20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Seis

— Essas duas atualizações incluem declarações daquela garçonete, Émilie Monfort — disse Cress, passando os dedos pelo netscreen do compartimento de carga, abrindo a foto de uma garota de cabelo louro falando com a equipe de jornalismo. — Ela alega estar cuidando da Benoit Fazendas e Jardins na ausência de Scarlet. Aqui, ela faz um comentário sobre o trabalho estar começando a ser excessivo e brinca que, se as Benoit não voltarem logo, ela pode ter que começar a leiloar as galinhas. — Cress hesitou. — Ou talvez não tenha sido piada. Não tenho certeza. Ah, e aqui ela conta que Thorne e Cinder foram à fazenda e deram um susto horrível nela.
Ela olhou para trás para ver se Lobo ainda estava prestando atenção. Os olhos dele estavam grudados na tela, a testa franzida, silencioso e tristonho como sempre. Como ele não disse nada, ela pigarreou e clicou em uma nova aba.
— No que diz respeito às finanças, Michelle Benoit era mesmo a dona das terras, e esses extratos bancários mostram que os impostos da propriedade e dos negócios continuam sendo automaticamente deduzidos. Vou deixar pagamentos agendados para os aluguéis de androides de trabalho também. Ela não pagou o último mês, mas vou compensar, e parece que ela foi uma cliente leal por bastante tempo para que o pagamento não feito não interrompesse o trabalho deles. — Ela aumentou uma foto granulada. — Essa imagem de satélite é de trinta e seis horas atrás e mostra a equipe toda de androides e dois capatazes humanos trabalhando nessa colheita. — Ela deu de ombros e se virou para encarar Lobo. — As contas estão sendo pagas, os animais estão sendo cuidados e as plantações também. Qualquer conta que estivesse esperando entregas regulares deve estar irritada com a ausência de Scarlet, mas isso é o pior no momento. Estimo que a fazenda possa continuar se autossustentando por… ah, mais dois ou três meses.
Lobo não desviou o olhar desesperado da imagem de satélite.
— Ela ama essa fazenda.
— E a fazenda vai estar lá esperando quando a pegarmos de volta — falou Cress, da forma mais otimista que conseguiu.
Queria acrescentar que Scarlet ia ficar bem, que a cada dia eles estavam mais próximos de resgatá-la, mas mordeu a língua. As palavras foram ditas tantas vezes ultimamente que estavam começando a perder o sentido até para ela.
A verdade era que ninguém tinha ideia de que Scarlet ainda estava viva nem em que estado a encontrariam. Lobo sabia disso melhor do que ninguém.
— Tem mais alguma coisa que você quer que eu pesquise?
Ele começou a balançar a cabeça, mas parou. Os olhos brilharam para ela, cheios de curiosidade.
Cress engoliu em seco. Embora tivesse passado a gostar de Lobo durante o tempo que passou a bordo da nave, ele ainda a apavorava um pouco.
— Você consegue encontrar informações sobre pessoas em Luna?
Os ombros dela murcharam em um pedido de desculpas.
— Se eu tivesse como descobrir alguma coisa sobre ela, eu…
— Scarlet, não — disse, com a voz rouca quando pronunciou o nome dela. — Eu andei pensando nos meus pais.
Ela piscou. Pais? Ela nunca imaginou Lobo com os pais. A ideia desse homem enorme já ter sido uma criança dependente era estranha. Na verdade, ela não imaginava nenhum dos soldados da rainha com os pais, já tendo sido crianças, já tendo sido amados. Mas é claro que todos já tiveram. No passado.
— Ah. Certo — gaguejou ela, ajeitando a saia do vestido gasto de algodão que pegou no satélite, o que parecia ter sido uma eternidade antes. Embora tivesse passado um dia usando um dos uniformes militares encontrados no alojamento da tripulação, uma vida inteira descalça e com vestidos simples fez as roupas parecerem pesadas e incômodas. Além do mais, todas as calças ficavam compridas demais nela. — Você acha que pode vê-los? Quando estivermos em Luna?
— Não é prioridade. — Ele falou como um general militar, mas a expressão carregava mais emoção do que a voz. — Mas eu não me importaria de saber se eles ainda estão vivos. E talvez de vê-los de novo um dia. — Ele contraiu o maxilar. — Eu tinha doze anos quando fui levado. Eles devem pensar que eu estou morto. Ou que sou um monstro.
A declaração ecoou pelo corpo dela, fazendo seu peito vibrar. Durante dezesseis anos, o pai dela também achou que ela estivesse morta, ao passo que lhe disseram que os pais a sacrificaram por vontade própria ao infanticídio de cascudos em Luna. Ela mal tinha reencontrado o pai quando ele morreu de letumose, nos laboratórios no palácio de Nova Pequim. Ela tentou sentir luto pela morte dele, mas sentiu mais tristeza pela ideia de ter um pai e de ter perdido todo o tempo que eles deveriam ter tido para se conhecer.
