21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e seis

Kai não sabia se era ele ou Cress que estava na liderança quando saíram correndo pelos corredores vazios, com passos altos e bruscos. Quando Cress começou a ficar para trás, lutando para acompanhá-lo, ele se obrigou a diminuir o ritmo.
— Vamos tentar fazer isso sem a arma — disse ele, como se estivessem discutindo o assunto, embora mal tivessem falado desde que se separaram de Torin. — Vamos cuidar disso de maneira diplomática. Ou… pelo menos sorrateiramente. Se pudermos.
— Não tenho problema nenhum com isso — disse Cress. — No entanto, não acho que, só porque você é imperador e está prestes a virar rei, eles vão deixá-lo entrar na sala de transmissão e começar a mexer no equipamento.
Cada porta pela qual passavam tinha um desenho diferente entalhado na madeira. Uma bela mulher segurando um coelho de orelhas compridas. Um homem com cabeça de falcão com uma lua crescente equilibrada na cabeça. Uma jovem vestida com a pele de uma raposa, carregando uma lança de caça. Kai sabia que eram simbologias da Lua. A importância daquilo nas culturas terráqueas tinha sido em grande parte perdida e esquecida. Nem Kai reconhecia mais os significados.
Eles entraram em outro corredor e passaram por uma passarela feita de vidro. Um riacho prateado passava embaixo.
— Você está certa — disse Kai. — Mas acho que consigo pelo menos botar você lá dentro. — Ele hesitou e acrescentou: — Cress, não vou poder ficar. Se eu me ausentar por muito tempo, Levana vai ficar desconfiada, e essa é a última coisa de que precisamos. Você entende, não é?
— Entendo. — Ela baixou a voz, embora os corredores estivessem vazios. Todos os convidados, todos os guardas, todos os criados estavam esperando a coroação começar. — Desconfio que a tranca da porta vai pedir senha. O plano era hackear, mas Thorne estava com o tablet.
Kai soltou o tablet do cinto.
— Dá para usar o meu?
Ela ligou o dispositivo.
— Você não… vai precisar?
— Não como você. Eu não poderia levar para a cerimônia, de qualquer modo. Todos os aparatos de gravação são proibidos.
Ele revirou os olhos e entregou o tablet para ela. Embora um tempo atrás ele fosse sentir como se estivesse abrindo mão de um de seus membros, se acostumou a ficar sem o tablet depois que Levana o confiscou.
Além do mais, parte dele estava em euforia com a ideia de ajudar a destruir a rainha.
— Como você sabe para onde ir? — perguntou Cress, colocando o tablet em um dos bolsos do paletó de Torin.
Kai fez uma careta.
— Eu tive a grande experiência de participar de um dos vídeos dela um tempo atrás.
Quando eles se aproximaram da ala do palácio no lado oposto do lago do grande salão, onde a coroação estava marcada para começar… ãhn… seis minutos antes, Kai levantou a mão e os fez parar.
— Espere aqui — sussurrou ele, levando um dedo aos lábios.
Cress se encostou na parede. Parecia pequena, apavorada e ridícula com aquela saia laranja bufante, e um instinto cavalheiresco disse a Kai que ele não deveria abandoná-la logo ali. Mas ele sufocou esse instinto e lembrou a si mesmo que ela também era o gênio que tinha desligado sozinha o sistema de segurança inteiro do Palácio de Nova Pequim.
Ajeitando a faixa patriótica, Kai dobrou a esquina. A ala estava isolada, pelo que Kai sabia, e só havia aquela porta para entrar e sair. Como esperado, havia um guarda na frente da porta, em posição de sentido. O mesmo guarda, pensou Kai, que estava de serviço quando Levana o arrastou até ali antes.
O guarda apertou os olhos ao ver Kai com a túnica de seda branca.
— Esta área não está aberta ao público — disse ele, com um tom entediado.
— Eu não sou “o público”. — Kai colocou as mãos nos bolsos, tentando parecer ao mesmo tempo obsequioso e desafiador. — Pelo que sei, as joias da Coroa ficam nesta ala, não ficam?
O guarda apertou o olhar com desconfiança.
— Mandaram-me buscar o Broche da… Luz Estelar Eterna. Tenho certeza de que você entende que meu tempo está apertado.
— Tenho certeza de que você está acostumado a conseguir o que quer na Terra, Vossa Imperadoriedade, mas não vai ter permissão de passar por essa porta, nem de ver as joias da Coroa, sem documentação oficial da rainha.
