13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Seis

— AGORA SOBRE O JANTAR. DESDE QUE NOS FALAMOS, SUA MAJESTADE lunar aprovou o tradicional banquete de oito pratos para depois da cerimônia. Nesse caso, sugiro que comecemos com um quarteto de sashimi, seguido de uma sopa leve. Talvez uma imitação de sopa de barbatana de tubarão, que acho que seria um bom equilíbrio entre as tradições antigas e as sensibilidades modernas. — A cerimonialista fez uma pausa. Como nem Kai, que estava deitado no sofá do escritório com um braço sobre os olhos, nem seu conselheiro, Konn Torin, fizeram objeções, ela limpou a garganta e prosseguiu: — Para o terceiro prato, pensei em uma bela caçarola de toucinho com molho de manga verde. A isso se seguiria nosso prato vegetariano, e eu recomendaria potol com sementes de papoula em cama de folhas de bananeira. Para o quinto prato, eu ia conversar com os banqueteiros sobre algum curry de frutos do mar, talvez com um molho vibrante de leite de coco com limão. Vossa Majestade tem alguma preferência entre lagosta, camarão ou vieiras?
Kai tirou o braço do rosto apenas o bastante para olhar para a cerimonialista por entre os dedos. Tashmi Priya devia ter quarenta e tantos anos, mas tinha o tipo de pele que não envelhecera um dia depois dos vinte e nove anos. O cabelo, por outro lado, estava fazendo uma lenta transição para grisalho, e ele achava que o processo vinha se acelerando na última semana, pois ela era a pessoa responsável por transmitir os desejos da noiva ao resto dos cerimonialistas. Ele não subestimou nem por um momento o estresse pelo qual ela passava por estar trabalhando com a rainha Levana.
Por sorte, ele tinha a impressão de que ela era muito, muito boa em seu trabalho. E aceitara a função de planejar o casamento real sem hesitar, nem por um segundo, e não recuou nem uma vez com as exigências de Levana. Seu perfeccionismo profissional era evidente em todas as decisões que tomava, mesmo em como se apresentava, com maquiagem sutil e sem nem um fio de cabelo fora do lugar. Essa simplicidade se contrastava com um guarda-roupa de sáris indianos tradicionais, seda luxuosa em tons vivos e com bordados intrincados. A combinação dava a Priya um ar real que Kai sabia que lhe faltava no momento.
— Vieiras, lagosta... — murmurou ele, esforçando-se para prestar atenção. Mas desistiu e voltou a cobrir os olhos. — Não, não tenho preferência. O que Levana quiser.
Houve um breve silêncio antes de ele ouvir o barulho das unhas dela sobre o tablet.
— Talvez possamos voltar ao cardápio do banquete depois. Quanto à cerimônia, você aprova a escolha da rainha pela primeira-ministra africana Kamin como celebrante?
— Não consigo pensar em ninguém mais adequado.
— Excelente. E você já pensou sobre os votos de casamento?
Kai deu uma risada debochada.
— Retire qualquer coisa que tenha a ver com amor, respeito ou alegria, e eu assino embaixo.
— Vossa Majestade — disse Torin, com aquele jeito que tinha de fazer o título de respeito soar como uma repreensão.
Suspirando, Kai se endireitou na cadeira. Torin estava sentado em frente a Priya, com a mão ao redor de um copo cheio apenas de cubos de gelo. Ele não tinha o hábito de beber, o que lembrou a Kai que era uma época difícil para todos.
Ele voltou a atenção para Priya, cuja expressão estava profissionalmente impassível.
— O que você sugere para os votos?
Rugas formaram-se nos cantos das pálpebras dela, quase pedindo desculpas, e ele percebeu que alguma coisa horrível estava prestes a ser dita.
— Sua Majestade lunar sugeriu que você escreva seus próprios votos, Vossa Majestade.
— Ah, pelas estrelas. — Ele se deixou cair de novo sobre as almofadas. — Por favor, qualquer coisa, menos isso.
Uma hesitação.
— Você gostaria que eu os escrevesse para você, Vossa Majestade?
— Isso está na descrição do seu trabalho?
— Garantir que esse casamento transcorra bem é a descrição do meu trabalho.
