13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta

— NÃO CONSIGO ACREDITAR QUE VOCÊ ME SEQUESTROU! — gritou Kai, virando-se para olhar para ela antes de Cinder se preparar. — Estamos em uma espaçonave, Cinder. No espaço! — Ele apontou para a parede. Não era a parede externa, mas Cinder não viu necessidade de observar isso. — Não posso estar em uma espaçonave. Tenho um país para governar. Tenho pessoas que precisam de mim. Estamos à beira de uma guerra. Você entende isso? Guerra. Em que pessoas morrem. Não posso ficar aqui em cima, perdendo tempo com você e um bando de desajustados! Você sabe que está abrigando um dos mutantes dela aqui?
— Ah, sei. Aquele é Lobo. Ele é inofensivo. — Ela revirou os olhos. — Bem, não inofensivo...
Ele riu, mas foi uma gargalhada aguda e delirante.
— Não consigo... como você... o que você estava pensando?
— De nada — murmurou ela, cruzando os braços com postura desafiadora.
Ele olhou para ela com raiva e sem gratidão.
— Me leve de volta para a Terra.
— Não posso fazer isso.
— Cinder...
Ele bufou. Reconsiderou. Suavizou a expressão... só um pouco.
A mudança afetou imediatamente as defesas de Cinder e gerou um formigar estranho atrás da caixa torácica. Ela apertou os cotovelos com a ponta dos dedos.
— Como uma pessoa que entende por que você fez isso e admira sua capacidade de conseguir fazer, eu estou... implorando. Cinder. Por favor. Me leve de volta.
Ela encheu os pulmões.
— Não.
A suavidade sumiu na mesma hora. Kai inclinou a cabeça para trás e enfiou as mãos no cabelo. Ela ficou surpresa com o quanto o gesto era familiar.
— Quando você ficou tão frustrante?
Ela passou a ponta da bota no chão.
— Tudo bem! Como seu imperador, eu ordeno que você me devolva à Terra. Imediatamente.
Cinder se balançou sobre os calcanhares.
— Kai... Vossa Majestade. Você deve lembrar que sou lunar. E lunares são proibidos de ganhar cidadania na Comunidade dos Países Orientais. Portanto... você não é mais meu imperador.
— Isso não é brincadeira.
Ela ficou surpresa com o quanto as palavras doeram. Como antes, no palácio, a indignação cresceu de forma rápida e ardente.
— Você não faz ideia do quanto estou levando isso a sério.
— Está? Você imagina quais serão as consequências do que você fez?
— Na verdade, sim. Sei que isso é guerra. Sei que mais pessoas vão morrer antes de isso acabar. Mas não tivemos escolha.
— Sua escolha era ficar fora do caminho! Sua escolha era não fazer nada! Isso é meu trabalho, minha responsabilidade. Eu sou o imperador. Deixe que eu cuido disso.
— Deixando você se casar com ela? Isso é cuidar?
— É minha decisão.
— É uma decisão burra!
Kai se virou com as mãos enfiadas no cabelo. O produto usado para ajeitar o penteado para o casamento o estava deixando mais bagunçado do que o habitual, e, pelas estrelas, ele estava lindo.
Cinder sufocou o pensamento, irritada consigo mesma.
— Por favor — disse ele, a voz tensa, olhando de novo para ela. — Por favor, me diga que isso não é... um ato infantil de ciúme. Por favor, me diga que isso tudo não é só porque eu convidei você para o baile, ou por causa daquela vez no elevador, ou...
— Ah, você não pode estar falando sério. Espero que não pense mesmo tão pouco de mim.
— Você atirou em mim, Cinder, depois me sequestrou. Eu sinceramente não sei o que pensar.
— Bem, acredite ou não, não fizemos isso só por você. Estamos tentando salvar o mundo todo de sua noiva louca por poder. Eu me recuso a deixar Levana se tornar imperatriz. Eu me recuso a dar reinado livre para ela sobre a Comunidade. Mas precisamos de mais tempo.
