21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e dois

Os dois ficaram imóveis.
Com o maxilar contraído, Thorne sussurrou:
— Continuamos depois?
Ela assentiu e teve dificuldade de lembrar onde estavam.
Thorne se virou para a porta com o corpo protegendo Cress de quem tinha entrado.
Espiando por trás do cotovelo dele, ela teve um vislumbre de um guarda do palácio delineado pela luz do corredor.
O guarda estava de cara feia quando levantou um dispositivo até o rosto.
— Só dois convidados — disse ele com voz mal-humorada. Ele apontou com o queixo para Thorne e Cress. — Preciso pedir que vocês saiam daqui. Todos os corredores e espaços públicos precisam ser esvaziados antes do começo da cerimônia.
Thorne limpou a garganta, puxou o paletó e ajustou a gravata-borboleta.
— Desculpe. Acho que nós… nos empolgamos aqui.
Cress tirou uma folha de samambaia da manga de Thorne. Suas bochechas ardiam de calor, em parte por vergonha, mas principalmente pela lembrança dos braços dele nos dela, dos beijos, da realidade enevoada dos últimos minutos.
— Nós vamos sair daqui, então.
Thorne segurou o chapéu de antenas de inseto que fora parar no chão e entregou para Cress, depois a ajudou a descer da mesa.
As mãos trêmulas tiveram dificuldade para prender as antenas na cabeça novamente.
— Obrigado por nos deixarem usar o local — disse Thorne para o guarda, piscando, enquanto eles seguiam pelo corredor. Ele só permitiu uma falha na compostura quando o guarda ficou para trás. Thorne soltou o ar lentamente. — Tente agir de forma natural.
As palavras ecoaram na cabeça de Cress por um longo momento antes de ela compreendê-las. Agir de forma natural? Agir de forma natural? Quando suas pernas eram feitas de macarrão e o coração estava prestes a explodir para fora do peito e ele disse que a amava, pelo menos de certa forma? Qual era o significado de agir com naturalidade? Quando na vida ela soube agir de forma natural?
Ela começou a rir. Uma risada sufocada no começo, seguida de uma onda de risadinhas subindo pela garganta, até ela estar curvada com dificuldade de andar reto. As gargalhadas quase a sufocaram.
Thorne manteve o braço ao redor da cintura dela.
— Não era bem isso que eu tinha em mente — murmurou ele. — Mas é meio encantador mesmo assim.
— Desculpe. — Ela engasgou com as palavras, tossiu um pouco e tentou modelar o rosto para parecer natural, mas outro ataque de risadinhas roncava na barriga, deixando o peito em espasmos. Ela se curvou de novo.
— Hã. Cress. Você é adorável, mas preciso que se concentre por um segundo. Tivemos sorte por aquele guarda não ter nos reconhecido, mas se ele…
— Ei! Parem!
Thorne falou um palavrão.
As gargalhadas de Cress soaram cheias de pânico.
— Corra!
Ela correu, segurando a mão de Thorne. Eles dobraram uma esquina e depois outra. Ele os levou até uma alcova discreta com uma portinha e a empurrou por ali, chegando aos corredores dos criados.
— Esquerda! — ordenou ele, puxando a porta e pegando uma bandeja que fora deixada no corredor.
Ele a colocou no caminho enquanto Cress corria por prateleiras de suprimentos e equipamento de manutenção, armários de depósito e esculturas quebradas. Thorne a alcançou com facilidade e já tinha tirado a arma da jaqueta.
— Ainda está com aquele chip?
Ela encostou a mão no corpete e encontrou o pequeno chip com o vídeo de Cinder encostado na pele. Cress assentiu, correndo rápido demais para falar.
— Que bom.
Sem aviso, Thorne se jogou em cima de Cress e a levou para trás de uma roda enorme de fios elétricos. Ela se chocou com força na parede, ofegante.
— Dois corredores atrás tinha um elevador — disse ele. — Encontre um lugar para se esconder e vá para o centro de segurança. Eu vou distraí-los e volto para encontrar você.
Cress começou a balançar a cabeça.
— Não. Você não pode me deixar de novo. Não consigo fazer isso sem você.
— Claro que consegue. Não vai ser tão divertido, mas você consegue.
