20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e quatro

Ele sonhou com Ran, seu irmão mais novo, depois que se tornou um monstro. No sonho, ele viu Ran rondar a presa, músculos se contraindo sob a pele, saliva se reunindo nos cantos da boca. Ran fechou a mão e a abriu, revelando as unhas que tinha lixado para ficarem pontudas. Seus olhos brilharam por saber que a vítima não tinha para onde correr.
Com um rosnado, Ran enfiou as garras nas laterais da vítima e a arremessou. Ela. O sonho se apurou, a sombra borrada virou uma garota sendo jogada em uma estátua no centro de um chafariz seco. Ela estava sangrando, o cabelo ruivo estava sujo, os olhos injetados, tomados de sangue.
Lobo ficou olhando, mas não podia fazer nada. Estava encapsulado em pedra, e só seus pensamentos eram selvagens e alertas, repetindo que ele falhara com ela.
A cena mudou, e ele passou a ser só um garoto conhecendo a matilha. Ainda estava tentando se acostumar com o fato de que tinham tirado seu dom lunar e o transformado em uma coisa que não era natural. Uma coisa que o tornaria um soldado melhor para a rainha. O resto dos meninos olhou-o com ódio e desconfiança, apesar de ele não saber por quê. Ele era como os outros. Um peão, um mutante.
Como todos os outros.
O som de um tiro ricocheteou em sua cabeça, e ele estava de pé em uma praça lotada e poeirenta. A mãe desabou ao lado. Uma poça de sangue se formou a seus pés. Ela estava de quatro, tentando se afastar. Caiu de costas. Ele sentia o cheiro de sangue nela. Sentia o horror emanando dela em torrentes. Via o ódio nos olhos dela.
Desta vez, ele era o predador. Desta vez, ela estava olhando para ele.
Ele acordou com um susto. Impeça Ran. Mate o alfa. Fuja. Salve-a. Encontre a mulher velha. Mate Jael e arranque o coração ainda pulsante dele do peito. Encontre seus pais. Junte-se à sua matilha. Arranque os membros deles do corpo. Esconda-se. Seja corajoso. Proteja-a. Encontre-a. Salve-a. Mate-a…
— Uma ajudinha aqui!
Seus olhos estavam abertos, mas ele não via nada além das luzes fortes. Alguém estava segurando seus braços. Muitos alguéns. Rosnando, ele bateu os dentes para seus captores, mas só mordeu ar.
— Estrelas do céu — grunhiu alguém. — Nunca vi um deles acordar assim antes. Me passe o tranquilizante.
— Não. Não o tranquilize. — A segunda voz feminina era suave e calma, mas falava no imperativo. — Sua Majestade solicitou a presença dele.
Lobo soltou um braço. Fios estalaram ao redor. Alguma coisa o arranhou embaixo da pele do antebraço, mas ele estava exausto demais para prestar atenção. Segurou uma das formas borradas pelo pescoço e jogou por cima. Um grito foi seguido de um estrondo de metal.
— O quê…
Lobo encontrou a segunda pessoa e botou as duas mãos ao redor do pescoço dela. Só um estalo…
Um choque de dor subiu por seus braços. Ele soltou e o estranho cambaleou para trás, tentando respirar.
Lobo desabou na mesa novamente. Apesar de a dor ter sido breve, a mão esquerda continuava a tremer.
Não era uma mesa, ele percebeu. Paredes baixas o cercavam. Havia dezenas de tubos, muitos ainda enterrados em sua carne. A sensação de puxão que ele sentiu antes foi de agulhas ainda meio enfiadas na pele. Fazendo uma careta, ele virou o rosto, pois a imagem embrulhou seu estômago.
Chega de agulhas. Chega de tanque. Chega de cirurgias.
Passos se aproximaram, e ele olhou para os pés. Havia o contorno de uma forma nas luzes fortes. Era uma taumaturga de vermelho, com o cabelo preto preso em um coque.
— Bem-vindo de volta, Alfa Kesley.
Lobo engoliu, embora o movimento machucasse sua garganta. Alguma coisa parecia errada. Muitas coisas pareciam erradas. Tinha alguma coisa no rosto dele. Uma máscara, ou…
Ele levou a mão à boca, mas os fios o seguraram, e desta vez ele não lutou.
— Terminem os procedimentos de reconstituição — disse a taumaturga. — Ele está bem amistoso agora.
Outra mulher apareceu, massageando o pescoço. Olhou para Lobo com cautela enquanto começava a tirar as agulhas dos braços dele, depois soltou algumas sondas presas ao couro cabeludo. Ele fez careta em cada uma das vezes.
— Consegue se sentar? — perguntou a técnica de laboratório.
Lobo preparou os músculos e se elevou. A tarefa foi mais fácil do que ele esperava. O cérebro dizia que ele estava fraco, confuso, delirante. Mas o corpo parecia pronto para lutar. Os nervos zumbiam de energia potencial.
A técnica lhe entregou um copo de líquido laranja. Ele farejou primeiro, franziu o nariz de nojo, depois levou aos lábios.
Fez uma pausa. Baixou o copo de novo.
Levantou a mão livre e encostou na boca. No nariz. No maxilar.
Seu corpo teve uma convulsão de horror.
Estava feito. Depois de anos lutando para evitar se tornar um dos monstros da rainha, aconteceu.
— Tem alguma coisa errada, Alfa Kesley?
Ele fitou os olhos da taumaturga. Ela o encarava como alguém que assiste a uma bomba-relógio. Lobo sabia que não tinha palavras para expressar toda a confusão e o atordoamento e as necessidades selvagens que pulsavam por seu cérebro, necessidades que não era capaz de citar. De qualquer forma, não achava que fosse capaz de falar. Ele bebeu o líquido laranja.
O sonho voltou em pedaços intensos e fragmentados. O cabelo ruivo da garota. A fúria animalesca do irmão. A mãe caindo, morta, fora do alcance.
