20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e oito

— Por que Cress sempre usa as melhores roupas? — resmungou Iko, cruzando os braços enquanto Cress treinava andar de um lado para outro nos sapatos plataforma ridiculamente altos. — Cress vai a um casamento real. Cress vai a uma coroação. Cress é que fica com toda a diversão.
— Eu não vou à coroação — disse Cress, tentando olhar para os pés sem cair. — Só estamos imitando convidados para podermos invadir o sistema de transmissão do palácio.
— Cress invade o sistema de transmissão do palácio.
— Cress está arriscando a vida para fazer isso. — Cinder jogou uma pilha de acessórios brilhantes na cama. — Algum desses combina?
Iko se sentou na cama e começou a mexer nos acessórios com desejo nos olhos.
— Acho que essas luvas se prendem nas coisas que se parecem com asas — disse ela, dando um sorriso lamentoso. — Eu queria que minha roupa viesse com luvas laranja sem dedos e até os cotovelos.
— Esses sapatos parecem pernas de pau — disse Cress, balançando. — Não tem uma coisa mais prática?
— Acho que prático não existe no vocabulário lunar — disse Cinder, voltando a mexer no armário. — Mas vou procurar.
Elas encontraram botas novas para Cinder, pelo menos, pois ela tinha perdido as dela no lago. Encontraram em um armário utilitário, junto com vários equipamentos esportivos, ou o que Cress achava que eram equipamentos esportivos. Infelizmente, não havia nada bastante pequeno para caber nela, e Iko insistiu que não combinaria com a roupa aristocrática, de qualquer maneira.
— Digam que não estou tão ridículo quanto pareço. — Thorne surgiu na porta, mexendo nos punhos da camisa.
Cress levou um susto, tropeçou e caiu em cima de Iko, o que fez as duas pararem no chão.
Cinder colocou a cabeça para fora do closet, observou a cena e apertou os lábios. Desapareceu lá dentro de novo, murmurando:
— É melhor eu encontrar outros sapatos.
Thorne ajudou Cress e Iko a ficarem de pé.
— Talvez ridículo seja o tema do dia — disse ele, inclinando a cabeça para avaliar a roupa de Cress, que era em parte vestido de noite, em parte fantasia de borboleta. Um tutu laranja que mal chegava ao meio da coxa e ficava bem espalhafatoso quando acompanhado de um corpete ajustado e brilhoso. Duas peças transparentes de tecido foram costuradas nas costas do corpete e se prendiam bem às luvas laranja até os cotovelos e com os dedos de fora que Iko desejava, então, quando Cress abria os braços, o efeito era de asas pretas e amarelas de borboleta se abrindo atrás dela. Para completar, Iko encontrou no baú de acessórios um chapeuzinho azul que tinha um par de molas com bolinhas felpudas na ponta. Cress supôs que deviam se parecer com antenas.
— Eu me sinto melhor agora que estou vendo o que você está usando.
Thorne ajeitou a gravata-borboleta. Ele vestia um terno ameixa que servia surpreendentemente bem nele, apesar de ter sido tirado do armário de um estranho. A gravata-borboleta tinha luzes pequenininhas no tecido, fazendo a gola da camisa brilhar em tons diferentes de néon. Ele tinha decidido continuar com suas botas militares.
Thorne estava surreal e sexy, e Cress precisou se obrigar a afastar o olhar.
— Você vai se encaixar perfeitamente, pelo que percebi no banquete. — Cinder saiu com um par de sapatos que parecia mais confortável. — Todos estavam usando coisas doidas assim. Não duvido que boa parte das roupas fosse glamour, mas, quanto menos elementos da aparência você precisar acrescentar com glamour, mais fácil é sustentar a ilusão.
— Ei, capitão — disse Iko —, pare de ficar olhando para as pernas dela.
Cress se virou a tempo de ver o sorriso apreciativo de Thorne. Dando de ombros, ele ajeitou as mangas do paletó.
— Sou especialista, Iko. Veja só como esses sapatos a deixaram alta. — Ele hesitou. — Bem, meio alta.
Cress ficou vermelha e olhou para as próprias pernas à mostra.
Cinder revirou os olhos.
— Tome, Cress, experimente esses.
— Hã? Ah, certo. — Ela tirou os instrumentos de tortura e jogou para Iko, que ficou animadíssima de colocá-los nos pés.
Em segundos, Iko estava dançando pelo aposento como se tivesse sido elaborada com aqueles sapatos em mente.
— Ah, sim — disse ela. — Vou ficar com eles.
Depois que Cress colocou os novos sapatos nos pés, Thorne deu um peteleco em uma das bolas peludinhas das antenas e passou o braço pelos ombros dela.
— Como estamos?
