7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sete

O AMONTOADO DE ÍCONES NA TELA DO IMPERADOR KAI ESTAVA ficando cada vez maior, não só por haver tantas coisas que o novo imperador precisava ler e assinar, mas porque ele não estava se dedicando muito a ler e assinar nenhuma delas. Com os dedos enfiados no cabelo, ele olhou sem ver o painel embutido da tela destacada na mesa e viu os ícones se multiplicarem com uma sensação crescente de medo.
Deveria estar dormindo, mas, depois de incontáveis horas olhando as sombras acima da cama, acabou desistindo e decidiu ir até o escritório na tentativa de fazer algo produtivo. Estava louco por uma distração. Qualquer uma.
Qualquer coisa que afastasse os pensamentos que ficavam girando em sua mente.
Grande coisa suas boas intenções.
Inspirando controladamente, Kai olhou para o escritório vazio. Era para ser o escritório do pai, mas Kai achava o aposento extravagante demais para um local de trabalho. Três lustres ornados com franjas estavam pendurados em um teto vermelho e dourado, pintados à mão com dragões elegantes. Uma lareira holográfica ficava na parede à esquerda. Uma área de estar com mobília de cipreste entalhado cercava um minibar no canto. Vídeos silenciosos da mãe de Kai brilhavam em porta-retratos perto da porta, às vezes acompanhados de imagens de Kai quando criança e dos três juntos.
Nada tinha mudado desde a morte do pai, exceto o dono do escritório.
E talvez o cheiro. Kai se lembrava do aroma da loção pós-barba do pai, mas agora havia o fedor distinto de água sanitária e produtos químicos, que restava da faxina feita pela equipe de limpeza depois que o pai contraiu letumose, a praga que matara centenas de milhares de pessoas em toda a Terra na década anterior.
A atenção de Kai se desviou das fotos e seguiu para o pequeno pé de metal que estava no canto da mesa, com as juntas cobertas de graxa. Como uma roda girando, seus pensamentos completavam uma volta inteira mais uma vez.
Linh Cinder.
De estômago apertado, ele colocou na mesa o stylus que segurava e foi pegar o pé, mas seus dedos pararam antes de chegar até ele.
Pertencia a ela, a bela e jovem mecânica do mercado. A garota com quem era tão fácil conversar. A garota que era tão autêntica, que não fingia ser uma coisa que não era.
Ou era o que pensara.
Seus dedos se fecharam e ele recuou, desejando ter alguém com quem conversar.
Mas seu pai não estava mais lá. E agora o dr. Erland também não estava; pedira demissão e tinha ido embora sem nem se despedir.
Havia Konn Torin, o conselheiro de seu pai e agora dele também. Mas Torin, com sua constante diplomacia e lógica, jamais entenderia. Kai não sabia nem se ele mesmo entendia o que sentia quando pensava em Cinder. Linh Cinder, que tinha mentido para ele sobre tudo.
Ela era ciborgue.
Ele não conseguia afastar a lembrança de Cinder caída na base da escada do jardim, o pé solto da perna, a mão de metal branco e quente derretendo os restos de uma luva de seda, do par de luvas que tinha sido presente dele para ela.
Kai devia ter sentido repulsa. Ao reviver a lembrança, tentou sentir repulsa dos fios soltando faíscas, dos dedos cheios de sujeira e do fato de que havia falsos receptores neurais levando e trazendo mensagens do cérebro dela. Ela não era natural. Devia ser um caso de caridade, e ele não conseguia deixar de se perguntar se a família dela tinha pagado pela cirurgia ou se havia sido custeada pelo governo. Ficava pensando quem teria tido tanta pena dela a ponto de lhe dar uma segunda vida quando seu corpo humano fora tão destruído. Perguntou-se o que tinha acontecido para o corpo dela ficar tão destruído, ou se talvez ela tinha nascido desfigurada.
Ele se perguntou e se perguntou e sabia que devia ter ficado mais perturbado por cada pergunta não respondida.