— Mais tempo para quê? A única coisa que você fez foi deixá-la com mais raiva, de forma que, quando ela retaliar, a ira vai ser muito pior. Isso era parte do seu plano de mestre, ou você está inventando tudo de improviso?
O sangue de Cinder começou a ferver, e ela desejou desesperadamente poder dizer para ele que sim, claro que eles tinham um plano com garantia de funcionar. Com garantia de livrá-los da rainha Levana e da tirania dela para sempre. Mas não havia garantia. Só um fio de esperança e a sabedoria de que perder não era opção.
Ela engoliu em seco.
— Eu tenho um plano para acabar com isso de vez. Mas preciso de sua ajuda.
Kai apertou a parte de cima do nariz.
— Cinder. Eu odeio Levana tanto quanto você. Mas é ela quem puxa as cordinhas aqui. Ela tem um exército... como nunca vi antes. Sabe aqueles nojentos que mataram mil e seiscentas pessoas duas semanas atrás? São risíveis em comparação ao que ela é capaz. Além do mais, ela tem o antídoto da letumose, e precisamos dele desesperadamente, você sabe o quanto. Por isso, apesar de a ideia de me casar com Levana e de coroá-la como imperatriz me dar vontade de arrancar os próprios olhos, não tenho escolha.
— Arrancar seus próprios olhos? — disse ela baixinho. — Ela poderia levar você a fazer isso, sabe.
A expressão dele escureceu.
— Você também, pelo que eu soube.
Ela afastou o rosto.
— Kai... Vossa Majestade...
Ele balançou os braços.
— Kai está bem. Não ligo.
Cinder apertou os lábios. A sensação era de vitória, mas não merecida.
— Você precisa confiar em mim. Podemos derrotá-la. Sei que podemos.
— Como? Mesmo se... vamos dizer que vocês possam. Vamos dizer que até a matem. Ainda há um grupo todo de taumaturgos prontos para tomar o lugar dela, e, pelo que eu vi, não são muito melhores.
— Vamos escolher a pessoa para substituí-la. Nós... já temos um substituto, na verdade.
Ele deu uma risada debochada.
— Ah. Entendo. Pois você acha que o povo lunar vai simplesmente reverenciar qualquer... pessoa... — Ele parou de falar e seus olhos se arregalaram. E, por um momento, a raiva sumiu. — A não ser que... espere. Você não está falando...?
Ela olhou para o chão.
Ele deu um único passo na direção dela.
— Você a encontrou? A princesa Selene? É isso?
Cinder tirou o alicate do bolso por precisar de algo em que mexer enquanto os nervos vibravam. Ela se lembrou de que a mão de metal ainda estava à mostra, mas Kai não olhou para ela nem uma vez durante a discussão.
— Cinder?
— É — murmurou ela. — É. Nós a encontramos.
Kai apontou para o compartimento de carga.
— É aquela garota loura?
Ela balançou a cabeça, e Kai franziu a testa.
— A garota da França? Qual era o nome dela... Scarlet alguma coisa?
— Não. Não é Scarlet.
Ela apertou o alicate e tentou direcionar toda a energia que sentia para ele.
— Então onde ela está? Está nessa nave? Posso conhecê-la? Ou ainda está em algum lugar na Terra? Está escondida?
Como Cinder não disse nada, Kai franziu a testa.
— Qual é o problema? Ela está bem?
— Tenho que perguntar uma coisa e preciso que você seja sincero.
Ele apertou os olhos, desconfiado na mesma hora, o que a incomodou mais do que gostaria de admitir. Ela afrouxou o aperto no alicate.
— Você acha mesmo que eu fiz lavagem cerebral em você antes? Quando nos conhecemos? E todas aquelas vezes, antes do baile...?
Ele murchou os ombros.
— É sério? Você está mudando de assunto para falar sobre isso?
— É importante para mim. — Ela se virou e começou a reunir as ferramentas que usou para consertar Iko. — Eu entendo se achar. Sei como deve ter parecido.
Kai mexeu na faixa cerimonial e, depois de um momento, puxou-a pela cabeça e a amassou nas mãos.
— Não sei. Eu nunca quis acreditar, mas tive que me perguntar. E quando você caiu e eu vi seu glamour... Cinder, você faz ideia do quanto o seu glamour é lindo?
