20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e sete

Kai estava começando a entender por que Levana tinha marcado aquele horário para a coroação. A cerimônia ia acontecer no final da longa noite de Artemísia, duas semanas de escuridão iluminada só por luz artificial. Seria o primeiro nascer do sol verdadeiro que Kai veria desde que chegou a Luna. Um novo amanhecer, um novo dia, um novo império.
Era tudo muito simbólico.
Ele desejava simultaneamente que esse dia acabasse e que nunca chegasse.
Em meio às ondas do lago Artemísia, olhando para a água azul-enegrecida que ia até onde ele via, Kai torcia para que o novo amanhecer de Levana fosse bem diferente do que ela esperava, embora essa esperança fosse frágil. Ele não sabia se Cinder tinha sobrevivido à queda no lago nem se o povo de Luna atenderia ao chamado, nem se conseguiriam se tentassem.
Pelo menos, ele sabia com certeza que a filmagem do corpo recuperado de Cinder era falsa. Mesmo com as imagens distantes e borradas, Kai percebeu que não era ela, mas, sim, um manequim ou atriz ou alguma outra pobre vítima tirada do fundo do lago e alterada para se parecer com Cinder.
Se estavam forjando a morte dela, ela não tinha sido encontrada.
Ela estava viva. Tinha que estar.
Pelo menos, com a coroação chegando perto, a rainha havia começado a relaxar com algumas das restrições a Kai e aos outros convidados terráqueos. Ele finalmente tinha liberdade de andar pelo palácio e até de se aventurar na beira do lago, embora cada passo fosse acompanhado por uma dupla de guardas lunares.
Só que ele tinha passado a vida cercado de guardas. Foi ficando mais fácil ignorá-los. Ela até devolveu o tablet dele, para que ele verificasse os noticiários terráqueos e confirmasse para eles que tudo estava bem em Luna.
Aham.
A areia escorregou embaixo de seus pés quando a onda se retraiu para o lago. O mundo se desintegrando embaixo dele. Kai estava levemente curioso para saber se aquilo era rocha lunar pulverizada até virar areia fina ou se tinha sido importada de alguma praia terráquea muito tempo antes. Tantas vezes, desde que chegou ali, desejou ter passado mais tempo pesquisando a história entre a Terra e Luna. Queria saber qual era o relacionamento quando Luna era uma colônia pacífica e, depois, uma república aliada.
Durante anos, a Terra forneceu material de construção e recursos naturais, e Luna retribuiu com pesquisas valiosas nos campos de exploração espacial e astronomia. Saber que o relacionamento já foi benéfico sugeria que podia ser de novo.
Mas não com Levana.
Olhando as margens dos dois lados, Kai viu os guardas reais ainda procurando, esperando uma ciborgue enlameada aparecer na beira. Kai também os viu pela janela patrulhando as ruas da cidade, e se eles achavam que era possível que Cinder tivesse sobrevivido e se escondido, então Kai também acreditaria que era possível.
Enquanto isso, o palácio estava explodindo com os preparativos finais para a coroação. Os aristocratas (ou famílias) eram ótimos em fingir alegria inalterada. Até o caos da execução fracassada de Cinder foi deixado para trás como um incidente menor, que podia acontecer de tempos em tempos. Todo mundo parecia feliz em deixar a caçada nas mãos dos guardas enquanto prosseguia com a bebedeira e com a comilança e com a folia.
Se estavam preocupados com os clamores de Cinder por revolução, não estavam demonstrando. Kai se perguntou se um único integrante da corte sequer pegaria em armas contra o povo se fosse necessário, ou se eles se esconderiam nas mansões elegantes para esperar que acabasse, felizes de declarar fidelidade a quem se sentasse no trono quando o caos terminasse, fosse quem fosse.
Ao pensar nisso, Kai fechou os olhos e mordeu a língua para não dar um sorrisinho, sabendo que era uma fantasia mesquinha. Mas, ah, como ele amaria ver os rostos deles se, ou melhor, quando Cinder se tornasse rainha e informasse às famílias que seu jeito indulgente de viver estava chegando ao fim.
Alguém limpou a garganta atrás de Kai, chamando sua atenção. Torin estava de smoking, já vestido para a coroação, apesar de faltarem horas.
— Vossa Majestade Imperial, imperador Rikan — disse Torin.