Ele observou os candelabros decorados com penduricalhos que ocupavam o teto.
Depois de uma revista completa do escritório que sua equipe demorou uma semana para terminar, um único aparelho de gravação foi encontrado, menor do que sua unha, escondido em um dos candelabros. Foi o único dispositivo de espionagem que localizaram. Não havia dúvida de que era lunar e de que Kai estava certo o tempo todo: Levana o estava espionando.
Seus aposentos pessoais também foram revistados, mas nada foi descoberto lá. Até o momento, esses eram os dois únicos aposentos em que ele se permitia falar abertamente sobre a noiva, embora sempre houvesse um aviso em sua cabeça. Ele torcia muito para que a equipe de segurança não tivesse deixado passar nada.
— Obrigado, Tashmi-jie. Vou pensar nisso.
Com um aceno, Priya ficou de pé.
— Tenho uma reunião com o banqueteiro esta tarde. Vou ver se ele tem alguma ideia para o resto dos pratos.
Kai se obrigou a ficar de pé, embora o movimento fosse extremamente difícil. O estresse das últimas semanas o fez perder alguns quilos, mas ele se sentia mais pesado do que nunca, como se o peso de todas as pessoas da Comunidade tivesse caído sobre ele.
— Obrigado por tudo — disse, fazendo uma reverência enquanto ela reunia suas amostras de cores e tecidos.
Ela retribuiu o gesto.
— Conversaremos de novo de manhã, antes da chegada do taumaturgo Park.
Ele gemeu.
— Já é amanhã?
Torin limpou a garganta.
— Quero dizer... fantástico! Foi uma alegria tão grande tê-lo por perto da primeira vez.
O sorriso de Priya foi efêmero quando ela passou pela porta.
Sufocando um suspiro melodramático, Kai se encolheu de novo no sofá. Ele sabia que estava sendo infantil, mas sentia que tinha o direito de explodir de vez em quando, principalmente ali, na privacidade de seu escritório. Em todos os outros lugares, tinha que sorrir e proclamar o quanto estava ansioso pelo casamento. O quanto essa aliança seria benéfica para a Comunidade. O quanto não tinha dúvida de que o casamento com a rainha Levana serviria para unir os povos da Terra e de Luna de uma forma que não era vista havia séculos e sem dúvida levaria à maior apreciação e compreensão mútua entre as duas culturas. Era o primeiro passo para acabar com os anos de ódio e ignorância. E a quem ele achava que estava enganando mesmo?
Ele odiava Levana. Odiava a si mesmo por ceder a ela. Odiava o fato de seu pai tê-la mantido distante, assim como suas ameaças, por anos e anos, mas, semanas depois de Kai assumir o trono, ele acabara deixando tudo ruir.
Odiava o fato de que a rainha Levana devia estar planejando isso desde o momento em que anunciaram que o imperador Rikan, o pai de Kai, estava doente, e que Kai acabou fazendo exatamente o que ela queria.
Odiava o fato de que ela ia ganhar.
O gelo no copo de Torin tilintou quando ele se inclinou para a frente.
— Você está pálido, Vossa Majestade. Tem alguma coisa com que eu possa ajudar? Alguma coisa sobre a qual queira conversar?
Kai tirou o cabelo da testa.
— Seja sincero, Torin. Você acha que estou cometendo um erro?
Torin refletiu sobre a pergunta por um longo momento antes de colocar o copo de lado.
— Mil e seiscentos terráqueos foram mortos quando Luna nos atacou. Foram mil e seiscentos mortos em apenas poucas horas. Isso foi onze dias atrás. Não imagino quantas vidas foram poupadas por causa do compromisso que você assumiu com a rainha Levana. — Ele juntou os dedos no colo. — E não podemos esquecer quantas vidas serão salvas quando tivermos acesso ao antídoto para a letumose.
Kai mordeu a bochecha por dentro. Eram os mesmos argumentos que vinha repetindo para si mesmo. Estava fazendo a coisa certa. Salvando vidas. Protegendo seu povo.
— Sei o sacrifício que está fazendo, Vossa Majestade.
— Sabe? — Seus ombros se contraíram. — Porque desconfio que ela vá tentar me matar. Quando tiver o que quer. Quando for coroada.
