13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e um

O ROSTO DE KAI FOI TOMADO DE CONFUSÃO, COMO SE ELA TIVESSE falado alguma coisa sem sentido.
A faixa de casamento escorregou das mãos dele e caiu no chão.
Quando o silêncio começou a ficar constrangedor, Cinder limpou a garganta.
— E, caso você tenha ficado em dúvida, eu estava sendo sarcástica quando falei sobre todas aquelas coisas “fantásticas”. Não que, quero dizer... sei que você tem suas coisas com que se preocupar, então não precisa... eu não... estou bem, sério. É que essas semanas foram muito difíceis com toda essa... — ela balançou as mãos intensamente no ar — ... coisa de Peony-baile-Levana-casamento. E agora o dr. Erland está morto e Scarlet se foi e Thorne está cego e Lobo... sei lá. Ele anda tão parado ultimamente que estou começando a me preocupar. Mas tenho tudo sob controle. Eu consigo fazer isso. Eu...
— Pare. Por favor, pare de falar.
Ela fechou a boca.
O silêncio se arrastou.
Cinder abriu a boca, mas Kai levantou a mão. Ela a fechou de novo. Mordeu o lábio.
— Você? — disse ele por fim. — Você é a princesa Selene?
Ela fez uma careta e massageou o pulso.
— Surpresa?
— Esse tempo todo?
Ela baixou a cabeça, pouco à vontade de repente pela forma como ele a estava olhando.
— Hã, é, tecnicamente. O dr. Erland descobriu primeiro, quando fui levada para o recrutamento ciborgue. Ele fez meu teste de DNA e... é. Mas decidiu só me contar quando eu estava trancada na prisão, o que complicou algumas coisas.
Kai deu uma risada, mas não de um jeito cruel. Depois de inspirar tremulamente, ele apertou as palmas das mãos sobre os olhos. E depois, tão depressa quanto a descrença chegou, veio a compreensão.
— Ah, estrelas. Levana sabe, não é? É por isso que odeia tanto você. É por isso que está determinada a encontrar você.
— É, ela sabe.
— E era você. O tempo todo, era você.
— Você está recebendo isso melhor do que eu esperava.
Ele passou as mãos no rosto.
— Não, sabe, quase faz sentido. Mais ou menos. — Ele olhou para ela. — Embora... de alguma forma, eu sempre imaginei a princesa... sei lá. De vestido.
Cinder riu.
— E sempre achei que, quando eu a encontrasse, seria tão fácil. Nós apenas... a apresentaríamos para o mundo e a anunciaríamos como a verdadeira rainha, e Levana rastejaria para algum buraco. Nunca imaginei que Levana já saberia. Que estaria lutando contra isso.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Estou começando a achar que você talvez não conheça sua noiva muito bem.
Ele olhou para ela com desprezo.
— Agora chega, Cinder. Chega de segredos. Não sei se consigo sobreviver a mais revelações bombásticas suas, então, se tiver mais alguma coisa para me contar, é melhor falar logo. Agora.
Cinder se balançou nos calcanhares, refletindo.
Ciborgue. Lunar. Princesa.
Nada mais de segredos. Nada mais de mentiras.
Bem, só um.
Ela achava que talvez estivesse um pouquinho apaixonada por ele.
Mas não havia possibilidade de contar isso para ele.
— Eu não consigo chorar — sussurrou ela, encolhendo os ombros.
Kai piscou duas vezes, coçou a orelha e afastou o olhar.
— Eu já sabia disso.
— O quê? Como?
— Sua guardiã talvez tenha dito alguma coisa. E eu... vi seus registros médicos.
— Meus... — Ela arregalou os olhos. — Você viu... você sabe...?
— Você era uma fugitiva, e eu precisava saber mais sobre você, e eu... me desculpe.
Ela apertou bem os olhos. Ele já tinha visto o diagrama dos implantes ciborgues. Cada fio. Cada órgão sintético. Cada painel fabricado. Pensar nisso a deixou enjoada. Ela não imaginava o que outra pessoa pensaria quando visse. O que Kai devia ter pensado.
— Não, tudo bem — disse ela. — Chega de segredos.