Cinder coçou a nuca. Iko inclinou a cabeça de um lado para outro, como se a aparência deles pudesse melhorar se vista de outro ângulo.
— Acho que vocês parecem lunares — arriscou Cinder.
— Legal. — Thorne levantou a mão. Cress deu um tapinha constrangido.
Cinder ajeitou o rabo de cavalo.
— É claro que qualquer lunar que preste atenção vai saber que você é terráqueo e ela é cascuda. Então, tomem cuidado.
Thorne fez expressão de deboche.
— Cuidado é meu sobrenome. Vem logo depois de Charmoso Ousado.
— Você ao menos sabe o que está dizendo na metade do tempo que fala? — perguntou Cinder.
Thorne pegou o chip para o qual tinham transferido o vídeo e entregou para Cress.
— Guarde em um lugar seguro.
Ela ficou olhando, sem saber o que significava segurança. Não tinha bolsos, nem bolsa e bem poucas roupas onde esconder qualquer coisa. Por fim, ela colocou dentro do corpete.
Thorne pegou o tablet de Cress na penteadeira e colocou em um bolso de dentro do paletó, onde ela também via o contorno da arma. Uma faquinha que tinham encontrado na cozinha sumiu nas mãos dele com tanta rapidez que ela não sabia onde ele tinha colocado.
— Acho que é tudo — disse Cinder, olhando as roupas de Thorne e Cress de novo. — Estamos prontos?
— Se alguém responder não a essa pergunta — disse Jacin, aparecendo no corredor com uma careta e batendo os dedos —, eu vou sem vocês.
Cress olhou para os amigos e se deu conta de que eles se separariam. De novo. Um tremor surgiu na boca do estômago.
Ela e Thorne iam para o palácio, enquanto Cinder, Iko e Jacin tentariam salvar Winter e Scarlet e organizar as pessoas que em pouco tempo invadiriam Artemísia.
Ela não queria deixá-los. Não queria se despedir.
Mas o braço de Thorne estava em seus ombros, reconfortante e firme. Quando ele puxou a lapela com a mão livre e disse para os outros que eles estavam prontos, Cress não discutiu.


— Ali está a entrada dos fundos — disse Jacin, apontando para uma porta quase invisível na parte de trás da clínica médica e de pesquisa, meio escondida atrás de arbustos altos. Iko se esticou atrás dele na tentativa de ver, mas ele colocou a mão na cabeça da androide e a obrigou a se abaixar quando dois homens de jalecos brancos passaram, os dois com a atenção grudada nos tablets.
Jacin examinou o pátio mais uma vez antes de sair do esconderijo e se ocultar na sombra do prédio. Pela parede do domo, ele via a paisagem desolada de Luna se estendendo ao longe. Ele sinalizou com os braços e Cinder e Iko o seguiram, todos se reunindo nas sombras.
A porta se abriu com facilidade; não havia motivos para se trancar portas em um prédio aberto ao público. Mas Jacin se recusou a sentir alívio. Não haveria alívio para ele até que soubesse que Winter estava salva.
Eles correram por uma passagem escura, com paredes que precisavam ser pintadas. Jacin prestou atenção, mas só ouviu uma roda gemendo e um carrinho estalando em algum corredor distante.
— Tem uma sala de manutenção ali — disse ele, apontando. — E um armário de suprimentos em cada andar. Aquela porta leva à parte principal do prédio.
— Como você sabe disso tudo? — sussurrou Cinder.
— Fui residente aqui alguns meses antes de a rainha decidir que eu seria um bom guarda.
Ele sentiu o olhar de Cinder, mas não correspondeu.
— Verdade — murmurou ela. — Você queria ser médico.
— Não importa.
Ele andou até a tela ao lado da sala de manutenção e abriu um diagrama do mapa da clínica. Alguns pontos de exclamação piscavam em áreas diferentes, com notas incluídas.
PACIENTE MR-8: DERRAMAMENTO NÃO TÓXICO NO CHÃO. LAB 13: INTERRUPTOR COM DEFEITO.
— Aqui — disse Cinder, apontando para o quarto andar no diagrama.
PESQUISA E DESENVOLVIMENTO DE DOENÇAS.
Havia uma escadaria de fundos do outro lado do prédio, que ao menos os levaria ao andar certo. Jacin esperava que a equipe de pesquisa tivesse tirado o dia de folga para participar das festividades da coroação. Ele não queria mais complicações, e gostaria de evitar matar qualquer pessoa se pudesse.
Mas isso não o impediu de afrouxar a arma.
A subida até o quarto andar aconteceu sem surpresas. Jacin abriu a porta de leve e observou o corredor iluminado. Ouviu o gargarejo de tanques de água e o zumbido de computadores e o ruído constante de máquinas, mas não pessoas.
