21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e três

— Jacin. — O tom de Cinder foi carregado de alerta. — Iko não se sacrificou para você bater numa cratera e nós dois morrermos.
— Calma. Eu sei o que estou fazendo — respondeu ele, fingindo estar calmo enquanto seu coração batia disparado no peito.
— Pensei que você tivesse dito que nunca pilotou um desses antes.
— E não pilotei mesmo. — Ele se inclinou de repente, e o deslizador de superfície virou para a esquerda, veloz e suave.
Cinder ofegou e esticou a mão para alcançar uma barra acima. Um sibilar de dor escapou em seguida, provavelmente o ferimento no ombro doendo de novo, mas ela não disse nada, e Jacin não diminuiu a velocidade.
O veículo era de longe o mais engenhoso que Jacin já tinha pilotado. Era pouco mais do que um brinquedo perigoso de algum artemisiano rico e pairava perto da superfície pedregosa e irregular de Luna, voando tão rápido que o chão branco virou um borrão embaixo deles. O teto era transparente, dando a impressão de que estavam lá fora no terreno sem ar, em vez de dentro de um veículo protegido.
Se bem que protegido era uma palavra subjetiva. Jacin tinha a sensação de que, se raspasse em alguma pedra, aquela coisa se desmancharia ao redor deles como uma lata de alumínio.
Talvez fosse mesmo de alumínio.
Eles decolaram de um penhasco, e o deslizador entrou no modo antigravidade, mantendo-os em uma trajetória suave por cima da cratera, para depois descer do outro lado e continuar como se nada tivesse acontecido. O estômago de Jacin deu um nó, resultado tanto da alta velocidade quanto do fato de ele não ter se ajustado à falta de peso fora dos domos com gravidade controlada.
— Só uma observação — disse Cinder, entredentes —, mas temos muitos frascos frágeis e importantes na parte de trás dessa coisa. Acho que a gente não quer bater.
— Nós estamos bem.
Ele voltou a atenção para o mapa holográfico acima dos controles. Em qualquer outro dia, isso seria um jogo ousado, mas, naquele, eles tinham uma missão. Cada cantinho do deslizador estava cheio de frascos de antídoto, e cada momento que passava significava que as pessoas estavam morrendo.
E uma delas era Winter.
Um domo apareceu no horizonte. Mesmo de onde estava, ele via as linhas dos troncos das árvores de um lado e os tocos cortados do outro.
Jacin manobrou o deslizador ao redor de uma série de formações rochosas irregulares. Cinder ajustou o hológrafo e reposicionou o mapa para que Jacin visse melhor a rota para o destino deles. A maioria dos domos estava amontoada em grupos, primeiro porque foi mais fácil construir assim quando Luna estava sendo colonizada, e também para que se compartilhassem portos que os ligavam ao exterior de Luna e permitiam entregas de suprimentos independentemente do sistema de transporte subterrâneo.
O vazio da paisagem enganava a noção de distância. Parecia que horas tinham transcorrido desde que o setor madeireiro apareceu, e cada momento que passava aumentava a ansiedade de Jacin. Ele ficava vendo aqueles soldados carregando o tanque suspenso de animação como se carregassem um caixão. Tentou dizer para si mesmo que não era tarde demais. Eles só colocaram Winter no tanque porque acreditavam que havia uma chance de salvá-la. O tanque tinha que desacelerar a doença para que ela ficasse em segurança até ele chegar lá. Tinha que.
— Opa, opa, opa… parede! — gritou Cinder, se preparando para o impacto.
Jacin desviou no último momento, virando o deslizador de lado enquanto contornava a curva externa do domo. O hológrafo ampliou o destino deles; a entrada da doca tremeu no canto da visão de Jacin, que calculou o tempo. Ajeite a nave, reduza a propulsão, acione os flutuadores. Ele foi jogado para a frente, preso pelo cinto, e o deslizador foi indo mais devagar.
E mais.
E mais.
E caiu. Uma pedra despencando de um penhasco.
Cinder deu um gritinho.
O domo e a paisagem rochosa desapareceram quando paredes escuras de caverna os cercaram. Jacin reativou a energia automática, e a descida deles passou de mortal a gradual, levando-os a uma flutuação firme e controlada. Uma pista de pouso iluminada e uma câmara se abriram à frente deles, e Jacin levou o deslizador para dentro.
— Nunca mais entro em um veículo com você — disse Cinder, ofegante.
Jacin a ignorou, ainda com os nervos eletrizados, e não por causa da queda. Atrás deles, a porta da câmara se fechou e outra porta se abriu, uma fera de ferro enorme. Jacin levou o deslizador à frente, aliviado por não haver sinal de algo que poderia impedi-los.
