21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e sete

Jacin já tinha voltado para o lado de fora quando Winter terminou de limpar do cabelo a substância escorregadia como gel. Ela botou as roupas secas que alguém tinha levado.
Não conseguia parar de sorrir. Jacin tinha voltado e estava vivo.
Mas, ao mesmo tempo, seu coração doía. Pessoas iam morrer naquele dia.
Ela olhou os braços. A inflamação estava sumindo. Pelo menos algumas marcas estavam menos escuras, e o tom azulado tinha sumido das unhas.
Quando ela saiu da segurança do banheiro, encontrou a clínica lotada de gente: o único médico e dezenas de civis verificando pacientes que estavam doentes demais para fazer fila pelo antídoto lá fora. Sete mortes, disseram-lhe. No curto tempo desde que Levana contaminou Winter, sete pessoas naquele setor morreram de letumose.
Teria sido bem mais se Jacin e Cinder não tivessem chegado, mas isso não consolava Winter. Sete mortes. Sete pessoas que poderiam ter ido para o tanque de suspensão se não a tivessem colocado lá.
Winter passou lentamente pelos pacientes, sorrindo e oferecendo um aperto de ombro reconfortante enquanto seguia para a saída. Ela entrou na varandinha de madeira.
Uma comemoração surgiu no domo, centenas de vozes chegando a ela.
Winter parou e voltou para a cobertura da varanda. A multidão continuou comemorando, balançando as armas improvisadas acima da cabeça. Os soldados lobos começaram a uivar. Winter se perguntou se também deveria comemorar. Ou uivar. Ou se esperavam que ela falasse, embora a garganta ainda estivesse dolorida e o cérebro ainda estivesse confuso.
Scarlet apareceu ao lado, balançando os braços em uma tentativa de acalmar a multidão. Ela pareceu ao mesmo tempo feliz e irritada quando olhou para Winter. Ainda se via a evidência da peste na pele de Scarlet: sardas misturadas com hematomas e pele irritada. Embora ainda houvesse algumas bolhas escuras, a doença não progrediu tão depressa em Scarlet quanto em Winter e nos sete pobres residentes. Todos sabiam que ela teve sorte.
— O que está acontecendo? — perguntou Winter.
— Cinder e os alfas estão discutindo estratégia — respondeu Scarlet. — A coroação está marcada para começar a qualquer minuto. As pessoas estão ficando inquietas. Além do mais, todo mundo ama você, que surpresa, e todos estavam esperando para ver que você está bem.
Winter arriscou um sorriso, e as pessoas comemoraram de novo. Alguém assobiou, e outro soldado uivou.
Winter viu alguém de relance. Era Jacin, encostado na parede da clínica, observando-a com um sorrisinho sabido.
— Ainda não começaram a compor baladas em sua homenagem — disse ele. — Mas tenho certeza de que é só questão de tempo.
— Cress conseguiu! — gritou Cinder. Ela apareceu correndo por entre a multidão, com alguns soldados atrás. As pessoas abriram caminho para ela. — As barreiras nos túneis dos trens de levitação magnética foram removidas. Não tem mais nada bloqueando nosso caminho até Artemísia. Não tem nada que nos impeça que Levana seja levada à justiça!
Outro grito, bem mais alto do que o anterior, surgiu e vibrou pelo chão e ecoou no domo.
Winter olhou para a multidão, o coração se expandindo como um balão. As pessoas observavam Cinder com admiração, clareza e um leve brilho de esperança. Ela nunca tinha visto isso nos olhos dos cidadãos de Luna. Os rostos estavam sempre obscurecidos por medo e incerteza. Ou, pior ainda, olhando para a madrasta dela com adoração atordoada. Amor pela governante que lhes foi forçada, um lembrete de que eles não tinham liberdade, nem na mente e nem no coração.
Isso era diferente. As pessoas não estavam cegas pelo glamour de Cinder nem sendo manipuladas para a verem como sua rainha de direito. Elas a viam como realmente era.
— Alfa Strom, o mapa — disse Cinder com um gesto empolgado.
Strom entregou um nódulo holográfico para ela, e Cinder abriu uma imagem que todos podiam ver, delineando o caminho que fariam até a capital.
— Vamos nos dividir em dois grupos para conseguir uma passagem mais rápida pelos túneis — disse ela, indicando as rotas no mapa. — Quando chegarmos a AR-4 e AR-6, vamos nos espalhar pelas oito entradas de Artemísia. Em cada setor que passarmos, vamos precisar de voluntários para convocarem o máximo de pessoas possível para nossa causa. Reúnam armas e suprimentos, e sigam em frente. Lembrem-se: nossa segurança está nos números. Ela mantém os setores separados por um motivo. Sabe que não tem poder se todos nos unirmos, e é exatamente o que vamos fazer!
