21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Setenta e cinco

Estava quente no armário, e, quando Cress se obrigou a se mover, sua perna esquerda formigou por causa da circulação prejudicada. Não queria. Por mais desconfortável que o armário fosse, dava uma sensação de segurança, e ela estava convencida de que, assim que saísse dali, alguém atiraria nela.
Mas não podia ficar ali para sempre, e o tempo não ia passar mais devagar por causa de sua falta de coragem. Depois de limpar o nariz com a asa falsa de borboleta, ela se obrigou a abrir a porta.
A luz do corredor a cegou, e Cress recuou, se escondendo atrás do braço. Suas emoções estavam esgotadas quando saiu do armário e espiou para os dois lados do corredor. Seu olhar foi atraído por uma mancha de sangue não muito longe do armário. Thorne.
Ela se encolheu e tentou apagar a imagem da memória antes que a paralisasse.
Cress bateu na perna para que o sangue circulasse e se levantou devagar. Prestou atenção, mas não ouviu nada além de máquinas distantes e do zumbido dos sistemas de aquecimento e de água que funcionavam por aquelas paredes.
Ela se preparou e verificou que o chip ainda estava preso no vestido antes de pegar a arma. As antenas tinham caído de novo, e ela as deixou no fundo do armário. Seu estômago estava um nó, o coração estava em frangalhos, mas ela voltou até o corredor que Thorne tinha mencionado. Parou na esquina, espiou e recuou, com o coração disparado na caixa torácica.
Havia um guarda ali.
Ela deveria ter imaginado. Estariam todos os elevadores sendo vigiados? As escadas também?
Seus pensamentos já delirantes foram tomados de desesperança. Estavam procurando-a, e ela era vulnerável sem Thorne, além de não ter planos. Não daria certo. Ela não era capaz de fazer tudo sozinha. Seria pega e aprisionada e morta, e Thorne seria morto, e Cinder fracassaria, e todos eles…
Ela apertou as mãos fechadas sobre os olhos até sentir o pânico diminuir.
Seja heroica, Thorne dissera.
Ela tinha que ser heroica.
Quase não ousando respirar por medo de chamar atenção, ela se esforçou para pensar em outra forma de chegar ao quarto andar.
Passos se aproximaram. Ela se escondeu atrás de uma estátua sem braço e se encolheu.
Seja heroica.
Ela tinha que se concentrar. Tinha que pensar.
A coroação começaria em breve. Ela tinha que chegar ao centro de controle antes que acabasse.
Quando o guarda foi embora e ela teve uma certeza relativa de que não ia hiperventilar, Cress levantou a cabeça e espiou de trás da estátua. O corredor não era largo, mas estava lotado de coisas, de armários e quadros a tapetes enrolados e baldes de limpeza.
Com uma ideia se delineando em sua mente, ela usou a parede como apoio para se levantar e deu alguns passos se afastando da estátua. Ela se preparou, saiu correndo na direção da estátua e a empurrou com o ombro com o máximo de força que conseguiu.
O pé escorregou por causa da força, e ela caiu com tudo sobre um dos joelhos, trincando os dentes para não grunhir. A estátua balançou na base. Para trás. Para a frente. Para trás…
Cress cobriu a cabeça quando a estátua caiu na direção dela, batendo no quadril antes de se despedaçar no chão. Ela sufocou um grito nos dedos, mas se obrigou a mancar na direção dos elevadores e se esconder atrás de uma pilha de tapetes enrolados.
Não demorou para o guarda vir correndo e passar pelo esconderijo de Cress.
Ela ignorou a dor no joelho e no quadril, e saiu de trás dos tapetes. Correu o mais rápido possível na direção dos elevadores abandonados. Um grito de surpresa ecoou atrás dela.
Ela bateu na parede e enfiou o dedo no botão. As portas se abriram.
Ela entrou, cambaleando.
— Portas, se fechem!
As portas se fecharam.
Uma arma disparou. Cress gritou quando uma bala entrou na parede atrás dela. Outra ricocheteou nas portas antes de se fecharem.
Ela caiu encostada na parede e grunhiu, apertando a mão no quadril machucado. Já dava para perceber que ia ficar um hematoma enorme.
O elevador começou a subir, e ela se deu conta de que não tinha escolhido o andar. Sem dúvida o guarda estaria monitorando para ver em qual ela sairia.