O mapa holográfico mudou da disposição exterior de Luna para um mapa do porto e dos setores ao redor. Jacin segurou os controles de voo e traçou mentalmente a rota até a clínica onde Winter estava esperando.
Era ali que eles tinham que sair e fazer o resto do caminho a pé, levando o máximo de bandejas de antídoto que pudessem para os setores.
Afastando o olhar das coordenadas, ele espiou a escada de evacuação de emergência que levava à superfície. Um sinal indicava os domos mais próximos. EM-12 era o terceiro da lista e tinha até uma seta indicando que escada os levaria até lá.
Jacin calculou. Seu polegar acariciou o botão de energia.
— Jacin — disse Cinder, acompanhando o olhar dele. — Acho que não podemos…
O aviso dela se mesclou com um grito.
Ela estava errada. O deslizador de superfície cabia na escada, e ele só raspou nas paredes algumas vezes enquanto eles subiam e emergiam embaixo do biodomo EM-12.
Quando ele ajustou o veículo, Cinder estava encolhida no assento do copiloto, com uma das mãos cobrindo os olhos e a outra apertando a barra.
— Chegamos — disse ele, ajeitando o hológrafo de novo. A imagem os guiou embaixo da copa de árvores na direção da área mais próxima do domo, onde uma única rua de residências e lojas de suprimentos envolvia a floresta.
Ele reparou primeiro na diminuição do volume de árvores, depois nas formas chocantes das pessoas.
Muitas pessoas.
Uma multidão estava reunida na beirada da floresta. Todas as pessoas olhavam para o deslizador de superfície amarelo-néon emergindo da floresta tranquila. A multidão recuou, abrindo espaço, talvez com medo de ser acertada. Jacin baixou o deslizador até o chão e desligou a energia.
Ele esticou o dedo para o botão de abertura.
— Espere. — Cinder esticou a mão até o pé e pegou dois frascos de uma bandeja presa ali. — Nós também não somos mais imunes — disse ela, entregando um para ele.
Cada um tomou o antídoto sem cerimônia. Jacin abriu o veículo antes mesmo de engolir. Houve um ruído de ar quando o teto em bolha do deslizador de superfície se abriu no meio como uma noz partida.
Jacin soltou o cinto e pulou do veículo, caindo em uma área úmida de musgo. Cinder desceu de forma menos graciosa do outro lado.
Jacin não tinha pensado muito naquele momento. Sem dúvida havia gente naquele setor que precisava do antídoto, mas dizer que eles tinham bandejas cheias poderia levar a uma briga.
Depois de pegar um único frasco de uma bandeja presa no piso traseiro, Jacin o escondeu na mão e foi até a multidão.
Tinha dado quatro passos quando de repente deu de cara não com uma reunião de lenhadores desgrenhados, mas com um muro de lanças, estilingues e vários tipos de porrete.
Ele parou.
Ou estava distraído demais para reparar que eles estavam armados, ou eles tinham treinado para um momento assim. Um homem se adiantou do meio da multidão, segurando uma clava de madeira.
— Quem são…?
Mas o reconhecimento já surgia nos olhos deles quando Cinder se aproximou de Jacin. Ela levantou as duas mãos, mostrando o metal.
— Não tenho como provar para vocês que não estou usando glamour — declarou ela. — Mas eu sou a princesa Selene, e não viemos fazer mal a vocês. Jacin é amigo da princesa Winter. Foi ele que a ajudou a escapar do palácio quando Levana mandou matá-la. — Ela fez uma pausa. — Na primeira vez.
— Nenhum amigo nosso tem brinquedos artemisianos assim — disse o homem, apontando com a clava para o deslizador.
Jacin resmungou:
— Ela não disse que eu era seu amigo. Onde está a princesa?
— Jacin, não tente ajudar. — Cinder olhou para ele com irritação. — Sabemos que a princesa Winter está doente, além de muitos de seus amigos e familiares…
— O que está acontecendo aqui?
Um rosto familiar surgiu na multidão, com as bochechas sujas e os cachos ruivos pesados de oleosidade. Havia marcas escuras debaixo dos olhos e uma palidez doentia na pele dela.
Scarlet parou.
— Cinder! — Mas, assim que começou a sorrir, a desconfiança surgiu e ela levantou um dedo. — Onde você e eu nos conhecemos?
Cinder hesitou, mas só por um momento.
— Em Paris, em frente à ópera. Eu usei um tranquilizante em Lobo porque achei que ele estivesse atacando você.
