21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e um

A coluna de Cress se enrijeceu de indignação, ao mesmo tempo que um grupo de mulheres lunares conversava ali perto.
— Bom olho, Luisa — disse uma delas, seguida de outra.
— Se você vir mais algum terráqueo bonito como esse, mande para cá!
Nem Thorne nem Luisa pareceram ouvir. Na verdade, enquanto Cress olhava, perplexa, Thorne passou os braços ao redor do corpo de Luisa e a puxou para perto.
Cress contraiu os punhos, os ombros, o corpo todo. Estava apavorada. Depois, ficou irritada. Em seguida, a lógica começou a tomar conta, e ela percebeu que, enquanto só deviam estar brincando com Thorne, não seriam tão gentis com ela se percebessem que era imune aos glamoures e manipulações.
Tremendo de desprezo, Cress recuou até uma alcova atrás de um pilar. Lá, esperou, com os braços cruzados e fagulhas vermelhas nos olhos enquanto Thorne beijava a garota.
E beijava.
beijava.
As unhas de Cress tinham deixado marcas dolorosas na pele da mão quando eles, enfim, se separaram.
Luisa bateu os cílios, sem fôlego.
— Você está querendo isso tem um tempo, não é?
Cress revirou os olhos.
E Thorne disse…
Thorne disse…
— Acho que amo você.
Um prego perfurou o coração de Cress, e ela ofegou, ofegou de verdade por causa da dor. O queixo caiu, mas ela fechou a boca depressa. E o ferimento no peito logo se encheu de ressentimento.
Se ela tivesse que vê-lo ficar suspirando por mais alguém, iria gritar. Como era possível que ela fosse a única garota da galáxia que ele não tentava seduzir e paquerar?
Bem, ele a tinha beijado uma vez no telhado, mas foi como um favor, e nem contava.
Ela recuou na alcova, cheia de raiva, mas também magoada. Era isso, então. Ele nunca a desejaria, não como aquelas outras garotas que chamavam a atenção dele. Cress teria que aceitar o fato de que o beijo deles, o momento mais apaixonado e romântico da vida dela, não passou de um gesto de pena.
— Ah, você não é um fofo? — disse a mulher. — E também nem beija mal. Talvez possamos desfrutar um pouco mais da companhia um do outro mais tarde. — Sem esperar resposta, ela deu um tapinha no peito de Thorne e piscou, depois saiu andando pelo corredor.
As mulherezinhas que estavam assistindo também saíram andando, deixando Thorne no meio do corredor, perplexo. As bochechas estavam vermelhas; os olhos, escuros com o que Cress supôs que fosse desejo; e o cabelo, desgrenhado onde Luisa enfiou as mãos.
Luisa. Que ele amava.
Cress apertou os braços sobre o peito.
Depois de um longo minuto atordoado, Thorne afastou os efeitos da manipulação e olhou ao redor, fazendo um círculo completo. A mão ajeitou o cabelo.
— Cress? — perguntou ele, não muito alto no começo, mas com preocupação crescente. — Cress!
— Estou aqui.
Ele se virou para ela, e seu corpo tremeu de alívio.
— Espadas. Desculpe. Não sei o que acontece. Aquilo foi…
— Não quero saber. — Ela se afastou da parede e saiu andando pelo corredor.
Thorne correu atrás dela.
— Opa, ei, espere. Você está com raiva?
— Por que eu estaria com raiva? — Ela balançou as mãos em um gesto amplo. — Você tem o direito de flertar e beijar e proclamar seu amor por quem quiser. E isso é bom, porque é o que você faz. O tempo todo.
Thorne acompanhou o ritmo dela com facilidade, o que a irritou ainda mais, considerando que já estava sem fôlego por andar tão rápido.
— Então… — disse Thorne, seu tom provocante. — Você está com ciúmes?
Cress se irritou.
— Você percebe que ela só queria rir às suas custas, não é?
Ele riu, irritantemente bem-humorado, ao passo que Cress estava tão furiosa.
