21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e oito

Kai disparou pelo corredor, feliz por ninguém estar por perto para vê-lo correndo com as belas roupas da coroação, embora os pensamentos estivessem carregados demais para que ele se preocupasse com aparências. Cinder estava viva. Thorne tinha sido capturado.
Cinder ia invadir Artemísia.
Hoje. Agora.
Ele ainda sentia culpa por deixar Cress sozinha. Deveria ter feito mais. Não deveria ter se importado com o quanto estava atrasado para a coroação, uma cerimônia da qual ele não desejava fazer parte. Ele deveria ter tido mais prazer em fazer Levana esperar. Devia ter fingido outro sequestro.
Falou um palavrão por dentro, desejando ter pensado nisso mais cedo.
Mas, não… seu sumiço geraria um rebuliço, e a última coisa de que Cress e os outros precisavam era um rebuliço. A melhor coisa que poderia fazer para desviar as desconfianças de Levana era ir em frente como se nada tivesse mudado.
A melhor coisa que poderia fazer era coroá-la imperatriz de seu país.
Ele ficava enjoado só de pensar nisso, mas seguiria o plano. Faria sua parte.
Dobrou uma esquina e quase derrubou uma estátua de um deus lunar musculoso. Segurou a estátua e a endireitou enquanto o coração subia até o pescoço. Quando ele e a estátua estavam calmos, abriu caminho pela porta dupla que levava a uma série de salas de espera particulares.
Dois guardas ladeavam a porta do grande salão. Torin estava sentado em um banco acolchoado ao lado de uma mulher de cabelo dourado bufante, que ofegou com tanto fervor que Kai achou que ela desmaiaria.
— Ah, graças a Ártemis! — disse ela, levando um lenço à testa — Por onde você andou?
— Eu falei que ele estava a caminho — disse Torin.
A mulher o ignorou e já começou a falar em um dispositivo preso ao pulso.
— O imperador chegou. A cerimônia vai começar em trinta segundos. — Ela colocou o tablet no cinto e se concentrou em Kai, observando-o com uma mistura de ansiedade e repulsa. — Terráqueos — murmurou ela, ajeitando a faixa e afastando o cabelo dele do rosto. — Vocês nunca têm orgulho da sua aparência.
Ele engoliu uma resposta envolvendo cabelos dourados e aceitou um copo de água de um servo.
Torin se levantou na frente do banco e colocou as mãos nos bolsos. Parecia alarmantemente casual sem paletó, e Kai se perguntou se ele também tinha sido criticado por aquela mulher, fosse ela quem fosse.
— Está tudo bem, Vossa Majestade?
As palavras foram ditas com indiferença calma, mas Kai percebeu a curiosidade tensa por baixo da expressão de Torin.
Apesar de não saber se era verdade, ele assentiu.
— Está tudo bem.
Atrás das portas duplas, ele ouviu a falação de centenas de vozes e se perguntou que boatos já estavam circulando sobre o atraso da cerimônia.
— Estou pronto.
— Sua Majestade também — disse a mulher. Ela empurrou Torin na direção da entrada. — Você, vá se sentar! Vossa Majestade, siga-me.
Kai a seguiu entre os guardas, pela porta dupla e para um corredor curto ladeado de pilares ornamentais.
Levana estava esperando, usando um vestido que combinava com a faixa de Kai, com as cores da Comunidade das Nações Orientais. Parecia uma bandeira ambulante gigante, com uma fileira de estrelas na base da barra do vestido e um lótus branco florescendo na lateral. Ela também estava de faixa, mas cor de laranja queimada: na Terra, a cor do sol nascente.
A imagem dela exibindo tanto patriotismo falso pela Comunidade despertou nele a vontade de arrancar aquela faixa e estrangulá-la com ela.
Ela esticou as mãos para Kai quando ele se aproximou. Embora estivesse irritado, não tinha escolha além de segurá-las. Os dedos dela estavam gelados.
— Meu querido marido — disse ela, com voz melosa. — Sinto que ficamos separados por muito tempo.
Ele a olhou de cara feia.
— Por quanto tempo você planeja levar essa farsa?
— Farsa? — Levana riu. — Uma esposa não pode sentir falta do marido sem que suas emoções sejam consideradas suspeitas?
— A não ser que você queira que eu vomite durante o procedimento, é melhor mudarmos de assunto.
A expressão dela endureceu.
— Nossa união por matrimônio é final e definitiva. É escolha sua como vai reagir a essa situação.
— Você está me dando alguma escolha? — Kai deu seu sorriso mais diplomático. — Quanta generosidade.
Levana equiparou a expressão dele.
— Pronto. Não foi tão difícil, foi? — Ela se virou para que eles olhassem para o salão, de braços dados. Kai teve um vislumbre do arranhão no antebraço dela, onde a cortou com a tesoura no casamento.
