20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta

— Os moradores de GM-3 dominaram os guardas enviados para sufocar o levante que começou nas fábricas ontem à tarde — disse Aimery, recitando a informação a partir de um tablet, como se fosse coisa corriqueira. Levana permitiu a encenação e manteve o rosto calmo enquanto ouvia o relato. Só o pé ficava batendo no piso brilhante do solar, tremendo com fúria controlada. — Estamos enviando um novo regimento de guardas junto com um taumaturgo desta vez. O levante em WM-2 foi sufocado, com sessenta e quatro mortes civis e uma perda de cinco guardas. Estamos conduzindo um censo completo no setor, mas estimamos que cerca de duzentos civis tenham escapado antes da insurreição, junto com uma quantidade desconhecida de armas e munições roubadas. Os guardas de todos os setores vizinhos foram colocados em alerta.
Levana sufocou um longo suspiro. Andou até as enormes janelas que davam vista para a cidade. A cidade perfeita, imaculada e tranquila. Parecia impossível que tanto caos estivesse acontecendo no planeta dela, ainda mais com tudo ali tão calmo, tão normal.
E tudo por causa daquela ciborgue, do vídeo maldito e dos discursos idiotas.
— Dezesseis setores agrários se recusaram a carregar os trens de suprimentos que levamos — continuou Aimery. — E nos disseram que um trem desprotegido, transportando laticínios, muitos destinados às comemorações desta semana, foi tomado por um grupo de civis perto de AR-5 e esvaziado. Não conseguimos recuperar nada nem apreender os ladrões dessa vez. — Ele limpou a garganta. — No setor GM-19, os cidadãos bloquearam duas das três plataformas de trens, e hoje de manhã mataram vinte e quatro guardas enviados para derrubar os bloqueios. Estamos compilando um regimento controlado por taumaturgos para enviar para lá.
Levana ajeitou uma dobra no ombro.
— No setor SB-2…
O elevador apitou no centro da sala, afastando a atenção de Levana da cidade. O taumaturgo Lindwurm entrou e fez uma reverência apressada, com as mangas pretas roçando o chão.
— Vossa Majestade.
— Se você veio me dizer que os setores externos estão um caos e que as pessoas estão se rebelando, infelizmente você está atrasado. — Ela estalou os dedos para o servo ao lado das portas dos elevadores. — Traga vinho.
O servo saiu correndo.
— Não, minha rainha — disse Lindwurm. — Tenho notícias dos alojamentos, Regimento 117.
— O quê? Eles também estão se rebelando? — Levana riu, embora por baixo da histeria houvesse um medo crescente. Poderia aquela ciborgue ter virado o país todo contra ela com tanta facilidade?
— Talvez, minha rainha — respondeu Lindwurm.
Levana se virou para ele.
— O que você quer dizer com talvez? Eles são meus soldados. Não podem se rebelar contra mim.
Lindwurm baixou o olhar.
— Nossa equipe de segurança recebeu uma notificação duas horas atrás de que a identificação da princesa Winter foi rastreada na parte externa do alojamento.
O sorriso de Levana sumiu.
— Winter? — Ela olhou para Aimery, que se empertigou, com o interesse aguçado. — Então ela está mesmo viva. Mas o que estaria fazendo lá?
— O sistema captou as impressões digitais dela sendo usadas para entrar no alojamento. Depois de saber sobre a brecha na segurança, os oito taumaturgos que restaram do Regimento 117 foram enviados para verificar se a princesa era uma ameaça.
— Imagino que seja demais esperar que tenham encontrado a garota querida em pedacinhos sangrentos.
Era o que deveriam ter encontrado. Os animais deveriam ter matado Winter sem hesitação; foi isso que foram criados para fazer. Mas ela desconfiava que não tinha sido assim.
— Pelo que pudemos verificar, quando os taumaturgos chegaram, os soldados se viraram contra eles e os atacaram — informou Lindwurm. — Os oito estão mortos.
O sangue dela ferveu e latejou nas têmporas.
— E Winter?
— A princesa e os soldados abandonaram o alojamento. Câmeras de segurança mostraram todos eles subindo ao setor mais próximo, EM-12. É um dos setores em revolta, mas não o estávamos considerando uma ameaça de alta prioridade.
— Você está dizendo que meus soldados ficaram do lado da garota?
Lindwurm baixou a cabeça.
O servo voltou carregando uma bandeja de prata com um decantador e um copo de cristal. Levana ouviu o decantador tremendo na beira do copo quando o vinho foi servido. Ela quase não sentiu o peso do copo na mão quando o pegou.
— Saia — ordenou ela, e o servo não conseguiu fugir rápido o bastante.
Ela foi até a janela. Sua cidade. Sua lua. O planeta que ela um dia governaria pairando no horizonte, quase cheio.
Quando deu a Jacin Clay a oportunidade de reconquistar sua boa vontade matando a princesa, imaginava que ele fosse tentar alguma coisa idiota, mas esperava que ele fosse perceber o quanto era inútil. Esperava que fosse escolher acelerar a morte de Winter para que a garota sofresse o mínimo possível, em vez de arriscar uma sentença mais brutal. Isso era misericórdia, afinal. Misericórdia.