Cinder se encolheu por saber que ele não estava falando como elogio. Doloroso de olhar foram as palavras que ele usou na época.
— Não — disse ela, distraindo-se ao colocar cada ferramenta no lugar na parede magnética. — Não consigo ver.
— Bem, é... foi muito para absorver naquela noite. Mas Levana já tinha me manipulado muitas vezes, então sei como é a sensação. E nunca me senti daquele jeito com você.
Ela guardou a última ferramenta.
— É claro que a imprensa quer pensar que foi isso que aconteceu. Seria conveniente.
— Certo. — Ela olhou por cima do ombro dele. — Uma desculpa conveniente para convidar uma ciborgue para o baile.
Ele piscou.
— Para convidar uma lunar para o baile.
O nó que apertava o estômago dela havia semanas começou a se soltar um pouquinho.
— Não que faça diferença o que eu digo, mas... eu nunca fiz isso. Nunca manipulei você. E nunca vou manipular. — Ela hesitou. Era uma promessa que não sabia se poderia sustentar. Não se ele não concordasse em ajudá-los. — E eu tentei contar a você sobre como ser ciborgue. Mais ou menos. Tenho certeza de que considerei pelo menos duas vezes.
Kai começou a balançar a cabeça, e ela prendeu a respiração.
— Não, você estava certa antes. Se tivesse me contado, eu provavelmente jamais voltaria a falar com você. — Ele olhou para a faixa apertada nos punhos. — Embora eu goste de pensar que agiria diferente agora.
Ele olhou-a nos olhos, e ela reparou com um susto que as orelhas dele estavam rosadas. E os lábios se curvaram no mais leve dos sorrisos.
Era o sorriso que ela estava esperando.
Não durou muito.
— Cinder. Olha. Estou feliz de não estar casado agora, mas isso ainda é um erro enorme. Não posso correr o risco de enfurecer Levana. Seja lá o que estiver planejando, você tem que me deixar de fora.
— Não posso. Preciso de sua ajuda.
Ele suspirou, mas foi um suspiro trêmulo, e ela viu que a determinação dele estava desmoronando.
— Você acha que Selene pode destroná-la?
Mordendo o lábio, ela concordou:
— Acho.
— Então espero que ela pretenda fazer isso logo.
Cinder passou as mãos pelas laterais do corpo e sentiu o nervosismo pressionando a caixa torácica.
— Kai, ela pode não ser exatamente o que você espera. Não quero que você se decepcione. Sei que você se dedicou muito a tentar encontrá-la e...
— Por quê? O que tem de errado com ela?
Ela se encolheu e entrelaçou os dedos. Metal e pele.
— Ah. Ela foi resgatada daquele incêndio, mas o fogo destruiu muito o corpo dela. Ela perdeu alguns membros. E boa parte da pele teve que ser enxertada. E... ela não está... completamente inteira.
Ele franziu a testa.
— O que você quer dizer? Ela está em coma?
— Não mais. — Ela se preparou para a reação dele. — Mas ela é uma ciborgue.
Ele arregalou os olhos, mas logo começou a olhar por todo o aposento, como se não conseguisse olhar para Cinder enquanto se acostumava à informação.
— Entendo — disse ele devagar antes de olhar nos olhos dela de novo. — Mas... ela está bem?
A pergunta a pegou de surpresa, e ela não conseguiu sufocar uma gargalhada assustada.
— Ah, sim, ela está ótima. Quero dizer, metade das pessoas no mundo quer matá-la e a outra metade quer acorrentá-la a um trono na lua, que é bem o que ela sempre quis. Portanto, ela está fantástica.
Ele ficou olhando como se mais uma vez estivesse questionando a sanidade dela.
— O quê?
Cinder fechou os olhos e tentou sufocar o pânico crescente. Ao abri-los novamente, mostrou as mãos de forma diplomática. E hesitou.
Ela olhou para o teto.
Respirou fundo.
Olhou nos olhos dele de novo.
— Sou eu, Kai. Eu sou a princesa Selene.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!