, quando o tablado apareceu. Ela o viu, e a saudade enfraqueceu seus joelhos. Ela teve que ir mais devagar para recuperar o fôlego.
Ele estava sentado de costas para o enorme relógio de sol no centro do tablado, um instrumento tão inútil quanto impressionante durante aquelas longas noites. Cordas prendiam os braços nus e o queixo estava apoiado no peito, com o cabelo claro escondendo o rosto. Quando Winter se aproximou dele, viu as marcas das chibatadas em alto-relevo no peito e no abdome, com manchas de sangue seco. Haveria mais nas costas. A mão estaria com bolhas de segurar o chicote. Autoinfligidas, Levana proclamou na punição, mas todo mundo sabia que Jacin estaria sob o controle de um taumaturgo. Não havia nada de autoinfligido naquilo.
Winter tinha ouvido que Aimery se ofereceu para a tarefa. Ele deve ter sentido prazer a cada ferimento.
Jacin levantou a cabeça quando ela chegou na beirada do tablado. Os olhos deles se encontraram, e ela observou o homem que foi surrado e amarrado e debochado e atormentado o dia todo, e por um momento teve certeza de que ele estava destruído.
Mais um dos brinquedos quebrados da rainha.
Mas então, um lado da boca de Jacin se ergueu, e o sorriso chegou aos impressionantes olhos azuis, e ele estava tão radiante e acolhedor quanto o sol nascente.
— Oi, Confusão — disse ele, encostando a cabeça no relógio de sol.
O pavor das semanas anteriores desapareceu. Ele estava vivo. Estava em casa. Ainda era Jacin.
Ela subiu no tablado.
— Você tem alguma ideia do quanto andei preocupada? — disse ela, indo até ele. — Eu não sabia se você estava morto ou se era refém, ou se tinha sido comido por um dos soldados da rainha. Estava ficando louca por não saber.
Ele ergueu uma sobrancelha.
Ela fez uma careta.
— Não comente sobre isso.
— Eu não ousaria. — Ele revirou os ombros o tanto que conseguia com as amarras. Os ferimentos se abriram e incharam com o movimento, e seu rosto se contorceu de dor, mas foi algo breve.
Fingindo não ter reparado, Winter se sentou de pernas cruzadas na frente dele e inspecionou os ferimentos. Querendo tocá-lo. Sentindo medo de tocá-lo. Isso, ao menos, não tinha mudado.
— Dói muito?
— É melhor do que estar no fundo do lago. — O sorriso dele era irônico, de lábios rachados. — Vão me transferir para um tanque suspenso amanhã à noite. Metade de um dia e eu estarei novinho em folha. — Ele apertou os olhos. — Isso supondo que você não esteja lá para me dar comida. Eu gostaria que minha língua continuasse onde está, obrigado.
— Comida, não. Só um rosto amigo.
— Amigo. — Seu olhar a percorreu por inteiro, o sorriso relaxado ainda no rosto. — Para dizer o mínimo.
Ela baixou a cabeça e se virou para esconder as três cicatrizes na bochecha direita. Durante anos, Winter achou que quando as pessoas olhavam fixamente para ela era porque as cicatrizes as repugnavam. Era uma deformação rara no mundo de perfeição delas. Mas um dia uma empregada disse que as pessoas não se sentiam repugnadas, e sim impressionadas. Disse que as cicatrizes tornavam Winter interessante e, de alguma forma, por mais estranho que fosse, ainda mais bonita. Bonita. Era uma palavra que Winter ouviu a vida toda. Uma criança bonita, uma garota bonita, uma jovem bonita, tão bonita, bonita demais… e os olhares que acompanhavam a palavra nunca paravam de lhe dar vontade de usar um véu como a madrasta e se esconder dos sussurros.
Jacin era a única pessoa que conseguia fazê-la se sentir bonita sem que isso parecesse uma coisa ruim. Ela nem mesmo se lembrava de ele ter usado essa palavra ou mesmo feito outro elogio. Estavam sempre escondidos por trás das piadas descuidadas que faziam seu coração disparar.