Era um código que eles tinham combinado com o resto dos convidados terráqueos: começar cada encontro mencionando alguma outra pessoa que estava presente quando os dois se conheceram. Foi ideia de Kai, para que sempre tivessem certeza de que estavam falando com a pessoa com quem achavam estar, em vez de um lunar usando glamour.
Kai deu um sorriso ao ouvir a menção ao pai. Ele não se lembrava de quando conheceu Torin, que era funcionário do palácio desde antes de seu nascimento.
— Minha mãe — disse ele, como resposta.
O olhar de Torin desceu até os pés descalços e a calça enrolada de Kai, mas não permaneceu lá.
— Alguma notícia?
— Nada. Você?
— Falei brevemente com o presidente Vargas mais cedo. Ele e outros representantes americanos se sentem ameaçados. Eles sentem que estamos sendo mantidos aqui como reféns.
— Homem esperto. — Uma onda bateu em Kai e ele oscilou junto, encolhendo os dedos na areia molhada. — Levana acredita que nos tem onde quer.
— Ela está errada?
Kai franziu a testa e não respondeu. Seu silêncio foi seguido de um suspiro.
Kai olhou para trás e viu Torin tirando os sapatos e as meias. Ele enrolou as barras da calça e se juntou a Kai na beira da água.
— Falei para o presidente Vargas que, quando Levana tiver o título de imperatriz, ela vai ficar menos na defensiva e vamos todos poder impor limites racionais nessa nova aliança terráqueo-lunar. — Ele hesitou e acrescentou: — Não falei nada sobre a princesa Selene. Achei que ele veria qualquer esperança nela como um mero conto de fadas.
Kai mordeu o lábio e torceu para não ser assim. Ele vinha colocando sua fé na princesa Selene mesmo antes de encontrá-la. Mesmo antes de saber que ela era a pessoa mais capaz, versátil e determinada que ele conhecia. Mesmo antes de começar a fantasiar com um casamento terráqueo-lunar que não envolvesse Levana.
— Vossa Majestade — disse Torin, com um tom que dizia que ele estava prestes a abordar um assunto que Kai não ia gostar. Kai se preparou para isso. — Já pensou em qual deve ser seu próximo gesto se o resultado que esperamos não acontecer?
— Você quer dizer se Cinder estiver morta e o povo não se rebelar, e se amanhã de manhã eu me encontrar preso a uma imperatriz que quer me matar e tomar controle da minha força militar e declarar guerra contra todos os meus aliados até todos sucumbirem à vontade dela?
Torin fez um som zombeteiro no fundo da garganta.
— Imagino que você esteja pensando nisso.
— Passou pela minha cabeça uma ou duas vezes.
Ele espiou Torin pelo canto dos olhos, surpreso em perceber que olhar para seu conselheiro era como olhar para uma versão mais velha e mais sábia de si mesmo. Não que eles se parecessem; Torin tinha cabelo grisalho arrumado, um nariz mais comprido e lábios finos e severos. Mas, de pés descalços na água, cada um com as mãos nos bolsos e os rostos virados para o lago, Kai achou que não seria ruim envelhecer e ser estável e capaz como Konn Torin. Ou atencioso e inteligente como o pai.
Ele verificou se os guardas lunares estavam longe o bastante para perguntar:
— Qual é o status das bombas capazes de enfraquecer esses biodomos?
— Eu soube que temos doze montadas e prontas para uso, mas faltam semanas para que uma segunda leva fique pronta. O máximo que podemos esperar a esta altura é enfraquecê-los, mas acho que não seria o bastante para impedir Levana.
— A não ser que ataquemos o domo onde ela está — disse Kai.
Os lábios de Torin se curvaram para baixo.
— Também é o domo onde nós estamos.
— Eu sei. — Com um suspiro, Kai encolheu os dedos dos pés na areia. — Prepare a frota. Quero um regimento de naves armadas posicionado em espaço neutro, o mais perto de Luna que puder chegar sem despertar preocupação. Depois da coroação, se Levana não permitir que os outros líderes vão embora, nós podemos ameaçá-la até que permita. Eu gostaria que todas as outras pessoas estivessem fora desta lua o mais rápido possível.
— Todas as outras pessoas? E você?
Kai balançou a cabeça.
— Tenho que garantir que Levana entregue o antídoto contra letumose. Não sei onde ela guarda, mas se estiver aqui em Artemísia não podemos correr o risco de que seja destruído. Preciso ter certeza de que vamos pegá-lo e levá-lo para a Terra o mais depressa possível. Tenho que conseguir isso, mesmo que não consiga mais nada.