— É, percebo isso agora. Cress, espere. — Thorne segurou o cotovelo dela e a obrigou a parar. — Sei que eles não conseguem fazer isso com você, mas o resto de nós não pode escolher não ser controlado. Ela me manipulou. Não foi culpa minha.
— E imagino que você vá dizer que não gostou.
Ele abriu a boca, mas hesitou.
— Er. Bem…
Cress soltou o braço da mão dele.
— Sei que não foi culpa sua. Mas isso não justifica todo o resto. Quer dizer, veja Iko!
— O que tem Iko?
Ela engrossou a voz para imitar a de Thorne:
— Eu sei mesmo escolher, não sei?
Ele riu, e seus olhos brilharam em resposta ao deboche dela.
— Mas é verdade, não é? O corpo novo dela é lindo.
Cress fixou um momento de raiva intensa nele.
— Isso não foi a coisa certa a dizer. Desculpe. Mas eu tinha acabado de recuperar a visão.
— É, e só queria olhar para ela.
Thorne piscou, e uma compreensão repentina surgiu em seus olhos, mas Cress saiu andando antes que ele respondesse.
— Não importa. Vamos só…
— Com licença.
Um guarda do palácio bloqueou o caminho com um braço esticado, fazendo Cress parar na hora. Ela levou um susto e recuou até Thorne, que agarrou seu cotovelo. A boca de Cress ficou seca. Estava tão irritada que não reparou nos dois guardas posicionados no corredor.
— Estamos pedindo que todos os convidados sigam para o salão, para que a cerimônia de coroação comece sem atraso. — O guarda indicou a direção de onde eles tinham vindo. — Por favor, sigam por ali.
O coração de Cress estava disparado, mas Thorne, sempre calmo, a afastou com um sorriso casual.
— Claro, obrigado. Acho que nos perdemos.
Assim que dobraram uma esquina, Cress puxou o braço da mão de Thorne. Ele se afastou sem discutir. Os dois estavam em um corredor mais tranquilo do que o principal, embora ainda houvesse alguns convidados caminhando por ali.
— Pare aqui — disse Thorne, e ela parou e deixou que ele a encostasse na parede. Ele parou perto demais dela, e para qualquer pessoa pareceria que estavam tendo uma conversa íntima, o que só serviu para irritar Cress ainda mais. Ela apertou os punhos e olhou com determinação para o ombro dele.
Thorne suspirou.
— Cress. Sei que está chateada, mas você pode fingir não estar por um segundo?
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Não estava chateada. Não estava magoada. Não estava de coração partido.
Quando abriu os olhos, ela transformou a expressão no que esperava parecer um alegre flerte.
Thorne levantou uma das sobrancelhas.
— Isso é incomum.
Mas a voz dela ainda parecia sentida quando falou:
— Eu também sou garota, sabe. Posso não ser bonita como Iko nem corajosa como Cinder nem ousada como Scarlet…
— Espere, Cress…
— E eu nem quero saber que idiotice você disse quando viu a princesa Winter pela primeira vez.
Thorne fechou a boca, confirmando a desconfiança dela de que tinha dito uma coisa bem idiota.
— Mas eu não sou invisível! E você flerta com todas elas. Você flerta com qualquer pessoa que olha para você.
— Você já deixou isso claro. — O brilho provocativo no olhar dele sumiu, e o sorriso forçado de Cress também. Apesar de ele manter uma das mãos perto do quadril dela, parou de tocá-la.
— Era isso que você estava tentando me dizer, não era? — A voz dela tremeu. — No deserto. Quando ficou falando que sou muito fofa e que você não queria me magoar e… Você estava tentando me avisar, mas eu fui… ingênua e romântica demais para prestar atenção em você.
O olhar dele se suavizou.
— Eu não queria magoar você.
Ela cruzou os braços, na defensiva. Lágrimas borravam sua visão.
— Eu sei. É culpa minha de ter sido tão burra.
