3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sete

O DR. DIMITRI ERLAND ARRASTOU O DEDO PELO TABLET, escaneando os registros do paciente. Homem. Trinta e dois anos. Tinha um filho, mas não havia menção a uma esposa. Desempregado. Transformado em ciborgue depois de um acidente de trabalho que o debilitara, havia três anos. Sem dúvida gastara quase todas as economias na cirurgia. Viera de Tóquio.
Tantas coisas contra ele, e o dr. Erland não podia explicar isso a ninguém.
Pressionando a língua entre os dentes, zombou de seu desapontamento.
— Qual a sua opinião, doutor? — perguntou a assistente do dia, uma garota de pele escura cujo nome ele nunca lembrava e que era mais alta do que ele pelo menos dez centímetros. Ele gostava de encarregá-la de tarefas que a mantinham sentada ao trabalhar.
O dr. Erland encheu os pulmões lentamente, e em seguida soltou o ar de uma só vez, mudando a tela para o diagrama mais relevante do corpo do paciente. Ele tinha uma mera composição de 6.4% — seu pé direito, alguma instalação elétrica e um painel de controle do tamanho de uma unha embutido na coxa.
— Muito velho — disse ele, arremessando o tablet na bancada de trabalho diante da janela de observação. Do outro lado do vidro, o paciente estava deitado em uma mesa de laboratório. Parecia tranquilo, exceto pelos dedos que batucavam loucamente nas almofadas de plástico. Seus pés estavam descalços, mas um enxerto de pele cobria a prótese.
— Muito velho? — disse a assistente. Ela se levantou e veio até a janela, agitando seu próprio tablet para ele. — Trinta e dois é muito velho agora?
— Não podemos usá-lo.
Ela fez uma expressão desapontada.
— Doutor, esta será a sexta cobaia dispensada pelo senhor este mês. Não podemos nos dar o luxo de continuar fazendo isso.
— Ele tem uma criança. Um filho. É o que diz bem aqui.
— Sim, um filho que poderá jantar hoje à noite porque seu papai foi sortudo o bastante por preencher os requisitos dos nossos testes.
— Por preencher os requisitos? Com uma taxa de 6,4%?
— É melhor do que testar em pessoas. — Ela largou o tablet ao lado de uma pilha de placas de petri. — Você realmente quer dispensá-lo?
Dr. Erland olhou para o interior da sala de quarentena, um rosnado zumbindo no fundo de sua garganta. Jogando os ombros para trás, puxou o jaleco para baixo.
— Ponha-o no grupo de placebo.
— Pla… mas ele não está doente!
— Sim, mas se não dermos nada a ele, a tesouraria questionará o que está fazendo aqui. Agora, dê um placebo a ele e faça um relatório para que possa seguir seu caminho.
A garota bufou e foi buscar um tubo etiquetado na prateleira.
— E o que nós estamos fazendo aqui?
Dr. Erland ergueu um dedo, mas a garota lançou um olhar tão irritado para ele que se esqueceu do que ia dizer.
— Qual é o seu nome mesmo?
Ela revirou os olhos.
— Honestamente. Eu só sou sua assistente todas as segundas-feiras nos últimos quatro meses.
Ela deu as costas a ele, sua longa trança preta batendo no quadril. Dr. Erland franziu o cenho enquanto olhava para a trança, observando seu movimento para cima, enrolando-se em si mesma. Uma cobra negra e brilhante empinando a cabeça. Sibilando para ele. Pronta para atacar.
Ele fechou os olhos com força e contou até dez. Quando os abriu de novo, a trança era só uma trança. Cabelo preto brilhante. Inofensivo.
Tirando o chapéu, dr. Erland passou a mão pelo cabelo, cinzento e consideravelmente menos espesso do que o de sua assistente.
As visões estavam piorando.
A porta do laboratório se abriu.
— Doutor?
Ele se sobressaltou e enfiou o chapéu de volta na cabeça.
— Sim? — respondeu, pegando seu tablet. Li, outro assistente, pousou a mão na maçaneta. Dr. Erland sempre gostara de Li, que também era alto, mas não tanto quanto a garota.
— Há uma voluntária aguardando na 6D — disse Li. — Alguém que trouxeram ontem à noite.
— Uma voluntária? — disse a garota. — Faz tempo que não temos uma dessas por aqui.
Li tirou um tablet do bolso superior do jaleco.
— Ela é jovem, uma adolescente. Não fizemos o diagnóstico ainda, mas acho que terá uma taxa bem alta. Não tem enxerto de pele.
Dr. Erland empertigou-se, coçando a têmpora com o canto do tablet.
— Você disse adolescente? Que… — Ele se esforçou para encontrar uma descrição apropriada. Incomum? Coincidência? Sorte?
— Suspeito — disse a garota, a voz baixa. O dr. Erland se virou, vendo-a carrancuda e encarando-o.
— Suspeito? O que você está dizendo?
Ela se abaixou no canto da bancada, diminuindo a altura até o nível dos olhos dele, mas ainda parecia intimidadora com os braços cruzados e uma cara fechada e insensível.
— Que você está sempre querendo encaminhar para o grupo de placebo os ciborgues masculinos que chegam, mas se anima no mesmo instante que ouve falar de uma garota, especialmente as mais jovens.
Ele abriu a boca, fechou-a, e em seguida começou de novo.
— Quanto mais jovem, mais saudável — respondeu. — Quanto mais saudável, menos complicações teremos. E não é minha culpa que o recrutamento continue selecionando garotas.
— Menos complicações. Tudo bem. De qualquer forma, elas vão morrer.
— Sim, bem. Agradeço seu otimismo. — Ele gesticulou para o homem no outro lado do vidro. — Placebo, por favor. Junte-se a nós quando terminar. — Ele saiu do laboratório, Li ao seu lado, e, com a mão em forma de concha sobre a boca, perguntou: — Qual é mesmo o nome dela?
— Fateen?
— Fateen! Nunca consigo me lembrar. Qualquer dia desses, esquecerei meu próprio nome.
Li deu um risinho discreto, e o dr. Erland sentiu-se bem por ter feito a piada.
As pessoas toleram melhor um homem idoso que está perdendo a memória se de vez em quando ele trata o assunto com humor.
O corredor estava vazio, exceto pelos dois medidroides parados próximo à escadaria, aguardando ordens. Era uma caminhada curta até o laboratório 6D.
O dr. Erland puxou uma caneta de detrás da orelha e bateu a ponta no tablet, baixando a informação que Li lhe enviara. O perfil da nova paciente se abriu.