— Não provoque — disse ela, corando pelo jeito como ele a olhava. Pelo jeito como ele sempre a olhava.
— Eu não estava provocando — rebateu, pura indiferença.
Em resposta, Winter esticou a mão e deu um soco no ombro dele.
Ele se encolheu, e ela sufocou um gritinho ao se lembrar dos ferimentos. Mas a risada de Jacin foi calorosa.
— Isso não é uma luta justa, princesa.
Ela sufocou o pedido de desculpas que estava quase saindo.
— Estava na hora de eu ter alguma vantagem.
Ele olhou para trás dela, para a rua.
— Onde está seu guarda?
— Eu o deixei para trás. Procurando um monstro no meu closet.
O sorriso ensolarado virou exasperação.
— Princesa, você não pode sair sozinha. Se alguma coisa acontecesse com você…
— Quem vai me fazer mal aqui, na cidade? Todo mundo sabe quem eu sou.
— Basta um idiota acostumado demais a ter o que quer e bêbado demais para conseguir se controlar.
Ela ficou vermelha e contraiu o maxilar.
Jacin franziu a testa e se arrependeu na hora.
— Princesa…
— Vou correr o caminho todo de volta até o palácio. Vou ficar bem.
Ele suspirou, e ela inclinou a cabeça, desejando ter levado algum unguento medicinal para os cortes dele. Levana não falou nada sobre remédios, e a visão dele amarrado e vulnerável (e sem camisa, mesmo cheio de sangue) fazia os dedos dela tremerem de jeitos esquisitos.
— Eu queria ficar sozinha com você — disse ela, se concentrando no rosto dele. — Nunca mais conseguimos ficar sozinhos.
— Não é apropriado princesas de dezessete anos ficarem sozinhas com jovens com intenções questionáveis.
Ela riu.
— E que tal jovens que são os melhores amigos delas desde antes de elas saberem andar?
Ele balançou a cabeça.
— Esses são os piores.
Ela riu, uma gargalhada debochada que serviu para iluminar o rosto de Jacin de novo.
Mas o humor era agridoce. A verdade era que Jacin só tocava nela quando a estava ajudando no meio de uma alucinação. Fora isso, ele não a tocava deliberadamente havia anos. Desde que ela tinha catorze e ele dezesseis, e ela tentou ensinar a ele a Valsa do Eclipse, com resultados bem constrangedores.
Naquela época, ela teria leiloado a Via Láctea para tornar as intenções dele um pouco menos honradas.
O sorriso de Winter começou a se apagar.
— Senti sua falta — disse ela.
Ele desviou o olhar e se mexeu, na tentativa de ficar mais confortável na posição encostada no relógio de sol. Trincando o maxilar para que ela não visse o quanto qualquer pequeno movimento o fazia sofrer.
— Como está sua cabeça? — perguntou ele.
— As visões vêm e vão — disse ela. — Mas não parecem estar piorando.
— Você teve uma hoje?
Ela puxou uma pequena falha natural no linho da calça e pensou.
— Não, nenhuma desde o julgamento de ontem. Eu virei uma garota de gelo, e Aimery perdeu a cabeça. Literalmente.
— Eu não me importaria se essa última se tornasse realidade.
Ela o fez calar.
— Estou falando sério. Não gosto do jeito como ele olha para você.
Winter espiou por cima dos ombros, mas os pátios ao redor do tablado estavam vazios. Só o barulho distante de música e gargalhadas a lembravam de que eles estavam em uma metrópole.
— Você está de volta a Luna agora — disse ela. — Tem que tomar cuidado com o que diz.
— Você está me dando conselho sobre como ser discreto?
— Jacin…
— Tem três câmeras nesta praça. Duas nos postes atrás de você, uma embutida no carvalho atrás do relógio de sol. Nenhuma delas tem áudio. A não ser que ela esteja contratando leitores de lábios agora.
Winter fez cara de irritação.
— Como você pode ter certeza?
— Vigilância era uma das especialidades de Sybil.
— Mesmo assim, a rainha poderia ter matado você ontem. Você precisa tomar cuidado.
