21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta

Cress ficou aliviada ao descobrir que ela e Thorne não eram os únicos convidados com roupas malucas andando pelo portão do palácio horas antes da coroação. A cidade toda tinha ido participar das festividades, como se o povo não tivesse nada a temer em relação a uma possível insurgência ou às alegações malucas de uma garota ciborgue.
A entrada principal do palácio era cercada de um muro imponente com remates afiados no alto. O portão principal estava aberto, revelando um pátio exuberante. O caminho estava ladeado de uma variedade de esculturas de feras místicas e deuses e deusas da Lua parcialmente vestidos.
Ninguém olhou duas vezes para Cress e Thorne quando eles passaram pelo portão e se juntaram à multidão de aristocratas reunidos, bebendo de garrafinhas com pedras preciosas e andando entre estátuas. Com a saia laranja de Cress e a gravata-borboleta iluminada de Thorne, eles se encaixavam perfeitamente.
Tentando evitar contato visual com os outros convidados, Cress deixou o olhar passear pelas portas em arco com detalhes em dourado do palácio. Como o portão, estavam bem abertas, chamando os convidados da rainha para entrarem, embora houvesse guardas do palácio dos dois lados.
O coração dela disparou.
Parecia que ela e Jacin tinham acabado de escapar dali.
Ela já tinha entrado no palácio umas poucas vezes quando era menor, para executar diferentes tarefas de programação para Sybil. Vivia ansiosa para agradar na época. Você pode rastrear as chegadas e partidas entre os setores ST-5 e GM-2? Pode criar um programa que vai nos alertar quanto a expressões específicas captadas pelos gravadores nos nódulos holográficos? Pode rastrear as naves que vêm e vão dos portos, e garantir que os destinos sejam os mesmos dos itinerários nos nossos arquivos?
A cada sucesso, Cress foi ficando mais confiante. Acho que sim. Vou tentar. Sim, mestra, posso fazer isso.
Isso foi quando Cress ainda tinha esperanças de um dia ser bem-vinda ali, bem antes do aprisionamento a bordo do satélite. Ela devia ter percebido quando Sybil se recusava a levá-la pela lindíssima entrada principal e a carregava escondida pelos túneis subterrâneos, como uma coisa vergonhosa e secreta.
Pelo menos desta vez ela estava entrando no palácio ao lado de um aliado e amigo. Se havia alguém na galáxia em quem confiava, esse alguém era Thorne.
Como se tivesse escutado esses pensamentos, Thorne apertou as mãos na lombar dela.
— Finja que é daqui — murmurou ele no ouvido dela. — E todo mundo vai acreditar.
Finja que é daqui.
Ela soltou o ar lentamente e tentou imitar o gingado de Thorne. Fingir. Ela era boa em fingir.
Naquele dia, era uma aristocrata lunar. Era convidada de Sua Majestade Real. Estava de braços dados com o homem mais bonito que já tinha visto, um homem que não precisava nem usar glamour. Mas o mais importante…
— Sou um gênio do crime — sussurrou ela. — E estou aqui para derrubar o regime.
Thorne sorriu para ela.
— Essa fala é minha.
— Eu sei — disse ela. — Eu roubei.
Thorne riu e se posicionou estrategicamente atrás de um grupo de lunares, perto o bastante para eles parecerem ser parte do grupo, e subiram pela escada de pedra branca.
A porta foi ficando cada vez maior enquanto entravam na sombra do palácio. A falação do pátio foi substituída pelo eco do piso de pedra e pelas gargalhadas ressoantes de pessoas sem nada a temer.
Ela e Thorne estavam dentro do palácio. Pelo que percebia, os guardas nem olharam para eles.
Cress soltou o ar, mas a respiração entalou de novo quando ela percebeu a extravagância.
Mais aristocratas se reuniam em grupos na grande entrada, se servindo de bandejas de comida que flutuavam nas cubas de piscinas azuis cristalinas. Em toda a parte, havia colunas douradas e estátuas de mármore e arranjos de flores com o dobro da altura dela.
O mais impressionante de tudo era uma estátua no centro do corredor, com a imagem da antiga deusa da lua, Ártemis. Tinha três andares de altura e exibia a deusa usando uma coroa de espinhos no alto da cabeça e segurando um arco, com a flecha apontando para o céu.
— Bom dia — disse um homem, se adiantando para cumprimentá-los. Thorne afundou os dedos nas costas de Cress.
O homem usava o uniforme de um criado de alto ranking, mas o cabelo com dreadlocks estava pintado de um verde variado: clarinho nas raízes e esmeralda nas pontas. Apesar de Cress estar alerta, esperando desconfiança ou repulsa, o rosto do homem era pura jovialidade. Talvez servos, como os guardas, fossem escolhidos por terem pouco talento com o dom, e ele não sentia que Cress não passava de uma cascuda.
Ela só podia ter esperanças.
