21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e quatro


Winter se lembrava vagamente de Jacin tê-la ajudado a se sentar, de inclinar o frasco nos lábios dela e de um líquido sem gosto se espalhar pela boca. Foi difícil engolir, mas ela apertou a mão de Jacin e forçou os músculos da garganta a cooperar. O mundo estava com cheiro de produtos químicos, e a pele parecia oleosa, e ela se encontrava sentada em uma cama com um tipo de gel grudento.
Onde estava? Ela se lembrava das cavernas de regolito e dos soldados lobos, dos taumaturgos e de Scarlet. Lembrava-se das pessoas e das árvores. Lembrava-se de uma velha toda torta e de uma caixa com balinhas.
— Princesa, como está se sentindo?
Ela se encostou no braço de Jacin.
— Com fome.
— Certo. Vamos buscar comida.
Era estranho vê-lo demonstrando tanta preocupação. Normalmente, as emoções dele estavam escritas em um código que ela não decifrava. Mas, no momento, ele olhava para além dela e perguntava:
— O que diz?
Acompanhando o olhar, Winter viu um homem idoso com máscara no rosto, segurando um tablet.
— Os sinais vitais estão voltando ao normal, mas é cedo demais para saber se é resultado de ter sido acordada da estase ou de ter recebido o antídoto.
Ocorreu a ela, como um quebra-cabeça confuso se encaixando, que eles estavam em um lugar aberto e cercados de pessoas. Winter inclinou a cabeça, e um cacho de cabelo úmido deslizou pelo ombro. Ali estava a vivaz Scarlet, assim como os soldados lobos que não as comeram, e havia muitos, muitos estranhos, todos curiosos e preocupados e esperançosos.
E ali estava a prima dela, com a mão de metal cintilando.
— Oi, amigos — sussurrou, falando com todo mundo de uma vez.
Foi Scarlet quem sorriu primeiro.
— Bem-vinda de volta, doidinha.
— Quanto tempo vai demorar para termos certeza de que funcionou? — perguntou Jacin.
O médico deslizou o tablet por cima do braço de Winter. Ela acompanhou o aparelho, reparando que parecia estar analisando as marcas e bolhas na pele.
— Não deve demorar.
Winter passou a língua pela boca seca e levantou a mão na direção da luz do dia falsa. Falsa, mas não por muito tempo. Raios de sol podiam ser vistos iluminando o horizonte. O nascer do sol estava chegando.
A irritação na pele estava forte, com círculos inchados uns em cima dos outros, alguns prestes a eclodir. Era horrível e grotesco.
Se os pulmões estivessem funcionando, ela talvez risse.
Pela primeira vez na vida, ninguém poderia dizer que era bonita.
Sua atenção se prendeu a uma mancha grande, do tamanho do comprimento do polegar, entre o pulso e a base da palma da mão. Estava se mexendo. Enquanto ela olhava, pernas cresceram, e a mancha saiu andando pelo braço, desviando das similares como se fossem parte de uma pista de obstáculos, correndo pela pele macia da parte interna do cotovelo. Uma aranha gorda andando pela pele.
Winter.
Ela deu um pulo. Scarlet tinha chegado mais perto e estava de pé na ponta do tanque, com as mãos na cintura. Ela também tinha manchas escuras, e, apesar de não haver tantas quanto em Winter, se destacavam mais na pele clara.
— O médico fez uma pergunta.
— Não fale assim com ela — disse Jacin.
— Não a mime — cortou Scarlet.
Winter olhou para baixo a fim de verificar se a mancha fujona tinha voltado para o pulso antes de encarar o doutor com a máscara.
— Peço desculpas, Vossa Alteza. Posso colher uma amostra do seu sangue?
Ela assentiu e olhou com interesse enquanto ele inseria uma agulha no braço dela e colhia uma amostra. Sua fábrica tinha ficado bem ocupada enquanto ela dormia.
Ele colocou a amostra em um plugue especial na lateral do tablet.
— Ah, e beba isto — disse ele, como se só tivesse lembrado depois, indicando um copo de papel com um líquido laranja. — Deve ajudar com sua garganta.
Jacin tentou segurar o copo, mas ela o tirou da mão dele.
— Estou ficando mais forte — sussurrou ela.
Ele não pareceu tranquilizado.
— Sim. Excelente — disse o médico. — Os patógenos parecem estar neutralizados. Seu sistema imunológico está se recuperando com uma velocidade impressionante. — Ele sorriu. — Acho seguro dizer que o antídoto funcionou. Você deve começar a se sentir bem melhor em… ah, uma ou duas horas, eu acho, vão fazer uma diferença notável, embora possa demorar alguns dias até que você se sinta normal de novo.
— Ah, não se preocupe — disse Winter, com voz fraca mesmo dentro da própria cabeça. — Eu nunca me sinto totalmente normal. — Ela levantou um braço. — Vou ser um leopardo para sempre?
— As manchas vão sumir com o tempo.
— Vão deixar cicatrizes?
Ele hesitou.
— Não sei.
— Não tem problema, Winter — falou Scarlet. — O importante é que você está viva.
— Não estou triste. — Ela passou o dedo pela pele inchada. Era tão estranho. Era tão imperfeito. Ela poderia se acostumar com a imperfeição.