Ela tinha que ser estratégica. Tinha que pensar como um gênio do crime.
Cress tentou se preparar para o que teria que encarar quando as portas se abrissem. Mais guardas. Mais armas. Mais corredores infinitos e esconderijos desesperados.
Apertando bem os olhos, ela tentou visualizar o mapa do palácio que tinha estudado na mansão. Visualizou a sala do trono com facilidade. Ficava no centro do palácio, a varanda acima do lago. O resto começou a aparecer conforme ela foi se concentrando.
Os aposentos particulares dos taumaturgos e da corte. Um salão de banquetes. Salas e escritórios. Uma sala de música. Uma biblioteca.
E o centro de controle dos sistemas da rainha, incluindo o aposento onde a coroa gravava suas campanhas em conforto e segurança.
O elevador parou no terceiro andar. Tremendo, Cress escondeu a arma nas dobras da saia. As portas se abriram.
Um grupo de estranhos apareceu à frente. Cress gemeu. Seus pés queriam correr, o cérebro gritava para ela se esconder, mas não havia espaço para onde desaparecer quando os homens e mulheres a olharam com desprezo e desconfiança. Os mais perto do elevador hesitaram, como se considerassem esperar outro. Mas uma pessoa resmungou alguma coisa e entrou, e os outros foram atrás.
Cress se encostou na parede, mas a pressão dos outros corpos não aconteceu. Apesar de o elevador estar lotado, todo mundo estava tomando cuidado para não chegar perto demais dela.
A ansiedade começou a diminuir. Aquelas pessoas não eram lunares. Eram os convidados terráqueos e, a julgar pelos trajes formais, estavam indo para a coroação.
A última coisa que ela queria era ficar presa em meio a um grupo de pessoas indo para a coroação.
Quando as portas começaram a se fechar, Cress limpou a garganta.
— Perdão, mas eu gostaria de sair.
Ela se espremeu, sua saia se prendendo aos ternos e vestidos. Embora muitos a olhassem de cara feia, eles abriram caminho com satisfação.
Porque achavam que ela era lunar. Uma lunar de verdade, com a capacidade de manipulá-los, não uma cascuda.
— Obrigada — murmurou Cress para a pessoa que impediu que as portas se fechassem.
Ela saiu para o hall de elevadores, a pulsação disparada.
Mais um lindo corredor. Mais vistas impressionantes. Uma dezena de pedestais exibindo estátuas e vasos pintados.
Cress se viu desejando o interior rústico da Rampion.
Ela se encostou na parede e esperou até ter certeza de que o elevador tinha ido embora para chamar outro. Precisava subir mais um andar. Ela precisava encontrar uma escada ou fugir pelo corredor dos criados. Sentia-se evidente demais ali. Exposta demais.
Um apito anunciou a chegada de um novo elevador, e Cress levou um susto e se escondeu. Quando as portas se abriram, estavam tomadas de gargalhadas e risadinhas, e Cress prendeu a respiração até se fecharem de novo.
Com o som de vozes vindo da esquerda, Cress se virou e foi para a direita. Passou por uma série de portas pretas, a escuridão contrastando intensamente com as paredes brancas. Cada uma estava marcada com um nome e afiliação com letras cursivas douradas. REPRESENTANTE MOLINA, ARGENTINA, REPÚBLICA AMERICANA. PRESIDENTE VARGAS, REPÚBLICA AMERICANA. PRIMEIRO-MINISTRO BROMSTAD, FEDERAÇÃO EUROPEIA. REPRESENTANTE ÖZBEK, PROVÍNCIA DA RÚSSIA DO SUL, FEDERAÇÃO EUROPEIA.
Uma porta se abriu, e uma mulher com cabelo louro grisalho e vestido longo azul-marinho saiu: Robyn Gliebe, porta-voz da Austrália. Quando Cress trabalhou para Levana, passou horas ouvindo os discursos de Gliebe sobre acordos de comércio e brigas trabalhistas. Não foram horas interessantes.
Gliebe fez uma pausa, pois levou um susto ao ver Cress ali de pé. Cress escondeu a arma nas costas.
— Posso ajudar? — perguntou ela, impondo-se com olhos apertados e reprovadores.
Claro, Cress tinha que dar de cara com a única diplomata terráquea que não se deixava intimidar por uma garota lunar perigosa se esgueirando pela ala dela.