Outro rugido da multidão, mas Cinder, de olhos arregalados e eufórica, já tinha se virado para os degraus.
Winter se empertigou, pela primeira vez orgulhosa de estar em frente à rainha.
— Já vimos evidências de que pelo menos oitenta e sete setores se juntaram à nossa causa, e tenho todos os motivos para acreditar que nosso número continua a aumentar. Com os transportes desabilitados, o deslizador de superfície é o melhor método que temos de espalhar nossa notícia com rapidez e garantir que todos os civis estejam unidos em uma força sólida indo para Artemísia. Jacin, fiz uma lista de setores para onde quero que você vá, os que já demonstraram evidência de rebelião e devem ter acesso a armas. Além disso, os mais próximos de Artemísia oferecem uma esperança sólida de aumentar nossos números depressa. Vá ao máximo que conseguir nas próximas duas horas, depois nos encontre nos túneis embaixo de AR-4 às…
— Não.
Cinder piscou. Os lábios ficaram entreabertos com uma palavra não dita. Ela piscou de novo.
— Como é?
— Não vou abandonar Winter.
Um tremor percorreu a pele de Winter, mas Jacin não olhou para ela.
Com a boca ainda aberta, Cinder olhou para Winter, depois para Scarlet, depois para Jacin. Fechou a boca com uma cara feia e se virou para Scarlet de novo.
— Você consegue pilotar?
— Nunca vi uma coisa dessas antes. Voa como uma espaçonave?
Cinder olhou com irritação para Jacin de novo.
— Preciso que você faça isso. Eu confio em você, e…
— Eu disse não.
Ela balançou a cabeça, sem acreditar. Depois, com raiva.
— O que você acha que vai acontecer com Winter, com qualquer um de nós, se perdermos?
Jacin cruzou os braços, pronto para discutir de novo, quando Winter colocou a mão no ombro dele.
— Eu vou com ele — disse ela com tom leve, para que as palavras aliviassem um pouco da tensão.
Não deu certo. O olhar irritado de Jacin se virou para ela.
— Não, você vai ficar aqui se recuperando de quase ter morrido. Além do mais, Levana já teve chances demais de matar você. Você não vai chegar nem perto de Artemísia.
Ela grudou o olhar nele e sentiu o renascimento da determinação que teve quando decidiu encontrar o exército da madrasta e trazê-lo para seu lado.
— Eu posso não conseguir lutar, mas posso ser útil. Vou com você, e vou falar com as pessoas. Elas vão me ouvir.
— Princesa, nós não precisamos…
— Já tomei minha decisão. Tenho tanto a perder quanto todo mundo.
— Ela é boa de argumentos — disse Cinder.
— Surpreendentemente — acrescentou Scarlet.
Jacin empurrou Winter para longe do círculo deles, em busca de um pouco de privacidade.
— Olhe — sussurrou, segurando os cotovelos dela. Ela sentia os calos nas mãos dele com mais clareza do que em qualquer outra ocasião. A pulsação disparou com a intimidade inesperada. — Se você quiser que eu faça isso por Cinder, vou fazer. Por você. Mas não vou… não posso perder você de novo.
Winter sorriu e levou as palmas das mãos às bochechas dele.
— Não tem lugar mais seguro para mim do que ao seu lado.
Ele contraiu o maxilar. Ela conseguia ver a batalha no pensamento dele, mas já estava determinada.
— Eu vivi com medo dela a minha vida toda — continuou ela. — Se essa é a única chance que vou ter de ir contra ela, então tenho que aproveitar. Não quero me esconder. Não quero ter medo. E não quero me separar de você novamente, nunca mais.
Ele começou a murchar os ombros, a primeira indicação de que ela venceu. Ele levantou o dedo entre eles.
— Tudo bem. Nós vamos juntos. Mas você não vai tocar em arma nenhuma, entendeu?
— O que eu faria com uma arma?
— Exatamente.
— Jacin, Winter. — Cinder estava batendo o pé, com os olhos enlouquecidos de impaciência crescente. — Nós estamos em uma situação…
Como se o próprio céu estivesse ouvindo, o domo acima escureceu, e três telas enormes se acenderam no fundo escuro.
— Povo de Luna — disse uma voz feminina —, deem sua total atenção a essa transmissão obrigatória, ao vivo do Palácio de Artemísia. A cerimônia de coroação real está prestes a começar.
Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Winter. Ela se afastou de Jacin, encarou o povo e levantou os braços.
— Povo de Luna — disse ela, repetindo a transmissão e afastando a atenção deles do domo —, deem sua total atenção à verdadeira herdeira do trono lunar, a princesa Selene, ao vivo do seu próprio setor. — Os olhos dela brilharam quando apontou o braço na direção de Cinder. — Nossa revolução está prestes a começar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!