A imagem o fortaleceu quando as trombetas tocaram.
As portas foram abertas e revelaram uma multidão de observadores. Kai achou difícil observar as cores vibrantes e luzes piscantes e tecidos esvoaçantes se espalhando pela plateia e no corredor.
— Todos de pé para Sua Majestade Real, a Rainha Levana Blackburn de Luna, descendente direta do Primeiro Rei Cyprus Blackburn, e Sua Majestade Imperial, o Imperador Kaito da Comunidade das Nações Orientais da Terra.
O hino lunar começou a tocar. Kai e Levana marcharam pelo corredor. Se não fossem as roupas espalhafatosas nos bancos, o clima seria sombrio.
— Eu recebi uma informação interessante antes de você chegar — disse Levana, mantendo a expressão agradável para a multidão. — Envolvendo um traidor que foi preso recentemente nas nossas celas subterrâneas.
O estômago de Kai deu um nó.
— Prossiga.
— Parece que encontraram um dos cúmplices de Linh Cinder andando pelo palácio. Aquele criminoso terráqueo… Acredito que o nome dele seja Carswell Thorne.
— Isso é mesmo interessante.
— Imagino que você não saiba o que ele estava tentando fazer aqui.
— Talvez tenha se aborrecido por não sido convidado.
Levana assentiu para as pessoas.
— Não importa. Nós o pegamos antes que ele provocasse confusão.
— Fico feliz em saber.
— Eu achei que, como você logo vai se tornar o rei consorte de Luna e ele foi seu prisioneiro antes de ser meu, eu talvez permita que você decida qual é a melhor forma de executá-lo.
Ele firmou o maxilar.
— Como minha esposa me honra.
Mas, na realidade, apesar de Levana estar tentando irritá-lo, ela lhe deu um presente. Foi um alívio saber que Thorne não estava morto.
Quando chegaram perto do fim do corredor, ele viu os colegas terráqueos perto da frente. Torin já estava lá (deviam tê-lo levado discretamente pela outra entrada), junto com dezenas de representantes da Comunidade e das outras nações. Ele até viu, com alguma surpresa, Linh Adri e Linh Pearl ao lado de um representante americano. As duas estavam com sorrisos rígidos, e apesar de Kai ter um tipo especial de ódio pelas duas mulheres, também sentiu uma pontada de solidariedade. Levana estava brincando com elas, como um gato brinca com um rato antes de devorá-lo. Oferecendo favores, punindo-as, depois oferecendo favores de novo. Não era surpresa as duas parecerem apavoradas, com medo de fazer qualquer movimento repentino.
Havia uma dezena de pessoas no palco, uma mistura de taumaturgos e guardas reais e um soldado biotransformado vestido com um uniforme bonito que contrastava com o rosto e o corpo deformados.
Kai fez uma careta, perguntando-se o que passou pela cabeça de Levana ao levar uma criatura daquelas para a coroação. A presença deles não funcionou a favor de nenhum dos lados no banquete de casamento.
De repente, a luz bateu nos olhos da criatura, verdes, intensos, e Kai franziu a testa. Se ele não soubesse…
Ele teve um choque, e os pés se enrolaram no primeiro degrau. Ele se equilibrou e subiu com sucesso o resto dos degraus, sem cair de cara. O coração continuou disparado no peito, e ele se lembrou de Cress contando que levaram Lobo, mas ela não sabia o que tinha acontecido com ele.
Agora, ele sabia.
Aquela criatura era Lobo, mas não era. Os olhos eram turbulentos e sombrios, apontados para Kai, dando uma ideia de ferocidade que fervia por baixo da superfície.
Com um rosnado, Lobo afastou o olhar primeiro.
— Reconheceu meu estimado soldado? — perguntou Levana, quando chegaram ao altar todo decorado. — Acho que ele mudou bastante desde que você o viu pela última vez.
A fúria de Kai ardeu no peito. Ela só queria uma reação. Só queria que ele soubesse que ela estava no controle: do destino dele, do destino do país dele, do destino dos amigos dele.
Quando ele e Levana se viraram, Kai se preparou para encarar a plateia. Era o momento em que ele entregaria a Levana metade de seu poder. Em que diria a seu país que, se ele morresse, aquela mulher se tornaria a única governante.
Seu corpo latejou de repulsa, mas ele sabia que não havia opções.
Tomara que Cinder venha logo, uma voz repetiu no fundo de sua mente. Tomara que ela venha logo.
— Povo de Luna e da Terra — disse Levana, esticando as mãos na direção da plateia. — Vocês estão aqui para testemunhar um evento importante de nossa história. Hoje, vamos coroar um terráqueo como nosso rei: meu marido, o imperador Kai da Comunidade das Nações Orientais. E hoje eu vou ser coroada imperatriz, a primeira da nossa linhagem real a formar uma aliança com nossos irmãos terráqueos.
