21 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e nove

As duas pessoas que eles ouviram no corredor não estavam por perto. Eles logo encontraram a porta com a identificação pesquisa e desenvolvimento de doenças, bem onde o diagrama disse que estaria.
O laboratório estava ocupado com estações designadas, cada uma com um banco, uma mesa de metal, uma série de frascos e tubos de ensaio e placas de Petri organizados, um microscópio e um gaveteiro. Impecavelmente limpo. O ar tinha gosto estéril de água sanitária. Havia nódulos holográficos pendurados na parede, todos desligados.
Duas estações mostravam evidências de trabalho recente: holofotes iluminando placas de Petri e instrumentos abandonados nas mesas.
— Separem-se — disse Cinder.
Iko foi para os armários do lado mais distante da sala; Cinder começou a mexer nas prateleiras; Jacin foi até a estação de trabalho mais próxima, lendo as gavetas marcadas.
Na de cima, ele encontrou um tablet antiquado, uma impressora de etiquetas, um escâner e um kit de frascos vazios. O resto estava cheio de seringas e placas de Petri e lentes de microscópio, ainda na embalagem.
Ele foi para a segunda estação.
— É isso?
A atenção de Jacin se voltou para Iko, que estava de pé na frente de um par de armários do chão ao teto com as portas abertas, deixando à mostra fileiras e fileiras de pequenos frascos, cada um com um líquido transparente.
Jacin se juntou a ela diante dos armários e levantou um frasco da bandeja. A etiqueta dizia bactéria patogênica ue1 — “letumose” tipo b — vacina Polivalente. Era idêntica à tampa do frasco seguinte e do outro também.
Jacin passou os olhos pelas centenas de bandejas.
— Vamos pegar um carrinho da manutenção e encher com o máximo de bandejas que conseguirmos. Provavelmente não vamos precisar disso tudo para um setor, mas prefiro que esteja conosco e não com Levana.
— Eu pego o carrinho — disse Iko, correndo até a porta.
Cinder passou o dedo por uma fileira de frascos, ouvindo-os estalar nas bandejas.
— Isto aqui é metade do motivo de Kai estar indo em frente com isso — sussurrou ela, e contraiu o maxilar. — Peony poderia ter sido salva.
— Winter vai ser salva.
Quando ouviu o carrinho no corredor, Jacin começou a tirar bandejas das prateleiras, e, juntos, eles lotaram o carrinho, empilhando bandeja em cima de bandeja de antídoto. A pulsação dele estava disparada. Cada vez que fechava os olhos, ele a via naquele tanque, tentando sobreviver. Quando tempo a imersão a protegeria? Quanto tempo ele tinha?
Iko pegou um pano grosso no armário da manutenção e eles o jogaram por cima do carrinho, prendendo o tecido nas beiradas das bandejas para estabilizá-las no trajeto.
Eles estavam empurrando o carrinho para a porta quando ouviram o apito do elevador. Pararam. Jacin colocou a mão em cima dos frascos cobertos para que não estalassem.
— Você parece não entender a situação complicada em que estamos — disse uma voz feminina aguda. — Precisamos que aqueles guardas retornem à ativa imediatamente. Não me importa se estão curados ou não.
— Taumaturga — sussurrou Cinder. Seus olhos estavam fechados, o rosto tenso de concentração. — E dois… vou tentar adivinhar, criados, talvez? Ou técnicos de laboratório? E mais um. Energia muito fraca. Possivelmente, um guarda.
— Pode deixar que não me ofendi — murmurou Jacin.
— Essas ordens vieram da própria rainha e não temos tempo a desperdiçar — continuou a taumaturga. — Parem de dar desculpas e façam seu trabalho.
Sem confiar no próprio corpo com um taumaturgo perto, Jacin pegou a arma e colocou na mão de Cinder.
Ela pareceu confusa primeiro, mas a compreensão veio rápido. Sua mão apertou a arma.
Passos se aproximaram e Jacin se perguntou se a taumaturga já os tinha sentido, parados e esperando dentro do laboratório. Talvez achasse que eram só pesquisadores.
A ideia seria descartada assim que ela os visse. Se passasse pelo laboratório. Ou se estivesse indo para o laboratório.
Mas, não, uma porta se abriu no corredor. Ele não a ouviu fechar, e não havia outras saídas. Para pegar a escada ou o elevador, eles teriam que voltar pelo caminho que tinham percorrido.
— Será que podemos esperar? — sugeriu Iko. — Eles vão ter que ir embora alguma hora.
Ele fechou a cara. Alguma hora não era rápido o bastante.
— Eu controlo o guarda e os outros dois — disse Cinder, os nós dos dedos ficando brancos. — Mato a taumaturga e espero até vocês terem saído para segui-los.
— Você vai despertar um monte de alarmes — disse Jacin.
O olhar dela ficou gelado.
— Eu já despertei um monte de alarmes.
— Eu vou — disse Iko. Ela estava com o queixo erguido e o rosto determinado. — Eles não podem me controlar. Vou atraí-los e encontrar um lugar para me esconder até vocês voltarem. Vocês têm que levar esse antídoto para Sua Alteza.
— Iko, não, nós deveríamos ficar juntas…
Iko botou as mãos no rosto de Cinder. Os dedos ainda não estavam funcionando, então o toque ficou meio torto, como se ela estivesse recebendo carinho de uma boneca enorme.
— Como falei, eu faria qualquer coisa para você ficar em segurança. Além do mais, se alguma coisa acontecer comigo, eu sei que você é capaz de consertar.
Iko piscou e saiu andando de forma corajosa para o corredor. Jacin fechou a porta depois que ela passou.
Eles ouviram os passos controlados de Iko no corredor e uma pausa.
— Ah, oi — soou a voz alegre dela, seguida do som de uma cadeira sendo empurrada no chão. — Ops, eu não queria dar um susto em você.
— O quê…? — A voz da taumaturga parou no meio da frase e assumiu um tom irritado. — Uma cascuda?
— Quase — disse Iko. — Caso você não tenha me reconhecido, sou uma boa amiga da princesa Selene. Imagino que você já tenha ouvido…
— Prendam-na.
— Acho que já ouviu.
Houve uma correria de passos, móveis caindo, dois tiros que fizeram Cinder se encolher.
— Detenham-na! — gritou a taumaturga, mais longe agora.
Uma porta se fechou.
— Pareceu ser na escada — disse Jacin.
O maxilar de Cinder estava contraído, os músculos, rígidos, mas ela respirou fundo e empertigou os ombros.
— É melhor a gente ir antes que eles voltem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!