Ele deu um passo na direção dela.
— Seus olhos... eles são mesmo...?
— Sintéticos — murmurou ela, pois ele não pôde dizer a palavra.
— E é por isso que você não consegue chorar?
Ela assentiu, incapaz de olhar para Kai, enquanto ele se aproximou e ficou a menos de dois passos dela.
— Não preciso dos dutos lacrimais para lubrificação, e eles estavam atrapalhando... hã. — Ela bateu com um dedo na têmpora. — Tenho um escâner na retina e um display no olho. É como uma pequena tela, então tem muitos fios. Ah, estrelas, não acredito que estou contando isso.
Ela escondeu o rosto nas mãos.
— É brilhante — disse Kai.
Ela quase engasgou com a própria gargalhada.
Kai esticou as mãos para os pulsos dela.
— Posso ver?
Ela gemeu e soube que, se tivesse a capacidade de corar, seu rosto estaria tão vermelho quanto a faixa matrimonial dele.
Envergonhada e resignada, ela deixou que ele puxasse as mãos dela e lutou para sustentar o olhar. Kai olhou nos olhos dela como se pudesse ver até o painel de controle, mas, depois de um momento, balançou a cabeça.
— Jamais daria para saber.
Tentando não se agitar, Cinder ergueu os olhos até o teto e se odiou um pouco pelo que estava prestes a fazer. Mas que importância tinha? Ele jamais voltaria a pensar que ela era humana.
— Observe a parte de baixo da íris esquerda — sussurrou ela.
Ela ligou o display da retina e abriu um noticiário que estava assistindo antes de eles chegarem a Nova Pequim, com notícias sobre a União Africana. Um âncora estava falando, mas Cinder não se deu ao trabalho de ligar o áudio.
Kai inclinou a cabeça. Demorou um momento, mas seus lábios se abriram.
— Tem um... isso é...?
— Um noticiário.
— É tão pequeno. Só um ponto, na verdade.
— Para mim, aparece maior.
Ela sentiu um arrepio na espinha pela forma como ele a observava, quase com um assombro infantil, e pelo quanto estava perto e ainda segurando os pulsos dela.
Kai pareceu perceber ao mesmo tempo. Sua expressão mudou de repente, e ela soube que não olhava mais para o display na retina, nem mesmo para os olhos sintéticos. Ele estava olhando para ela.
O coração dela vibrou.
Kai lambeu os lábios.
— Me desculpe por ter mandado prender você. Mas estou feliz por você estar bem.
— É sério? Você não me odeia por... disparar em você?
Os lábios dele tremeram, e ele olhou para baixo. Segurando a mão ciborgue com as suas mãos, ergueu-a entre eles e olhou para os dedos de metal.
— Não me lembro de aquele diagrama médico mencionar uma arma. Minha equipe de segurança teria achado isso uma informação útil.
— Gosto de manter um ar de mistério.
— Eu reparei.
Ela viu o polegar dele acompanhar o comprimento de seus dedos e teve dificuldade de respirar e não conseguiu se mexer.
— A mão é nova — sussurrou ela.
— Parece ser um excelente trabalho. — A voz dele também estava mais baixa.
— É coberta com cem por cento de titânio.
Ela não sabia por que disse isso. Mal sabia o que estava dizendo.
Kai inclinou a cabeça e encostou os lábios nos nós dos dedos dela. A cobertura não tinha terminações nervosas, mas o toque despertou uma pontada de eletricidade no braço dela.
— Cinder?
— Humm?
Ele ergueu o olhar.
— Só para deixar claro, você não está usando seus poderes mentais em mim agora, está?
Ela piscou.
— Claro que não.
— Só verificando.
Ele deslizou os braços pela cintura dela e a beijou.
Cinder ficou sem ar e apertou as mãos sobre o peito dele. Kai a puxou para mais perto.
Segundos depois, o cérebro dela começou a registrar todas as novas substâncias químicas que invadiram seu cérebro. NÍVEIS ELEVADOS DE DOPAMINA E ENDORFINAS, QUANTIDADES REDUZIDAS DE CORTISOL, PULSAÇÃO ERRÁTICA, AUMENTO DA PRESSÃO SANGUÍNEA...
