20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Sessenta e cinco


Jacin, Cress e Thorne tinham saído, deixando Cinder cuidando dos consertos de Iko. Ela soube na mesma hora que não conseguiria fazer a androide voltar ao normal. Além de Iko ter cedido seu dedo e alguns fios necessários para a destreza da mão, eles não tinham as peças de substituição nem fibras de pele para consertar a abertura no ombro e o buraco de bala no peito. Mas Cinder fez um remendo temporário e reconfigurou as juntas para que ela conseguisse mover o cotovelo e o pulso, pelo menos. Quando Iko suspirou de alívio, Cinder soube exatamente o que ela estava sentindo: era algo difícil se acostumar com a perda completa de um membro.
Enquanto Cinder trabalhava, Iko explicou que eles conseguiram entrar escondidos em Artemísia a bordo de um trem de suprimentos, que boa parte do sistema de transportes estava desativada e que os trens estavam sendo revistados, que Levana estava nervosa, isso se não estivesse apavorada.
Quando terminou, Cinder contou como foi transportada até Artemísia e que a separaram de Lobo. Que ele não estava no julgamento e que ela não fazia ideia do paradeiro dele. Ela contou para Iko que viu Kai na sala do trono e que ele parecia ileso até o momento.
Ela perguntou se a transmissão também exibira o julgamento de Adri.
— Adri? — Os cílios de Iko tremeram uma vez, duas, três, e ela disse: — Não computei.
— Adri e Pearl estão aqui, em Luna. Adri foi posta em julgamento antes de mim. Teve alguma coisa a ver com o fato de ela ter guardado patentes dos designs de uma arma que poderia neutralizar o dom lunar. Acho que Levana descobriu sobre a invenção de Garan, a que foi instalada na minha coluna.
Iko encostou os dedos de uma mão na outra, em uma imitação de reflexão.
— Acho que faz sentido Levana não querer que uma coisa assim exista.
— Eu sei. Não tinha me ocorrido antes, mas um dispositivo assim mudaria o equilíbrio de poder entre Luna e a Terra se pudesse ser fabricado. Se algum dia formos fazer uma aliança com Luna, um dispositivo assim seria a única forma dos terráqueos terem certeza de não estarem sendo manipulados.
— Isso é genial — disse Iko. — Eu sempre gostei de Garan. Ele era gentil comigo, mesmo depois que descobriram que meu chip de personalidade era defeituoso. Ele ao menos mantinha todos os meus softwares atualizados. Você sabe, até Adri mandar me desmontar. — Ela fez uma pausa. — Pela primeira vez.
Cinder deu um sorriso. Na primeira vez que viu Iko, ela não passava de um amontoado de peças de androide jogadas em uma caixa, esperando para serem montadas. Iko foi seu primeiro projeto, uma tentativa de provar seu valor para sua nova família adotiva. Ela não tinha ideia na época de que Iko também se tornaria uma de suas melhores amigas.
Seu sorriso sumiu e virou desconfiança.
— Iko, pararam de fazer atualizações de software para os Serv9.2 mais de uma década atrás.
Iko puxou uma das tranças.
— Eu nunca pensei nisso. Você não acha que ele estava tentando consertar o bug que me transformava em… mim. Acha?
— Não sei. Acho que não. Ele criava sistemas de androides, afinal. Tenho certeza de que, se quisesse reprogramar você para ser um androide regular, ele poderia ter feito isso. — Ela hesitou. Se Linh Garan não estava atualizando o software de Iko nem tentando consertá-la, o que estava fazendo? — Acho que não importa. Garan inventou esse dispositivo, mas parece que Levana destruiu todas as anotações dele. Se meu software já não tivesse sido danificado o bastante pelo dr. Erland, duvido que aquele mergulho no lago tenha ajudado… — Ela parou de falar e apertou os olhos para Iko.
— O quê?
— Nada. — Cinder balançou a cabeça. Havia problemas demais para consertar, enigmas demais para resolver. O mistério do dispositivo de Garan teria que esperar. — Não consigo imaginar como Levana poderia saber sobre o dispositivo.
— Eu contei para ela.
Cinder virou a cabeça para a porta, onde Jacin estava tão imóvel e quieto quanto a própria porta, com um hematoma bem grandinho no maxilar, cortesia de Thorne.
Você contou para ela?
— Informação tem valor. Eu troquei essa pela minha vida.
