21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e nove

Cinder ficou à frente do pequeno exército, junto com Alfa Strom. Os túneis do metrô eram amplos o bastante para que eles andassem em filas de cinco, e Strom garantiu que todo mundo soubesse que aquela era a formação deles; qualquer alteração em local tão confinado causaria pânico e confusão. Eles tentaram ficar em silêncio, mas era impossível. Deslocavam-se como um trovão. Milhares de pés batendo no terreno rochoso nos túneis de lava.
Os soldados mutantes ficaram perto da frente, a primeira linha de defesa, enquanto as pessoas dos setores externos seguiam logo atrás.
Tinha se transformado em um jogo de números, e os números deles estavam crescendo. Cada setor pelo qual passavam tinha novos civis se juntando à causa, muitos se preparando desde o momento em que a primeira mensagem de Cinder foi transmitida.
Cinder repassou diversas vezes os cálculos em pensamento, mas ainda havia variáveis demais para incluir. Eles precisavam de civis suficientes para derrubar a rainha e os taumaturgos, e de lutadores não manipulados o suficiente para enfrentar os guardas e qualquer soldado lobo que Levana levasse para sua defesa. Ela estava contando com Jacin e Winter para espalharem a notícia, e rápido. Se eles falhassem, seria um massacre, e não a favor deles. Se conseguissem…
Os túneis estavam mergulhados em escuridão, exceto por lampiões conseguidos em setores externos e por um punhado de lanternas. Cinder desejava ter um mapa na cabeça dizendo o quanto se deslocaram e o quanto faltava. Tinha se acostumado a ter dados infinitos ao alcance, e era desconcertante estar sem isso. Depois de cinco anos desejando ser como todo mundo, ela sentia falta de todas as conveniências que acompanhavam o fato de ser ciborgue.
Quatro vezes eles encontraram trens e vagões parados, ocupando o espaço confinado do túnel. Pareceram obstáculos insuperáveis de primeira, mas os soldados se adiantaram com zelo, arrancando painéis, soltando os assentos internos, abrindo caminho até o outro lado. Eles eram uma máquina de destruição eficiente, e o exército improvisado pôde passar.
Embora o sistema de trens de levitação magnética tivesse sido desligado, ainda havia energia sendo enviada, e as plataformas pelas quais passavam estavam iluminadas com um holograma do vídeo obrigatório com transmissão da coroa. Sem poder gravar a cerimônia em si, pois a rainha não estaria usando o véu, um narrador contava o evento momento a momento.
Quando eles entraram em AR-4, um dos setores adjacentes a Artemísia Central, Cinder ouviu a voz de Kai e parou. Ele estava recitando os votos para se tornar rei consorte de Luna.
O exército se dividiu em quatro regimentos. Cada um entraria na capital por um túnel diferente. Enquanto os alfas levavam suas matilhas e civis em direções opostas, Cinder viu Strom a observando.
— Temos que seguir em frente — disse ele. — Meus homens estão famintos e agitados, e você nos colocou em um espaço fechado cheio de carne com cheiro doce.
Cinder levantou a sobrancelha.
— Se eles precisarem fazer um lanchinho, diga para comerem uns aos outros por um tempo. Só quero ter certeza de que Jacin teve tempo para chegar ao máximo possível de setores externos.
Strom deu um sorrisinho, como se impressionado com a própria incapacidade de intimidar Cinder.
— Está na hora de ir — repetiu ele. — Nosso povo está quase em posição. A rainha e o grupo dela estão todos em um único lugar. Podemos ficar sentados aqui esperando semanas por mais civis que não vão aparecer.
Cinder acreditava que eles iriam. Tinham que aparecer. Mas também sabia que ele estava certo.
A coroação estava quase acabando.
Eles começaram a se deslocar pelos túneis de novo. As mãos apertavam as armas. O andar reduzia com a ansiedade crescente. Eles não tinham se deslocado muito quando a lanterna de Cinder encontrou barras de ferro ao longe. Strom levantou a mão, sinalizando para todos pararem.
— O bloqueio. — Cinder apontou a luz da lanterna para a parede ao redor da grade de ferro. Eles levariam dias para cavar ao redor.
— Não tem como passar — disse Strom. Ele estava rosnando quando olhou para Cinder, como se fosse culpa dela. — Se isso for uma armadilha, é das boas. Eles poderiam nos matar em um piscar de olhos enquanto estamos enfiados como salsicha nestes túneis.
