20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e um

Cinder estava frustrada com sua própria impotência. Eles tinham ido para a sala de recreação da mansão. Até então, Cinder não sabia que mansões tinham salas de recreação. Estava fazendo o melhor que podia para ditar aos outros o que precisava ser feito para extrair o vídeo que tentou fazer na sala do trono e para consertar a perna e a interface cérebro-máquina. Mas, enquanto eles corriam de um lado para outro reunindo suprimentos, ela ficava sentada em um sofá confortável com a perna de metal inútil.
Cinder odiava saber que poderia fazer tudo funcionar de novo com facilidade se estivesse na oficina de Nova Pequim. Se tivesse as ferramentas certas. Se ela não fosse a máquina que precisava ser consertada.
Ela tentou sentir gratidão. Tinha sobrevivido à tentativa de execução da rainha e não se afogara no lago Artemísia. Estava com os amigos de novo, e Iko não tinha sido destruída; na verdade, havia sido ajudada por um dos soldados do próprio Aimery, que confirmou o que Jacin já tinha lhe dito uma vez. Nem todo mundo no palácio era tão leal a Levana quanto ela queria que pensassem.
Além disso tudo, ela talvez tivesse imagens em vídeo de Levana que mostrariam o que havia por baixo do glamour. Poderia ser a melhor arma contra a rainha e seu controle mental.
Se as filmagens não tivessem sido destruídas pela água, claro.
— Thorne, tire o painel de trás daquele receptor, mas delicadamente. Jacin, o que você encontrou no painel de segurança?
— Um monte de fios. — Jacin colocou um amontoado de fios e uma placa de dados no chão.
Cinder mexeu nos fios com o pé bom.
— Alguns desses devem servir. Me ajude a virar essa mesa. É parecida com os jogos holográficos de tabuleiro que temos na Terra, eu acho…
Ela pegou uma das pernas da mesa com a mão boa, mas o ombro machucado resistiu quando tentou virá-la. Jacin tirou a mesa de suas mãos e a virou por conta própria, fazendo Cinder sentir um tremor no olho esquerdo. Tentou não ficar ressentida. Não era culpa dela ainda estar dolorida da mordida do soldado lobo, e pelo menos a pomada anestésica que encontraram estava fazendo milagres.
— Não vai sair sangue quando abrirmos você, vai? — perguntou Thorne, carregando o receptor até Cinder, para ela poder mexer no que tinha dentro. — Estamos falando só de partes cibernéticas aqui, certo?
— Tomara que sim.
Ela observou a parte interna do receptor enquanto Thorne e Jacin desmontavam a mesa de jogos. A configuração era diferente de tudo o que eles tinham na Terra: fios de cores diferentes, plugues e conectores de tamanhos distintos, mas tudo funcionava com tecnologia similar e com os mesmos princípios básicos.
— Não é exatamente uma cirurgia; é algo mais perto de uma manutenção. Nossa maior preocupação é se o hardware vai ser compatível ou não. A tecnologia é similar, mas mudou bastante desde que Luna e a Terra pararam de fazer comércio desse tipo… logo vamos descobrir. — Ela olhou para a mesa de jogos enquanto Thorne abria o painel lateral, revelando a parte interna. — Ah, perfeito! — Inclinando-se para a frente, ela puxou o conversor de fibra. — Podemos usar isto.
Iko e Cress entraram na sala, Cress carregando uma caixa de madeira.
— Tem uma oficina lá atrás — disse Iko.
Ela estava usando uma blusa rosa cintilante que encontrou na casa, mais para cobrir o buraco de bala no tronco e o corte na parte de trás do ombro direito. Cinder torcia para que, quando estivesse consertada, conseguisse ao menos fazer o braço de Iko funcionar de novo.
— Encontrei tudo da sua lista, menos o extrator de peças desmagnetizado de três pontas. Mas encontrei uma pinça no banheiro… — Ela girou a pinça entre os dedos bons.
Retorcendo a boca, Cinder pegou a pinça e tirou um pelo de sobrancelha que tinha ficado grudado na ponta.
— Vamos fazer com que sirva.
Ela observou a pilha de ferramentas e peças que reuniram, retiradas de aparelhos por toda a mansão. Sem ver o interior da própria cabeça e sem poder oferecer um diagnóstico preciso, era difícil saber o que precisariam consertar, mas, se não estivesse incluído naquela pilha, eles tinham poucas esperanças de encontrar ali.