Thorne se encolheu, mas o movimento veio acompanhado de um olhar ao redor, o que fez Cress imitar o gesto e limpar os olhos antes que as lágrimas se acumulassem. O corredor estava quase vazio, e os poucos convidados que restavam não estavam olhando na direção deles.
Thorne esticou a mão ao redor de Cress e abriu uma porta na qual ela nem tinha reparado. Em um segundo, levou-a para dentro. Ela cambaleou pela rapidez do movimento e se equilibrou em um suporte de planta ao lado da porta. Eles estavam cercados de flores e vegetação de todas as cores imagináveis, o denso perfume fervendo na garganta dela. O teto era muito alto e feito do mesmo vidro emoldurado por chumbo das janelas do corredor principal. Havia sofás e poltronas de leitura em pequenos agrupamentos por toda a sala, e, bem à frente, viram uma série de mesas com vista para o lago.
— Que bom — disse Thorne. — Eu achei que me lembrava de ter visto alguma coisa relacionada a um átrio. Vamos esperar aqui até os corredores ficarem vazios. Espero que a gente consiga entrar em um dos corredores de criados e evitar mais encontros com guardas por um tempo.
Cress encheu os pulmões até quase explodirem e soltou o ar, mas a respiração não a refrescou. Ela entrou no local e abriu um espaço necessário em relação a Thorne.
Ela era uma idiota. Ele nunca deu qualquer indicação de que um relacionamento verdadeiro poderia estar no futuro deles. Deu todas as chances para ela se acostumar a esse fato. Mas, apesar de todas as tentativas de dissuadi-la de se apaixonar, o coração de Cress ainda estava em pedaços.
O que era pior: um beijo de lunar, logo isso, o partiu, e Thorne não poderia levar a culpa.
— Cress… escute…
Ele roçou o pulso dela com os dedos, mas ela se afastou.
— Não. Desculpe. Não foi justo da minha parte. Eu não deveria ter dito nada.
Ela limpou o nariz com o tecido fino da asa da roupa ridícula.
Thorne suspirou, e, com o canto do olho, ela o viu passar a mão pelo cabelo. Sentia o olhar dele em sua nuca, então se virou e fingiu observar uma enorme flor roxa.
Ele sabia, claro. Ela revelou todos os seus sentimentos; deveria ter revelado bem antes, mas ele estava preocupado demais com magoá-la para deixar claro que sabia.
Ela percebeu que ele queria falar mais. Sentia palavras não ditas pairando no ar entre os dois, sufocando-a. Ele pediria desculpas. Diria o quanto gostava dela… como amigo. Como integrante da tripulação.
Ela não queria ouvir. Não naquele momento. Nunca, mas principalmente não naquele momento, quando havia assuntos mais importantes a serem resolvidos.
— Quanto tempo vamos esperar aqui? — perguntou ela, e, apesar de a voz estar tomada de emoção, tinha parado de tremer.
Ela ouviu um movimento e um clique baixo de tablet.
— Mais alguns minutos, só para ter certeza de que já levaram os convidados mais lentos.
Ela assentiu.
Um segundo depois, ela ouviu outro suspiro.
— Cress?
Ela balançou a cabeça. As bolinhas das antenas balançaram no canto dos olhos… ela tinha esquecido que as estava usando. Cress ousou olhar para ele, e torceu para seu rosto não demonstrar a infelicidade que sentia.
— Estou bem. Só não quero falar sobre isso.
Thorne tinha se encostado na porta fechada, as mãos enfiadas nos bolsos. A expressão estava agitada. Parecia vergonha, talvez, misturada com dúvida e nervosismo, e uma coisa misteriosa e impetuosa que fez os dedos dos pés dela formigarem.
Ele olhou para ela por um longo momento.
— Tudo bem — disse ele por fim. — Eu também não quero falar sobre isso.
Ela começou a assentir, mas ficou surpresa quando Thorne se afastou da porta. Cress piscou e cambaleou para trás, assustada com o movimento repentino. Três, quatro passos. A parte de trás das coxas bateu em uma das mesas.
— Quê…?
