20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e seis

Não havia espelhos no laboratório, nem mesmo na sala azulejada com o chuveiro esterilizado para o qual Lobo foi levado para tirar o gel grudento do cabelo. Mas não precisava de espelho para saber o que fizeram. Ele via a diferença na estrutura óssea quando olhava para suas mãos e seus pés. Sentia a diferença na boca projetada, nos dentes aumentados, no maxilar malformado. Tinham alterado sua estrutura óssea facial, abrindo espaço para a fileira de dentes caninos implantados. Havia uma nova curvatura nos ombros e um movimento estranho nos pés, que se pareciam mais com patas, feitas para correr e saltar em grandes velocidades. As mãos estavam enormes, equipadas com unhas reforçadas, parecidas com garras.
Ele até sentia o cheiro dentro de si. Novas substâncias químicas e hormônios bombeando pelas veias. Testosterona. Adrenalina. Feromônios. Ele se perguntou quando os novos pelos começariam a nascer na pele, completando a transformação.
Ele estava infeliz. Tinha virado tudo o que nunca quis ser.
Também estava morrendo de fome.
Tinham deixado um uniforme para ele, parecido com o uniforme que usou como agente especial. Era uma formalidade para seu papel na coroação. A maioria dos soldados transformados por bioengenharia recebia roupas bem menos distintas, sendo mais animais do que homens.
E, agora, ele era um deles. Tentou controlar sua repulsa. Afinal, quem era ele para julgar seus irmãos?
Mas suas emoções continuaram flutuando. Furiosas e ardentes em um momento. Arrasadas e cheias de autodesprezo no seguinte.
Esse era o destino dele. Sempre fora o destino dele. Ele não imaginava como podia ter pensado diferente. Tinha mesmo acreditado que podia ser melhor? Que merecia mais? Ele estava destinado a matar e comer e destruir. Era tudo a que tinha direito.
De repente, seu nariz tremeu.
Comida.
Sua língua foi coberta de saliva, e ele a passou nos dentes afiados. Alguma coisa em seu estômago rugiu, irritada com o vazio.
Ele tremeu e se lembrou da fome de quando começou o treinamento como agente especial. Ao mesmo tempo, desejava e odiava os pedaços de carne pouco cozida que eram oferecidos e a forma como eles tinham que lutar por uma porção, confirmando a ordem hierárquica da matilha no processo. Mesmo naquela época, a fome não era tão ruim.
Ele engoliu com força e terminou de se vestir.
Seu corpo começou a tremer quando abriu a porta e o aroma de comida explodiu em suas narinas. Estava quase ofegante.
A taumaturga Bement e a técnica de laboratório ainda estavam ali, mas o homem inconsciente tinha sido retirado. A técnica se encolheu quando viu a expressão de Lobo.
Ela se posicionou atrás de outro tanque de suspensão, ocupado por alguma outra vítima.
— Essa expressão deve querer dizer que tem comida no prédio — disse ela.
— De fato. — A taumaturga estava encostada na parede, olhando para o tablet. — Está no elevador agora.
— Eu não tinha percebido que ele ia comer aqui. Você já viu algum deles comendo pela primeira vez?
— Eu cuido dele. Faça seu trabalho.
Lançando mais um olhar hesitante para Lobo, a mulher voltou a verificar as telas de diagnóstico no tanque.
Houve um apito no corredor, e o aroma de comida chegou cem vezes mais forte. Lobo agarrou a moldura da porta. Suas pernas estavam fracas de desejo, os joelhos prestes a ceder.
Um criado chegou, empurrando um carrinho de madeira coberto com uma toalha branca.
— Mestra — disse ele, fazendo uma reverência para a taumaturga. Ele foi dispensado.
Os sentidos de Lobo estavam sendo massacrados. Suas orelhas se apuraram com o sibilar do vapor. A barriga entrou em espasmos de desejo. Cordeiro.
— Está com fome?
Ele rosnou para a taumaturga. Podia pular nela, deixar a mulher em pedacinhos antes de ela perceber o que estava acontecendo, mas alguma coisa o segurou. Um medo profundo. Lembranças de outro taumaturgo o controlando.
— Eu fiz uma pergunta. Sei que você não passa de um animal agora, mas ainda acho que é inteligente o bastante para responder com um simples sim ou não.
— Sim — grunhiu Lobo.
— Sim o quê?
Uma fúria o cegou, mas ele a sufocou. Lobo fez uma careta para conter o surto de ódio.
— Sim, mestra.
— Ótimo. Não temos tempo para nos conhecer e construir o relacionamento de compreensão que um taumaturgo normalmente formaria com a matilha. Mas eu queria ilustrar dois princípios fundamentais, de forma que seu pequeno cérebro animal entenda. — Ela puxou a toalha branca e mostrou um prato lotado de carne e ossos, cartilagem e tutano.
Lobo tremeu de fome, mas também de nojo. Nojo da carne e nojo de seus próprios desejos. Uma lembrança estranha eclipsou essa nova vontade. Uma coisa brilhante e vermelha e explodindo de sumo: tomate.
São a melhor parte e foram plantados na minha própria horta…
— A primeira coisa que você precisa saber como membro do exército de Sua Majestade é que um cachorrinho bom sempre vai ser recompensado. — A taumaturga balançou o braço na direção da comida. — Vá em frente. Coma um pouco.
Ele balançou a cabeça, querendo afastar a voz desconhecida. Era aquela garota de novo. A garota ruiva que ficou tão repugnada por ele.
As pernas de Lobo se moveram por vontade própria e o levaram até o carrinho. Seu estômago desejava. Sua língua estava lerda.
Mas, assim que ele esticou a mão cheia de unhas na direção do prato, suas entranhas foram tomadas de dor. Ele se curvou de sofrimento. As pernas cederam e ele se encolheu no chão, batendo com o ombro na beirada do carrinho e o empurrando até a parede mais próxima. A dor se prolongou, se espalhou por todos os membros, como mil adagas sendo enfiadas na carne.
A taumaturga sorriu.
A dor diminuiu. Lobo ficou tremendo no chão, com as bochechas molhadas de suor ou de lágrimas, ou das duas coisas.
A tortura não era novidade. Ele se lembrava dela do treinamento anterior, com Jael. Mas não a sentia desde que se tornou alfa. Um soldado estimado. Um bichinho leal e bom.
— E isso é o que vai acontecer se você me decepcionar — disse a taumaturga. — Estamos entendidos?
Ele assentiu com a cabeça trêmula, os músculos ainda tremendo.
— Estamos entendidos?
Ele tossiu.
— Sim. Mestra.
— Ótimo. — A taumaturga tirou a bandeja do carrinho e colocou no chão, ao lado dele. — Agora coma sua comida como um bom cachorro. Nossa rainha está esperando.

5 comentários:

  1. Gente cadê uma princesssa pra salvar esse pobre coitado agora. T.T LOBO T.T

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  2. De todos os personagens q menos mereciam ser torturados era a Scarlet e o Lobo, e eles q mais foram torturados ;-;

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  3. the girl you'll never know who it is10 de março de 2019 18:17

    Coitado do lobo😞 eu só espero que a Scarlet ajude ele

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Boa leitura, E SEM SPOILER!