Sempre voltava para a garota bonita de língua afiada. A lembrança dela era a mais intensa de todas porque ele se lembrava claramente de como ela o desprezava.
Lembranças e medos se misturaram, em choque uns com os outros, e ele não conseguia mais distinguir verdade e ficção. Sua cabeça doía.
— Qual você disse que era a diferença entre ele e os outros? — perguntou a taumaturga, indo até o lado de Lobo.
A técnica analisou uma tela embutida na lateral do tanque.
— Os padrões do cérebro dele estavam mais ativos do que o habitual nos estágios finais da reengenharia, e normalmente quando eles acordam só estão… com fome. Não violentos. Isso vem depois, quando recuperam as forças.
— Ele parece estar com bastante força.
— Eu reparei. — A técnica balançou a cabeça. — Pode ser por termos acelerado o processo. Normalmente, ficamos com eles pelo menos uma semana. A mente e o corpo dele passaram por muita coisa em um período curto, o que pode estar causando a agressão.
— Ele está apto a servir à rainha?
A técnica olhou para Lobo. Ele amassou o copo na mão. Ela engoliu em seco e deu um passo para trás.
— Tão capaz quanto qualquer outro soldado. Sugiro alimentá-lo antes de colocá-lo na ativa. E, claro, normalmente eles passam meses treinando com um taumaturgo depois que as cirurgias são concluídas, para que o mestre aprenda os padrões bioelétricos deles e a melhor forma de controlá-los…
— Eles não são feitos para serem controlados.
A técnica franziu a testa.
— Eu sei. Mas podem aprender obediência. Ele é uma arma carregada. Eu não recomendaria levá-lo a uma sala cheia de gente sem alguém antes aprender a lidar com ele.
— Parece que não sou capaz de lidar com ele?
A atenção da técnica se desviou da taumaturga para Lobo e para o copo amassado na mão dele.
— Só estou aqui para garantir que os corpos deles não rejeitem as modificações.
Lobo passou a língua pela ponta afiada do dente canino. Ele tinha levado meses para se acostumar aos implantes, e agora a sensação era toda errada de novo. Eram grandes demais. Afiados demais. Havia uma dor latejante em todo o maxilar.
A taumaturga andou ao redor do tanque.
— Alfa Ze’ev Kesley, você é mais uma vez um soldado no exército da rainha. Infelizmente, sua matilha de agentes especiais debandou depois do primeiro ataque em Paris, e não temos tempo para fazer você se acostumar a uma nova. Por enquanto, você vai servir como lobo solitário.
Ela sorriu. Lobo, não.
— Sou a taumaturga Bement, mas você vai se referir a mim como Mestra — continuou ela. — Uma grande honra lhe foi concedida. A rainha quer que você seja parte de seu comitê pessoal durante a coroação, na qual ela será coroada imperatriz da Comunidade das Nações Orientais da Terra. Como você tem histórico de tendências rebeldes, ela sente que sua presença, servindo como soldado leal, vai passar um recado a qualquer pessoa que ouse ameaçar a coroa. Você consegue adivinhar que recado é esse?
Lobo não disse nada.
O tom da taumaturga Bement virou uma ameaça sussurrada:
— Quando a rainha se apossa de você, você é dela para sempre. — Ela bateu com os dedos na beirada do tanque. — Vamos ver se você se lembra disso desta vez.
Ela esperou uma resposta. Como ele não deu nenhuma, ela apertou os olhos.
— Você esqueceu seu treinamento? Quando seu taumaturgo fala com você, qual é sua resposta apropriada?
— Sim, Mes… Mestra.
Pareceu que as palavras foram arrancadas dele, um reflexo incutido durante anos e anos pelo taumaturgo Jael. Arranque o coração ainda pulsante dele do peito.
Lobo se encolheu e sua boca começou a salivar. Ele estava mesmo com fome.
— A quem você serve, Alfa Kesley?
A quem ele servia?
O belo rosto da rainha surgiu na memória, ela sentada no trono. Vendo as matilhas lutarem para conquistarem favores. Ele mesmo já desejou impressioná-la. Já matou por ela. Já sentiu orgulho.
— Eu sirvo à minha rainha — disse ele, com voz mais firme.
— Correto.
Bement se inclinou na direção do tanque, mas Lobo não afastou o olhar. Estava salivando. Sentia o cheiro do sangue pulsando embaixo da pele da mulher, mas uma lembrança de dor desceu por sua coluna quando ele pensou em experimentá-la.
— Eu soube que você arrumou uma companheira quando estava na Terra — disse ela.
Ele ficou tenso. O cabelo ruivo surgiu em seus pensamentos.
— O que você faria se a visse hoje?
Ele a viu sendo jogada na estátua. Andando de quatro. Olhando para ele com expressão apavorada e cheia de ódio.
Um rosnado soou no fundo de sua garganta.
— Os terráqueos têm a carne mais deliciosa.
Os lábios da taumaturga se curvaram em um sorriso.
— Ele vai se sair bem. — Afastando-se do tanque, ela passou pela técnica e pelo colega caído. — Deixe-o limpo. Você sabe que Sua Majestade gosta de manter as aparências.

3 comentários:

  1. GNT, só eu q lembrei do Peeta de Jogos Vorazes?

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    1. Agora q vc falou lembrei, o que mim lembrou mais JV foi a revouta na praça... mim lembrou a morte dr Ruy.

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  2. Vdd
    Mas ainda estou triste por lobo....

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Boa leitura, E SEM SPOILER!