20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sete

Jacin acordou com um susto. Estava molhado e grudento e com cheiro de enxofre. A garganta e os pulmões estavam queimando, não dolorosamente, mas como se tivessem sido tratados de forma inadequada e quisessem garantir que ele soubesse. O instinto lhe disse que não estava em perigo imediato, mas a confusão dos pensamentos o deixou tenso. Quando abriu os olhos, as luzes fortes explodiram em sua retina. Ele fez uma careta e os fechou.
As lembranças voltaram todas de uma vez. O julgamento. As chibatadas. As quarenta horas entorpecedoras que passou amarrado naquele relógio de sol. O sorriso malicioso que Winter compartilhava só com ele. Ser levado de maca para a clínica e sentir o médico preparando seu corpo para imersão.
Ele ainda estava na clínica, no tanque suspenso de animação.
— Não se mexa — disse uma voz. — Ainda estamos desconectando os umbilicais.
Umbilicais. A palavra parecia sangrenta e orgânica demais para essa coisa na qual o enfiaram.
Houve um beliscão no braço e um puxão de pele quando uma série de agulhas foi tirada das veias, seguidos de um estalo de eletrodos quando os sensores foram descolados do peito e do couro cabeludo, os fios se emaranhando no cabelo. Ele testou os olhos de novo e piscou na claridade. A sombra de um médico surgiu acima dele.
— Você consegue se sentar?
Jacin examinou os dedos e os dobrou na densa substância em gel na qual estava deitado. Segurou as laterais do tanque e se levantou. Ele nunca tinha ficado em um negócio daqueles, nunca tinha ficado ferido o bastante para precisar e, apesar da confusão na hora de acordar, já se sentia surpreendentemente lúcido.
Ele olhou para o próprio corpo e viu traços da substância azul do tanque ainda no umbigo, grudada nos pelos das pernas e na toalha que enrolaram em sua cintura.
Tocou em uma das cicatrizes irregulares no abdome, que parecia ter cicatrizado anos antes. Nada mau.
O médico lhe entregou uma caneca de tamanho infantil com um líquido laranja que parecia xarope. Jacin olhou para o jaleco engomado do médico, para a identificação pendurada no peito, para as mãos macias que estavam acostumadas a segurar tablets e seringas, e não armas e facas. Houve uma pontada de inveja, um lembrete de que isso era mais próximo da vida que ele teria escolhido se tivesse tido a oportunidade de escolher.
Se Levana não tivesse feito a escolha por ele, quando o selecionou para a guarda real.
Embora ela nunca tivesse feito a ameaça em voz alta, Jacin soube desde o começo que Winter seria punida se ele saísse da linha.
Seu sonho de ser médico parou de importar muito tempo antes.
Ele tomou a bebida e engoliu os pensamentos junto. Sonhar era para pessoas que não tinham nada melhor para fazer.
O remédio era amargo, mas a queimação na garganta começou a passar.
Quando devolveu a caneca para o médico, reparou em uma pessoa perto da porta, ignorada pelos médicos e enfermeiros que trabalhavam ao redor do compartimento de armazenamento dos incontáveis outros tanques, verificando diagnósticos e tomando anotações nos tablets.
O taumaturgo Aimery Park. Parecendo mais arrogante do que nunca com o casaco branco elegante e chamativo. O novo cão favorito da rainha.
— Sir Jacin Clay. Você parece renovado.
Jacin não sabia se a voz funcionaria depois de ficar imerso no tanque e não queria que as primeiras palavras para o taumaturgo fossem um grunhido patético. Mas limpou a garganta e pareceu quase normal.
— Vim buscá-lo para uma audiência com Sua Majestade. Você pode ter perdido o direito à sua honrada posição no serviço à comitiva real, mas ainda pretendemos achar um uso para você. Imagino que esteja em condição de voltar à ativa, certo?
Jacin tentou não parecer aliviado. A última coisa que queria era se tornar guarda pessoal do taumaturgo-chefe de novo, ainda mais que Aimery detinha essa posição. Ele sentia um desprezo particular por esse homem, que tinha fama de ter abusado de mais de um criado do palácio com suas manipulações e cujas atenções maliciosas se dirigiam com muita frequência a Winter.
— Acredito que sim — disse ele. Sua voz estava meio enferrujada, mas não horrível. Ele engoliu em seco de novo. — Posso pedir um novo uniforme? Uma toalha não parece apropriada para a posição.
Aimery deu um sorrisinho debochado.
— Um enfermeiro vai acompanhá-lo até o chuveiro, onde um uniforme estará esperando. Vou encontrá-lo em frente ao arsenal quando você estiver pronto.


Os túneis embaixo do palácio lunar foram criados por anos de tubos de lava esvaziados, com paredes feitas de pedra preta áspera e iluminados por esparsas esferas cintilantes. Esses locais subterrâneos nunca eram vistos pela rainha nem pela corte, portanto ninguém se preocupava em torná-los bonitos para combinar com o resto do palácio, com superfícies brancas reluzentes e janelas cristalinas e sem reflexo.
