20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e três

— Você viu Winter?
Alfa Strom terminou de demonstrar o movimento de golpear para cima com o bastão e o devolveu para uma jovem antes de se virar para Scarlet.
— Não.
Scarlet olhou para a multidão confusa pela milésima vez.
— Nem eu, e tem muito tempo. Ela tem a tendência de sair por aí…
Strom inclinou a cabeça e farejou algumas vezes no ar, depois balançou a cabeça.
— Parece que ela não anda por aqui há um tempo. Talvez tenha encontrado um lugar para descansar.
— Ou talvez esteja furando o olho com um galho. Estou dizendo, não é bom ela ficar sozinha.
Resmungando, Strom indicou um dos membros beta da matilha e andou na direção de um banco. Parou para farejar de novo, desviando o olhar afiado para a multidão, depois se virou para a floresta.
— Você está agindo de uma forma sinistra — disse Scarlet.
— Você pediu minha ajuda.
— Não tecnicamente.
Quando Strom seguiu para as sombras da floresta que não era bem floresta, Scarlet foi atrás, embora não imaginasse por que Winter deixaria todo mundo para trás e sairia andando sozinha…
Não importava. Ela imaginava, sim.
— Ela veio por aqui — falou Strom, passando os dedos pelo tronco de uma árvore. Ele se virou para a direita e aumentou a velocidade. — Já a captei.
Scarlet correu ao lado dele.
— Ali.
Ela a viu no mesmo momento e saiu correndo antes de Strom.
— Winter! — gritou ela, ficando de joelhos.
O corpo de Winter estava caído na grama. Scarlet rolou a princesa para que ficasse deitada de costas e verificou se havia pulsação. Ficou aliviada de encontrar batimentos trêmulos no pescoço de Winter.
Uma mão segurou o capuz de Scarlet e a puxou para trás. Ela deu um gritinho e se debateu para se soltar, mas Strom ignorou os punhos dela.
— Me solte! O que você está fazendo?
— Ela está doente.
— O quê? — Scarlet abriu o moletom, tirou os braços das mangas e caiu ao lado de Winter de novo. — De que você está falando?
— Consigo sentir — resmungou Strom. Ele não chegou mais perto. — Carne doente. Terrível.
Scarlet franziu a testa para ele antes de se concentrar na princesa novamente.
— Winter, acorde — disse ela, dando alguns tapas na bochecha da princesa, mas Winter nem se mexeu.
Scarlet apertou a mão na testa dela. Estava suada e quente. Ela tateou na nuca de Winter, perguntando-se se a princesa tinha batido a cabeça de novo, mas não havia sangue, e o único galo era o da briga na casa de Maha.
— Winter!
Strom chutou alguma coisa, que quicou pela grama e acertou o joelho de Scarlet. Ela olhou e pegou o objeto. Era uma balinha de maçã azeda, do tipo que Winter sempre levava para ela no jardim, normalmente cheia de analgésicos. Uma mordida tinha sido dada. Scarlet pegou a mão de Winter e encontrou pedacinhos de bala derretida grudados nas pontas dos dedos.
— Veneno?
— Não sei — disse Strom. — Ela não está morta. Só morrendo.
— De algum tipo de doença?
Ele fez que sim brevemente.
— Você não deveria ficar tão perto dela. O cheiro…
Ele pareceu prestes a vomitar.
— Ah, controle-se. Tantos músculos e dentes, e você tem medo de um resfriadinho?
A expressão dele se fechou, mas ele não chegou mais perto. Na verdade, depois de um segundo, deu um passo para trás.
— Tem alguma coisa errada com ela.
— Obviamente! Mas o quê? E como? — Ela balançou a cabeça. — Olhe, eu vi uma clínica médica na rua principal. Você pode carregá-la até lá? Vamos pedir para um médico dar uma olhada nela. Ela pode precisar de uma lavagem estomacal ou…
O olhar de Scarlet pousou no braço de Winter, e ela ofegou. Afastou-se da forma inconsciente da princesa, com todos os instintos lhe mandando prender a respiração. Limpar a pele que tinha entrado em contato com a princesa. Correr.
— Agora ela escuta.
Ignorando-o, Scarlet falou um palavrão alto.
— Quando você disse que ela estava com uma doença, eu não achei que quisesse dizer que ela estava com a peste!
— Eu não sei o que é isso — disse Strom. — Nunca senti esse cheiro antes.
Scarlet hesitou um momento mais e soltou um som sofrido e frustrado. Em seguida, forçou-se a se aproximar de Winter mais uma vez. Ela fez uma careta quando levantou o braço de Winter para inspecionar os pontos escuros espalhados pelo cotovelo. Os anéis vermelhos ao redor dos hematomas tinham inchado acima da pele, estufados e brilhosos como bolhas.
Pelo que tinha lembrança, a peste funcionava em fases previsíveis, embora o tempo que levassem para se manifestar variasse entre as vítimas. Quando os anéis roxos marcavam a pele da pessoa, ela podia ter três dias ou três semanas de vida. Mas, considerando que Winter só estava desmaiada havia uma hora, no máximo, a doença parecia estar trabalhando rápido demais.
Ela observou as pontas dos dedos de Winter e ficou aliviada por encontrá-las rosadas e saudáveis, sem o tom azulado. A perda de sangue nas extremidades era o sintoma final da doença antes da morte.
Ela fechou a cara. Cinder não tinha dito uma vez que os lunares eram imunes à letumose? Aquela doença não deveria nem estar ali.
