13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Três

O SATÉLITE TREMEU QUANDO A NAVE DE SYBIL SE DESCONECTOU da haste de pouso, e Cress ficou mais uma vez sozinha na galáxia. Apesar do quanto desejava companhia, ficou mais aliviada do que de costume quando Sybil foi embora. Normalmente, a mestra só a visitava a cada três ou quatro semanas, suficiente para tirar outra amostra de sangue com segurança. Mas essa era a terceira vez que ela vinha desde o ataque dos lobos híbridos.
Cress não se lembrava de já ter visto sua mestra tão ansiosa. A rainha Levana devia estar desesperada para encontrar a garota ciborgue.
— A nave da mestra se desprendeu — anunciou a Pequena Cress. — Vamos jogar algum jogo?
Se Cress não estivesse tão perturbada pela visita, teria sorrido, como costumava fazer quando a Pequena Cress fazia essa pergunta. Era um lembrete de que não estava tão sem companhia assim.
Cress já tinha aprendido anos antes que a palavra satélite vinha do latim e significava companheiro ou servo ou bajulador. Todas as três interpretações lhe pareciam irônicas, considerando sua solidão, até programar a Pequena Cress. Aí, ela entendeu.
Seu satélite lhe fazia companhia. Seu satélite fazia o que ela mandava. Seu satélite nunca a questionava nem discordava dela, nem tinha pensamentos próprios e impertinentes.
— Talvez a gente possa jogar alguma coisa mais tarde — disse. — É melhor darmos uma olhada nos arquivos primeiro.
— Claro, Mana.
Era a resposta esperada. A resposta programada.
Cress costumava se perguntar se seria assim a vida lunar, ter esse tipo de controle sobre outro ser humano. Ela fantasiava sobre programar a mestra Sybil com a mesma facilidade com que havia programado a voz do satélite. Como o jogo mudaria, se a mestra seguisse suas ordens em vez do contrário.
— Todas as telas ligadas.
Cress ficou de pé em frente ao panorama de telas invisíveis, algumas grandes, outras pequenas, algumas posicionadas sobre a escrivaninha embutida, outras presas nas paredes do satélite em ângulos para otimizar a visão, independentemente de onde ela estivesse na sala circular.
— Limpar todas as fontes.
As telas ficaram vazias, permitindo que visse através delas, para as paredes vazias do satélite.
— Exibir pastas compiladas: Linh Cinder, Rampion 214, Classe 11.3; imperador Kaito da Comunidade das Nações Orientais. E... — Ela fez uma pausa, apreciando a onda de expectativa que percorreu seu corpo. — Carswell Thorne.
Quatro telas se encheram com as informações que Cress vinha reunindo. Ela se sentou para revisar os documentos que já tinha praticamente decorado.
Na manhã de 29 de agosto, Linh Cinder e Carswell Thorne fugiram da prisão de Nova Pequim. Quatro horas depois, Sybil deu ordens a Cress: encontre-os. Cress descobriu depois que a ordem vinha da própria rainha Levana.
Coletar informações sobre Linh Cinder só tinha levado três minutos; mas, por outro lado, quase todas as informações que encontrou eram falsas. Uma identidade terráquea falsa feita para uma garota lunar. Cress nem sabia quanto tempo fazia que Linh Cinder estava na Terra. Ela simplesmente passou a existir cinco anos antes, quando (supostamente) tinha onze anos. Sua biografia continha registros familiares e escolares anteriores ao “acidente de aerodeslizador” que matou seus “pais” e resultou na operação ciborgue, mas tudo isso era falso. Era só voltar duas gerações de ancestrais para dar em um beco sem saída. Os registros eram fraudulentos.
Cress olhou para a pasta que ainda baixava informações sobre o imperador Kaito. Seu arquivo era incomensuravelmente maior do que os outros, pois cada momento da sua vida tinha sido registrado e gravado por grupos de fãs na rede ou documentação oficial do governo. Informações eram acrescentadas o tempo todo, e tudo explodiu desde o anúncio do noivado com a rainha lunar. Nada era útil. Cress fechou os arquivos.