Ela ainda pensava nele como o dr. Erland, o senhor esquisito e amargurado que iniciou o recrutamento de ciborgues na Comunidade das Nações Orientais. Que fazia tráfico de cascudos na África.
Também foi o homem que ajudou Cinder a fugir da prisão.
Tantas coisas ele fez, algumas boas, algumas terríveis. E todas, Cinder contou, porque estava determinado a encerrar o reinado de Levana.
Para vingar a filha. Para vingá-la.
— Cress.
Ela levou um susto.
— Desculpe. Eu não… eu não consigo acessar as bases de dados de Luna daqui. Mas, quando estivermos em Luna…
— Deixe pra lá. Não importa. — Lobo se encostou na parede do cockpit e enfiou as mãos no cabelo desgrenhado. Ele parecia à beira de um ataque de nervos, mas essa era sua aparência normal ultimamente. — Scarlet é a prioridade. A única prioridade.
Cress pensou em mencionar que destronar Levana e coroar Cinder como rainha eram prioridades de tamanhos razoáveis também, mas não ousou.
— Você mencionou seus pais para Cinder?
Ele inclinou a cabeça.
— Por quê?
— Não sei. Ela comentou que não tinha nenhum aliado em Luna… que seria útil ter mais conexões. Talvez eles pudessem nos ajudar.
O olhar dele ficou mais sombrio, ao mesmo tempo pensativo e irritado.
— Isso os colocaria em perigo.
— Acho que Cinder pode pretender colocar muita gente em perigo. — Cress mordeu o lábio inferior e suspirou. — Você precisa de mais alguma coisa?
— Que o tempo passe mais rápido.
Cress esmoreceu.
— Eu estava falando mais de… comida ou alguma coisa assim. Quando você comeu pela última vez?
Os ombros de Lobo se encolheram para perto das orelhas, e a expressão de culpa foi a única resposta de que ela precisava. Ela tinha ouvido boatos do apetite insaciável dele e do metabolismo vigoroso que o fazia ficar sempre se mexendo, sempre se movendo. Ela quase não tinha visto isso desde que subiu a bordo da nave, e percebia que Cinder em particular estava preocupada com ele. Só quando eles estavam discutindo estratégias para a revolução de Cinder era que ele parecia rejuvenescido, com os punhos se abrindo e fechando como o lutador que foi feito para ser.
— Tudo bem. Vou fazer um sanduíche para você. — Cress se levantou, reuniu a coragem junto com sua voz mais exigente e colocou a mão no quadril. — E você vai comer sem discutir. Você precisa recuperar as forças se vai querer ser útil para nós e para Scarlet.
Lobo levantou a sobrancelha em resposta à determinação recém-descoberta dela.
Cress ficou vermelha.
— Ou… pelo menos coma uma fruta enlatada ou alguma coisa.
A expressão dele se suavizou.
— Um sanduíche parece bom. Com… tomate, se tiver sobrado. Por favor.
— Claro. — Ela respirou fundo, pegou seu tablet e foi para a cozinha.
— Cress.
Ela parou e se virou para trás, mas Lobo estava olhando para o chão de braços cruzados. Ele parecia tão constrangido quanto ela normalmente se sentia.
— Obrigado.
O coração dela se expandiu, inflando de solidariedade. Palavras de consolo surgiram na língua dela: Ela vai ficar bem. Scarlet vai ficar bem. Mas Cress as sufocou dentro de si.
— De nada — disse, antes de entrar no corredor.
Ela quase tinha chegado à cozinha quando ouviu Thorne chamar seu nome. Fez uma pausa e recuou até a última porta, deixada ligeiramente entreaberta, e a abriu. O quarto do capitão era o maior da tripulação e o único aposento que não tinha beliches. Embora Cress tivesse entrado muitas vezes para ajudá-lo com a solução para os olhos que o dr. Erland fez para consertar o nervo ótico danificado de Thorne, ela nunca ficava muito tempo. Mesmo com a porta escancarada, o quarto parecia íntimo demais, pessoal demais. Havia um mapa enorme da Terra em uma das paredes, coberto com anotações manuscritas de Thorne e com marcadores indicando os lugares aonde ele foi e os lugares aonde queria ir, junto com uma dezena de modelos em escala de diferentes espaçonaves espalhadas pela mesa do capitão, inclusive um proeminente de uma Rampion 214. A cama nunca estava feita.