Mas não ficava. Não era o fato de ela ser ciborgue que revirava seu estômago.
Na verdade, a repugnância começava no momento em que a visão que tinha dela piscou como se ela fosse uma tela quebrada. Então, de repente, e Cinder não era mais uma ciborgue indefesa e encharcada, mas a garota mais intensamente linda que ele já tinha visto. Era deslumbrante a ponto de tirar o fôlego e cegar, com a pele impecável e bronzeada e olhos brilhantes e uma expressão tão arrebatadora que ameaçava amolecer os joelhos dele.
O glamour lunar era ainda mais intenso do que o da rainha Levana, e a beleza dela era dolorosa.
Kai sabia que tinha sido isso: o glamour de Cinder, surgindo e sumindo enquanto ele estava de pé acima dela, tentando entender o que estava vendo.
O que ele não sabia era quantas vezes ela usara o glamour antes disso. Quantas vezes o tinha enganado. Quantas vezes o tinha feito de bobo.
Ou será que a garota no mercado, enlameada e desgrenhada, era a garota de verdade, afinal? A garota que arriscou a vida para ir até o baile dar um aviso a Kai, com um pé ciborgue instável e tudo...
— Não importa — disse ele para o escritório vazio, para o pé solto.
Fosse quem fosse, Linh Cinder não era mais preocupação dele. Em pouco tempo, a rainha Levana voltaria para Luna e levaria Cinder como prisioneira. Foi o acordo fechado por Kai.
No baile, ele foi forçado a fazer uma escolha, e recusou a proposta de aliança de casamento de Levana de uma vez por todas. Estava determinado a nunca sujeitar seu povo a viver à mercê de uma imperatriz tão desalmada, e, naquele momento, Cinder fora sua última peça de barganha. A paz em troca da ciborgue. A liberdade do seu povo em troca da garota lunar que ousou desafiar a rainha.
Era impossível saber quanto tempo um acordo assim duraria. Levana ainda se recusava a assinar o tratado de paz que aliaria Luna à União Terráquea. Seu desejo de ser imperatriz ou conquistadora não se saciaria por muito tempo com o sacrifício de uma simples garota.
E, da próxima vez, Kai achava que não teria mais nada para oferecer.
Desgrenhando o cabelo, Kai voltou a atenção para a emenda na tela e leu a primeira frase três vezes, esperando compreender as palavras. Precisava pensar em outra coisa, alguma coisa, antes que as intermináveis perguntas o levassem à loucura.
Uma voz monótona o interrompeu e o fez dar um salto.
— Entrada requerida pelo Conselheiro Real Konn Torin e pelo Chefe de Segurança Nacional Huy Deshal.
Kai olhou a hora. 6h22.
— Entrada concedida.
A porta do escritório se abriu lentamente. Os dois homens estavam vestidos para o dia que se iniciava, embora Kai nunca tivesse visto nenhum dos dois tão desgrenhados. Estava claro que tinham se levantado com pressa, embora ele desconfiasse por causa das olheiras de Torin, que ele não tivesse dormido muito mais do que Kai.
Kai ficou de pé para cumprimentá-los depois de clicar no canto da tela que a embutia de volta na mesa.
— Os dois estão começando cedo hoje.
— Vossa Majestade Imperial — disse o Chefe Huy, fazendo uma reverência. — Estou satisfeito por encontrá-lo acordado. Lamento informar uma falha na segurança que requer sua atenção imediata.
Kai ficou paralisado, seus pensamentos correndo, ataques terroristas, manifestantes descontrolados... a rainha Levana declarando guerra.
— O quê? O que aconteceu?
— Houve uma fuga da Prisão de Nova Pequim — disse Huy. — Aproximadamente 48 minutos atrás.
Os nervos contraíram seus ombros, e Kai olhou para Torin.
— Uma fuga?
— Dois detentos fugiram.
Kai enfiou as unhas na mesa.
— Não temos algum tipo de protocolo preparado para isso?