— Não — disse Cress, baixando a cabeça em um pedido de desculpas. — Você me deu um susto, só isso. — Ela se moveu para passar pela mulher, com o olhar baixo.
— Você deveria estar aqui?
Hesitante, Cress olhou para ela.
— Como?
— Sua Majestade garantiu que não seríamos incomodados durante nossa estada. Acho que você deveria ir embora.
— Ah. Eu… tenho uma mensagem a entregar. Só vai levar um minuto. Desculpe por tê-la incomodado.
Cress se afastou, mas a mulher insistiu e franziu as sobrancelhas desenhadas. Dando um passo à frente, ela esticou a mão.
— Para quem é a mensagem? Vou cuidar para que a pessoa a receba.
Cress olhou para a palma da mão aberta, macia e enrugada.
— É… confidencial.
A mulher repuxou os lábios.
— Bem, se você não sair daqui imediatamente, vou ter que chamar um guarda para confirmar sua história. Prometeram-nos privacidade, e eu não…
— Cress?
O coração dela deu um pulo.
Kai.
Ele estava ali, olhando para ela como se achasse que talvez fosse um truque. Um oceano de alívio desabou em cima de Cress e quase a derrubou. Ela se segurou com uma das mãos apoiada na parede.
— Kai! — Recuperando-se, ela consertou: — Quer dizer, imperador… Vossa Majestade. — Ela fez uma reverência afobada.
Com a sobrancelha franzida, Kai olhou para a porta-voz.
— Gliebe-dàren, você ainda não desceu?
— Eu estava a caminho — disse a mulher, e, apesar de Cress não olhar nos olhos dela, sentia a desconfiança. — Mas vi essa garota e… como você sabe, nos garantiram privacidade neste andar, e acho que ela não deveria…
— Está tudo bem — disse Kai. — Eu conheço essa garota. Eu cuido disso.
Cress observou o chão e ouviu o estalo da saia de tafetá.
— Com todo o respeito, Majestade, como posso ter certeza de que ela não está manipulando você para ficar do lado dela?
— Com todo respeito — disse Kai, parecendo exausto —, se ela quisesse manipular alguém, por que não teria manipulado você para que a deixasse em paz?
Cress mordeu o lábio enquanto o momento se prolongava entre eles. Por fim, a mulher fez uma reverência.
— Claro, o senhor deve saber das coisas. Parabéns pela iminente coroação.
Os passos da mulher ecoaram na direção do hall de elevadores. Quando ela sumiu, Cress esperou três segundos e se jogou nos braços de Kai com um soluço que não sabia que estava segurando.
Kai cambaleou de surpresa, mas retribuiu o abraço, deixando que ela chorasse na camisa de seda delicada.
O conselheiro fez um som estrangulado, e Cress sentiu a arma ser tirada da mão. Estava feliz de soltá-la.
— Calma — disse Kai, acariciando o cabelo dela. — Está tudo bem.
Ela balançou a cabeça.
— Levaram Thorne. Atiraram nele e o levaram, e não sei se ele está vivo, e não sei… Não sei o que vão fazer com ele.
Cress desistiu de falar até os soluços começarem a passar. Ela baixou a cabeça, puxou as mãos e limpou as bochechas quentes.
— Desculpe. — Ela fungou. — Desculpe. É que… é muito, muito bom ver você.
— Está tudo bem. — Kai afastou Cress delicadamente para poder ver o rosto dela. — Comece do começo. Por que você está aqui?
Ela estava tentando controlar o redemoinho de emoções quando viu o ponto úmido que deixou na camisa dele.
— Ah… caramba. Desculpe. — Ela passou os dedos na camisa.
Ele a sacudiu de leve.
— Está tudo bem. Cress. Olhe para mim.
Ela o encarou e passou os pulsos nos olhos de novo. Apesar da marca que ela deixou, Kai estava elegante na túnica de seda creme. Estava presa com alamares dourados e uma faixa listrada com as cores da bandeira da Comunidade das Nações Orientais: verde-mar, azul-petróleo, laranja da cor do pôr do sol. Se a faixa fosse vermelha, seria uma réplica exata da roupa que ele estava usando quando Cinder e os companheiros o sequestraram.
Mas, não. Ele já estava casado. Era marido da rainha Levana, o homem que estava a caminho de ser coroado rei consorte de Luna.