As pessoas comemoraram.
Bem, os lunares comemoraram. Os terráqueos só aplaudiram de forma meio educada.
— Peço que vocês se sentem — disse Levana.
Quando as pessoas começaram a se sentar, Kai e Levana foram até duas caixas decoradas com pedras preciosas colocadas no altar. Kai soltou o ar e abriu a fivela da caixa.
Dentro, sobre uma base de seda, estava a coroa de imperatriz, modelada no formato de uma fênix e cravejada de pedras flamejantes.
Seu coração travou, enchendo-o de uma emoção para a qual ele não estava preparado.
Na última vez em que viu aquela coroa, foi na cabeça de sua mãe. Ela a usava durante o baile que comemorava a paz mundial todos os anos. Ela sempre foi tão linda.
Ele tremeu com a lembrança e com a blasfêmia que estava prestes a cometer.
Do outro lado do altar, Levana pegou sua coroa. Em comparação com as pedras preciosas terráqueas, a coroa de rei lunar era simples. Sete pontas finas e longas entalhadas de pedra da lua, com a pedra branca cintilando à luz das velas. Era antiga. A monarquia de Luna foi formada bem antes de a Quarta Guerra Mundial levar à formação da Comunidade das Nações Orientais e da família real dele.
Kai se preparou, pegou a coroa da mãe na caixa protetora e, juntos, ele e Levana se viraram para a plateia, erguendo suas coroas simbólicas. Kai olhou para Torin, e viu tristeza espelhada na expressão dele. Talvez ele também estivesse pensando na mãe de Kai.
Antes que Levana iniciasse o discurso sobre a importância simbólica da coroa e sobre como ela representava o poder do soberano e assim por diante, as portas no fundo da sala foram abertas.
A mulher de cabelo dourado veio andando pelo corredor, e embora a expressão fosse de horror, os movimentos eram robóticos e a mantiveram seguindo na direção da rainha.
Kai baixou a coroa e as palmas das mãos ficaram quentes. A esperança se expandiu em seu peito. Quando a plateia se virou para olhar a mulher se aproximando, uma risadinha se espalhou entre as pessoas. Alguma coisa estava acontecendo. Kai não sentia medo vindo da multidão, e sim empolgação, como se não passasse de um drama de ficção para eles.
A mulher chegou aos degraus e se apoiou em um dos joelhos.
— Perdoe-me, minha rainha — gaguejou ela. — Recebemos um comunicado de que há um problema em vários setores próximos, inclusive nos domos ao redor da cidade de Artemísia.
Kai arriscou um olhar para Lobo, mas ele ainda estava se contorcendo e rosnando. Parecia prestes a morder com o maxilar enorme o primeiro pescoço que chegasse perto.
— Que tipo de problema? — rosnou Levana.
— Nós não sabemos como, mas os bloqueios nos setores rebeldes foram removidos, e as pessoas estão… elas estão vindo para cá. Lotando os túneis dos trens de levitação magnética. Estão dizendo que… a princesa Winter está com eles.
O rosto de Levana ficou vermelho.
— Não é possível.
— Eu… eu não sei, minha rainha. Foi só o que me disseram. E… e também que, supostamente, a ciborgue está com eles.
Kai sorriu. Não conseguiu evitar, e ele não fez nada para esconder quando Levana o olhou de cara feia. Com um movimento de ombros, ele disse:
— Ela avisou você.
Levana contraiu o maxilar. Ela se virou para a mulher.
— A ciborgue está morta e não vou tolerar boatos dizendo o contrário.
A mulher ficou boquiaberta.
— Os bloqueios ao redor de Artemísia estão mantidos?
— S-Sim, minha rainha. Até onde eu sei, eles não conseguiram transpor…
— Então não estamos sob ameaça imediata, estamos?
— Eu… acho que não, minha rainha.
— Então por que você está interrompendo esta cerimônia? — Levana mexeu o pulso. — Guardas, acompanhem esta mulher até uma cela de prisão. Não vou sofrer mais interrupções.
Os olhos dela estavam ardentes, impiedosos, quando a mulher se levantou e cambaleou para trás. Dois guardas a seguraram.
A plateia estava tentando sufocar seu entusiasmo, mas não estava conseguindo. Kai viu vários olhares de deboche voltados para a mulher sendo arrastada, apesar de certamente não ter sido ideia dela levar a notícia da insurreição a Levana.
Os pensamentos de Kai vibravam. Ele mordeu o lábio com força, enquanto a expressão contorcida no rosto de Levana se aliviou e voltou à serenidade agradável.
— Muito bem — disse ela, levantando a coroa lunar acima da cabeça. — Vamos prosseguir.

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