Jacin gostava dos túneis. Lá embaixo, era fácil esquecer que estava sob a capital. A cidade branca de Artemísia, com seu lago enorme na cratera e pináculos altíssimos, foi construída em uma base sólida de lavagem cerebral e manipulação. Em comparação, os tubos de lava eram tão frios e ásperos e naturais quanto a paisagem fora dos domos. Eram despretensiosos. Não se enfeitavam com decorações luxuosas e brilho em uma tentativa de esconder as coisas horríveis que aconteciam dentro das paredes.
Mesmo assim, Jacin se moveu rapidamente na direção do arsenal. Não havia resíduo de dor, só a lembrança de cada chibatada e da traição do próprio braço portando a arma.
Mas ele já estava acostumado com essa traição. Seu corpo não parecia totalmente dele desde que se tornou integrante da guarda da rainha.
Pelo menos estava em casa, para o bem ou para o mal. Mais uma vez, capaz de cuidar da sua princesa. Mais uma vez, sob o controle de Levana.
Troca justa.
Ele afastou Winter dos pensamentos quando entrou no arsenal. Ela era um perigo para sua neutralidade, conseguida com muito esforço. Pensar nela costumava provocar uma coceira indesejada nos pulmões.
Não havia sinal de Aimery, mas dois guardas postavam-se em frente à porta com grade e um terceiro estava sentado a uma mesa lá dentro, todos usando os uniformes cinza e vermelhos de guardas reais, idênticos ao de Jacin, exceto pelas runas metálicas acima do peito. Jacin tinha posição mais alta do que todos eles. Teve medo de perder a posição como guarda real depois do envolvimento com Linh Cinder, mas evidentemente sua traição a ela contou para alguma coisa, afinal.
— Jacin Clay — disse ele, se aproximando da mesa — apresentando-se para reincorporação por ordem de Sua Majestade.
O guarda olhou uma lista holográfica e assentiu com um gesto rápido de cabeça. Uma segunda porta gradeada ocupava a parede atrás dele, escondendo prateleiras de armas nas sombras. O homem pegou um recipiente que continha uma arma e munição adicional e empurrou pela mesa, pela abertura nas barras.
— Tinha também uma faca.
O homem fez cara feia, como se uma faca faltando fosse a maior irritação do dia dele, e se agachou para olhar dentro do armário.
Jacin recarregou a arma enquanto o homem mexia no armário. Quando estava prendendo a arma no coldre, o homem jogou a faca dele na mesa. Ela deslizou pela superfície até a beirada. Jacin a pegou no ar antes que a lâmina se alojasse em sua coxa.
— Obrigado — murmurou ele, virando-se.
— Traidor — disse um dos guardas na porta bem baixinho.
Jacin girou a faca embaixo do nariz do guarda e a colocou na bainha no cinto sem se dar ao trabalho de fazer contato visual. Sua ascensão precoce pelas patentes gerou muitos inimigos, idiotas que pareciam achar que Jacin trapaceou para ganhar uma posição tão desejável sendo tão jovem, quando, na verdade, a rainha só queria ficar de olho nele e, por meio dele, em Winter.
O estalo das botas ecoou pelo túnel quando ele os deixou para trás. Jacin virou uma esquina e não se encolheu nem reduziu a velocidade quando viu Aimery esperando perto do elevador.
Quando estava a seis passos de distância, parou e bateu com o punho no peito.
Aimery deu um passo para o lado e seu braço foi na direção da porta do elevador. A manga comprida do casaco balançou com o movimento.
— Não vamos deixar Sua Majestade esperando.
Jacin entrou sem discutir e assumiu seu ponto habitual ao lado da porta do elevador, com os braços esticados nas laterais do corpo.
— Sua Majestade e eu andamos discutindo seu papel aqui desde seu julgamento — disse Aimery quando as portas se fecharam.
— Estou ansioso para ser útil.
Só anos de prática escondiam o quanto as palavras tinham um gosto repugnante na boca dele.
— Assim como desejamos mais uma vez ter fé em sua lealdade.
— Vou servir da forma que Sua Majestade achar que devo.
— Que bom. — Ali estava aquele sorriso de novo, e desta vez veio com um tremor suspeito. — Porque Sua Alteza Real, a própria princesa, fez um pedido por você.
O estômago de Jacin se contraiu. Não havia como ficar indiferente quando seus pensamentos dispararam.
Por favor, por favor, estrelas odiosas. Não deixem que Winter tenha feito alguma coisa idiota.
— Se seu serviço alcançar as expectativas de Sua Majestade — continuou Aimery —, vamos devolver sua posição anterior no palácio.
Jacin inclinou a cabeça.
— Sou muito grato pela oportunidade de provar meu valor.
— Não tenho dúvida, Sir Clay.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!