3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Três

— VOCÊ VAI AO BAILE! — IKO BATEU AS PINÇAS COMO SE BATESSE palmas. — Temos que encontrar um vestido e sapatos. Não vou permitir que use essas botas horríveis. Compraremos luvas novas e…
— Poderia trazer essa luz aqui? — disse Cinder, arrancando a gaveta de cima da caixa de ferramentas. Ela a vasculhou, parafusos e tomadas sobressalentes tilintando, enquanto Iko se aproximava. Uma luz azulada dispersou a penumbra do depósito.
— Pense na comida que vai ter — disse Iko. — E nos vestidos. E na música!
Cinder a ignorou, selecionando uma variedade de ferramentas e organizando-as no torso magnético de Iko.
— Ah, pelas estrelas! Pense no príncipe Kai! Você poderia dançar com o príncipe!
Isso fez Cinder parar e apertar os olhos em direção à luz ofuscante de Iko.
— Por que o príncipe dançaria comigo?
A ventoinha de Iko zumbia enquanto procurava uma resposta.
— Porque você não terá graxa no rosto.
Cinder segurou uma risada. O raciocínio androide podia ser muito simplista.
— Odeio ter que lhe dizer isso, Iko — disse ela, fechando a gaveta e passando para a próxima —, mas eu não vou ao baile.
A ventoinha de Iko parou momentaneamente, e depois voltou a funcionar.
— Não faz sentido.
— Para começar, acabei de gastar minhas economias em um pé novo. E, mesmo que eu tivesse dinheiro, por que gastaria em um vestido, sapatos ou luvas? Seria um desperdício.
— No que mais gastaria?
— Um conjunto completo de chaves inglesas? Uma caixa de ferramentas com gavetas que não emperram? — Ela fechou a segunda gaveta com o ombro para enfatizar seu argumento. — Uma entrada num apartamento próprio, onde não tenha mais que ser a criada de Adri?
— Adri não assinaria os documentos de liberação.
Cinder abriu a terceira gaveta.
— Eu sei. De qualquer maneira, sairia bem mais caro do que um vestido insignificante — disse, pegando um punhado de chaves inglesas e colocando-as em cima da caixa de ferramentas. — Talvez comprasse enxerto de pele.
— Sua pele está boa.
Cinder olhou para Iko pelo canto do olho.
— Ah. Você quer dizer para as suas peças de ciborgue.
Fechando a terceira gaveta, Cinder pegou a bolsa-carteiro na bancada e enfiou as ferramentas ali.
— O que mais você acha que nós… Ah, o macaco hidráulico. Onde coloco isso?
— Você não está sendo razoável — disse Iko. — Talvez você possa trocar algo por um vestido ou conseguir um em consignação. Estou morrendo de vontade de entrar naquela loja de vestidos antigos em Sakura. Sabe de qual estou falando?
Cinder vasculhava ferramentas aleatórias que tinha recolhido debaixo da bancada.
— Não importa. Eu não vou.
— Mas é claro que importa. É o baile. E o príncipe!
— Iko, estou consertando um androide para ele. Não somos amigos. — Mencionar o androide do príncipe trouxe uma lembrança e, um momento depois, Cinder puxou o macaco pela alavanca. — E isso não importa, porque Adri nunca vai me deixar ir.
— Ela disse que se você consertasse o aerodeslizador…
— Tudo bem. E depois disso? E quanto ao tablet de Peony, que está sempre dando problema? E quanto… — Ela examinou o quarto e viu um androide enferrujado escondido no canto. — E esse Gard 7.3 velho?
— O que Adri ia querer com essa coisa velha? Ela não tem mais jardim. Sequer tem varanda.
— Só estou dizendo que ela não tem nenhuma intenção real de me deixar ir. Enquanto puder inventar coisas para eu consertar, minhas “tarefas” nunca acabarão. — Ela colocou mais algumas ferramentas na bolsa, dizendo a si mesma que não se importava. Não mesmo.
Cinder não caberia em um vestido de baile, de qualquer jeito. Mesmo que encontrasse luvas formais e sapatos em que pudesse esconder suas monstruosidades de metal, seu cabelo sem graça nunca iria segurar um cacho, e não sabia nada sobre maquiagem. Ela acabaria ficando fora da pista de dança, tirando sarro das meninas que desmaiavam para chamar a atenção do príncipe Kai, fingindo que não estava com ciúmes. Fingindo que aquilo não a incomodava.
Embora estivesse curiosa sobre a comida.
E, agora, o príncipe a conhecia, mais ou menos. Ele tinha sido gentil com ela no mercado. Talvez ele a chamasse para dançar. Por educação. Por cavalheirismo, quando a visse sozinha.
Essa fantasia desmoronou tão rapidamente quanto tinha começado. Era impossível. Não valia a pena pensar.
Ela era um ciborgue e nunca iria ao baile.
— Acho que é tudo — disse, disfarçando a decepção e ajustando a bolsa no ombro. — Está pronta?
