13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sete

O DR. DMITRI ERLAND SE SENTOU NA BEIRADA DA CAMA DE HOTEL, a colcha de algodão velha enrolada ao redor dos tornozelos. Toda a sua atenção estava dirigida para a parede que abrigava o tablet velho, cujo som cortava aleatoriamente e cuja imagem gostava de tremer e piscar em momentos inoportunos. Ao contrário da última vez que um representante lunar viera à Terra, dessa vez a chegada estava sendo transmitida internacionalmente. Não estavam escondendo o motivo da visita.
Sua Majestade, a rainha, tinha conseguido o que queria. Ela se tornaria imperatriz.
Embora a própria Levana só fosse chegar mais perto da data da cerimônia, o taumaturgo Aimery Park, como um de seus principais lacaios... er, conselheiros, chegaria mais cedo como demonstração de “boa vontade” com as pessoas da Comunidade e do planeta Terra. Isso, e para garantir que todos os planejamentos do casamento estivessem de acordo com as preferências de Sua Majestade, sem dúvida.
A cintilante nave branca com suas runas decorativas tinha pousado na pista do Palácio de Nova Pequim havia quinze minutos, mas ainda não dava sinais de abrir as portas. Um jornalista da União Africana estava enrolando, ao tagarelar ao fundo sobre detalhes triviais do casamento e da coroação: quantos diamantes a coroa da imperatriz teria, o comprimento do caminho que levaria ao altar, o número esperado de convidados e, é claro, outra menção de que a própria primeira-ministra Kamin tinha sido escolhida para ser a mestre de cerimônia.
Ele estava feliz por uma das consequências desse noivado, pelo menos. Todo esse bafafá desviou a atenção da imprensa da srta. Cinder. Ele torcia para que ela tivesse aproveitado essa feliz distração para ir procurá-lo, e logo, mas isso ainda não tinha acontecido. Ele estava ficando impaciente e bastante preocupado com a garota, mas não havia nada que pudesse fazer além de esperar pacientemente nesse deserto esquecido, continuar sua pesquisa e se preparar para o dia em que todo o seu trabalho fosse finalmente render frutos.
Entediado com a transmissão, o dr. Erland tirou os óculos e passou um momento soprando neles e limpando-os na camisa.
Parecia que os terráqueos logo esqueciam seus preconceitos quando havia um casamento real envolvido, ou talvez só estivessem morrendo de medo de falar abertamente sobre os lunares e sua tirania, ainda mais à sombra da lembrança dos ataques dos híbridos de lobo, tão recentes na memória coletiva. Além disso, desde o anúncio do casamento real, pelo menos dois integrantes da imprensa mundial que declararam que a aliança era um erro real (um administrador de redes de Bucareste-sobre-o-Mar e um editor de noticiário de Buenos Aires) tinham cometido suicídio.
O que o dr. Erland desconfiava ser uma forma diplomática de dizer “assassinado por lunares, mas quem pode provar?”.
Todo mundo estava pensando a mesma coisa, independentemente de dizer ou não. A rainha Levana era assassina e tirana, e esse casamento os arruinaria.
Mas toda a raiva dele sumia perto da percepção de que ele era um hipócrita.
Levana era assassina?
Bem, ele a ajudara a se tornar isso.
Anos se passaram, uma vida inteira, ao que parecia, desde que ele foi um dos principais cientistas na equipe de pesquisa de engenharia genética de Luna. Liderou várias das grandes descobertas, ainda na época em que Channary era rainha, antes de Levana assumir, antes de sua Lua Crescente ser assassinada, antes de a princesa Selene ser levada para a Terra. Ele foi o primeiro a integrar com sucesso a genética de um lobo do Ártico com a de um garoto de dez anos, dando a ele não apenas muitas das habilidades físicas que já tinham aperfeiçoado, mas também os instintos brutais de um animal.
Algumas noites ele ainda sonhava com os uivos daquele garoto na escuridão.
Erland tremeu. Depois de puxar o cobertor sobre as pernas, voltou a atenção para a transmissão.
Finalmente, a porta da espaçonave se levantou. O mundo viu a rampa bater na plataforma.