Torin inspirou fundo, mas Kai teve a impressão de que isso não era nenhuma novidade para Torin.
— Não vamos deixar isso acontecer.
— Podemos impedir?
— Seu casamento não vai ser uma sentença de morte. Temos tempo para descobrir um jeito. Ela... ainda quer um herdeiro, afinal.
Kai não conseguiu sufocar uma careta.
— Um consolo muito, muito pequeno.
— Eu sei. Mas isso torna você valioso para ela, ao menos por enquanto.
— Será mesmo? Você sabe a reputação que os lunares têm. Não sei se Levana se importa com quem vai ser o pai da criança, desde que alguém seja. E a princesa Selene não nasceu sem ninguém saber quem era o pai? Não estou convencido de que Levana precise de mim para qualquer outra coisa além de dizer “sim” e entregar a coroa a ela.
Por mais que odiasse admitir, o pensamento era quase um alívio.
Torin não tentou argumentar com ele. Apenas balançou a cabeça.
— Mas a Comunidade precisa de você, e o povo vai continuar precisando de você depois que Levana se tornar imperatriz. Vossa Majestade, não vou deixar que nada aconteça com você.
Kai reconheceu um tom quase paternal. Havia afeição ali, onde normalmente só havia paciência e frustração velada. De alguma maneira, ele sentia que Torin tinha se tornado o verdadeiro imperador depois da morte de seu pai. Torin era a pessoa sólida, que tomava decisões, que sempre sabia o que era melhor para a nação. Mas, ao olhar para seu conselheiro, essa impressão começou a mudar. Porque Torin estava com uma expressão que Kai nunca tinha visto dirigida para si antes. Respeito, talvez. Ou admiração. Ou até confiança.
Ele se empertigou um pouco.
— Você está certo. A decisão foi tomada, e tenho que fazer o melhor possível com ela. Esperar ser esmagado pelos caprichos de Levana não vai ajudar em nada. Tenho que descobrir como me defender dela.
Torin assentiu, quase sorrindo.
— Vamos pensar em alguma coisa.
Por um momento, Kai se sentiu peculiarmente animado. Torin não era otimista por natureza. Se acreditava que havia um jeito, então Kai também acreditava. Uma forma de ficar vivo, uma forma de proteger seu país mesmo depois de ter amaldiçoado o povo com uma tirana como imperatriz. Uma forma de se proteger de uma mulher que era capaz de controlar seus pensamentos com um piscar de olhos.
Mesmo como marido dela, ele continuaria a desafiar Levana pelo tempo que pudesse.
Nainsi, a assistente androide de Kai, apareceu na porta do escritório com uma bandeja com chá de jasmim e toalhas quentes. Os sensores dela piscaram.
— Relatório diário, Vossa Majestade.
— Sim, obrigado. Entre.
Ele pegou uma das toalhas da bandeja enquanto ela entrava e limpou os dedos com o tecido de algodão fumegante.
Nainsi colocou a bandeja na mesa de Kai e se virou para ele e para Torin. Em seguida, iniciou o relatório do dia, que felizmente não tinha nada a ver com promessas de casamento nem com jantares de oito pratos.
— O taumaturgo lunar Avery Park chega amanhã às três da tarde, junto com quatorze integrantes da corte lunar. Uma lista de nomes e títulos de convidados foi transferida para seu tablet. O jantar de boas-vindas vai se iniciar às sete da noite, seguido de um coquetel. Tashmi Priya vai tanto ao jantar quanto à recepção para começar a comunicar os planejamentos do casamento para o taumaturgo Park. Fizemos um convite para que Sua Majestade lunar se juntasse a nós por videoconferência, mas nosso convite não foi aceito.
— Que decepcionante — disse Kai.
— Esperamos uma reunião de manifestantes em frente ao palácio com a chegada da corte lunar, que provavelmente seguirá com o compromisso da cerimônia de casamento. Preparamos reforços militares, que chegarão a partir de amanhã de manhã, para garantir a segurança de nossos convidados. Alertarei você caso alguma manifestação fique violenta.
Kai parou de limpar as mãos.
— Esperamos que fiquem violentas?
— Negativo, Vossa Majestade. O chefe de segurança do palácio declarou que é apenas precaução.