Era sempre difícil interpretar as emoções de Jacin, mas, se Cinder fosse dar um palpite, diria que ele estava irritado por ter feito essa troca. Ela tentou se lembrar de ter contado a Jacin sobre o dispositivo séculos antes, na pequena cidade oásis de Farafrah. O rosto dele assumiu uma curiosidade que beirava a fome quando soube que havia uma invenção que podia impedir um lunar de usar o dom e que impedia o dom de levá-los à loucura.
Ela sufocou um ofego.
Winter.
Claro.
Jacin virou o queixo para o corredor.
— Odeio apressar você, mas a coroa acabou de liberar um vídeo que você pode estar interessada em ver. Evidentemente, você está morta.
Ele e Iko a levaram até o home theater da mansão, com poltronas enormes com dispensador de bebidas embutido na lateral. Thorne e Cress estavam ao lado de um holograma enorme de Levana. Ela usava o véu, mas o som estava mudo. A enormidade da imagem fez Cinder se encolher.
— Jacin disse que encontraram meu corpo.
Thorne lançou um olhar rápido para ela.
— É o que dizem, garota-cadáver. Você foi retirada do lago ontem à noite. Tem até um manequim com mão pintada de metal, e ficam mostrando uma foto granulada dele. Fique um pouco aqui, você vai ver. Fica aparecendo com esse discurso de Levana. Essa pedra aqui tem o entretenimento mais chato do mundo.
— O que ela está dizendo?
Thorne afinou a voz em imitação à rainha:
— A impostora da minha amada sobrinha se foi… Vamos deixar essa confusão para trás, enquanto seguimos em frente com a coroação… Sou uma maluca psicótica faminta por poder e meu bafo fede debaixo desse véu.
Cinder riu. Tentou ver a hora com o relógio interno, mas lembrou que não funcionava mais.
— Quanto tempo até a coroação?
— Nove horas — disse Iko.
Nove horas. Eles estavam naquela mansão havia um dia e uma noite inteiros e Cinder passara a maior parte do tempo dormindo.
— Tem também as atualizações de notícias… — Cress apontou para o holograma, embaixo do qual aparecia uma lista de setores, fazendo um anel flutuante constante ao redor de Levana.
— Essa é a parte interessante — disse Thorne. — Ela criou um decreto que afirma que qualquer setor encontrado violando o toque de recolher ou suspeito de ajudar “a impostora” será bloqueado e avaliado caso a caso depois da coroação. Em seguida, começa a falar sobre arrependimento e pedidos de perdão à rainha.
— Parece que muita gente se motivou com o que você fez no banquete de casamento — disse Jacin. — O número de setores bloqueados só cresce.
— Quantos?
— Oitenta e sete na última contagem — respondeu Cress.
— Inclusive MR-9 — acrescentou Thorne. — E todos os setores ao redor. Em vez de desencorajar a rebelião, a invasão parece ter irritado ainda mais as pessoas.
Oitenta e sete na última contagem.
— E você acha que todos… que todos esses setores… — Cinder engoliu em seco. Sua cabeça ainda estava enevoada. — O que acham que isso quer dizer?
— Quer dizer que a rainha está tendo um dia ruim — disse Jacin.
Thorne assentiu.
— Pode ser em parte paranoia dela, mas, mesmo quando Iko e eu estávamos tentando chegar em Artemísia, havia boatos de setores bloqueando os próprios túneis para impedir que suprimentos fossem enviados para a cidade, ou pilhando as fábricas atrás de armas, esse tipo de coisa. E isso foi antes do seu julgamento. Claro, nós não sabemos se o povo acredita que você esteja mesmo morta, mas não sei se importa agora. Se você está viva, então é uma revolucionária e tanto. Se está morta, é uma mártir e tanto.
— Importa para mim — disse Cinder, vendo as atualizações passarem pela tela.
Oitenta e sete setores estavam prontos para lutar por ela, por eles mesmos. Pelo que ela viu, cada setor tinha pelo menos mil civis, às vezes bem mais do que isso. Devia ser mais do que suficiente para tomar a capital e destronar Levana…
Só que todas aquelas pessoas estavam encurraladas.
— Não desmaie — disse Thorne.
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Você parece estressada.
Cinder fez cara feia e começou a andar de um lado para outro.
— Podemos fazer alguma coisa em relação a esses bloqueios? O povo não pode vir nos ajudar se estiver confinado em seus setores.
— Ah, querida — disse Thorne —, estamos tão mais adiantados do que você. Cress?
Cress abriu a holografia de Luna que eles passaram tanto tempo estudando a bordo da Rampion: todos os domos e túneis de metrô espalhados pela superfície rochosa e cheia de crateras da Lua. Ela foi marcando os setores bloqueados conforme eram listados na transmissão de Levana. Ainda era só uma fração de todos os setores de Luna, mas era possível que houvesse bem mais setores se rebelando que Levana desconhecia.