— Vamos precisar de uma lanterna, para você poder ver o que está fazendo. E que tal um espelho de mão? Podemos segurar de forma que eu consiga ver lá dentro.
Jacin balançou a cabeça.
— Não nesta cidade.
Cinder fez uma careta.
— Certo, tudo bem. Vamos extrair os dados do chip de vídeo primeiro, depois vamos nos concentrar no display da retina. Meus olhos ainda estão se comunicando com meu nervo óptico, então meu melhor palpite é que houve uma falha de transferência de dados do meu painel de controle até o display. Pode ser algo tão simples quanto um fio danificado. Quando fizermos isso funcionar, devo conseguir fazer meu diagnóstico interno e entender o que tem de errado com minha mão e minha perna. — Ela apontou para uma cadeira de visualização de realidade virtual. — Arrastem aquilo até aqui.
Jacin obedeceu e Cinder se acomodou na cadeira, virada de costas de forma a passar os braços pelo encosto. Ela apoiou a testa ali.
— Cress?
— Estou pronta quando você estiver.
— Tudo bem. Vamos ver o que encontramos.
Iko puxou o cabelo de Cinder para o lado e enfiou a unha na trava na parte de trás do crânio. Ela sentiu o painel sendo aberto.
— Ah, claro — disse Thorne. — Quando eu abro o painel da cabeça dela, ela grita comigo. Quando é Iko, ela é uma heroína.
Cinder olhou para ele com irritação por cima dos braços cruzados.
— Você quer fazer isso?
Ele fez uma careta.
— Nem um pouquinho.
— Então fique na sua e dê espaço para elas trabalharem. — Ela apoiou a testa de novo. — Muito bem, Iko. Tem um orifício para cabo do lado esquerdo do painel de controle.
Alguém acendeu uma luz, que se espalhou ao redor da visão dela.
— Estou vendo — disse Iko. — Cress, está com o tablet?
— E com o cabo de conexão, bem aqui.
Cinder ouviu as duas se mexendo atrás dela, afastando mais cabelo do caminho. Houve um clique abafado dentro de sua cabeça. Um tremor a percorreu. Fazia um tempo que um dispositivo externo não era ligado ao processador dela. A última vez foi quando esgotou sua fonte de energia para botar a Rampion no espaço, logo depois que fugiram da prisão de Nova Pequim. Thorne teve que recarregá-la com um plugue de nave de passeio.
Antes disso, ela só esteve em um laboratório de pesquisa, presa a uma mesa, enquanto um medidroide fazia download da estatística de sua formação cibernética.
Ela odiava ter coisas conectadas à cabeça.
Cinder se obrigou a respirar fundo. Eram só Iko e Cress. Ela sabia exatamente o que estavam ligando e que dados estavam extraindo. Não era violação. Não era invasão.
Mas era impossível não se sentir assim.
— A ligação deu certo — informou Cress. — Não parece haver nenhum buraco óbvio nos dados, então essa parte da sua programação não foi afetada pelo que cortou a energia dos seus membros. Só preciso encontrar o input visual e… pronto. Registros… cronológicos… deve estar nos mais recentes… não importa, deve ser isso. Vídeo, criptografado, um minuto e cinquenta e seis segundos de duração. E… transferindo.
O estômago de Cinder deu um nó. Ela não era fresca, mas sempre que seu painel estava aberto era impossível não pensar nos cirurgiões sem nome e sem rosto pairando acima de sua forma inconsciente. Ligando fios e sinapses ao cérebro, regulando seus pulsos elétricos, substituindo parte do crânio por uma placa de metal removível.
Ela apertou os antebraços até começarem a doer, tentando se distrair do zumbido dos mecanismos internos e do som dos dedos de Cress clicando no tablet.
— Oitenta por cento — disse Cress.
Pontos brancos piscaram na escuridão das pálpebras de Cinder. Ela respirou fundo e repreendeu a si mesma. Estava bem. Aquilo seria procedimento de rotina se estivesse trabalhando em um androide ou em outro ciborgue. Ela estava bem.
O zumbido parou e Cress disse:
— Pronto.
— Verifique antes de desconectar — disse Cinder, engolindo saliva azeda. — Veja se é o certo.
— Está mostrando… um monte de gente.
— Ali está Kai! — gritou Iko.
Cinder levantou a cabeça. Sentiu o puxão do fio ainda conectado ao tablet.
— Me mostre — disse ela, na mesma hora que um clarão tomou sua visão. Ela se encolheu e fechou os olhos de novo.
— Espere, fique parada — disse Cress. — Me deixe desconectar…
Foi a última coisa que Cinder ouviu.