A pasta de Carswell Thorne exigiu um pouco de trabalho. Cress demorou quarenta e quatro minutos para invadir os registros do governo da rede de dados militar da República Americana e cinco outras agências que tinham histórico dele, compilando transcrições de julgamentos e artigos, registros militares e relatórios escolares, licenças e declarações de renda e uma linha do tempo que começava com sua certidão de nascimento e continuava por diversas honras e prêmios conquistados na infância e adolescência, até a aceitação na força militar da República Americana quando tinha dezessete anos. A linha do tempo sumia depois do décimo nono aniversário, quando ele retirou seu chip de identificação, roubou uma espaçonave e abandonou o serviço militar.
O dia em que desertou.
A linha recomeçava dezoito meses depois, quando o encontraram e o prenderam na Comunidade das Nações Orientais.
Além de todos os relatórios oficiais, havia uma boa quantidade de delírio e fofoca dos muitos grupos de fãs que surgiram após o recente status de celebridade de Carswell Thorne. Não tantos quanto tinha o imperador Kai, claro, mas parecia que muitas garotas terráqueas se animavam com a ideia desse belo desertor fugitivo da lei. Cress não se incomodou com isso. Ela sabia que todos estavam errados com relação a ele.
Em cima do arquivo havia uma holografia tridimensional digitalizada do Thorne na formatura militar. Cress preferia isso à famosa foto de prisão que ficara tão popular, na qual ele piscava para a câmera, porque na holografia estava usando um uniforme recém-passado com botões prateados brilhantes e um sorriso confiante e meio torto.
Ao ver aquele sorriso, Cress derretia.
Todas. As. Vezes.
— Oi de novo, sr. Thorne — sussurrou para a holografia. E então, com um suspiro tonto, se virou para a única pasta que faltava.
A Rampion 214, Classe 11.3. A nave de carga militar que Thorne havia roubado. Cress sabia tudo sobre a nave, desde sua planta até o planejamento de manutenção (tanto o ideal quanto o verdadeiro).
Tudo.
Incluindo a localização.
Ela clicou em um ícone na barra superior da pasta e substituiu a holografia de Carswell Thorne por uma da grade de posicionamento galáctico. A Terra surgiu cintilante, as beiradas irregulares dos continentes tão familiares quanto a programação da Pequena Cress. Afinal, ela tinha passado metade da vida observando o planeta a 26.071 quilômetros de distância.
Girando ao redor do planeta, milhares de pontinhos brilhantes indicavam todas as naves e satélites dali até Marte. Uma olhada indicou a Cress que ela podia espiar pela janela do lado da Terra naquele exato momento e ver uma nave patrulha inocente da Comunidade das Nações Orientais passando pelo satélite. Houve uma época em que ficaria tentada a chamá-los, mas com que objetivo?
Nenhum terráqueo confiaria em uma lunar, muito menos salvaria uma.
Assim, Cress ignorou a nave e cantarolou baixinho enquanto limpava todas as marquinhas na holografia, até só restar a identificação da Rampion: um único ponto amarelo, desproporcional na holografia para que Cress pudesse analisá-la no contexto do planeta abaixo.
Pairava a 12.414 quilômetros do Oceano Atlântico.
Ela inseriu a identificação de seu satélite em órbita. Se alguém prendesse um fio do satélite dela até o centro da Terra, ele entraria bem pela costa da Província do Japão.
Não estavam nem um pouco perto um do outro. Nunca estavam. Era um enorme campo orbital, afinal.
Encontrar as coordenadas da Rampion foi um dos maiores desafios da carreira de hacker de Cress. Mesmo assim, ela só demorou três horas e cinquenta e um minutos para conseguir, e o tempo todo sua pulsação e sua adrenalina cantavam.