Ela olhou para o lado. O conselheiro real Konn Torin estava usando um smoking preto básico, e Cress sentia a preocupação dele apesar da compostura. Ele estava segurando o cabo da arma entre dois dedos e parecendo tão pouco à vontade quanto Cress.
— Cress — disse Kai, roubando a atenção dela novamente.
Ela lambeu os lábios.
— Thorne e eu tínhamos que chegar ao centro de controle dos sistemas, mas ele foi capturado. Disseram alguma coisa sobre levá-lo para uma cela. Eu escapei, mas agora eu…
— Por que você está tentando ir para o centro de controle?
— Para transmitir outro vídeo que Cinder gravou. Mostra a rainha… ah! Você não deve saber que Cinder está viva!
A expressão de Kai ficou paralisada por um momento, depois ele inclinou a cabeça para trás e soltou o ar devagar. Os olhos adquiriram uma luz nova quando ele olhou para Konn Torin, mas o conselheiro estava observando Cress, ainda não preparado para ficar aliviado.
— Cinder está viva — repetiu Kai. — Onde ela está?
— Está com Iko e Jacin e… é uma longa história. — Cress contraiu o rosto e sentiu o peso do tempo. Ela começou a falar mais rápido: — Jacin ia ver se conseguia encontrar o antídoto da letumose e distribuir para os setores externos, porque tem muita gente doente, inclusive a princesa Winter, e Scarlet também. Ah, e Levana pegou Lobo, e não sabemos onde ele está, e agora estão com Thorne! — Cress escondeu o rosto atrás das mãos em uma tentativa de não molhar a camisa de Kai mais do que já tinha molhado. Kai massageou os braços dela, mas, mesmo com esse gesto solidário, ela reparou que ele estava distraído.
Konn Torin limpou a garganta. Fungando, Cress baixou as mãos e viu um lenço sendo oferecido a ela, com o braço todo estendido, como se Torin estivesse com medo de a histeria dela ser contagiosa se ele chegasse muito perto.
Cress pegou o lenço e levou ao nariz.
— Obrigada.
— Do que você precisa?
Ela voltou a atenção para Kai.
— Salvar Thorne — disse ela, sem pensar. Mas então se lembrou das últimas palavras que ele lhe disse. Seja heroica. Ela engoliu em seco. — Não, eu… eu preciso ir ao centro de controle. Preciso passar esse vídeo pelo sistema de transmissão de Levana. Cinder está contando com isso.
Kai correu a mão pelo cabelo. Cress recuou quando ele passou do imperador arrumado e penteado a um adolescente preocupado com apenas um movimento. Ela via a indecisão dele. O quanto queria ajudar em contraste com o tamanho do perigo que seu envolvimento poderia significar para o país dele.
Cress sentiu o tempo passando.
— Vossa Majestade.
Kai assentiu para o conselheiro.
— Eu sei. Vão mandar um grupo de busca se eu não aparecer logo. Mas só preciso de um minuto para… para pensar.
— Pensar em quê? — perguntou Torin. — Você perguntou a essa garota do que ela precisava, e ela deu uma resposta bem concisa. Todos nós sabemos que você vai ajudá-la, então me parece perda de tempo discutir os prós e os contras dessa decisão.
Cress mexeu nas luvas e sentiu as asas de borboleta roçarem nos braços. O conselheiro parecia ao mesmo tempo severo e gentil quando devolveu para ela a arma pelo cabo.
Cress tremeu.
— Pode ficar se quiser.
— Não quero — respondeu Torin. — Nem pretendo me colocar em nenhuma situação em que possa querer.
Com um suspiro resignado, Cress tirou a arma da mão dele. Passou um momento pensando em onde guardar, mas sua roupa não oferecia nenhuma solução boa.
— Aqui. — Torin tirou o paletó do smoking e entregou a ela. Cress hesitou, ouvindo a voz de Iko em pensamento (Isso não combina nada!), mas afastou a voz e permitiu que ele a ajudasse a vestir. Ela sumiu no paletó, mas já se sentia mais composta, menos vulnerável.
— Obrigada — disse ela, encontrando um bolso interno e enfiando a arma dentro, com uma sensação enorme de alívio.
— Vossa Majestade é esperada no salão principal em dois minutos — disse Torin, depois olhou para Kai, que estava estupefato. — Tenho certeza de que consigo enrolá-los por pelo menos mais quinze.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!