— Eu compreendo e ficaria feliz de buscar tal documentação se Sua Majestade não estivesse nesse exato momento na ala oposta do palácio, vestida com trajes completos de coroação, já tendo sido ungida com um preparado de óleos sagrados da Comunidade das Nações Orientais para purificá-la para a cerimônia na qual ela vai se tornar imperatriz do meu país. Portanto, ela está meio ocupada no momento, e preciso encontrar o broche antes que a cerimônia se atrase ainda mais.
— Você acha que sou idiota?
— Estou começando a achar, na verdade. Só um idiota atrasaria a coroação de Sua Majestade. Você quer que eu vá até ela agora para explicar por que não podemos seguir em frente por causa dessa sua obstinação?
— Eu nunca ouvi falar desse “Broche da Luz Estelar Eterna”.
— Claro que não. Foi criado para representar especificamente a aliança entre Luna e a Terra, e foi dado como presente para um dos ancestrais da rainha mais de um século atrás. Infelizmente, como você deve saber, não houve aliança entre nós desde essa época, então o broche não foi necessário. Até hoje. O imbecil encarregado de preparar as joias da coroa esqueceu.
— E mandaram você para pegar? Você não deveria estar sendo ungido com óleos?
Kai soltou o ar devagar e ousou chegar ao alcance dos braços do guarda.
— Infelizmente, parece que sou a única pessoa nessa luazinha que faz ideia de como é. Agora… até o final desta noite, eu vou ser seu rei, e se você ainda quer ter seu trabalho amanhã de manhã, sugiro que me deixe entrar.
O guarda contraiu o maxilar. E não se mexeu.
Kai levantou os braços.
— Estrelas do céu, não estou pedindo que você abra a porta, feche os olhos e conte até dez. Obviamente, você vai comigo a fim de ficar de olho para que eu não roube nada. Mas o tempo está passando. Já estou dez minutos atrasado. Você gostaria de mandar uma mensagem para Sua Majestade para explicar o atraso?
Com uma bufada, o guarda deu um passo para trás e abriu a porta.
— Tudo bem. Mas, se você tocar em qualquer outra coisa além desse tal broche, vou cortar sua mão.
— Tudo bem. — Kai revirou os olhos de uma forma que esperava indicar uma falta total de preocupação e seguiu o guarda. Não que ele fosse para longe do posto: o cofre que abrigava as joias da coroa quando não estavam sendo usadas para uma coroação ficava bem à esquerda, atrás de uma porta de cofre enorme.
Kai desviou o olhar enquanto o guarda digitava um código em uma tela e usava as digitais para se identificar, depois girava o mecanismo de destravamento.
A porta, quando se abriu, era da grossura do crânio do guarda.
O cofre era forrado de veludo e tinha luzes embutidas que iluminavam pedestais vazios. A maioria das coroas, esferas e cetros que costumavam ficar ali já estava no grande salão.
Mas o cofre não estava vazio.
Kai respirou fundo e começou a andar pelo cofre. Inspecionou cada anel, bainha de espada, coroneta e bracelete. Todas as peças reunidas ao longo dos anos para serem usadas em uma variedade de cerimônias. Kai sabia que a maioria fora presente da Terra muito, muito tempo antes. Uma exibição de boa vontade, antes que o relacionamento entre Terra e Luna fosse interrompido.
Ele ouviu passos abafados fora da porta do cofre, mas não ousou levantar o rosto.
— Aqui! — gritou ele, dando as costas para o guarda, com o coração na garganta enquanto imaginava Cress passando correndo. Ele tirou o medalhão do bolso, o que Iko deu a ele na Rampion no que pareciam ser séculos antes. Passou o polegar pela insígnia opaca e pelas palavras apagadas. Octogésimo Sexto Regimento Espacial da República Americana. — Encontrei — disse, levantando o medalhão para o guarda ver que ele estava segurando alguma coisa, mas sem poder ver direito o que era. Cress já tinha passado, e Kai não fingiu estar aliviado quando disse: — Ufa. Que bom. Não poderíamos fazer a coroação sem isto. Sua Majestade vai ficar feliz. Vou ver se conseguimos uma promoção para você, está bem? — Ele deu um tapinha no braço do guarda. — Acho que é só isso mesmo. Obrigado pela ajuda. É melhor eu voltar correndo.
O guarda grunhiu, e Kai sabia que ele não estava convencido, mas não importava. Quando ele e o guarda voltaram para o corredor, Cress já tinha desaparecido.


Cress dobrou correndo a primeira esquina e encostou as costas na parede, com o coração na garganta. Esperou até ouvir o guarda fechando a porta do cofre e saiu correndo, torcendo para que o barulho do mecanismo de tranca encobrisse o som dos passos.