Ela precisava encontrá-los primeiro.
Ela precisava encontrá-los primeiro.
Porque tinha que protegê-los.
No final, tinha sido uma questão de matemática e dedução. Usando a rede do satélite para localizar sinais de todas as naves que orbitavam a Terra, descartou aquelas que tinham rastreadores, pois sabia que o da Rampion havia sido removido, e também todas que eram grandes demais ou pequenas demais.
Isso colocava basicamente as naves lunares e todas as que já estavam, claro, sob seu domínio. Ela vinha desregulando os sinais delas e confundindo ondas de radares havia anos. Muitos terráqueos acreditavam que as naves lunares eram invisíveis por causa de um truque mental lunar. Eles nem faziam ideia de que era na verdade uma cascuda qualquer que causava tanta confusão.
Só havia três naves orbitando a Terra e que se encaixavam no critério, e duas delas (sem dúvida naves piratas ilegais) não perderam tempo para pousar na Terra quando souberam que estava havendo uma enorme busca espacial no meio da qual eles seriam presos. Cress, por pura curiosidade, pesquisou depois registros policiais terráqueos nas proximidades e descobriu que as duas naves foram descobertas ao entrarem na atmosfera da Terra. Criminosos tolos.
Isso só deixava uma. A Rampion. E, a bordo dela, Linh Cinder e Carswell Thorne.
Doze minutos depois de descobrir a localização deles, Cress embaralhou todos os sinais que ofereciam qualquer risco de encontrá-los usando o mesmo método. Como magia, a Rampion 214, Classe 11.3 desapareceu no espaço.
E então, com os nervos esgotados pelo cansaço mental, ela desabou na cama desarrumada e deu um sorriso delirante para o teto. Ela conseguiu. Deixou-os invisíveis.
Um apito soou em uma das telas, atraindo a atenção de Cress para longe do ponto flutuante que representava a Rampion. Cress foi na direção dele, se contorcendo quando uma mecha de cabelo se prendeu nas rodas da cadeira. Ela puxou o cabelo com uma das mãos e tirou a tela da hibernação com a outra. Com um movimento dos dedos, a tela foi ampliada.
TEORIAS CONSPIRATÓRIAS DA TERCEIRA ERA
— Outra não — murmurou.
Os teóricos de conspiração vinham babando de empolgação desde que a garota ciborgue desaparecera. Alguns diziam que Linh Cinder estava trabalhando para o governo da Comunidade, ou para a rainha Levana, ou que estava em conluio com uma sociedade secreta determinada a derrubar um governo ou outro, ou que era a princesa lunar desaparecida, ou que sabia onde a princesa lunar estava, ou que tinha alguma ligação com a epidemia de letumose, ou que tinha seduzido o imperador Kaito e estava grávida de uma coisa lunar-terráquea-ciborgue.
Havia quase a mesma quantidade de boatos sobre Carswell Thorne. Entre eles, teorias sobre o verdadeiro motivo pelo qual tinha sido preso, como ter planejado matar o último imperador, ou que estava trabalhando com Linh Cinder durante anos antes da prisão dela, ou que estava ligado a uma rede subterrânea que infiltrara o sistema penitenciário anos antes, em preparação para o dia em que ele precisasse de assistência. A teoria mais recente sugeria que Carswell Thorne era na verdade um taumaturgo lunar disfarçado, enviado para ajudar Linh Cinder na fuga a fim de que Luna tivesse uma desculpa para iniciar a guerra.
Ou seja, ninguém sabia de nada.
Exceto Cress, que sabia toda a verdade sobre os crimes de Carswell Thorne, seu julgamento e sua fuga, ou, pelo menos, os elementos da fuga que tinha descoberto usando as imagens das câmeras de segurança da prisão e as declarações dos guardas que estavam em serviço no dia.