O sorriso de Scarlet voltou antes que Cinder terminasse de falar. Ela a puxou em um abraço, mas falou um palavrão e recuou. Seis soldados a seguiram e estavam ao redor dela como seguranças ansiosos. Eles pareciam controlados no momento, mas também capazes de dizimar todas as pessoas da multidão em dez segundos se quisessem.
— Desculpe, você não deveria estar aqui. Levana… — Scarlet começou a tossir na dobra do braço e quase se curvou com a força inesperada do ataque. Quando recuperou o ar, havia marcas escuras de sangue na manga do moletom. — Não é seguro aqui — disse, como se não fosse óbvio.
— Winter está viva? — perguntou Jacin.
Scarlet cruzou os braços, mas não em desafio. Era mais como se quisesse esconder as provas da doença.
— Ela está viva — respondeu Scarlet. — Mas está doente. Muitos de nós estão doentes. Levana a envenenou com letumose, e a doença se espalhou rápido. Winter está em um tanque…
— Nós sabemos — disse Cinder. — Trouxemos antídoto.
Jacin mostrou o frasco que tinha tirado do deslizador.
Scarlet arregalou os olhos, e os que estavam ao redor deles se agitaram. Muitas armas foram baixadas desde que Scarlet e Cinder se abraçaram, mas não todas.
Jacin fez um movimento com o polegar por cima do ombro.
— Chame alguns dos seus fortões para ajudarem a esvaziar o deslizador.
— E pegue um para você — acrescentou Cinder. — Deve haver suficiente para todas as pessoas que estão com sintomas, e vamos cuidar para guardar adicionais para qualquer pessoa que ainda possa ficar doente.
Jacin apertou o frasco, se aproximou de Scarlet e baixou a voz:
— Onde ela está?
Scarlet se virou para os soldados ao redor dela.
— Deixem que ele veja a princesa. Ele não vai machucá-la. Strom, organize um grupo para distribuir o antídoto.
Jacin tinha parado de prestar atenção. Quando a multidão se abriu, ele viu a luz cintilando no vidro do tanque suspenso de animação e se pôs a seguir na direção dele.
Ali, no caminho de terra que separava a clínica médica comum da floresta escura, eles criaram um templo em volta dela. Galhos e gravetos cruzados formavam uma cerca em volta da base de metal do tanque, escondendo a câmara que continha os fluidos de sobrevivência e as substâncias químicas recicladas pelo corpo dela. Havia margaridas e ranúnculos espalhados por cima do tampo de vidro, embora muitos tivessem escorregado e passaram a cobrir o chão.
Jacin parou para absorver a imagem, pensando que talvez Levana não fosse tão paranoica assim. Talvez as pessoas amassem Winter a ponto de ela ser uma ameaça à coroa da madrasta, apesar de não ter sangue real.
O frasco esquentou em sua mão. Todas as vozes se abafaram aos ouvidos dele e foram substituídas pelo barulhinho das máquinas do tanque, o zumbido constante do equipamento de sustentação de vida, um apito da tela que exibia os sinais vitais.
Jacin passou o braço pelo tampo, espalhando as flores. Embaixo do vidro, Winter parecia estar dormindo, só que o líquido dava à pele dela um tom azulado, fazendo-a parecer doente e chamando atenção para as cicatrizes no rosto.
E havia também a infecção na pele. Círculos altos de pele escurecida se espalhavam pelas mãos, braços e pescoço. Alguns já tinham aparecido no queixo e ao redor das orelhas. Jacin se concentrou de novo nas mãos, e, apesar de ser difícil perceber com a pele morena e o líquido azulado, ele via uma sombra em torno das unhas. A última marca fatal da febre azul.
Apesar de tudo, ela ainda parecia perfeita, pelo menos para ele. O cabelo ondulado boiava no gel do tanque e os lábios carnudos estavam curvados para cima. Parecia que ela ia abrir os olhos e sorrir para ele a qualquer momento. O sorriso provocador, brincalhão, irresistível.
— O tanque desacelerou os sistemas biológicos, inclusive a progressão da doença.
Jacin levou um susto. Havia um homem idoso do outro lado do tanque, com uma máscara sobre a boca e o nariz. Primeiro Jacin achou que a máscara fosse para que ele não pegasse a doença, mas depois viu as marcas embaixo das mangas do homem e percebeu que era para se impedir de contribuir com a epidemia.
— Mas não interrompeu a progressão da doença — acrescentou o homem.
— Você é médico?
Ele assentiu.
— Se abrirmos o tanque e seu antídoto não funcionar, ela vai morrer, provavelmente em uma hora.
— Quanto tempo ela vai viver se a deixarmos aí dentro?
O médico baixou o olhar para o rosto de Winter, depois se virou para a tela embutida no pé do tanque.