— Eu sei, princesa. Não tenho interesse em voltar para aquela sala do trono como qualquer outra coisa que não seja um guarda leal.
Um rugido acima chamou a atenção de Winter. Pelo domo, as luzes de dezenas de espaçonaves estavam sumindo conforme elas voavam pelo céu estrelado. Indo para a Terra.
— Soldados — murmurou Jacin. Ela não conseguiu perceber se foi uma afirmação ou uma pergunta. — Como está indo a guerra?
— Ninguém me conta nada. Mas Sua Majestade parece satisfeita com nossas vitórias… apesar de ainda estar furiosa por causa do imperador desaparecido e do casamento cancelado.
— Cancelado, não. Só adiado.
— Tente dizer isso para ela.
Ele grunhiu.
Winter se inclinou para a frente, apoiada nos cotovelos, e aninhou o queixo.
— A ciborgue tinha mesmo o dispositivo de que você falou? Que pode impedir as pessoas de serem manipuladas?
Uma luz brilhou nos olhos dele, como se ela o tivesse lembrado de uma coisa importante, mas quando ele tentou se inclinar na direção dela as amarras o seguraram.
Ele fez uma careta e falou um palavrão baixinho.
Winter chegou mais perto dele e cobriu a distância.
— Isso não é tudo — disse ele. — Supostamente, esse dispositivo pode impedir lunares de usarem o dom.
— Sim, você mencionou isso na sala do trono.
Ele a olhou profundamente.
— vai proteger as mentes deles. Ela disse que os impede de…
Ficarem loucos.
Ele não precisava dizer em voz alta, não com o rosto demonstrando tanta esperança, como se tivesse resolvido o maior problema do mundo. O significado ficou pairando entre os dois.
Um dispositivo daqueles poderia curá-la.
Winter encolheu os dedos e apoiou embaixo do queixo.
— Você disse que não havia mais nenhum.
— Não. Mas, se conseguirmos encontrar os projetos da invenção… só de saber que é possível…
— A rainha vai fazer qualquer coisa para impedir que sejam feitos.
A expressão dele se tornou sombria.
— Eu sei, mas eu tinha que oferecer alguma coisa. Se Sybil não tivesse me prendido, aquela bruxa ingrata. — Winter sorriu, e quando Jacin viu a expressão, sua irritação sumiu. — Não importa. Agora que sei que é possível, vou descobrir um jeito de fazer.
— As visões nunca são tão ruins quando você está por perto. Vão ficar melhores agora que você voltou.
O maxilar dele se contraiu.
— Peço desculpas por ter partido. Eu me arrependi assim que me dei conta do que fiz. Aconteceu tão rápido, e aí eu não podia voltar para você. Eu simplesmente… abandonei você aqui. Com ela. Com eles.
— Você não me abandonou. Foi feito de refém. Não tinha escolha.
Ele afastou o olhar.
Ela se empertigou.
— Você não foi manipulado?
— Não o tempo todo — sussurrou ele, como uma confissão. — Eu escolhi ficar do lado deles quando Sybil e eu subimos na nave. — A culpa tomou conta de seu rosto, e era uma expressão tão estranha para Jacin que Winter não sabia se estava interpretando direito. — Então, eu os traí. — Ele bateu com a cabeça no relógio de sol, com mais força do que o necessário. — Eu sou tão idiota. Você deveria me odiar.
— Você pode ser idiota, mas eu garanto que é bem adorável.
Ele balançou a cabeça.
— Você é a única pessoa na galáxia que me chamaria de adorável.
— Sou a única pessoa na galáxia louca o bastante para acreditar. Agora me diga o que você fez que é digno de ódio.
Ele engoliu em seco.
— Sabe a ciborgue que Sua Majestade está procurando?
— Linh Cinder.
— É. Bem, eu achei que ela era só uma garota maluca em missão suicida, sabe? Eu achava que ela ia matar todos nós com aquelas ilusões de sequestrar o imperador e derrubar a rainha… só de ouvi-la falar, qualquer um teria pensado isso. Então achei que preferia correr o risco e voltar para você se pudesse. Ela que jogasse a vida dela fora.