Na verdade, Cress tinha certeza de que sabia mais sobre Carswell Thorne do que qualquer pessoa viva. Em uma vida na qual a novidade era tão rara, ele tinha se tornado uma fascinação constante para ela. No começo, sentia repulsa dele e de sua cobiça e imprudência aparentes. Quando desertou do serviço militar, deixou seis cadetes e dois comandantes presos em uma ilha do Caribe. Roubou de um colecionador particular na Comunidade das Nações Orientais uma coleção de esculturas de uma deusa da segunda era e um grupo de bonecas venezuelanas de sonho emprestadas a um museu na Austrália, que potencialmente nunca mais seriam vistas em público. Havia alegações adicionais de uma tentativa de roubo malsucedida a uma jovem viúva da Comunidade que era dona de uma coleção extensa de joias antigas.
Cress continuou a procurar, hipnotizada por esse caminho de autodestruição. Como diante de uma colisão de asteroides, ela não conseguia afastar o olhar.
Mas então anomalias estranhas começaram a surgir em sua pesquisa.
Oito anos. A cidade de Los Angeles passou quatro dias em pânico depois que um raro tigre de Sumatra fugiu do zoológico. As câmeras de segurança da jaula mostravam o jovem Carswell Thorne, que estava lá em um passeio de escola, abrindo a jaula. Mais tarde, ele contou às autoridades que o tigre parecia triste trancado daquele jeito e que não se arrependia do que fez. Por sorte, ninguém, inclusive o tigre, se feriu.
Onze anos. Um boletim de ocorrência foi registrado pelos pais alegando terem sido roubados; no meio da noite, um colar de diamantes da segunda era tinha sumido do baú de joias da mãe dele. O colar foi rastreado até uma lista de comércio pela rede, onde tinha sido vendido recentemente por quarenta mil univs para um comprador no Brasil. O vendedor era, obviamente, o próprio Carswell, que ainda não havia tido a chance de enviar o colar e foi obrigado a devolver o pagamento, junto com um pedido de desculpas oficial. Esse pedido de desculpas, que foi registrado publicamente para impedir outros adolescentes de terem a mesma ideia, alegava que ele só estava tentando levantar dinheiro para um serviço de caridade local que oferecia assistência de androides para idosos.
Treze anos. Carswell Thorne recebeu suspensão de uma semana depois de brigar com três garotos do mesmo ano, uma luta que perdeu de acordo com o relatório do medidroide da escola. A declaração dele dizia que um dos garotos roubou o tablet de uma garota chamada Kate Fallow. Carswell estava tentando recuperá-lo.
Uma situação depois da outra chamou a atenção de Cress. Roubo, violência, invasão de propriedade, suspensões escolares, reprimendas policiais. Ainda assim, Carswell Thorne, quando podia se explicar, sempre tinha um motivo. Um bom motivo. Um motivo impressionante de parar o coração e fazer o pulso acelerar.
Como o sol nascendo no horizonte da Terra, a percepção dela começou a mudar. Carswell Thorne não era um patife sem coração. Se alguém se desse ao trabalho de conhecê-lo, veria que tinha compaixão e era um cavalheiro.
Ele era exatamente o tipo de herói com que Cress sonhava a vida toda.
Com essa descoberta, os pensamentos em Carswell Thorne começaram a infiltrar todos os momentos que passava acordada. Ela sonhava com ligações profundas de almas e beijos apaixonados e fugas ousadas. Tinha certeza de que ele só precisava conhecê-la, vê-la uma vez, para sentir as mesmas coisas. Seria como um daqueles casos de amor épicos que nasciam em uma explosão e ardiam calorosamente por toda a eternidade. O tipo de amor que o tempo e a distância e até mesmo a morte não podiam separar.
Porque, se havia uma coisa que Cress sabia sobre heróis, era que eles não resistiam a uma donzela em perigo.
E ela era a própria definição de donzela em perigo.

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