— Uma semana em uma visão otimista.
— E pessimista?
— Um ou dois dias.
Jacin trincou os dentes e levantou o frasco.
— Esse é o antídoto dos laboratórios de Sua Majestade. Vai funcionar.
O homem apertou os olhos e voltou o foco para um ponto atrás de Jacin. Virando-se, Jacin viu que Cinder e Scarlet o tinham seguido, embora estivessem mantendo uma distância respeitosa.
— Winter confiaria a vida a ele — disse Scarlet. — Sou a favor de abrirmos.
O médico hesitou por um momento antes de ir até o pé do tanque e digitar alguns comandos na tela.
Jacin ficou tenso.
Demorou um momento para que reparasse em alguma diferença, mas então viu uma bolha de ar se formar junto ao vidro conforme o líquido era drenado por baixo, o som suave de sucção ao ser levado por algum tubo escondido. O perfil de Winter surgiu acima do líquido azulado. A diferença era impressionante, ver o vermelho dos lábios e o tremor ocasional embaixo das pálpebras.
Ela não era um cadáver.
Não estava morta.
Ele a salvaria.
Quando o líquido foi drenado, o médico digitou na tela de novo, e a tampa se abriu, deslizando pela base em trilhos finos e deixando uma cama rasa, onde Winter estava deitada.
O cabelo dela, úmido de gel, tinha se acumulado em mechas grudentas ao redor do rosto, e a pele brilhava onde a luz batia. Jacin desentrelaçou os dedos de Winter para segurar a mão dela. A pele estava grudenta, e o tom azul em volta das unhas ficou mais evidente.
O médico começou a retirar as agulhas e tubos do corpo dela, as forças vitais que mantiveram o sangue oxigenado sem ela respirar, que mantiveram o cérebro e o coração funcionando enquanto ela dormia na estase pacífica. O olhar de Jacin seguiu as mãos habilidosas e enrugadas, pronto para derrubar o homem se achasse que ele estava fazendo alguma coisa errada. Mas as mãos eram firmes e tinham experiência.
Aos poucos, o corpo de Winter começou a reconhecer que não estava mais sendo assistido. O peito começou a subir e descer. Os dedos frios tremeram. Jacin colocou o frasco ao lado do corpo dela e ficou de joelhos em meio aos galhos e flores espalhados.
Colocou dois dedos no pulso de Winter. Os batimentos estavam ali, ficando mais fortes. O olhar voltou para o rosto dela, esperando o momento em que as pálpebras se abririam. Em que ela estaria acordada e viva e, mais uma vez, inacessível.
Ele se encolheu. Era tudo tão surreal que ele quase esqueceu. Winter, coroada com flores e descansando acima de uma decoração de galhos de árvores. Ela ainda era uma princesa e ele ainda não era nada.
O lembrete o assombrou conforme esperava. Memorizando o rosto adormecido, a sensação da mão dela na dele, a fantasia de como seria testemunhar sua forma adormecida diariamente.
Um passo soou logo atrás e ele se lembrou de que tinham plateia. A multidão estava se aproximando, não perto demais a ponto de ser sufocante, mas mais perto do que ele gostaria, considerando que tinha esquecido que aquelas pessoas estavam ali.
E ali estava ele, pensando em quartos e amanheceres.
Ficando de pé, Jacin acenou para a multidão.
— Vocês não têm uma rebelião para planejar nem nada?
— Só queremos saber se ela está bem — disse Scarlet. Ela segurava um frasco vazio.
— Ela está acordando — informou o médico.
Jacin se virou a tempo de ver as pálpebras dela tremerem.
O médico estava com uma das mãos no ombro de Winter e a outra segurando um tablet acima do corpo, para monitorar os sistemas.
— Os órgãos estão reagindo normalmente ao processo de reanimação. A garganta e os pulmões vão ficar doloridos por um tempo, mas sugiro que sigamos em frente e demos o antídoto agora.
Os olhos de Winter se abriram, as pupilas dilatadas. Jacin segurou a beirada do tanque.
— Princesa?
Ela piscou depressa algumas vezes, como se tentasse afastar o restante do gel dos olhos. Ela olhou para Jacin.
Apesar de tentar se segurar, Jacin sorriu, tomado de alívio. Houve tantos momentos em que ele teve a certeza de que jamais a veria novamente.
— Oi, Encrenca — sussurrou ele.
Os lábios dela se esticaram em um sorriso cansado. A mão bateu na lateral do tanque como se ela quisesse esticar até ele, e Jacin a pegou e apertou. Com a outra mão, levantou o frasco de antídoto. E soltou a tampa com o polegar.
— Preciso que você beba isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!