LINH CINDER, MECÂNICA LICENCIADA
ID # 0097917305
NASCIDA EM 29 NOV. 109 TERCEIRA ERA
0 APARIÇÕES NA MÍDIA
RESIDENTE EM NOVA PEQUIM, COMUNIDADE DAS NAÇÕES ORIENTAIS.
SOB A GUARDA DE LINH ADRI.

Li abriu a porta para o laboratório. Enfiando a caneta atrás da orelha novamente, dr. Erland entrou na sala com os dedos contraídos.
A garota estava deitada na mesa do outro lado da janela de observação. A sala estéril de quarentena estava tão clara que ele teve que semicerrar os olhos para enxergar. Um medidroide tampava um frasco plástico cheio de sangue e depositava-o no conduto, enviando-o para o laboratório.
As mãos e pulsos da garota haviam sido amarrados com tiras de metal. Sua mão esquerda era de aço, embaciada e escura entre as articulações, como se precisasse de uma boa limpeza. As pernas da calça haviam sido enroladas até a altura das panturrilhas, revelando uma perna humana e outra sintética.
— Ela já está ligada? — perguntou ele, deslizando o tablet para o bolso do casaco.
— Ainda não — disse Li. — Mas olhe pra ela.
O dr. Erland grunhiu, reprimindo a frustração.
— Sim, a taxa dela deve ser impressionante. Mas não é da melhor qualidade, é?
— Talvez não externamente, mas você devia ver o sistema elétrico dela. Autocontrole e sistema nervoso de quarta geração.
Dr. Erland ergueu uma sobrancelha, mas logo a abaixou.
— Ela foi desobediente?
— Os medidroides tiveram dificuldade para apreendê-la. Ela acertou em cheio dois deles com uma… correia, ou algo assim, antes que eles pudessem sobrecarregar o seu sistema com eletricidade. E ela havia passado a noite toda fora.
— Mas ela é voluntária?
— A guardiã legal dela a tornou voluntária. Ela desconfia que a paciente já tenha tido contato com a doença. Uma irmã, trazida ontem.
O dr. Erland puxou o microfone pela mesa.
— Acorda, acorda, bela adormecida — cantarolou, batucando no vidro.
— Eles a atordoaram com 200 volts — disse Li. — Mas acho que ela deve voltar a si a qualquer minuto.
O dr. Erland enfiou os polegares nos bolsos do casaco.
— Bem. Não precisamos que ela esteja consciente. Vamos em frente e comecemos logo.
— Ah, que bom — disse Fateen no corredor. Os saltos de seu sapato retiniram contra o chão de ladrilhos quando ela entrou no laboratório. — Fico feliz que você tenha achado uma que se encaixa nos seus padrões.
O dr. Erland pressionou um dedo contra o vidro.
— Jovem — disse ele, mirando o brilho metálico das coxas da garota. — Saudável.
Com um sorriso de desdém, Fateen tomou um assento diante de uma tela que projetava os registros do ciborgue.
— Se trinta e dois anos é velho e decrépito, o que isso faz de você, coroa?
— Muito valioso no mercado de antiguidades. — O dr. Erland baixou os lábios até o microfone. — Med? Prepare o medidor de taxas, por favor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!