— Eu não computo — disse Iko. — Mesmo se consertar o aerodeslizador, não convencerá Adri a deixá-la ir ao baile, então, por que estamos indo ao ferro-velho? Se ela quer tanto uma correia magnética, por que não vai procurar uma no lixo?
— Porque, com baile ou não, eu acredito mesmo que ela venderia você por qualquer trocado, se tivesse motivo. Além disso, com elas no baile, teremos o apartamento só para nós. Não parece agradável?
— Para mim, parece ótimo!
Cinder se virou e viu Peony se esgueirando pela porta. Ela ainda usava seu vestido cor de prata, mas agora as bainhas ao longo do pescoço e das mangas estavam prontas. Um pouco de renda tinha sido adicionada ao decote, acentuando o fato de que, aos quatorze anos, Peony já havia desenvolvido curvas que Cinder nem sonharia ter. Se o corpo de Cinder tivesse sido predisposto à feminilidade, isso fora arruinado pelo que os cirurgiões lhe tinham feito, o que a deixara com um corpo reto como uma tábua. Muito angular. Parecendo um menino. Muito estranho, com sua pesada perna artificial.
— Vou matar a mamãe — disse Peony. — Ela está me enlouquecendo. “Pearl precisa arrumar um marido”, “Minhas filhas são tão sem graça”, “Não dão valor ao que faço por elas”, “blá-blá-blá”. — Ela balançou os dedos no ar zombando da mãe.
— O que você está fazendo aqui?
— Escondendo-me. Ah, e queria perguntar se você poderia dar uma olhada no meu tablet. — Ela puxou o aparelho de detrás das costas, entregando-o a Cinder.
Cinder pegou-o, mas seus olhos estavam na parte inferior da saia de Peony, observando a barra reluzente acumulando poeira.
— Você vai estragar o vestido. E aí Adri realmente ficará louca.
Peony mostrou a língua, mas depois recolheu a saia com as mãos, levantando a barra até os joelhos.
— O que você acha? — disse ela, saltando com os pés descalços.
— Você está maravilhosa.
Peony fez uma pose, franzindo o tecido ainda mais nos dedos. Em seguida, sua felicidade vacilou.
— Ela deveria ter mandado fazer um para você também. Não é justo.
— Não quero ir mesmo. — Cinder deu de ombros. Peony tinha tanta pena em sua voz que ela não se preocupou em discutir. Normalmente era capaz de ignorar o ciúme que sentia das meias-irmãs, de como Adri as adorava, de como suas mãos eram macias, especialmente porque Peony era a única amiga humana que Cinder tinha. Mas não conseguiu suprimir a inveja ao ver Peony naquele vestido.
Ela mudou de assunto.
— O que há de errado com o tablet?
— Está fazendo aquela coisa estranha de novo. — Peony empurrou algumas ferramentas que estavam em cima da pilha de latas de tinta vazias, escolhendo o local mais limpo antes de se sentar, com a saia esvoaçante ao seu redor. Ela pôs os pés de forma que seus calcanhares se apoiassem firmemente no plástico.
— Você baixou aqueles aplicativos estúpidos de celebridades de novo?
— Não.
Cinder levantou uma sobrancelha.
— Um aplicativo de idiomas. É só. E eu precisava para a aula. Ah, antes que eu esqueça, Iko, trouxe uma coisa para você.
Iko deslizou para o lado de Peony quando ela puxou uma fita de veludo do corpete, restos de tecido da costureira. A iluminação na sala ficou mais forte quando Iko viu a fita.
— Obrigada — disse o androide enquanto Peony amarrava a fita em volta da articulação fininha do punho. — É adorável.
Cinder apoiou o tablet na bancada, ao lado do androide do príncipe Kai.
— Vou dar uma olhada nele amanhã. Nós vamos procurar uma correia magnética para Sua Majestade Adri.
— Mesmo? Aonde vão?
— Ao ferro-velho.
— Será pura diversão — disse Iko, escaneando sem parar a pulseira improvisada com seu sensor.
— Sério? — disse Peony. — Posso ir?
Cinder riu.
— Ela está brincando. Iko tem praticado o sarcasmo.
— Eu não me importo. Qualquer coisa é melhor do que voltar para aquele apartamento abafado. — Peony abanou-se e recostou-se distraída numa pilha de estantes metálicas.
Alcançando a irmã, Cinder puxou-a de volta.
— Cuidado com o vestido.
Peony examinou a saia, depois as prateleiras cobertas de fuligem, e em seguida fez um gesto despreocupado para Cinder.
— Sério mesmo, posso? Parece emocionante.
— Parece sujo e fedido — disse Iko.
— Como você sabe? — disse Cinder. — Você não tem receptores de cheiro.
— Mas tenho uma imaginação fantástica.
Sorrindo, Cinder começou a empurrar a meia-irmã para a porta.
— Tudo bem, vá se trocar. Mas seja rápida. Eu tenho uma história para contar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!