Mas ele fracassou. Winter ainda estava viva, e estava tentando roubar o exército de Levana, assim como roubou a adoração das pessoas, assim como Selene estava estragando tudo.
Ela tentou imaginar a cena. A dócil e meio maluca Winter piscando os olhinhos para as feras brutais e eles caindo nessa. Ah, ficariam doidos por ela. Cairiam de joelhos e implorariam para obedecê-la. Seguiriam a amada princesa a qualquer lugar.
— Minha rainha — disse Aimery, levando o punho ao peito. — Sinto-me responsável por termos falhado na busca à princesa durante a ação em MR-9. Por favor, me dê essa chance de compensar o erro. Vou até esse setor para resolver a questão da princesa. Não vou falhar de novo.
Ela se virou para encará-lo.
— Você pretende matá-la, Aimery?
Uma pausa… bem rápida, mas que existiu.
— Claro, minha rainha.
Rindo, Levana tomou um gole de vinho.
— Não tem muito tempo que você pediu para se casar com ela. Você a acha bonita?
Ele riu.
— Minha rainha. Todo mundo acha a princesa bonita, mas ela não é páreo para Vossa Majestade. Você é a perfeição.
— Eu já comecei a me perguntar se a perfeição não é uma falha. — Ela deu um sorrisinho. — Embora talvez uma falha possa contribuir para a perfeição. — Ela grudou o olhar em Aimery e ajustou o glamour, criando três arranhões intensos e sangrentos na bochecha direita.
Ele engoliu em seco.
— Eu conheço você há muitos anos, Aimery. Sei que gosta que elas sejam quebradas. Vocês seriam um bom casal, no fim das contas… você é tão patético quanto ela. — Ela jogou a taça. Aimery se abaixou e bloqueou o copo com o antebraço. A taça caiu no chão, o vinho se derramou como uma mistura de água e sangue, espirrando nos sapatos de Levana. — Você vai ter sua chance de provar sua lealdade, mas não no que diz respeito a Winter. Parece que ninguém tem estômago para fazer o que precisa ser feito; nem você, nem Jacin Clay, nem mesmo meus amados bichinhos. Estou cansada de decepções.
Ela se virou de costas. Os pensamentos giravam com traição, nojo e inveja. Sim, até inveja. Tudo por causa daquela menina insignificante. Aquela coisinha fraca e frágil. Se ao menos a tivesse matado anos atrás, antes de ela ficar tão bonita. Antes de se tornar uma ameaça. Levana deveria tê-la matado na primeira vez que a viu dormindo no berço. Deveria tê-la matado quando mandou a mão de Winter pegar aquela faca, quando tinha certeza de que uma leve desfiguração acabaria com todos os sussurros na corte, com toda a falação da enteada de treze anos já concorrendo ao título de garota mais bonita de Luna.
Não deveria ter feito aquela promessa idiota a Evret, tantos anos antes. O que eram promessas quando feitas aos mortos?
Quando sua respiração voltou a se regularizar, ela apagou as cicatrizes de sua pele perfeita.
O taumaturgo Lindwurm respirou fundo para lembrá-la de sua presença.
— Minha rainha, vamos criar uma força-tarefa para lidar com a princesa e com os soldados desertores. Devo mandá-los matar a princesa assim que a virem?
Ela olhou por cima do ombro.
— Eu sou uma boa rainha, não sou?
Lindwurm ficou tenso.
— Não há a menor dúvida disso.
— Eu mantive este país unido. Declarei uma guerra por ele, para que meu povo tenha acesso a tudo o que a Terra tem a oferecer. Fiz tudo por eles. Por que estão fazendo isso? Por que eles amam, se ela não fez nada para merecer? Se não fosse tão bonita, eles veriam como ela é de verdade. Manipuladora, conspiradora… ela debocha de tudo o que defendemos.
Nem Aimery nem Lindwurm responderam.
Levana respirou fundo, trêmula, e disse com rispidez:
— Encontrem outro servo que me traga mais vinho.
Lindwurm fez uma reverência e saiu.
— A morte não é o bastante para ela — murmurou Levana baixinho, passando por Aimery. — A morte foi a escolha misericordiosa, porque fiz uma promessa para meu marido, mas ela perdeu o direito à misericórdia. Quero que todos vejam como ela é. Fraca e patética por fora, assim como é por dentro.
Aimery apertou os lábios. Parecia arrogante, mesmo quando assumia uma postura servil.
— Diga-me como posso melhor servi-la.
— A rebelião está durando muito. Nem comida nem suprimentos devem ser enviados para os setores externos, a não ser que estejam preparados para implorar por perdão. Está na hora de os cidadãos de Luna lembrarem o quanto têm sorte de me ter. — O coração dela pulou de expectativa. — E mande chamar o dr. Evans. Tenho uma tarefa especial para ele.
— E a princesa, minha rainha?
— Não se preocupe com sua querida princesa desfigurada. — Com expressão de desprezo, Levana se inclinou para a frente e passou o polegar pelo maxilar de Aimery, limpando uma gota de vinho. — Eu mesma vou cuidar dela, como deveria ter feito muito tempo atrás.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!