Uma procissão de nobres lunares saiu da nave primeiro, como um grupo de gansos, trajando sedas vibrantes e chiffons esvoaçantes e enfeites de cabeça com véus. Isso tinha virado moda durante o reinado da rainha Channary, que, como a irmã, se recusava a revelar seu verdadeiro rosto em público.
Erland se viu chegando mais perto da tela, se perguntando se identificava algum de seus antigos colegas por baixo das capas.
Mas não teve sorte. Anos demais se passaram, e havia uma boa chance de todos os detalhes reveladores que ele decorou serem apenas glamour que criaram. Ele mesmo sempre passou a ilusão de ser bem mais alto quando estava cercado pela narcisista corte lunar.
Os guardas saíram depois, seguidos de cinco taumaturgos de terceiro nível, usando casacos pretos bordados. Todos eram bonitos sem precisar de glamour, como a rainha preferia, embora ele desconfiasse que poucos tinham nascido com aparência tão boa naturalmente. Muitos de seus colegas de Luna tinham negócios paralelos lucrativos que ofereciam cirurgias plásticas, ajustes de melatonina e reconstruções corporais para candidatos a taumaturgos e guardas reais.
Na verdade, ele sempre gostou do boato de que as maçãs do rosto de Sybil Mira eram feitas de canos reciclados.
O taumaturgo Aimery saiu por último, com o jeito tranquilo e arrogante de sempre, vestindo um casaco vermelho que complementava muito bem a pele morena. Ele se aproximou do imperador Kaito, que o aguardava, e de seu grupo de conselheiros e representantes, e todos fizeram uma reverência respeitosa.
O dr. Erland balançou a cabeça. O pobre e jovem imperador Kai. Ele acabou sendo jogado aos leões durante seu breve reinado, não foi?
Uma batida tímida balançou a porta, fazendo o dr. Erland dar um pulo.
Olha para ele, desperdiçando tempo com procissões lunares e alianças reais que, com sorte, jamais seriam concretizadas. Se ao menos Linh Cinder parasse de perambular entre a Terra e o espaço e começasse a seguir instruções, para variar.
Ele ficou de pé e desligou a tela. Toda essa preocupação acabaria provocando uma úlcera.
No corredor estava um garoto magrelo que não podia ter mais de doze ou treze anos, de cabelo escuro curto e com corte irregular. O short que usava ia abaixo dos joelhos e tinha as barras desfiadas, e os pés com sandálias estavam cobertos da areia fina que encobria tudo nesta cidade.
Ele estava empertigado, como se quisesse passar a impressão de que não se encontrava nem um pouco nervoso.
— Tenho um camelo para vender. Ouvi que você talvez estivesse interessado. — Sua voz tremeu na última palavra.
O dr. Erland baixou os óculos para a ponta do nariz. O garoto era magro, claro, mas não parecia malnutrido. A pele escura parecia saudável, os olhos brilhantes e alertas. Em mais um ano ou dois, Erland desconfiava que ele seria o mais alto entre os dois.
— Uma corcova ou duas? — perguntou ele.
— Duas. — O garoto respirou fundo. — E ele não cospe nunca.
Erland inclinou a cabeça. Tinha que tomar cuidado em contar essa linguagem em código para qualquer pessoa, mas parecia que a notícia se espalhava depressa, mesmo nas cidades oásis vizinhas. Todos estavam sabendo que o doutor velho e maluco procurava lunares dispostos a ajudá-lo com algumas experiências e que podia pagar pela ajuda.
É claro que o conhecimento que se espalhava de seu status de semicelebridade, junto com anúncios de procurado pela Comunidade, só ajudou. Ele achava que muitas das pessoas que iam bater a sua porta estavam apenas curiosas sobre o lunar que se infiltrou na equipe de um palácio real terráqueo... e que ajudou a verdadeira celebridade, Linh Cinder, a fugir da prisão.
Ele teria preferido o anonimato, mas esse parecia um método eficiente de conseguir novas cobaias, das quais ele precisava se queria copiar o antídoto para a letumose que os cientistas lunares descobriram.
— Entre — disse ele, recuando para dentro do quarto.
Sem esperar para ver se o garoto foi atrás, ele abriu a porta do armário que tinha transformado em minilaboratório. Frascos, tubos de ensaio, placas de Petri, seringas, escâneres, uma variedade de produtos químicos, tudo cuidadosamente rotulado.