Inclinando-se na direção dele, Cinder afastou as mensagens. Suas mãos seguiram com hesitação para os ombros antes de envolver o pescoço.
E então, em meio à onda de sensações, a atenção de Cinder voltou para o display da retina, sozinho na escuridão atrás das pálpebras. No começo, foi só uma percepção leve e irritante. Mas então...
FARAFRAH.
LUNARES.
MASSACRE.
Ela abriu os olhos de repente. Afastou-se dele.
Kai levou um susto.
— O q...?
— Me desculpe.
Ela começou a tremer, ainda concentrada no noticiário.
Ficou vendo o noticiário com horror por um momento, e então Kai limpou a garganta.
A voz dele ficou pesada.
— Não. Não, me desculpe. Eu não devia...
— Não! — Ela agarrou-o pela camisa antes que ele pudesse se afastar dela. — Não é... É Levana!
A expressão dele ficou fria.
— Ela... ela retaliou. Atacou...
Ela falou um palavrão e afastou as mãos de Kai para cobrir o rosto enquanto digeria a notícia. Um grupo de soldados lunares atacou a cidade no oásis menos de duas horas antes e desapareceu no deserto tão depressa quanto apareceu. Eles assassinaram os civis e os soldados da Comunidade enviados para interrogá-los.
Imagens mostraram o local.
Sangue. Tanto sangue.
— Cinder... onde? Onde ela atacou?
— Na África. Na cidade... — Ela engoliu em seco. — As pessoas que nos ajudaram.
Alguma coisa estalou na cabeça dela. Gritando, Cinder esticou a mão para a tira magnética de ferramentas, agarrou uma chave-inglesa e jogou na parede mais distante.
Ela caiu inofensiva no chão. Pegou uma chave de fenda em seguida, mas Kai tirou-a depressa da mão dela.
— Ela fez alguma exigência? — perguntou ele, absurdamente calmo.
Ela fechou os punhos vazios.
— Não sei. Só sei que estão todos mortos. Por minha causa. Porque me ajudaram.
Ela caiu agachada e cobriu a cabeça. O corpo todo estava fervendo de raiva.
De Levana.
Mas mais de si mesma. De suas decisões.
Porque ela sabia que isso ia acontecer. E fez a escolha mesmo assim.
— Cinder.
— É minha culpa.
Ele colocou a mão nas costas dela.
— Você não os matou.
— Daria no mesmo.
— Eles sabiam o risco que corriam quando ajudaram você? O perigo em que se meteram?
Ela afastou a cabeça dele.
— Talvez tenham feito o que fizeram porque acreditavam em você. Porque acharam que valia a pena o risco.
— Isso é para ajudar?
— Cinder...
— Quer saber outro segredo? O maior segredo? — Ela se sentou e largou as pernas como uma boneca quebrada. — Estou com medo, Kai. Estou com muito medo. — Ela pensou que falar as palavras em voz alta podia fazer com que se sentisse melhor, mas só a fez se sentir patética e fraca. Ela passou os braços ao redor da própria cintura. — Estou com medo dela e do exército dela e do que ela é capaz de fazer. E todo mundo espera que eu seja forte e corajosa, mas não sei o que estou fazendo. Não faço ideia de como destroná-la. E, mesmo se eu conseguir, não tenho ideia de como ser rainha. Tem tanta gente contando comigo, pessoas que nem sabem que estão contando comigo, e agora elas estão morrendo, só por causa de uma fantasia ridícula de que eu posso ajudá-las, de que eu posso salvá-las, mas e se eu não puder?
Uma dor de cabeça começou a latejar nas têmporas dela, um lembrete de que devia estar chorando. Se fosse normal.
Braços a envolveram.
Cinder apertou o rosto na camisa de seda dele. Havia alguma espécie de colônia ou sabonete ali, tão suave que ela não captara o aroma antes.
— Sei exatamente como você se sente — disse Kai.
Ela fechou bem os olhos.
— Não exatamente.
— Acho que bem perto.
Ela balançou a cabeça.