Ela se lembrava daquele corredor de quando Sybil a levava lá, e foi fácil encontrar a porta do centro de controle quando se localizou. Ela parou e testou a maçaneta com hesitação. Ficou aliviada de encontrá-la trancada, uma boa indicação de que não havia ninguém ali. Estava confiante de que a equipe de segurança teria se posicionado em uma sala de controle via satélite mais perto do salão; era o procedimento durante eventos importantes quando ela trabalhava para Sybil. Mas estar confiante não era ter certeza. A arma, pesada no bolso do paletó de Torin, não ofereceria tranquilidade nenhuma se ela desse de cara com mais oposição.
Cress se agachou à frente do painel de segurança e pegou o tablet de Kai. Desenrolou o cabo conector universal.
Ela demorou vinte e oito segundos para invadir a sala, o que foi uma eternidade, mas estava distraída, pulando a cada ruído. Suor escorria pela coluna dela quando ouviu a porta se abrir.
Sua respiração estava rasa, mas aliviada. Não havia ninguém dentro. A porta se fechou depois que ela entrou.
A adrenalina de Cress estava bombeando como combustível de avião por suas veias quando examinou a sala. Ela estava cercada de invisitelas e hológrafos e programações, e a familiaridade de tudo afrouxou o nó no estômago. Instinto e hábito. Ela fez uma lista mental.
A sala era grande, mas cheia de mesas e cadeiras e equipamentos, painéis que mudavam de filmagens de vídeo nos setores externos para o mapa dos transportes subterrâneos e para atualizações de vigilância dos diferentes setores do palácio. Uma sala separada de gravação podia ser acessada por uma porta à prova de som. Luzes e equipamentos de filmagem cercavam uma réplica do trono da rainha. Um véu fino cobria uma cabeça de manequim, e a visão provocou um arrepio na espinha de Cress. Parecia que a estava vigiando.
Ela deu as costas para o manequim e se posicionou em uma das cadeiras de controlador. Tirou a arma do bolso do paletó e colocou junto com o tablet na mesa, os dois ao alcance da mão. Sentia a pressão do tempo tanto quanto Kai. Já tinha desperdiçado muito. Beijando Thorne no átrio. Escondida no armário. Percorrendo corredores como um coelhinho perdido.
Mas estava ali. Tinha conseguido. Fora heroica… quase.
Seus objetivos se desenrolaram em pensamento.
Ela colocou as pontas dos dedos na invisitela mais próxima e começou a repassá-los, um a um.
Primeiro, reconfigurou os códigos de segurança para o transmissor da rainha. Colocou o arsenal do palácio em isolamento. Marcou uma retração para os bloqueios dos túneis que cercavam Artemísia.
Quebrar os códigos, navegar pelos protocolos… parecia uma dança coreografada, e, apesar de os músculos estarem cansados, ela ainda se lembrava dos passos.
Finalmente, ela tirou o chip do corpete. Visualizou o transmissor no alto do palácio, enviando o vídeo oficial da coroa por todo o domo. Uma transmissão fechada, protegida por um labirinto complexo de firewalls internos e códigos de segurança.
Cinco minutos podiam ter passado. Oito. Nove, no máximo.
Ok. Ok. Ok…
Ela ouviu passos no corredor quando estava inserindo o chip com o vídeo de Cinder no tablet. Ouviu o clique satisfatório.
Download, transferência de dados, tradução da encriptação.
Os dedos dela dançaram pelas telas, desafiando a codificação a acompanhar.
Botas do lado de fora, batendo mais rápido.
O cabelo grudado na nuca.
Ok. Ok.
Pronto.
Cress limpou as telas e disfarçou o que fez com alguns comandos rápidos.
A porta foi aberta. Guardas entraram.
Um silêncio confuso.
Espremida na alcova entre a série de telas e o mainframe de transmissão, Cress prendeu a respiração.
— Espalhem-se… e chamem técnicos aqui para descobrirem o que ela fez!
— Ela deixou um tablet — disse outra pessoa, e ela ouviu um estalo sutil na mesa quando o pegaram.
Tremendo, Cress olhou para a arma que tinha nas mãos. O estômago estava embrulhado de novo. Ela não conseguia afastar a sensação de que tinha pegado a coisa errada. Eles saberiam logo que o tablet era de Kai. Saberiam que ele a ajudou.
— Talvez estivesse planejando voltar.
— Você, fique aqui e espere o pessoal técnico. E quero um guarda posicionado em cada porta desta ala até ela ser encontrada. Vão!
A porta se fechou e Cress soltou o ar, tremendo, murchando pela injeção de adrenalina.
Ela estava encurralada. Thorne tinha sido capturado.
Mas eles foram heroicos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!