— Estamos felizes por vocês terem vindo para participar das festividades nesse dia tão celebrado — disse o homem. — Aproveitem as comodidades que nossa generosa rainha oferece a seus convidados. — Ele fez um gesto para a esquerda. — Nesta ala, vocês vão apreciar o jardim, cheio de animais albinos exóticos, ou ouvir uma variedade de apresentações musicais que vão acontecer no grande teatro ao longo do dia. — Ele levantou o braço direito. — Aqui há uma variedade de salas de jogos, caso queiram testar sua sorte, além de nossas famosas salas de companhia… não que o cavalheiro esteja precisando de mais companhia. É claro que uma variedade de bebidas está disponível por todo o palácio. A cerimônia de coroação vai começar no nascer do sol, e pedimos que todos os convidados sigam para o grande salão meia hora antes. Para a segurança dos convidados, não vai haver acesso aos corredores quando a coroação começar. Se precisarem de qualquer outra coisa para tornar seu dia mais agradável, falem comigo ou com qualquer outro cortesão.
Com uma inclinação de cabeça, ele foi receber outro convidado.
— O que você acha que ele quis dizer com “salas de companhia”? — perguntou Thorne.
Quando Cress o olhou de cara feia, ele se empertigou e passou o dedo entre o pescoço e a gola da camisa.
— Não que eu esteja tentando a… ou… por aqui, certo?
— Vocês dois parecem perdidos — ronronou alguém.
Thorne se virou e empurrou Cress para trás de si. Um homem e uma mulher estavam não muito longe, olhando para Thorne como se ele estivesse em exibição na vitrine de uma loja de doces. Os dois usavam roupas cheias de strass.
O homem baixou um par de óculos de armação grossa até a ponta do nariz, e passou o olhar por Thorne da cabeça aos pés, e de volta até o rosto.
— Podemos ajudar você a encontrar o caminho?
Thorne foi rápido em abrir seu sorriso característico.
— Lisonjeado, moças — ronronou ele em resposta.
Cress franziu a testa, mas, ao se dar conta de que o homem devia ter usado glamour para parecer mulher, obrigou o rosto a assumir uma expressão de indiferença. Ela não poderia deixar ninguém saber que não era afetada por controle mental.
— Estamos em uma missão secreta agora — disse Thorne. — Mas vamos ficar de olho em vocês na coroação.
— Aah, uma missão secreta — comentou a mulher com entusiasmo, roendo a unha do dedo mindinho. — Vou querer ouvir essa história depois.
Thorne piscou.
— Eu vou querer contar.
Ele passou o braço pelo ombro de Cress e a afastou do casal. Quando estavam longe o bastante para ter certeza de que não seria ouvido, Thorne soltou um assovio baixo.
— Caramba. As mulheres deste lugar.
Cress se irritou.
— Você quer dizer os glamoures deste lugar. Uma delas era homem.
Thorne tropeçou e olhou para ela.
— Não me diga. Qual?
— Hã… a de óculos.
Ele olhou para trás em busca do casal no meio da multidão.
— Muito bem, lunares — murmurou ele, impressionado. Olhou para a frente de novo. — Jacin falou para entrarmos no terceiro corredor, certo? — Ele a puxou para um corredor curvo, onde janelas do chão ao teto ofereciam uma vista de tirar o fôlego do jardim da frente.
— Tente lembrar que eles podem alterar a aparência como quiserem — disse Cress. — Ninguém neste palácio é tão bonito quanto você pensa. É só controle mental.
Thorne sorriu e a apertou contra o corpo.
— Tenho certeza de que tem pelo menos uma exceção a essa regra.
Cress revirou os olhos.
— É. Os taumaturgos.
Ele riu e baixou o braço, e ela não entendeu direito qual foi a graça.
Eles passaram por um grupo de rapazes, e Cress os viu, impressionada, cambalearem pelo corredor. Um deles abriu uma porta de vidro e foi para a beira do lago e para o amplo jardim. Quase caiu da escadaria que levava ao gramado.
Balançando a cabeça, Cress olhou para a frente de novo e percebeu que estava sozinha.
Todos os músculos se contraíram quando ela se virou e ficou aliviada ao ver Thorne a alguns passos. Mas não ao ver que ele foi abordado por outra garota, que era bem bonita até aos olhos impossíveis de enganar de Cress. Ela estava sorrindo para Thorne pelos longos cílios, de uma forma ao mesmo tempo provocante e maligna.
Já Thorne só parecia surpreso.
— Pensei ter sentido um garoto terráqueo — disse a garota. Ela levantou a mão e tocou nas luzes da gravata-borboleta de Thorne, depois desceu o dedo pelo peito dele. — E um tão bem-vestido assim. Que achado!
Com a pulsação disparada, Cress observou o corredor. A multidão estava começando a ir na direção do salão, mas muitos convidados ainda estavam parados ou andando devagar, sem pressa aparente. Ninguém estava prestando atenção neles. Aquela mulher também parecia só ter olhos para Thorne. Cress pensou sobre uma forma de afastá-lo dali sem levantar desconfianças nem atrair atenção.
Então, a mulher passou os braços pelo pescoço de Thorne e todos os pensamentos sumiram da cabeça de Cress. Estupefato, Thorne não ofereceu resistência quando ela o puxou para um beijo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!