— Não posso pagar em univs — disse, pegando um par de luvas de látex. — Só posso fazer troca. Do que você precisa? Comida, água, roupas, ou, se você estiver disposto a esperar pelo pagamento depois de seis amostras consecutivas, posso conseguir transporte de ida para a Europa, sem necessidade de documentação.
Ele abriu uma gaveta e tirou uma agulha do fluido esterilizante.
— E remédios?
Ele olhou para trás. O garoto não tinha nem dado dois passos para dentro do quarto.
— Feche a porta, antes que as moscas entrem — disse ele. O garoto obedeceu, mas sua atenção estava dirigida à agulha. — Por que você quer remédios? Está doente?
— É para meu irmão.
— Também lunar?
O garoto arregalou os olhos. Eles sempre faziam isso quando o dr. Erland dizia a palavra de forma tão casual, mas ele nunca entendeu por quê. Ele só pedia lunares. Só lunares batiam à porta dele.
— Não fique tão assustado — resmungou o dr. Erland. — Você deve saber que também sou lunar.
Ele fez um glamour rápido para provar que era, uma manipulação simples para que o garoto o visse como uma versão mais jovem de si mesmo, mas só por um instante.
Embora andasse mexendo com bioeletricidade mais livremente desde que chegou à África, ele achava que o deixava cada vez mais esgotado. Sua mente não era tão forte quanto costumava ser, e fazia anos que ele não tinha prática consistente.
Mesmo assim, o glamour teve o efeito esperado. A postura do garoto relaxou após ele ter alguma certeza de que o dr. Erland não faria com que ele e sua família fossem enviados para a lua para serem executados.
Mas não chegou mais perto mesmo assim.
— Sim — disse ele. — Meu irmão também é lunar. Mas ele é cascudo.
Então, foram os olhos de Erland que se arregalaram.
Um cascudo.
Isso tinha valor verdadeiro. Embora muitos lunares viessem para a Terra a fim de proteger as crianças sem dom, encontrar essas crianças se mostrou mais difícil do que Erland esperava. Elas se misturavam bem demais com os terráqueos e não tinham o menor desejo de abrir mão desse disfarce. Ele se perguntava se metade deles tinha ao menos noção de quem eram seus ancestrais.
— Quantos anos? — perguntou, colocando a seringa na bancada. — Eu pagaria o dobro por uma amostra dele.
Com a ansiedade repentina de Erland, o garoto deu um passo para trás.
— Sete — respondeu ele. — Mas está doente.
— De quê? Tenho analgésicos, afinadores de sangue, antibióticos...
— Ele tem a peste, senhor. Você tem remédio para isso?
O dr. Erland franziu a testa.
— Letumose? Não, não. Isso não é possível. Conte os sintomas dele para mim. Vamos descobrir o que ele tem de verdade.
O garoto pareceu irritado por ouvir que estava enganado, mas não sem uma pontada de esperança.
— Ontem à tarde ele começou a ficar com a pele irritada, com hematomas pelos braços, como se tivesse brigado. Mas não brigou. Quando acordou hoje de manhã, estava quente ao toque, mas ficava dizendo que estava morrendo de frio, mesmo nesse calor. Quando nossa mãe verificou, a pele debaixo das unhas dele tinha ficado azulada, como acontece na peste.
Erland levantou a mão.
— Você disse que ele ficou com manchas ontem, e as unhas já estavam azuis hoje de manhã?
O garoto assentiu.
— Além disso, logo antes de eu vir para cá, todas as manchas estavam inchando, virando bolhas de sangue. — Ele fez uma careta.
Um alarme tocou dentro do doutor enquanto sua mente procurava uma explicação. Os primeiros sintomas pareciam mesmo de letumose, mas ele nunca tinha ouvido que era possível a doença passar pelos quatro estágios tão rápido. E as manchas vermelhas virando bolhas de sangue... ele nunca tinha visto isso antes.
Não queria pensar na possibilidade, mas era uma coisa que vinha esperando que acontecesse havia anos. Uma coisa que achava que ocorreria. Uma coisa que temia.
Se o que o garoto dizia fosse verdade, se o irmão dele estava com letumose, isso poderia significar que a doença sofria mutação.
E se até um lunar tinha sintomas...
Erland pegou o chapéu na mesa e colocou na cabeça calva.
— Me leve até ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!