20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e dois

Winter se sentou em banco improvisado, vendo os últimos pedacinhos de gelo derreterem ao redor dos pés. Ela enfiou os dedos nas poças rasas que se formaram, impressionada com o quanto tudo podia ser real, os estalos, o frio, mesmo sabendo que não era.
Suspirando, levantou a cabeça, mesmo exausta, para ver as sessões confusas de treinamento acontecendo pela rua poeirenta. Manobras e táticas, cem soldados treinados se esforçando para construir um exército. Ela observou a multidão em busca do cabelo flamejante de Scarlet, sem saber para onde a amiga tinha ido.
Em vez de ver Scarlet, o olhar dela captou uma coisa totalmente diferente. Uma cabeça de cabelos claros perto da parte de trás da multidão.
Seu coração deu um pulo.
Inspirando com tremor, ela se levantou do banco, mas ele já tinha sumido.
O olhar dela percorreu os rostos, procurando. Torcendo.
Ela apertou os punhos nas laterais do corpo, tentando afastar a onda repentina de euforia. Era seu desespero fazendo-a ver fantasmas. Sentia tanta falta dele. Ela ainda não sabia nem se ele estava vivo. Esperava ver o rosto dele em todos os grupos de pessoas, a cada esquina.
Ali, ela viu de novo. Cabelo da cor do sol preso atrás das orelhas. Ombros largos escondidos nas roupas dos trabalhadores do setor. Olhos azuis que a grudavam no chão mesmo quando todo o seu corpo formigava. O ar encheu seus pulmões. Ele estava vivo.
Ele estava vivo.
Mas Jacin levou um dedo aos lábios, fazendo-a parar antes que pudesse correr até ele.
Baixando a cabeça no esforço de minimizar sua altura, ele contornou um grupo de trabalhadores e seguiu para a floresta. Olhou para trás uma vez e, com um tremor rápido de cabeça, desapareceu nas sombras.
Com as palmas das mãos úmidas, Winter procurou Scarlet, mas ela não estava em lugar nenhum. Ninguém estava olhando para ela. Ela se afastou, energizada, e andou entre os troncos finos das árvores.
Daria a volta pelo bosque e encontraria Jacin na metade do caminho. Ela se jogaria nos braços dele e não ligava se ele achasse apropriado ou não.
À frente, ouviu o borbulhar do chafariz.
— Princesa.
Winter levou um susto. Na pressa, tinha passado direto pela mulher sem nem reparar nela. Embora fosse uma criatura idosa com costas curvadas, tinha vida em sua expressão. Estava segurando uma cesta cheia de galhos e pedaços de casca de tronco recolhidos no piso da floresta.
— Sim, oi — disse Winter, afobada, fazendo uma reverência rápida. Seu olhar já estava se movendo, procurando o cabelo louro e o sorriso provocador. Ela não viu nada. As árvores o escondiam dela.
— Você está procurando um rapaz jovem e bonito, acredito. — As rugas da mulher se espremeram em uma coisa parecida com um sorriso.
Winter começou a assentir, mas parou.
— Alguém passou por aqui agora?
— Só seu príncipe, minha querida. Não precisa ficar tímida. Ele é muito bonito, não é?
Ela não passava da clavícula de Winter, embora parte disso fosse por causa da corcunda na coluna. Winter se perguntou quantos anos de trabalho árduo pesavam naqueles ombros.
— Ele me pediu para dar um recado a você.
— Pediu? Jacin? — Winter olhou ao redor de novo. — Mas para onde ele foi?
— Ele disse para você não o seguir. Que é perigoso demais e que ele vai encontrar você quando voltar a ser seguro. — Ela inclinou a cabeça e olhou para a fileira de árvores, onde os alfas estavam gritando suas ordens.
Winter tentou esconder a decepção. Ele não poderia ter esperado para dar um sorriso, uma palavra gentil, um abraço rápido?
— Por que você não está com os outros?
A mulher deu de ombros com um certo esforço.
— Alguém disse que precisávamos de galhos. Não posso fazer muito, mas posso ajudar com isso.
— Claro — disse Winter. — Todos devemos fazer o que podemos. Me permita ajudar. — Ela pegou a cesta da mulher.
A mulher levantou um dedo, agora que o braço estava sem o peso.
— Eu quase esqueci. Seu príncipe deixou um presente. — Remexendo na cesta, ela encontrou uma caixa simples embaixo dos galhos. — Ele disse que essas são suas favoritas.
Winter sentiu o coração dar um pulo quando pegou a caixa. Ela sabia o que era sem nem abrir, e seu coração se expandiu no peito. Não conseguia imaginar o trabalho que Jacin teve para conseguir aquilo. E só para que ela soubesse que ele estava pensando nela?
A não ser que houvesse mais alguma coisa naquilo.
A não ser que houvesse uma mensagem.
Mordendo o canto dos lábios, ela abriu a tampa. Lá dentro havia duas balinhas de maçã azeda impecáveis, recém-saídas da vitrine da confeitaria.
— Mas como parecem gostosas — disse a mulher idosa, inclinando a cabeça para a frente para espiar a caixa. — Não como uma dessas desde que era criança. De maçã, não é?
— É. — Winter esticou a caixa na direção dela. — Por favor, pegue uma. Com minha gratidão por trazê-las.
A mulher pensou na oferta.
— Se você insiste… Acho que um pedacinho não vai me matar. Vou pegar esta, se você tem certeza de que não se importa. Está vendo, tem uma rachadura na cobertura, não está boa para uma princesa. — Seu olhar tinha algo de ousado quando ela pegou a bala com os dedos. — Mas só se você comer a outra. Seria uma grande honra dividir esse prêmio com Vossa Alteza, a linda princesa Winter em pessoa.