— Ótimo. Continue.
— O relatório semanal da letumose estima trinta mil mortes relacionadas à peste durante a semana de 3 de setembro por toda a Comunidade. A equipe de pesquisa do palácio não obteve nenhum progresso na investigação contínua em busca do antídoto.
Kai trocou um olhar triste com Torin. Trinta mil mortes. Quase o fazia desejar que o casamento fosse amanhã, para que pudesse pôr as mãos no antídoto de Levana mais cedo.
Quase.
— Recebemos notícias de que a República Americana, a Austrália e a Federação Europeia organizaram caçadas em busca dos soldados lunares responsáveis pelos ataques e alegam manter vários suspeitos como prisioneiros de guerra. Até agora, Luna não ameaçou retaliação e nem fez qualquer tentativa de negociar a liberdade deles, fora o acordo feito anteriormente de que todos os soldados serão retirados do solo terráqueo após a cerimônia de coroação no dia 25.
— Vamos torcer para que continue assim — murmurou Kai. — A última coisa de que a aliança precisa são mais complicações políticas.
— Vou mantê-lo informado sobre qualquer desenvolvimento, Vossa Majestade. O último item a relatar é que recebemos uma mensagem de Samhain Bristol, representante do parlamento de Toronto, da província do Canadá do Leste, Reino Unido, dizendo que recusa o convite de comparecer à cerimônia de casamento por não aceitar que a rainha lunar Levana seja uma líder mundial apropriada para a União Terráquea.
Torin gemeu e Kai revirou os olhos na direção do teto.
— Ah, pelas estrelas. Será que ele pensa que alguém acha que ela é uma líder apropriada?
— Não podemos culpá-lo por sua posição, Majestade — falou Torin, embora Kai pudesse ouvir a irritação na voz dele —, nem por querer fazer essa declaração. Ele tem seu próprio povo para se preocupar.
— Estou ciente disso, mas, se isso começar a virar moda entre os líderes da União, Levana ficará furiosa. Você consegue imaginar a reação dela se ninguém aparecer no casamento? — Kai passou a toalha, agora fria, pelo rosto. — Ela vai ver isso como uma ofensa pessoal. Se queremos tentar evitar outro ataque, acho que enfurecê-la não é o jeito de fazer isso.
— Concordo — disse Torin, levantando-se e ajeitando o paletó. — Vou marcar uma reunião por videoconferência com Bristol-dàren para ver se não chegamos a um acordo. Sugiro que mantenhamos essa informação em segredo por enquanto, para evitar dar ideias rebeldes aos outros convidados.
— Obrigado, Torin.
Kai se levantou e respondeu à reverência de Torin, que saiu do escritório em seguida.
Kai quase não resistiu à vontade de desabar de novo no sofá. Tinha outra reunião em trinta minutos, e ainda havia planos a serem revisados, relatórios a serem lidos e mensagens a serem respondidas e...
— Vossa Majestade.
Ele levou um susto.
— Sim, Nainsi?
— Ainda há um último relatório, que achei melhor discutir com você em particular.
Ele piscou. Havia bem poucos assuntos que não discutia com Torin.
— O que é?
— Uma associação foi descoberta recentemente por minhas sinapses de inteligência. É sobre Linh Cinder.
O estômago dele se contorceu. Esse seria o assunto, o único assunto sobre o qual não podia conversar nem mesmo com seu conselheiro de maior confiança. Cada vez que ouvia o nome dela, era tomado por pânico quase incontrolável, certo de que Cinder havia sido encontrada. De que tinha sido presa. De que já fora morta. Embora devesse ficar feliz por a fugitiva mais procurada do país ter sido capturada, a ideia o deixava doente.
— O que tem ela? — disse, jogando a toalhinha de volta na bandeja e sentando-se no braço do sofá.
— Eu talvez tenha deduzido o motivo pelo qual se encontrava em Rieux, França.
A série de pensamentos preocupados evaporou tão depressa quanto surgiu.
Pressentindo uma dor de cabeça, Kai massageou o ponto acima do nariz, aliviado por mais uma hora ter se passado e Cinder continuar desaparecida. O que significava que ainda estava em segurança.
— Rieux, França — disse ele, se reorientando.