— Cress deveria ter aberto — disse ela. — Já deveriam ter sumido. A não ser que… — A não ser que Cress e Thorne tivessem falhado. A não ser que tivessem sido capturados. — Que horas são?
Ela olhou para Strom, mas ele não fazia ideia. Ele também não tinha relógio na cabeça.
Cress tinha que programar todos os bloqueios ao redor da cidade para serem desativados ao mesmo tempo, para impedir que revolucionários entusiasmados entrassem na cidade cedo demais e acabassem mortos ou revelassem a surpresa. Cress tinha falhado ou eles tinham chegado cedo? Kai ainda estava recitando seus votos. Cinder sufocou o pânico crescente.
Strom começou a rosnar.
— Estou sentindo um cheiro.
Os soldados ao redor levantaram os narizes e farejaram o ar.
— Alguma coisa sintética — disse Strom. — Alguma coisa terráquea. Uma máquina.
Cinder encostou a mão nas barras, mas os soldados a puxaram e formaram uma barreira protetora entre ela e a o bloqueio. Como se ela fosse digna de ser protegida.
Cinder tentou não se irritar.
Passos soaram no túnel além da grade, ficando mais altos. Uma pedrinha chutada quicou pelo chão. Uma lanterna apareceu, embora quem a carregava ainda estivesse nas sombras.
O raio da lanterna percorreu os soldados, e a pessoa parou.
Os soldados rosnaram.
— Nossa — disse ela. — Que galerinha ameaçadora vocês são.
O coração de Cinder saltou.
— Iko! — gritou ela, tentando abrir caminho, mas os corpos bloqueando a passagem eram irremovíveis.
Iko chegou mais perto, e Cinder a viu no facho de luz. Ela ofegou e parou de lutar. O braço direito de Iko estava inerte de novo, e havia buracos de bala, tecido sintético rasgado e fios estragados por todo o corpo. Ela não tinha orelha esquerda.
— Ah, Iko… o que aconteceu?
— Mais guardas lunares idiotas, foi isso que aconteceu. Ele me encurralou no porão da clínica médica e fez isso. Tive que bancar a morta até ele me deixar em paz. Que bom que ninguém sabe matar um androide aqui.
— Iko. Sinto muito.
Iko fez um gesto casual com o braço bom.
— Não estou com vontade de falar sobre isso. Você está sendo mantida prisioneira ou esses valentões estão do nosso lado?
— Eles estão do nosso lado.
Iko voltou a atenção para os lobos de novo.
— Tem certeza?
— Não totalmente — disse Cinder. — Mas eles são o exército que Scarlet e Winter recrutaram, e são o melhor que temos. Eles ainda não comeram ninguém.
Strom deu um sorrisinho para ela com as presas proeminentes.
— Iko, que horas são? Os portões já não deveriam estar abertos?
— Estamos bem na hora. Faltam dezessete segundos pelo meu…
O som de máquinas gemeu e estalou nas paredes de pedra. A grade começou a descer para o chão rochoso.
Iko apertou os lábios.
— O relógio de Cress está errado, não o meu.
Cinder esvaziou os pulmões de alívio.
Enquanto a grade desaparecia, os lobos voltaram à formação, com as mãos nas costas e os queixos erguidos. Era o mais profissional que Cinder já tinha visto da parte deles, fazendo-os parecer mais homens e menos monstros. E os deixando muito, muito parecidos com soldados.
Assim que a grade baixou o bastante, Iko passou por cima e se jogou nos braços de Cinder, com a mão boa batendo nas costas dela.
— Você vai me consertar de novo, não vai?
Cinder a apertou.
— Claro que vou. Quebrada não quer dizer impossível de consertar.
Iko se afastou e sorriu, e o sorriso foi pontuado por uma fagulha saindo da cavidade auditiva vazia.
— Eu amo você, Cinder.
Cinder sorriu.
— Eu também amo você.
— Por que não estamos andando? — perguntou Strom, a voz trovejando pelo túnel. — Estamos ficando impacientes para fazer Levana e a corte dela em pedacinhos comestíveis. Vamos sugar o tutano dos ossos deles e beber o sangue como se fosse um bom vinho.
Iko grudou um olhar inquieto em Cinder.
— Que bom que eles estão do nosso lado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!