Levana estava se concentrado nos setores mais próximos de Artemísia, o que fazia sentido. Não era surpresa ela estar nervosa: a revolução já estava batendo na porta dela.
Cress ajustou a holografia, deu zoom em Artemísia e depois no palácio.
— Os controles dos bloqueios fazem parte da rede de segurança principal que opera no centro de segurança do palácio — disse Cress. — Eu poderia hackear remotamente, mas não sem disparar alarmes. Pelo menos não com o tempo que tenho para fazer. Então…
— Pensamos em invadir — disse Thorne. Ele tinha se sentado em uma das poltronas e levantado os pés.
— Claro que pensaram — disse Cinder.
— Se nós entramos no palácio de Nova Pequim, podemos entrar nesse. De lá, Cress desfaz os bloqueios nos setores externos e planeja que as barreiras ao redor do domo central se abram no final da coroação. — Ele encheu um cálice de aparência cara com uma bebida azul do dispensador da poltrona e deu um gole grande. — É o melhor jeito de coordenar um ataque surpresa e garantir que todos entrem em Artemísia ao mesmo tempo, mesmo sem ter um jeito de nos comunicarmos uns com os outros.
Cress afastou o foco da holografia e iluminou os oito túneis de trens de levitação magnética, que eram as únicas passagens para dentro e para fora da cidade, com exceção dos portos de espaçonaves.
Cinder massageou o pulso.
— É arriscado demais mandar vocês lá para dentro. Eu prefiro que Cress remova as barreiras remotamente, mesmo que gere alarmes.
— Somos dois — disse Thorne —, mas esse não é o único motivo de precisarmos entrar no palácio. Também precisamos ter acesso à sala de transmissão da rainha se queremos fazer alguma coisa com aquele vídeo seu. Levana desabilitou todo o acesso externo ao sistema depois da sua última artimanha, então, se queremos projetar no sistema todo, temos que fazer de dentro.
Cinder inspirou fundo.
— O vídeo… vale a pena?
— Ah! — Iko levou as mãos ao rosto. — É apavorante!
Thorne sorriu.
— É certeiro.
— Vou carregar no projetor — disse Cress, se virando para o nódulo holográfico.
— Não, por favor — pediu Iko. — Não precisamos ver tão grande daquele jeito de novo.
Cinder bateu o pé.
— Como vocês propõem que entremos no palácio? Posso usar meu glamour para transformar nós quatro em convidados da coroação se quisermos entrar escondidos…
— Pode ir esfriando os motores, jatinho — retrucou Thorne. — Você já tem uma função. Enquanto Cress e eu estivermos abrindo as passagens até a cidade, você, Iko e Jacin vão ficar posicionados nesses três setores — explicou, indicando-os na holografia, três dos domos adjacentes à Artemísia Central —, ou pelo menos nos túneis embaixo deles, recebendo todos os rebeldes que você despertou e organizando qualquer plano de batalha de último minuto. Em aproximadamente nove horas, com sorte, esta cidade vai estar sob cerco de um monte de lunares zangados. Eles vão precisar de alguém que os lidere.
— Vai ser você — esclareceu Iko.
— Mas achei que esse domo estivesse isolado. Como vamos chegar a esses setores se estamos presos aqui?
— Há unidades de depósito não muito longe daqui — disse Jacin —, onde algumas famílias guardam veículos de recreação, inclusive deslizadores de superfície.
— Deslizadores de superfície?
— Veículos feitos para andar fora dos domos. Eles podem se ajustar à gravidade não modificada e às condições atmosféricas, e encarar terrenos difíceis. Dunas. Crateras. Os ricos os usam por diversão. Não são tão rápidos quanto naves, mas podemos fugir dos transportes e fazer rota direta até os setores mais próximos, para qualquer lugar que tenha acesso a docas externas. Levana não vai ligar para dois nobres passeando por aí.
— Nós vamos nos separar — constatou Cinder.
Iko passou o braço pela cintura de Cinder.
— Só temporariamente.
— É nossa melhor esperança de coordenar um ataque — falou Thorne. — E conseguir o máximo de pessoas possível na frente daquele palácio, que é o objetivo maior, não é? Força nos números?
O coração de Cinder voltou a bater forte, mas ela conseguiu assentir com a cabeça. Estava observando a holografia de novo quando uma anomalia chamou sua atenção.
— Qual é o problema desse setor? — perguntou ela, apontando para um marcado de vermelho no mapa.