— E, quando o antídoto estiver em lugar seguro — disse Torin —, nossa prioridade tem que ser sua segurança. Se ela pretende matar você para assumir controle da Comunidade, precisamos fazer alguma coisa para que isso não aconteça. Vamos mandar aumentar sua segurança em tempo integral. E sua separação física da rainha vai ser absolutamente necessária. Não quero que ela tome sua mente e o obrigue a cometer algum ato contra si mesmo.
Kai sorriu, tocado pela proteção na voz de Torin.
— São boas sugestões, Torin, mas nada disso vai ser necessário.
Torin se virou para ele, mas Kai estava olhando para o horizonte, onde a água preta encontrava o céu preto. A luz do sol cintilava em alguns domos ao longe, mas a mudança de noite para dia foi tão gradual que Kai quase não percebeu. Os nasceres do sol em Luna eram uma coisa desesperadamente lenta.
— Eu quase a matei no casamento. Cheguei tão perto. Eu poderia ter acabado com tudo, mas fracassei.
Torin deu uma risada debochada e frustrada.
— Você não é assassino. Acho difícil pensar nisso como fracasso.
Kai abriu a boca, mas Torin prosseguiu.
— E se você a tivesse matado, teria despertado a fúria de todos os taumaturgos e guardas naquela sala. Você teria sido morto, e sem dúvida todos os convidados terráqueos também. Entendo o impulso, mas fico feliz por você ter fracassado.
— Você está certo. Mesmo assim, não vai acontecer na próxima vez. — Kai enfiou a mão no bolso e encontrou o medalhão. O que Iko e Cress deram para ele a bordo da Rampion, declarando-o eternamente membro da tripulação, independentemente do que acontecesse. Ele o apertou na mão fechada. — Não vou embora de Luna sem resolver isso. Ela não pode governar a Terra. Se Cinder… se a princesa Selene falhar, eu não vou falhar.
— O que você está dizendo?
Kai se virou para Torin, apesar da dificuldade de soltar os pés da areia.
— Posso me tornar útil a ela por tempo suficiente para conseguir o antídoto. Ela não vai me matar imediatamente, não se eu a convencer de que tenho informações que ela quer: conhecimento sobre nossos procedimentos militares, recursos… Depois, quando o antídoto estiver em lugar seguro, vou mandar nossa força militar bombardear Artemísia.
Torin deu um passo para trás.
— Com você dentro?
Ele assentiu.
— É a única forma de garantir que Levana vai estar aqui quando o ataque acontecer. Ela não vai desconfiar. Enquanto eu estiver aqui, ela vai achar que tem controle sobre nós. Com um único ataque, podemos acabar com ela, com os taumaturgos e com os membros mais poderosos da corte. Não vão poder impedir. Não vai ter lavagem cerebral. Não vai ter manipulação. Vai haver um monte de mortes, mas podemos tentar manter a destruição nos setores centrais, e, quando Luna estiver em estado caótico, a Terra pode oferecer ajuda na reconstrução.
Torin tinha começado a balançar a cabeça. Os olhos estavam fechados, como se ele não suportasse mais ouvir os planos de Kai.
— Não. Você não pode se sacrificar.
— Já estou me sacrificando. Não vou deixar que ela tome meu país. A paz prevalece na União Terráquea há mais de um século. Não vou deixar que minhas decisões representem o fim disso. — Ele empertigou os ombros. — E é por isso que é tão importante que a Comunidade seja governada por uma pessoa inteligente e justa. Os Artigos da Unificação declaram que, caso o último da linhagem de imperadores tenha motivo para esperar sua morte sem antes providenciar um herdeiro para o trono, ele deve indicar uma pessoa para se tornar o novo imperador ou a nova imperatriz, e o povo vai indicar suas escolhas, e será feita uma eleição. — Ele olhou nos olhos de Torin. — Eu indiquei você antes de partirmos. Nainsi está com minha declaração oficial. Então… — Ele engoliu em seco. — Boa sorte na eleição.
— Eu não posso… não vou…
— Já está feito. Se você tiver um plano melhor, eu adoraria ouvir. Mas não vou deixar aquela mulher governar a Comunidade. Eu ficaria honrado em morrer a serviço do meu país. — Kai olhou para o palácio e para a varanda da sala do trono, projetada acima da cabeça deles. — Desde que eu possa levá-la comigo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!