— Mas Linh Cinder sequestrou o imperador. E escapou.
— Eu sei. — Ele voltou a atenção para Winter. — Sybil pegou uma das amigas dela de refém, uma garota chamada Scarlet. Imagino que você não saiba…
Winter sorriu.
— Ah, sei. A rainha me deu como bichinho de estimação, e ela fica no jardim. Eu gosto muito dela. — Ela franziu a testa. — Mas não consigo dizer se ela decidiu gostar de mim ou não.
Ele fez uma careta ao sentir uma dor repentina e desconhecida, e passou um momento se situando.
— Você pode passar uma mensagem para ela por mim?
— Claro.
— Você tem que tomar cuidado. Não vou dizer qual é se você não conseguir ser discreta. Para seu próprio bem.
— Eu sei ser discreta.
Jacin pareceu não acreditar.
— Eu sei. Vou ser tão cheia de segredos quanto uma espiã. Tão cheia de segredos quanto você. — Winter chegou um pouco mais perto.
A voz dele ficou mais baixa, como se ele não tivesse mais certeza de que aquelas câmeras não gravavam áudio:
— Diga que eles estão vindo buscá-la.
Winter ficou olhando para ele.
— Vindo… para cá?
Ele assentiu com um movimento sutil da cabeça.
— E acho que podem mesmo ter chance.
Franzindo a testa, Winter esticou a mão e prendeu as mechas do cabelo suado e sujo de Jacin atrás das orelhas. Ele se contraiu com o toque, mas não se afastou.
— Jacin Clay, você está falando por meio de charadas.
— Linh Cinder. — A voz dele passou a um leve sussurro, e ela chegou ainda mais perto para escutá-lo. Um cacho do cabelo dela caiu no ombro dele. Ele lambeu os lábios. — Ela é Selene.
Todos os músculos do corpo dela se contraíram. Winter recuou.
— Se Sua Majestade ouvir você falar…
— Eu não vou contar para mais ninguém. Mas eu tinha que contar para você. — Os cantos dos olhos dele se enrugaram, cheios de solidariedade. — Eu sei que você a amava.
O coração dela disparou.
— Minha Selene?
— Sim. Mas… Desculpe, princesa. Acho que ela não se lembra de você.
Winter piscou e deixou a fantasia tomar conta por um momento atordoado. Selene, viva. Sua prima, sua amiga? Viva.
Ela encolheu os ombros e afastou a esperança.
— Não. Ela está morta. Eu estava , Jacin. Vi o que restou depois do fogo.
— Você não viu.
— Encontraram…
— Carne queimada. Eu sei.
— Uma pilha de cinzas em formato de garota.
— Eram só cinzas. Olhe, eu também não acreditei, mas acredito agora. — Um canto da boca de Jacin deu uma leve inclinada para cima, indicando algo parecido com orgulho. — Ela é nossa princesa perdida. E está vindo para casa.
Uma pessoa pigarreou atrás de Winter, cujo esqueleto quase pulou para fora do corpo.
Ela contorceu o tronco e se apoiou no cotovelo.
Seu guarda pessoal estava de pé ao lado do tablado, de cara feia.
— Ah! — Com o coração tremendo como se houvesse mil pássaros assustados dentro dele, Winter abriu um sorriso aliviado. — Vocês pegaram o monstro?
Não houve sorriso em resposta, nem mesmo um rubor nas bochechas, que era a reação normal quando ela fazia aquela expressão em particular. Mas a sobrancelha direita dele começou a tremer.
— Vossa Alteza. Vim buscá-la e acompanhá-la de volta ao palácio.
Endireitando-se, Winter uniu as mãos na frente do peito.
— Claro. É tanta gentileza sua se preocupar comigo. — Ela olhou para Jacin, que estava observando o guarda com desconfiança. Isso não era surpresa. Ele observava todo mundo com desconfiança. — Temo que amanhã vá ser ainda mais difícil para você, Sir Clay. Tente pensar em mim quando puder.
— Tentar, princesa? — Ele deu um sorrisinho para ela. — Não consigo pensar em mais nada.

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