— Está provado, então — disse Cinder, surgindo ao lado de Jacin. — O antídoto funciona. Preciso de dois voluntários para ajudarem com o resto da distribuição. Qualquer pessoa que tenha sintomas pode formar uma fila ali. Se alguém estiver com os dedos azuis, vá para a frente da fila. Nada de correr, e ajudem as pessoas fracas demais para se deslocarem sozinhas. Vamos lá. — Ela bateu palmas, e as pessoas correram para obedecer.
Jacin tirou parte da gosma do cabelo de Winter, o olhar ausente, como se não estivesse ciente do que estava fazendo. Em resposta, Winter levantou a mão e puxou uma mecha do cabelo louro dele.
— Você é de verdade? — perguntou ela.
Ele deu um sorrisinho.
— Eu pareço real?
Ela balançou a cabeça.
— Nunca. — Ela desviou o olhar para a multidão. — Selene já fez a revolução dela?
— Ainda não. A coroação é hoje. Mas estamos… — Ele fez uma pausa. — As coisas estão acontecendo.
Ela mordeu o lábio, lutando contra a decepção. Ainda não tinha acabado. Eles ainda não tinham vencido.
— Tem algum lugar aonde possamos ir para tirar esse troço dela? — perguntou Jacin.
— Tem dois banheiros na clínica, um em cada final de corredor.
Jacin pegou Winter no colo e a carregou para dentro da clínica. Ela encostou a cabeça embaixo do queixo dele, apesar de estar espalhando gosma por todo lado. Era bom estar junto, ao menos por um momento.
Ele encontrou o banheiro, que tinha um vaso sanitário, uma pia utilitária grande e uma banheira rasa. Jacin parou na porta e avaliou as opções com expressão infeliz.
— Seu rosto está machucado. — Ela passou um dedo pelo ferimento. — Você brigou?
— Thorne bateu em mim. — Seus lábios tremeram. — Mas acho que mereci.
— Faz você parecer durão. Ninguém desconfiaria que você é só um cisne gentil por dentro.
Ele riu e sustentou o olhar dela. De repente, ela sentiu os batimentos dele, mas não sabia se era por estarem mais fortes ou se ela tinha se sintonizado a eles naquele momento. Winter foi tomada pela timidez.
Na última vez que viu Jacin, ela o beijou. Confessou seu amor por ele.
Ela ficou vermelha. Perdeu a coragem e afastou o olhar primeiro.
— Pode me botar na banheira. Estou forte o bastante para me lavar.
Ele a acomodou com relutância na beirada da banheira de metal e começou a mexer nas torneiras. A água tinha um odor sulfúrico. Quando a temperatura estava alta, ele procurou em um armário e encontrou um frasco de sabonete líquido. Colocou ao alcance dela.
Winter passou a mão pelo cabelo e puxou um amontoado de gel com cheiro químico na palma da mão.
— Você não vê a doença quando olha para mim.
Mergulhando os dedos na banheira, Jacin ajustou a água mais uma vez. Ajudou a firmar Winter com uma das mãos quando ela virou na beirada da banheira e mergulhou os pés na água.
— Alguma vez eu vi a doença quando olhei para você?
Ela sabia que ele estava falando sobre a doença lunar, não sobre uma peste criada em laboratório. A doença na cabeça dela tinha cicatrizes próprias.
Cicatrizes, cicatrizes. Ela estava ficando com tantas. Perguntou-se se havia algo de errado em sentir orgulho delas.
— Como está? — perguntou Jacin, e ela demorou um momento para perceber que ele estava falando da água.
Ela observou a base marcada e escura da banheira e a água turva.
— Devo tomar banho de roupa?
— Sim. Não vou deixar você sozinha.
— Porque não consegue se separar de mim? — Ela piscou os cílios para ele, mas a sugestão provocadora foi logo substituída por uma percepção. — Ah. Porque você acha que vou ter uma visão e me afogar.
— Não podem ser as duas coisas? Vamos, entre.
Ela segurou o pescoço de Jacin enquanto ele a colocava na água, que estava apenas um pouco quente, fazendo a pele maltratada arder. A superfície da água ficou oleosa.
— Vou pegar…
Jacin fez uma pausa, imobilizado porque os braços dela não se soltaram do pescoço. Ele estava ajoelhado do outro lado da banheira, com os cotovelos enfiados na água.
— Jacin. Desculpe por não ser mais bonita.
Ele levantou uma das sobrancelhas e deu a impressão de que ia rir.
— Estou falando sério. — Seu estômago se contraiu de tristeza. — E desculpe por você ter que se preocupar comigo o tempo todo.
O quase sorriso dele sumiu.
— Eu gosto de me preocupar com você. É uma coisa em que pensar durante os turnos de trabalho longos e chatos no palácio. — Jacin empurrou o queixo dela para baixo e lhe deu um beijo na cabeça. Os braços dela o soltaram.
Ele se levantou e deu a ela uma ilusão de privacidade enquanto procurava mais toalhas.
— Você vai continuar como guarda real depois que Selene se tornar rainha?
— Não sei — disse ele, jogando uma toalhinha para ela. — Mas tenho certeza de que, enquanto você for uma princesa e precisar de proteção, vai ter que me aguentar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!