— Não, você não entende. Mais do que qualquer outra coisa, tenho medo de que... quanto mais eu lute contra ela e quanto mais forte eu fique, mais eu esteja me transformando nela.
Kai se sentou sobre os calcanhares e se afastou o bastante para olhar no rosto dela sem soltá-la.
— Você não está virando Levana.
— Tem certeza? Porque eu manipulei seu conselheiro hoje e inúmeros guardas. Manipulei Lobo. Eu... eu matei um policial na França, e teria matado mais gente se precisasse, pessoas de sua força militar, e nem sei se eu me sentiria mal por isso, porque tem sempre um jeito de justificar. É pelo bem de todos, não é? Sacrifícios precisam ser feitos. E tem também os espelhos, uma coisa tão, tão idiota, mas eles... estou começando a entender. Por que ela os odeia tanto. E então... — Ela tremeu. — Hoje eu torturei a taumaturga dela. Não apenas a manipulei. Eu a torturei. E quase gostei.
— Cinder, olhe para mim. — Ele aninhou o rosto dela. — Sei que você está com medo, e tem todo o direito de estar. Mas você não está virando a rainha Levana.
— Você não tem como saber disso.
— Mas eu sei.
— Ela é minha tia, você sabe.
Ele ajeitou o cabelo dela.
— É, bem, meu tataravô assinou o Ato de Proteção dos Ciborgues. Mas aqui estamos nós.
Ela mordeu o lábio. Ali estavam eles.
— Agora, vamos não falar nunca mais sobre você ser parente dela. Porque eu ainda estou tecnicamente noivo dela, e isso é muito estranho.
Cinder não conseguiu deixar de rir, mesmo de forma exausta, mesmo que para encobrir os gritos interiores, enquanto ele a envolvia nos braços de novo. A dor de cabeça começou a diminuir e foi substituída pela força dos batimentos dele e pela forma como ela se sentiu quase delicada quando Kai a apertou contra si.
Quase frágil.
Quase segura.
Quase como uma princesa.
— Você não vai contar para ninguém, vai? — murmurou ela.
— Não vou.
— E se eu acabar sendo uma princesa terrível?
Ele deu de ombros.
— O povo de Luna não precisa de uma princesa. Precisa de uma revolucionária.
Cinder franziu a testa.
— Uma revolucionária — repetiu ela.
Ela gostou bem mais disso do que de princesa.
A porta se abriu.
Cinder e Kai deram um pulo para longe um do outro, e Kai ficou de pé.
Cress, sem fôlego e corando, parou na porta.
— Me desculpem — disse ela. — Mas os noticiários... Levana...
— Eu sei — falou Cinder, obrigando-se a se levantar. — Eu sei sobre Farafrah.
Cress balançou a cabeça, de olhos arregalados.
— Não é só Farafrah. As naves estão cobrindo a Terra, todos os continentes. Milhares de soldados estão invadindo as cidades. Os outros soldados. — Ela tremeu tanto que precisou se segurar na moldura da porta. — Eles são como animais, como predadores.
— O que a Terra está fazendo? — perguntou Kai, e Cinder reconheceu a voz dele de líder. — Estamos nos defendendo?
— Eles estão tentando. Todos os seis países declararam estado de guerra. Evacuações estão sendo comandadas, os militares estão se preparando...
— Todos os seis?
Cress tirou o cabelo da testa.
— Konn Torin assumiu temporariamente o papel de líder da Comunidade... até sua volta.
Um silêncio pesado apertou o peito de Cinder. E então Kai se virou para olhá-la, e ela sentiu a gravidade das emoções sem olhar para ele.
— Acho que está na hora de você me contar o plano — disse ele.
Cinder fechou as mãos com força. A probabilidade do sucesso deles parecia tão pequena que ela quase nem pensou no que viria depois. Esperava que fossem ter tempo, pelo menos um dia ou dois, mas viu que não haveria tal pausa.
A guerra tinha começado.
— Você mesmo disse que o povo de Luna precisa de uma revolucionária. — Ela ergueu o queixo e sustentou o olhar dele. — Então eu vou para Luna e vou iniciar uma revolução.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!