Passos soaram ao longe. Ela deu um gritinho.
— Eu vou encontrar você — sussurrou Thorne. Ele deu um beijo rápido na boca de Cress, e colocou a mão dela ao redor de uma coisa pesada e quente. — Seja heroica.
Ele saiu correndo de novo na hora em que ela ouviu passos os alcançando.
— Ali! — gritou alguém.
Thorne desapareceu, dobrando uma esquina.
Cress olhou para a arma que ele lhe deu. Aquela coisa pequena, tão sólida em sua mão, a apavorava ainda mais do que os guardas. Ela queria colocá-la no chão e se afastar.
Mas o que fez foi se encostar nos fios elétricos e tirar o dedo do gatilho, onde havia ido parar por instinto. É como um computador, disse a si mesma. Os computadores só fazem o que a gente manda. A arma só vai disparar se o gatilho for apertado.
Não era particularmente reconfortante.
Dois guardas passaram direto e nem olharam na direção dela.
Ela pensou em ficar onde estava, por mais exposto que o local fosse. Estava tremendo da cabeça aos pés, e cada fibra do corpo lhe dizia que se mover seria o mesmo que ser pega.
Mas a lógica dizia que o corpo estava mentindo. Eles voltariam. Enviariam reforços. Ela seria vista.
Disparos distantes a fizeram pular e entrar em ação. Os tiros foram seguidos de grunhidos e pelo barulho de uma luta.
Cress saiu do canto e voltou pela direção que ela e Thorne tinham vindo. Dois corredores antes, ele tinha dito. Havia um elevador.
Ela seguiu em silêncio desta vez, apertando com a mão a fisgada na lateral do corpo. Passou por um corredor e ouviu mais passos, mas não identificou de que direção estavam vindo. Ela parou, observou as redondezas e abriu um dos armários de depósito. Havia rolos de tecido decorativo de pé, muito mais altos do que ela, todos luxuosos e cintilantes em tons metálicos e de pedras preciosas. Cress entrou e espremeu o corpo no espaço criado pelos rolos que caíram para o lado.
Fechou a porta e colocou a arma no chão do armário. Teve o cuidado de botar o cano virado para longe dela.
Os passos foram ficando mais altos, e ela teve certeza de que tinha sido vista, mas ninguém gritou.
Até que…
— Pare!
Outro tiro, seguido de um grunhido instantâneo e de um corpo caindo no chão. Pareceu próximo. Cress apertou bem os olhos e encostou o queixo nos joelhos. Thorne não. Por favor, Thorne não.
Um suspiro pesado foi seguido de uma voz masculina tranquilizadora.
— Tudo isso por causa de um terráqueo incômodo? Vocês, guardas, são patéticos.
Cress apertou a mão na boca para que nenhum som escapasse. Ela olhou para a escuridão, tentando silenciar a respiração, embora tivesse medo de desmaiar se não respirasse direito em breve.
Alguém grunhiu. Não muito longe de onde ela estava escondida.
— Ele é definitivamente um dos aliados da ciborgue. A pergunta é: o que você está fazendo no palácio?
Um momento, e a voz de Thorne.
— Só estava beijando minha garota — disse ele, ofegando um pouco. Cress contraiu todo o rosto e o enterrou nos joelhos, sufocando o choro. — Eu não sabia que era… crime aqui.
O homem não pareceu achar graça.
— Onde está a garota que estava com você?
— Acho que fugiu de medo de você.
Outro suspiro.
— Não temos tempo para isso. Coloque-o em uma cela, vamos lidar com ele depois da coroação. Tenho certeza de que vai ser um ótimo bichinho terráqueo para uma das famílias. E vamos continuar procurando a garota; alertem-me assim que a encontrarem. Aumentem a segurança ao redor do salão. Eles estão tramando alguma coisa, e Sua Majestade vai nos matar se a cerimônia for interrompida.
Houve um baque e outro grunhido. Cress se encolheu, e sua cabeça se encheu com pensamentos de todas as coisas que eles poderiam ter feito com Thorne para provocar aquele grunhido, todas as coisas que ainda poderiam fazer com ele.
Ela mordeu o lábio até sentir gosto de sangue, e só a dor a impediu de chorar enquanto os ouvia arrastando-o para longe.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!