NOVAS CONEXÕES ENCONTRADAS
CIBERMÃO FABRICANTE REALITY T200-L-PERSONALIZADA: CINCO UTILIDADES
NÃO RECONHECIDAS: APLICAÇÕES PADRÃO APROVADAS
CIBERPÉ FABRICANTE REALITY T60.9-L: APLICAÇÕES PADRÃO APROVADAS
REINICIANDO EM 3… 2… 1…

Cinder acordou no sofá com o cobertor mais macio que já tinha visto ao redor dos ombros. Ela apertou os olhos diante da sombra estranha no teto, tentando afastar a sensação de confusão de acordar em um lugar estranho sem saber como tinha chegado lá. Sentou-se e esfregou os olhos embaçados. A sala estava bagunçada, com ferramentas e peças espalhadas por tapetes e mesas.

VERIFICAÇÃO DIAGNÓSTICA COMPLETA. TODOS OS SISTEMAS ESTABILIZADOS.
DUAS NOVAS CONEXÕES ENCONTRADAS:
CIBERMÃO T200
CIBERPÉ T60.0
FAZER TESTE DE APLICATIVO AGORA?

Ela levantou a mão esquerda na frente do rosto. O brilho que tinha quando o dr. Erland lhe deu a mão sumiu depois de dois meses fazendo consertos na Rampion e vivendo em um deserto e dando um mergulho no lago Artemísia.
O mais impressionante foi que ela estava com todos os cinco dedos, embora o indicador, o dedo da arma que Levana tinha arrancado, não combinasse direito com os outros. O acabamento era diferente, era fino demais, e o ângulo do primeiro nó dos dedos estava torto.
Cinder fez o teste e viu os dedos se dobrarem um de cada vez. Flexionarem-se. Fecharem-se em um punho. O pulso girou de um lado para outro.
O pé dela passou por uma série similar de movimentos. Ela afastou o cobertor para olhar.

TESTE BÁSICO DE APLICATIVO COMPLETO.
APLICATIVOS PADRÃO APROVADOS PARA USO.
CINCO UTILIDADES NÃO RECONHECIDAS.