— Você é muito gentil. — Winter pegou a segunda bala da caixa. Olhou o forro na esperança de encontrar alguma pista que Jacin pudesse ter deixado, mas não viu nada.
Mesmo assim. Era um presente. Não só as balinhas, mas o fato de tê-lo visto de longe.
De saber que ele estava bem.
Ela colocou a balinha entre os dentes. A mulher a estava observando, imitando os movimentos dela, e juntas elas morderam. Winter sentiu a casca dura se rachar antes de derreter em sua língua.
A mulher idosa sorriu, com pedacinhos de recheio vermelho grudados nos dentes.
— Isso foi mais satisfatório do que eu poderia imaginar.
Winter engoliu.
— Fico feliz. Foi um prazer poder… poder…
Ela piscou e captou um quê de familiaridade na forma como a mulher a olhava. Na curva do sorriso… alguma coisa arrogante que explodia de contentamento.
— Tem alguma coisa errada, querida criança?
— Não. Não. Por um momento, você me lembrou uma pessoa. Mas meus olhos me enganam às vezes. Não são muito confiáveis.
— Ah, criança doce e tola. — A curvatura nas costas da mulher começou a se esticar. — Nós somos lunares. Nossos olhos nunca são confiáveis.
Winter se encolheu. A cesta escorregou de sua mão e caiu no chão.
À frente da princesa, Levana abandonou o disfarce de mulher idosa como uma cobra trocando de pele.
— Meus pesquisadores me garantiram que a doença agiria rápido — disse a rainha, com os olhos frios percorrendo a pele de Winter. Curiosos. Satisfeitos.
Os pensamentos de Winter giraram, encontrando a verdade na ilusão. A vida toda dela foi passada encontrando verdades em ilusões.
Onde estava Jacin? Por que Levana estava aqui? Seria outro pesadelo, uma alucinação, um truque?
Seu estômago deu um nó. Ela se sentia enjoada.
— Os micróbios infectados estão sendo absorvidos pela sua corrente sanguínea agora mesmo.
Winter colocou a mão na barriga, sentindo a bala comida rolando dentro de si. Visualizou seu coração, suas artérias, sua fábrica de plaquetas. Soldadinhos vermelhos marchando pelas esteiras rolantes.
— Micróbios?
— Ah, não se preocupe. Sendo essa coisinha jovem e saudável que você é, deve demorar uma hora ou duas para que comece a exibir os sintomas. Uma série de bolhas de sangue vai surgir na sua pele perfeita. As pontas dos seus dedinhos delicados vão murchar e ficar azuis… — Levana sorriu. — Eu gostaria de poder ficar aqui para testemunhar.
Winter espiou pela floresta, na direção dos aliados. Levana a impediria se ela tentasse correr. Ela se perguntou se conseguiria gritar antes que Levana selasse seus lábios.
— Está pensando em avisar seus amigos? Não se preocupe. Vou deixar você ir, princesinha. Vou deixar que você volte até eles e os infecte. Eles cometeram um erro quando escolheram você e não a mim, e vão pagar por isso.
Ela olhou para a madrasta de novo.
— Por que você me odeia?
— Odiar você? Ah, criança. É isso que você pensa? — Levana colocou os dedos frios na bochecha de Winter, em cima das cicatrizes que deu a ela anos antes. — Eu não odeio você. Só fico irritada com sua existência. — Seu polegar acariciou a bochecha de Winter. — Desde o dia em que nasceu, você sempre teve tudo o que quis. Sua beleza. O amor do seu pai. E agora a adoração do povo. Meu povo. — Ela afastou a mão. — Mas não por muito tempo. Seu pai morreu. Sua beleza em breve será maculada. E, agora que você é transmissora da febre azul, qualquer cidadão que chegar perto de você vai se lamentar em pouco tempo.
O nó no estômago de Winter se apertou. Ela imaginava sentir a doença sendo absorvida pelo interior do estômago. Penetrando as veias. Cada batimento do coração a espalhava mais pelo organismo. Era uma percepção quase objetiva. De todas as torturas que viu a madrasta elaborar para os outros, havia algo de misericordioso nessa morte.
Uma aceitação lenta e calma.
— Você também poderia ter a adoração deles, sabe — disse ela, vendo o sorriso condescendente de Levana endurecer no rosto. — Se fosse gentil e justa com eles. Se não os enganasse para que sejam seus escravos. Se não ameaçasse a eles, assim como a seus entes queridos, por cada pequeno crime. Se compartilhasse as riquezas e confortos que temos em Artemísia…
A língua dela ficou imóvel.
— Eu sou rainha — sussurrou Levana. — Eu sou a rainha de Luna e eu vou decidir a melhor forma de governar meu povo. Ninguém, nem você nem aquela ciborgue horrenda, vai tirar isso de mim. — Ela ergueu o queixo e as narinas se dilataram. — Tenho que ir cuidar do meu reino. Adeus, Winter.
Winter cambaleou para trás e se virou para as pessoas. Se conseguisse ver alguém, dar um aviso…
Mas a floresta se fechou ao seu redor e ela desabou, inconsciente, no chão.

3 comentários:

  1. Não acredito que a Levana foi capaz disso, infectar o própio país

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    1. Levana é um monstro. Tomara a Deus que ela pegue a mesma doença

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  2. the girl you'll never know who it is10 de março de 2019 16:56

    Filha da dama da noite!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!