Todo mundo sabia que a nave em que Cinder estava precisaria voltar à Terra em algum momento, para se abastecer e passar por uma possível manutenção. A escolha dela por uma cidade pequena, qualquer cidade pequena, nunca parecera suspeita para ele.
— Continue.
— Quando Linh Cinder removeu o chip D-COMM que apagou temporariamente minha programação, eu transmiti para ela informações sobre Michelle Benoit.
— A piloto?
Kai tinha praticamente decorado as informações que Nainsi reuniu em relação a todo mundo que tivesse a menor ligação com a desaparecida princesa Selene. Michelle Benoit foi uma das principais suspeitas de ter ajudado e esconder a princesa.
— Sim, Vossa Majestade. Linh Cinder sabe o nome dela e sua ligação anterior com as forças militares europeias.
— E daí?
— Depois de se aposentar, Michelle Benoit comprou uma fazenda. Essa fazenda fica perto de Rieux, na França, e foi nessa propriedade que a nave roubada pousou primeiro.
— Então Cinder foi para lá porque... Você acha que ela estava procurando a princesa Selene?
— Essa é minha suposição, Majestade.
Ele se levantou de supetão e começou a andar de um lado para outro.
— Alguém falou com Michelle Benoit? Ela foi interrogada? Sabemos se ela viu Cinder, falou com ela?
— Lamento, Majestade, mas Michelle Benoit desapareceu há mais de quatro semanas.
Ele parou.
— Desapareceu?
— A neta dela, Scarlet Benoit, também desapareceu. Só sabemos que pegou um trem de levitação magnética em Toulouse, França, a caminho de Paris.
— Não podemos rastreá-las?
— O chip de identificação de Michelle Benoit foi encontrado na casa dela no dia em que desapareceu. O chip de identificação de Scarlet Benoit, ao que parece, foi destruído.
Kai deixou os ombros penderem. Outro beco sem saída.
— Mas por que Cinder iria lá? Por que quereria encontrar a princesa...? — Ele hesitou. — A não ser que esteja tentando me ajudar.
— Não consigo seguir seu raciocínio, Majestade.
Ele encarou Nainsi de novo.
— Talvez ela esteja tentando me ajudar. Cinder sabe que, se encontrar a princesa, isso poderia ser o fim do reinado de Levana. Eu não precisaria me casar com ela, que provavelmente seria executada por traição. Cinder arriscou a vida para ir para aquela fazenda, e fez isso... talvez tenha feito por mim.
Ele escutou o cooler de Nainsi girando antes de ela responder:
— Devo sugerir que a explicação alternativa para os motivos de Linh Cinder deriva do desejo da rainha Levana de que ela seja encontrada e executada, Majestade.
Com o rosto vermelho, ele baixou o olhar para o tapete tecido à mão embaixo dos pés.
— Certo. Ou isso.
Mas ele não conseguia afastar a sensação de que o novo objetivo de Cinder era mais do que autopreservação. Afinal, ela fora ao baile a fim de avisá-lo para não se casar com a rainha Levana, e essa decisão quase fez com que fosse morta.
— Você acha que ela descobriu alguma coisa? Sobre a princesa?
— Eu não tenho como fornecer essa informação.
Ele andou ao redor da mesa, olhando pensativo para a enorme cidade que se estendia além da janela do escritório, vidro e aço brilhando sob o sol da tarde.
— Descubra tudo o que puder sobre essa Michelle Benoit. Talvez Cinder esteja atrás de alguma coisa. Talvez a princesa Selene ainda esteja viva.
A esperança surgiu de novo, brilhando mais a cada momento. A procura pela princesa tinha sido abandonada semanas antes, quando sua vida ficou tumultuada demais para que se concentrasse em qualquer coisa que não fosse impedir a guerra. Pacificar a rainha Levana e sua raiva. Preparar-se para uma vida ao lado dela, como marido... e isso só se tivesse sorte o bastante para não ser assassinado antes do primeiro ano de casados.
Ele ficou tão distraído com tudo isso que se esqueceu do real motivo de estar procurando a princesa Selene.
Se ela estivesse viva, seria a herdeira do trono lunar por direito. Poderia acabar com o reinado da rainha Levana.
Poderia salvar todos eles.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!