Cress virou a holografia e botou o setor em foco.
— EM-12, extração e produção de madeira. Em quarentena?
— Quarentena de doença? — perguntou Cinder.
— É tudo de que precisamos — murmurou Thorne.
Mas Jacin estava balançando a cabeça.
— Faz muito tempo que não temos surto de nenhuma doença em Luna. Não existem muitas influências ambientais que não possamos controlar. — Ele cruzou os braços. — Mas temos medidas a tomar caso alguma coisa aconteça. Com os domos fechados como são, não demoraria muito para derrubar uma comunidade inteira se a doença fosse grave.
— É possível que seja letumose? — perguntou Iko, com um toque de medo vibrando na voz.
— É uma doença terráquea — respondeu Jacin. — Nunca tivemos nenhum caso aqui.
— Não é só uma doença terráquea — disse Cinder. — Não mais. O dr. Erland descobriu uma mutação na África, lembra? Os lunares podem não ser mais imunes, e… — Ela engoliu em seco. — E um monte de terráqueos chegou em Luna recentemente. Qualquer pessoa pode ser portadora. Um dos diplomatas, até um de nós. Pode ser que a gente nem saiba.
Jacin indicou a holografia.
— Algum de vocês andou por um setor madeireiro ultimamente?
Cinder apertou os lábios.
— Foi o que pensei. Duvido que qualquer um dos seus amigos políticos tenha ido também. Deve ser coincidência.
— Na verdade — disse Cress, afastando o olhar arregalado do tablet —, um de nós foi até lá. — Ela digitou um novo comando e transferiu a transmissão que estava vendo para o hológrafo.
Era uma compilação de vídeos de vigilância da rainha, todos com a legenda de EM-12. Eram escuros e granulados, mas, quando os olhos de Cinder se ajustaram, ela viu fileiras de árvores nas imagens externas e paredes cobertas de madeira nas internas.
Concentrou-se em uma das mais cheias de gente, que parecia ser dentro de uma construção médica, embora não fosse nada como os laboratórios limpos e brilhantes de Nova Pequim.
Tinha muita gente ocupando os poucos leitos, enquanto outros estavam encostados nas paredes e caídos nos cantos.
Jacin chegou mais perto da imagem e aumentou uma das filmagens, dando zoom em uma série de anéis roxos e vermelhos no pescoço de um paciente e depois no travesseiro sujo de sangue embaixo da cabeça de outro.
— Parece letumose — disse Cinder, com o estômago se contraindo de medo instintivo.
— Isso é o que penso que é? — perguntou Iko, apontando.
— Soldados lunares — confirmou Cress, aumentando uma das filmagens externas que mostrava dezenas de homens mutantes entre os cidadãos. Muitos pareciam absortos em conversas inflamadas. Cinder nunca os vira sem estarem em modo de ataque, e se não fossem os rostos deformados, eles pareceriam ser só, bem, homens assustadores e muito grandes.
De repente, ela viu uma pessoa ainda mais chocante do que os mutantes. Uma garota de cabelo ruivo e moletom com capuz, e as mãos firmadas com teimosia nos quadris.
— Scarlet!
Ela estava bem viva e nem um pouco com medo dos predadores ao redor. Na verdade, enquanto Cinder olhava, Scarlet pareceu estar dando ordens a eles, apontando o dedo para a porta da clínica. Seis soldados assentiram e saíram.
— Não estou processando — disse Iko.
Thorne riu, com tanta jovialidade quanto Cinder sentia.
— Processar o quê? Elas disseram que iriam reunir um exército.
— É, mas Scarlet não estava com a gente no deserto. Como ela pode ser a portadora da nova doença?
Cinder levou um susto.
— Você está certa. Ela poderia… ter pegado de um de nós?
— Nenhum de vocês está doente.
Ela não tinha resposta. Queria que o dr. Erland estivesse ali, mas ele tinha morrido da mesma doença que estava tentando erradicar.
— O que estão tirando da clínica? — perguntou Thorne.
Jacin cruzou os braços.
— Um tanque suspenso de animação.
Quatro soldados estavam carregando o tanque enquanto os outros abriam a porta da clínica médica para eles passarem. Do lado de fora, centenas de civis se reuniram, os que ainda não estavam doentes. Os soldados abriram espaço para o tanque.
Jacin respirou fundo e chegou perto da holografia, melhorando o foco da imagem. Ele fez uma pausa. Voltou. Deu zoom.
— Ah, não — sussurrou Cinder. Outro rosto familiar estava embaixo da tampa de vidro do tanque. O da princesa Winter.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!