Indicando para as duas ficarem perto, ele saiu da escada. Os sapatos fizeram barulhos no piso. Ao lado de cada porta, uma tela se iluminava quando eles passavam, indicando o propósito de cada sala.
AGRICULTURA: DESENVOLVIMENTO E TESTE DE MODIFICAÇÃO GENÉTICA
MANIPULAÇÃO BIOELÉTRICA: ESTUDO Nº 11 (CONTROLE E GRUPOS 1-3)
ENGENHARIA GENÉTICA: PACIENTES CANIS LUPUS Nº 16-20
ENGENHARIA GENÉTICA: PACIENTES CANIS LUPUS Nº 21-23
ENGENHARIA GENÉTICA: ALTERAÇÃO CIRÚRGICA
— … aumentar manufat…
Jacin parou. A voz feminina vinha de algum ponto do corredor e foi seguida de uma porta ou armário sendo fechado.
— … ser possível sustentar… recursos…
Outra porta se abriu e houve o som de passos.
Jacin esticou a mão para a porta mais próxima, mas estava trancada. Atrás dele, Cinder testou outra maçaneta e fez cara feia quando não abriu.
— Aqui — sussurrou Iko, abrindo uma porta no corredor.
Jacin e Cinder entraram atrás dela e fecharam a porta, tomando o cuidado de não fazer barulho.
O laboratório estava vazio, ou pelo menos sem pessoas. Pessoas conscientes. As paredes estavam cheias de prateleiras com tanques suspensos de animação, ocupando o espaço do chão ao teto. Cada tanque zumbia e gorgolejava, com os interiores iluminados por luzes verdes suaves que faziam os corpos parecerem cadáveres congelados. A parede mais distante estava cheia de mais tanques empilhados como gavetas fechadas, criando um painel de telas e estatísticas, luzes brilhando e solas de pés.
Cinder e Iko se esconderam atrás de dois tanques. Jacin se encostou na parede para ficar escondido se a porta fosse aberta e para pegar de surpresa a pessoa que a abrisse.
A primeira voz foi respondida por outra, masculina desta vez:
— … muito em estoque, mas seria bom se nos dessem alguma indicação de que isso ia…
Jacin inspirou quando a voz ficou mais alta, até os passos estarem em frente à porta. Mas os passos e as vozes logo sumiram na outra direção.
Iko espiou pela base do tanque, mas ele levou um dedo aos lábios. O rosto de Cinder apareceu um segundo depois, questionador.
Jacin lançou um olhar rápido para o resto do laboratório. Cada tanque de suspensão tinha um pequeno tubo que o ligava a uma fileira de recipientes. Apesar de a maioria dos tubos estar límpida, alguns estavam vermelho-escuro, com sangue fluindo lentamente.
— Que lugar é este? — sussurrou Cinder. Seu rosto estava contorcido de horror. Ela olhava para a forma inconsciente de uma criança de talvez uns poucos anos de idade.
— São cascudos — disse ele. — Ela os deixa aqui para obter um infinito suprimento de sangue, que é usado para produzir o antídoto.
Quando um cascudo nascia e era levado, as famílias recebiam a informação de que eram mortos como parte das leis de infanticídio. Anos antes, eles ficavam presos em cativeiro, em alojamentos separados onde eram vistos como pouco mais do que prisioneiros úteis. Mas um dia esses cascudos aprisionados se rebelaram, e, como não era possível controlá-los, mataram cinco taumaturgos e oito guardas reais antes de serem contidos.
Desde então, eles passaram a ser considerados ao mesmo tempo úteis perigosos, o que levou à decisão de deixá-los em estado de coma permanente. Eles não eram mais ameaça, e o sangue podia ser colhido mais facilmente para as plaquetas usadas no antídoto para a letumose.
Poucas pessoas sabiam que as leis de infanticídio eram falsas e que os filhos perdidos ainda estavam vivos, mesmo que por pouco.
Jacin nunca tinha estado naquela sala antes, mas sabia que existia. A realidade era mais impressionante do que ele imaginou. Ocorreu-lhe que, se tivesse se tornado médico e escapado do destino como guarda de palácio, ele poderia ter acabado no mesmo laboratório. Só que, em vez de curar pessoas, as estaria usando.
Iko tinha ido até a porta.
— Não estou ouvindo ninguém no corredor.
— Certo. É melhor a gente ir.
Cinder passou as pontas dos dedos no tanque da criança pequena, os olhos tomados de tristeza, mas também, se Jacin sabia alguma coisa sobre ela, com um toque de determinação. Ele desconfiava que ela já estava planejando o momento em que voltaria ali e libertaria todos eles.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!