— Em termos gerais, sim. No entanto, essa é uma circunstância extraordinária.
— Como assim?
As rugas ao redor da boca de Huy se aprofundaram.
— Uma das detentas é Linh Cinder, Vossa Majestade. A fugitiva lunar.
O mundo virou de cabeça para baixo. O olhar de Kai se desviou para o pé ciborgue, mas o imperador logo voltou a olhar para cima.
— Como?
— Temos uma equipe analisando a filmagem de segurança para determinar o método exato. Sabemos que ela conseguiu lançar o glamour em um guarda e convencê-lo a levá-la para outra ala da prisão. De lá, conseguiu invadir o sistema de ventilação. — Constrangido, de repente, Huy mostrou dois sacos transparentes. Um continha uma mão ciborgue, o outro, um pequeno chip encharcado de sangue. — Isso foi encontrado na cela dela.
Kai abriu a boca, mas ele estava completamente estupefato pelo que via. Estava ao mesmo tempo intrigado e irritado pela mão solta.
— Isso é a mão dela? Por que ela faria isso?
— Ainda estamos trabalhando nos detalhes. Mas sabemos que ela conseguiu chegar até a plataforma de carga da prisão. Estamos trabalhando para bloquear todas as possíveis rotas de fuga a partir de lá.
Kai andou até as janelas, que iam do chão ao teto e davam vista para os jardins do lado oeste do palácio. A grama sussurrava ainda brilhando com o orvalho matinal.
— Vossa Majestade — disse Torin, a primeira vez que falava —, eu o aconselharia a acionar reforços militares para rastrear e recuperar os fugitivos.
Kai massageou a testa.
— Militares?
Torin respondeu lentamente.
— É de seu interesse fazer tudo que puder para recuperá-la.
Kai estava com dificuldade para engolir. Sabia que Torin estava certo. Qualquer hesitação seria vista como sinal de fraqueza, e possivelmente até sugeriria que ele teria ajudado a prisioneira a escapar. O que a rainha Levana certamente não encararia bem.
— Quem é o outro fugitivo? — perguntou ele, para ganhar tempo enquanto lutava para entender as implicações. Cinder, uma lunar, uma ciborgue, uma fugitiva, que ele praticamente tinha sentenciado à morte.
Fugiu.
— Carswell Thorne — disse Huy —, um ex-cadete da força aérea da República da América. Ele desertou 14 meses atrás depois de roubar uma nave de carga. No momento, não o consideramos perigoso.
Kai voltou a se aproximar da mesa, vendo que o perfil do fugitivo havia sido transferido para a tela. Franziu ainda mais a testa. Talvez não fosse perigoso, mas era jovem e inquestionavelmente bonito. A foto da prisão mostrava-o piscando de forma irreverente para a câmera. Kai o odiou na mesma hora.
— Vossa Majestade, precisamos que tome uma decisão — disse Torin. — Temos vossa permissão para mandar reforços militares para procurar os fugitivos?
Kai enrijeceu.
— Sim, claro, se é o que você julga que a situação exige.
Huy bateu continência e marchou em direção à porta.
Kai queria chamá-lo de volta imediatamente, quando mil perguntas encheram seu cérebro. Queria que o mundo desacelerasse e desse a ele tempo para compreender isso, mas os dois homens já tinham saído antes que o hesitante “esperem” pudesse sair de sua boca.
A porta se fechou, deixando-o sozinho. Lançou um único olhar para o pé abandonado de Cinder antes de desabar na cadeira e encostar a testa na fria tela.
Kai não conseguiu evitar imaginar seu pai sentado àquela mesma mesa, encarando a situação. Ele tinha certeza de que seu pai já estaria enviando mensagens, fazendo tudo que pudesse para encontrar a garota e apreendê-la, porque era o melhor para a Comunidade.
Mas Kai não era seu pai. Não era tão altruísta.
Sabendo que era errado, não conseguiu deixar de desejar que, para onde quer que Cinder tivesse ido, ela jamais fosse encontrada.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!