— O nome é letumose — disse ela. — É uma pandemia na Terra. Age rápido e ninguém sobrevive. Mas… Levana tem um antídoto. É parte do motivo para o imperador Kaito estar se casando com ela. Nós só… precisamos manter Winter viva por tempo suficiente para consegui-lo. Temos que mantê-la viva até a revolução acabar. Está bem?
Ela passou a mão pelo cabelo, mas ficou presa em um emaranhado de cachos embaraçados, e ela desistiu antes de chegar às pontas.
— Isso pode demorar dias, até semanas — disse Strom. — Ela não está com cheiro de quem tem tanto tempo assim.
— Pare de falar do cheiro dela! — gritou Scarlet. — Sim, a doença é ruim. É horrível. Mas não podemos deixá-la aqui. Temos que fazer alguma coisa.
Strom se balançou nos calcanhares, olhando para a princesa com repulsa. O que ainda era melhor do que o brilho faminto que os olhos dele tinham antes.
— Ela precisa de um tanque de suspensão.
— De quê?
— Nós os usamos para a cura depois de cirurgias ou ferimentos sérios. — Ele deu de ombros. — Pode desacelerar o progresso da doença.
— Onde se consegue um?
— Imagino que tenham aqui. O trabalho neste setor é perigoso.
— Ótimo. Vamos.
Scarlet se levantou e limpou as mãos. Strom ficou olhando para ela e depois para Winter. Ele não chegou perto.
— Argh. Tudo bem. — Scarlet se agachou de novo e segurou os braços de Winter, e estava prestes a jogá-la no ombro quando Strom se aproximou e tomou a princesa nos braços.
— Mas que cavalheiro você é — murmurou Scarlet, e pegou seu moletom.
— Vamos logo — disse ele, com o rosto já contorcido pelo esforço de respirar pouco.
Eles praticamente correram de volta até as residências.
Scarlet saiu do meio das árvores correndo, vermelha e ofegante. Os que estavam reunidos ali se viraram e observaram Strom sair com Winter nos braços.
— A princesa Winter foi envenenada — disse Scarlet. — Está com uma doença fatal chamada letumose. A rainha tem o antídoto, mas Winter provavelmente vai morrer se não desacelerarmos o espalhamento da doença agora mesmo. — Ela viu o homem barbado que agiu como líder antes. — Tem algum tanque de suspensão neste setor?
— Tem, na clínica. Não sei… — Ele olhou para o homem de cabelo branco que estava saindo da multidão.
O homem de cabelo branco se aproximou de Winter, procurou a pulsação e levantou as pálpebras dela, uma de cada vez. Médico, supôs ela.
— O tanque não está em uso — disse ele, depois da rápida inspeção. — Vai demorar de quinze a vinte minutos para eu preparar o tanque e a garota para imersão.
Scarlet assentiu.
— Vamos, então.
O médico os guiou em meio à multidão. As pessoas abriram caminho e olharam para a princesa com expressão perturbada.
— Quem faria uma coisa dessas? — sussurrou alguém quando Scarlet passou.
— Com a princesa — acrescentou outra voz.
— Isso quer dizer que temos um traidor no meio do nosso povo? — perguntou o médico com voz baixa.
Scarlet balançou a cabeça.
— Acho que não. Quem fez isso tinha acesso à doença, de alguma forma, e a um doce caro. Deve ter vindo até aqui por causa de Winter e depois ido embora.
— Ou ainda está entre nós, usando um glamour.
Ela fungou. Os lunares idiotas e seus glamoures idiotas. Qualquer pessoa poderia ser inimiga. Qualquer pessoa por quem ela passava poderia ser um taumaturgo ou um daqueles aristocratas horrendos ou a própria rainha, e Scarlet não teria como perceber a diferença.
Mesmo assim, por que alguém iria até ali só para atacar Winter, mas deixaria o resto das pessoas em paz, sabendo que eles estavam planejando se juntar à revolução de Selene? Era um aviso? Uma ameaça? Uma distração?
Um pensamento horrível ocorreu a ela. Talvez não estivessem deixando o resto deles em paz. A letumose era altamente contagiosa e agia rápido. Em ambientes fechados, com ar reciclado…
— Aqui — disse o médico, levando-os para um prédio apenas um pouco maior do que as casas vizinhas e tão desgastado quanto. Havia um tanque em formato de caixão encostado na parede, coberto de poeira e cheio de cobertores gastos em cima.
O médico empurrou tudo para o chão.
— Tem camas naquela sala se vocês quiserem deixá-la deitada enquanto preparo tudo.
Strom pareceu feliz em fazer isso. O rosto ainda estava contorcido quando ele voltou.
— Vou trazer alguns dos meus homens para levarem o tanque lá para fora.
O médico levantou o rosto.
— Lá para fora?
— O povo a admira. É bom que possam vê-la… um lembrete de por que estamos lutando.
O médico piscou por um instante, mas assentiu com a cabeça rapidamente.
— Tudo bem. Não vai afetar o tratamento.
Strom saiu da clínica e seus passos soaram na pequena varanda de madeira.
— Infelizmente, só temos esse tanque — disse o médico, parecendo estar com medo.
Scarlet sustentou o olhar dele.
— E daí?
Apertando os lábios, ele fez um gesto para ela. Scarlet seguiu o olhar até as próprias mãos. Nada. Nada. Então, ela viu a marca com contorno vermelho no braço e soltou um palavrão.

Um comentário:

  1. the girl you'll never know who it is10 de março de 2019 17:07

    Uma das coisas que eu mais gosto nessa saga e nessa autora é que ela adpta os clássicos de um jeito muito criativo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!