Na primeira vez em que entrou no quarto, ela perguntou a Thorne sobre o mapa e ouviu-o, hipnotizada, falar das coisas que viu, de ruínas antigas a metrópoles vibrantes, de florestas tropicais a praias de areias brancas. As descrições dele encheram Cress de vontade. Ela era feliz na espaçonave, era mais espaçosa do que o satélite dela, e os laços que estava formando com o resto da tripulação pareciam de amizade. Mas ela tinha visto tão pouco da Terra, e a ideia de ver essas coisas ao lado de Thorne, com os dedos entrelaçados aos dele… A fantasia fazia sua pulsação disparar todas as vezes.
Thorne estava sentado no chão, segurando um tablet com o braço esticado.
— Você me chamou? — perguntou ela.
Um sorriso surgiu no rosto dele, alegria maliciosa.
— Cress! Eu achei que tinha ouvido seus passos. Venha aqui. — Ele fez um círculo com o braço, como se pudesse atraí-la com o vácuo criado.
Quando ela se aproximou, Thorne mexeu a mão até encontrar o pulso dela e a puxou para baixo.
— Está finalmente funcionando — disse ele, segurando o tablet novamente com a mão livre.
Cress olhou para a pequena tela. Uma novela estava passando, mas a transmissão estava muda.
— Estava quebrado?
— Não, a solução. Está funcionando. Eu consigo ver uma luz azulada. — Ele soltou o pulso dela e balançou o dedo na direção da tela. — E as luzes no teto. — Ele inclinou a cabeça para trás, com olhos arregalados e pupilas dilatadas que tentavam absorver o máximo de informação possível. — São mais amarelas do que a tela. Mas só isso. Luz e escuridão. Algumas sombras manchadas.
— Que maravilha!
Apesar de o dr. Erland acreditar que a visão de Thorne fosse começar a melhorar depois de uma semana mais ou menos, essa semana chegou e passou sem mudanças. Fazia quase duas semanas que a solução tinha acabado, e ela sabia que a espera havia sido uma provação até para o otimismo incansável de Thorne.
— Eu sei. — Ele fechou bem os olhos e baixou a cabeça de novo. — Mas está me dando uma dor de cabeça.
— Você não deveria forçar. Pode acabar machucando os olhos.
Ele assentiu e cobriu os olhos com a mão.
— Talvez eu devesse usar a venda de novo. Até as coisas começarem a entrar em foco.
— Está aqui. — Cress se levantou, pegou a venda e o frasco vazio de colírio em meio aos modelos de naves. Quando se virou, Thorne estava olhando para ela, ou através dela, com a testa franzida. Ela parou.
Fazia muito tempo que ele não olhava para ela, e na época eles estavam lutando pelas próprias vidas. Isso foi antes de ele cortar o cabelo dela. Cress às vezes se perguntava o quanto ele se lembrava da aparência dela e o que pensaria quando a visse de novo… praticamente pela primeira vez.
— Consigo ver sua sombra, mais ou menos — disse ele, inclinando a cabeça. — Meio que uma silhueta indefinida.
Engolindo em seco, Cress colocou a venda na palma da mão dele.
— Espere um tempo — disse ela, fingindo que a ideia de ele estar inspecionando-a, vendo cada confissão não dita em seu rosto, não era apavorante. — As anotações do médico diziam que seu nervo ótico continuaria a cicatrizar sozinho durante semanas.
— Vamos torcer para que comece a cicatrizar mais rápido depois disso. Não gosto de ver borrões e sombras. — Ele girou a venda entre os dedos. — Um dia desses, quero abrir os olhos e ver você.
As bochechas dela ficaram quentes, mas a profundeza das palavras não tinha sido registrada quando Thorne riu e coçou a orelha.
— Quer dizer, e todo mundo também, claro.
Ela sufocou o princípio de sorriso eufórico, xingando-se por se encher de esperanças de novo, pela milésima vez, quando Thorne deixou bem claro que a via como nada além de uma boa amiga e uma integrante leal da tripulação. Ele não tentou beijá-la de novo desde a batalha em cima do telhado do palácio. E às vezes ela achava que ele poderia estar flertando com ela, mas então ele começava a flertar com Cinder ou Iko, e ela lembrava que um toque aqui e um sorriso ali não eram especiais para ele como eram para ela.
— Claro — disse ela, indo na direção da porta. — Claro que você quer ver todo mundo.
Ela sufocou um suspiro e percebeu que ia ter que se treinar para não ficar encarando Thorne com tanta frequência quanto estava acostumada, senão não haveria chance de esconder o fato de que, apesar de todas as tentativas dele de persuadi-la do contrário, ela ainda estava desesperadamente apaixonada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!