Em um movimento, Thorne a colocou em cima da mesa e a encostou no vaso de uma enorme samambaia e… ah.
Cress tinha desenvolvido mil fantasias ao redor do beijo no telhado, mas aquele beijo foi completamente novo.
Enquanto antes o beijo fora delicado e protetor, agora havia algo de paixão. Determinação. O corpo de Cress se dissolveu em sensações. As mãos dele queimaram a cintura dela pelo tecido fino da saia. Os joelhos dela apertaram os quadris dele, e Thorne a puxou para mais perto, cada vez mais, como se não fosse possível aproximar-se dela o bastante. Um choramingo escapou da boca de Cress, mas foi engolido pela dele. Ela ouviu um gemido, mas poderia ter saído de qualquer um dos dois.
E, enquanto no telhado o beijo tinha sido interrompido pela batalha que acontecia ao redor, esse beijo continuou mais e mais e mais…
Por fim, quando Cress estava começando a achar que ia desmaiar, o beijo foi interrompido com uma inspiração intensa. Cress tremia e torcia para não ser recolocada de pé e informada de que estava na hora de trabalhar, porque duvidava ser capaz de dar dois passos e, menos ainda, de chegar ao outro lado do palácio.
Thorne não se afastou. Ele só passou os braços pelas costas dela, e ali estava a proteção delicada da qual ela se lembrava. A respiração dele estava tão errática quanto a dela.
— Cress.
Ele disse o nome dela como uma promessa.
Cress tremeu. Lambendo os lábios macios, ela forçou as mãos a descerem do cabelo e as levou até o peito dele.
Então, obrigou-se a se afastar.
Não o bastante para sair do abraço, mas para respirar e pensar e se preparar para a vida de arrependimento que estava prestes a gerar para si.
— Isso… — A voz dela falhou. Ela tentou de novo. — Não era isso que eu queria.
Thorne demorou um momento, mas seu olhar atordoado endureceu, e ele se afastou ainda mais.
— Quer dizer, é — consertou ela. — Obviamente, é.
O alívio dele foi óbvio e aqueceu cada centímetro do corpo dela. O sorriso rápido e provocativo falava muito. Claro que era aquilo que ela queria. Claro.
— Mas… não ser só mais uma garota — disse ela. — Eu nunca quis ser só mais uma das suas garotas.
O sorriso sumiu de novo.
— Cress… — Ele pareceu dividido, mas também esperançoso e desprotegido. Respirou fundo. — Ela parecia você.
Ela não tinha percebido que estava encarando a boca de Thorne até afastar seus olhos para fitar os dele.
— O quê?
— A garota no corredor, a que me beijou. Ela parecia você.
O beijo com a garota lunar parecia ter acontecido séculos antes. A lembrança causou uma onda de ciúmes, mas Cress fez o melhor possível para sufocá-la.
— Isso é ridículo. Ela era morena e alta e…
— Não para mim. — Thorne prendeu uma mecha do cabelo de Cress atrás da orelha — Ela deve ter nos visto andando juntos. Talvez tenha visto como você era. Não sei, mas ela sabia… ela fez o glamour se parecer com você.
Com os lábios abertos, Cress se visualizou escondida naquela alcova de novo. Vendo a expressão de perplexidade de Thorne. De desejo. O jeito como ele a beijou e abraçou e…
— Eu pensei que estivesse beijando você — confirmou ele, roçando os lábios nos dela de novo. E de novo. Os dedos de Cress se fecharam na lapela dele, e ela o puxou para perto.
Mas não durou muito, pois outra lembrança lhe ocorreu.
Ela se afastou.
— Mas… você disse que a amava.
A expressão dele ficou paralisada, e o desejo abriu caminho para o alarme. Eles ficaram parados naquele momento por uma eternidade.
Finalmente, Thorne engoliu em seco.
— Certo. Aquilo. — Ele deu de ombros. — Quer dizer, eu estava… nós estávamos…
Antes que terminasse, a porta se abriu atrás dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!