Cinco utilidades.
Cinder inspecionou a mão e enviou uma ordem para as pontas dos dedos se abrirem, o que fizeram sem problema. Mas, quando ela tentou ligar a lanterna, ejetar a faca e o cabo conector universal e girar a chave de fenda embutida, nada aconteceu. Ela não se deu ao trabalho de tentar carregar um projétil no dedo substituto.
Ainda assim, podia usar a mão novamente, e não podia reclamar.
— Você acordou!
Iko entrou na sala carregando uma bandeja com uma das mãos, com um copo de água e um prato de ovos fritos, junto com pão e geleia.
O estômago de Cinder começou a roncar.
— Você cozinhou?
— São só umas habilidades herdadas dos meus dias de Serv9.2. — Iko colocou o prato no colo de Cinder. — Mas não quero nem saber o quanto está delicioso.
— Ah, tenho certeza de que está horrível — disse Cinder, colocando uma colherada na boca. — Bigada, Iko. — Seu olhar pousou no braço defeituoso de Iko. Estava sem um dedo. Ela engoliu. — Pelo anexo também.
Iko fez um movimento com o ombro bom.
— Você tem alguns fios de androide-acompanhante agora. Aqueles da mesa de jogo não funcionaram.
— Obrigada. Foi muita generosidade sua.
Iko empurrou os pés de Cinder para o lado e se sentou.
— Você sabe que nós, androides, somos programados para sermos úteis, e tal.
— Você ainda é androide? — perguntou Cinder, depois de morder a torrada. — Às vezes eu esqueço.
— Eu também. — Iko baixou a cabeça. — Quando vimos a cena de você pulando da varanda, fiquei com tanto medo que achei que meus fios iam pegar fogo. E pensei: Vou fazer qualquer coisa para que ela fique bem. — Ela chutou uma pilha de parafusos no tapete. — Acho que certas coisas de programação nunca passam, por mais evoluído que um chip de personalidade fique.
Lambendo geleia das pontas dos dedos, Cinder sorriu.
— Isso não é programação, sua maluca. É amizade.
Os olhos de Iko se iluminaram.
— Talvez você tenha razão.
— Já estava na hora de você acordar, preguiçosa. — Cinder olhou por cima do ombro e viu Thorne na porta. Cress e Jacin apareceram atrás dele. — Como está a mão?
— Funcionando quase perfeitamente.
— Claro que está funcionando quase perfeitamente — disse Iko. — Cress e eu somos gênios. — Ela fez sinal de positivo para Cress.
— Eu ajudei — acrescentou Thorne.
— Ele segurou a lanterna — esclareceu Iko.
— Jacin não fez nada — retrucou Thorne, apontando.
— Jacin verificou sua pulsação e sua respiração, e cuidou para que você não morresse — falou Iko.
Thorne riu com deboche.
— Eu poderia ter feito isso.
— Por que eu apaguei? — interrompeu Cinder.
Jacin se agachou ao lado do sofá e verificou os batimentos no pulso de Cinder. Depois de um breve silêncio, ele soltou o braço dela.
— Estresse, provavelmente, junto com sua reação física a ter o tablet ligado à sua... — Ele fez um gesto na direção da cabeça dela. — ... coisa de computador.
— E você me chama de fresco — disse Thorne.
Cinder apertou os olhos.
— Eu apaguei por causa de estresse? Só isso?
— Acredito que o termo seja desmaiou — disse Thorne.
Cinder deu um tapa nele.
— Considerando tudo pelo que você passou — disse Jacin —, é incrível não ter tido um colapso. Na próxima vez que você se sentir tonta ou estiver com dificuldade para respirar, me avise antes de desmaiar.
— A coisa boa foi que, com você inconsciente, Cress e eu pudemos fazer o diagnóstico completo — disse Iko. — Duas conexões consertadas, um novo cabo de dados, alguns softwares reinstalados e você está nova em folha! Bem, exceto…
— Pelas ferramentas da minha mão, já sei. — Cinder sorriu. — Mas tudo bem. Passei cinco anos sem uma lanterna embutida, vou sobreviver.
— É, isso, mas acho que pode haver alguns problemas com sua interface também. O diagnóstico demonstrou alguns erros com a conectividade de rede e com a transferência de dados.
O sorriso de Cinder sumiu. Ela era dependente do cérebro ciborgue desde que se lembrava, contava com a capacidade de fazer download de informações, de enviar mensagens, de monitorar noticiários. Era uma sensação desconfortável ficar sem isso, como se parte de seu cérebro tivesse sido apagada.
— Vou ter que dar um jeito — disse ela. — Estou viva e tenho duas mãos e pés que funcionam. Já estive pior. — Ela olhou de Iko para Cress. — Obrigada.
Cress baixou a cabeça, enquanto Iko jogava as tranças por cima do ombro.
— Ah, você sabe. Eu era aprendiz de uma mecânica brilhante em Nova Pequim. Ela pode ter me ensinado uma ou duas coisinhas.
Cinder riu.
— Falando em mecânicas brilhantes — disse Iko —, você acha que tem tempo de dar uma olhadinha no meu braço agora?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!