3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Seis

CINDER MOVEU-SE FURTIVAMENTE PELA NOITE AMENA, E SUAS BOTAS foram se arrastando pelo concreto fazendo barulho, como se as duas pernas fossem feitas de aço. A noite vazia era um coro de sons emudecidos em sua cabeça: o esmagar arenoso das rodas de Iko, o chiado da iluminação de rua acima delas, o constante zumbido do supercondutor magnético sob a rua. A cada passo, a chave inglesa inserida na panturrilha de Cinder tinia. Tudo isso era pouco em comparação ao vídeo sendo reproduzido repetidas vezes em sua mente.
Sua interface costumava fazer isso — gravava momentos de emoção intensa e reproduzia sem parar. Como déjà-vu ou quando as últimas palavras de uma conversa ficavam no ar bem depois de o silêncio ter se instalado.
Frequentemente, ela conseguia fazer a memória parar antes de enlouquecê-la, mas naquela noite estava sem energia.
A nódoa negra na pele de Peony. Seu grito. A seringa do medidroide tirando o sangue de seu braço. Peony, pequena e tremendo na maca. Já morrendo.
Ela parou, apertando firmemente o estômago enquanto a náusea a atingia.
Iko parou alguns passos à frente, dirigindo o farol para o rosto enrugado de Cinder.
— Você está bem?
A luz percorreu toda a extensão do corpo de Cinder, e ela tinha certeza de que Iko procurava por nódoas em forma de anel, apesar de o medidroide ter dito que ela não estava infectada.
Em vez de responder, Cinder tirou as luvas e as colocou no bolso traseiro.
Com a tonteira passando, apoiou o ombro no poste de luz da rua e respirou fundo o ar úmido. Estavam quase chegando em casa. O edifício Phoenix Tower ficava na próxima esquina, apenas o último andar recebendo a fraca luz da lua crescente, enquanto o restante do prédio mergulhava na escuridão. As janelas estavam todas apagadas, exceto por um punhado de luzes e o brilho branco-azulado dos netscreens. Cinder contou os andares, localizando as janelas da cozinha e do quarto de Adri.
Apesar da escuridão, uma luz estava acesa em algum lugar do apartamento. Adri não era uma pessoa noturna, mas talvez tivesse descoberto que Peony ainda não tinha voltado. Ou Pearl estivesse acordada, trabalhando em um projeto da escola ou trocando mensagens com amigos pelo sistema de comunicação, tarde da noite.
Provavelmente era melhor assim. Ela não queria ter que acordá-las.
— O que vou dizer a elas?
O sensor de Iko se fixou no edifício por um instante, e em seguida no chão, focando o mosaico de escombros na calçada.
Cinder esfregou a palma da mão suada na calça e se forçou a seguir em frente. Por mais que tentasse, não encontrava palavras apropriadas. Explicações, desculpas. Como dizer a uma mulher que sua filha estava morrendo?
Ela passou sua identidade pelo escâner e entrou pela porta principal desta vez. O saguão cinzento era decorado apenas com um netscreen que trazia comunicados aos moradores — um aumento nas taxas de manutenção, uma petição para um novo escâner para a porta da frente, um gato perdido. Chegou ao elevador, barulhento com os sons metálicos abafados da maquinaria velha. O corredor estava vazio, exceto pelo homem do 1807 que dormia na soleira de sua porta. Cinder teve que afastar o braço dele para que Iko não o esmagasse. Uma respiração pesada e o aroma adocicado de vinho de arroz subiu.
Ela hesitou diante da porta do apartamento 1820, com coração batendo forte. Não conseguia se lembrar de quando o vídeo de Peony parara de se repetir em sua mente, eclipsado pelos nervos em frangalhos.
O que ela diria?
Cinder mordeu o lábio e ergueu o pulso na altura do escâner. A luzinha mudou para verde. Ela abriu a porta fazendo o menor barulho possível.
A claridade vinda da sala de estar se espalhou pelo corredor escuro. Cinder deu uma olhada no netscreen, ainda mostrando sequências anteriores do mercado naquele mesmo dia, o estande da padaria pegando fogo repetidas vezes. A tela estava sem som.
Cinder entrou na sala, mas parou no meio do caminho. Iko deu um encontrão em sua perna.
Encarando-a do meio da sala, havia três androides com cruzes vermelhas pintadas nas cabeças esféricas. Medidroides do atendimento de emergência.
Atrás deles, Adri, em seu robe de seda, apoiava-se contra a cornija da lareira, embora a chama holográfica estivesse desligada. Pearl ainda estava totalmente vestida, sentada no sofá com os joelhos dobrados até o queixo. Ambas seguravam toalhas de rosto secas sobre o nariz e olhavam para Cinder com um misto de repulsa e medo.
O estômago de Cinder se contraiu. Deu meio passo para trás, na direção do corredor, imaginando qual estava doente, mas rapidamente percebeu que nenhuma delas poderia estar. Os androides as teriam levado na mesma hora. Elas não estariam protegendo a respiração. Todo o edifício estaria isolado.
Ela notou um pequeno curativo no cotovelo de Adri. Elas já tinham sido testadas.
Cinder tirou a bolsa-carteiro, pousando-a no chão, mas ficou com a correia magnética.
Adri limpou a garganta e baixou a toalha até o esterno. Ela parecia um esqueleto à luz fraca, a carne farinhenta e os ossos saltados. Sem maquiagem, olheiras avolumavam-se embaixo de seus olhos injetados. Tinha chorado, mas agora seus lábios formavam uma linha imóvel.
— Recebi um comunicado há uma hora — disse ela quando o silêncio se tornou palpável na sala. — Informava que Peony foi apanhada em um ferro-velho no distrito de Taihang e levada. — Sua voz falhou. Ela baixou o olhar e quando o levantou novamente, seus olhos brilhavam. — Mas você já sabe disso, não é?
Cinder mudou de posição, tentando não olhar para os medidroides.
Sem esperar pela resposta de Cinder, Adri disse:
— Iko, pode começar a jogar as coisas de Peony fora. Qualquer coisa que ela tenha usado na última semana pode ser descartada, mas leve tudo para o beco você mesma, não quero entupir a rampa de lixo. Acho que todo o restante pode ser vendido na feira. — Sua voz estava aguda e firme, como se aquela lista viesse se repetindo em sua cabeça desde o momento em que recebera a notícia.
— Sim, Linh-ji — disse Iko, deslizando de volta para o corredor. Cinder ficou onde estava, congelada, as mãos segurando a correia magnética como se fosse um escudo. Embora o androide fosse incapaz de ignorar as ordens de Adri, estava claro pela sua lentidão que não queria deixar Cinder sozinha enquanto os medidroides estivessem observando com aqueles sensores amarelos ocos.
— Por que — perguntou Adri, torcendo a toalha de rosto — minha filha mais nova estava no ferro-velho de Taihang District esta noite?
Cinder puxou a correia magnética para si, alinhando-a do ombro ao dedo do pé. Feita do mesmo aço que sua mão e igualmente gasta, parecia uma extensão dela mesma.
— Ela foi comigo para procurar as correias magnéticas. — Cinder respirou fundo. Sua língua parecia ter sido engolida, sua garganta parecia estar se fechando. — Eu sinto muito mesmo. Eu não… Vi as manchas e chamei o aerodeslizador de emergência. Não sabia o que fazer.
Lágrimas brotaram nos olhos de Adri, brevemente, antes que ela piscasse para fazê-las sumir. Ela baixou a cabeça, olhando para a toalha torcida. Seu corpo se vergou sobre a cornija da lareira.
— Eu não sabia ao certo se você voltaria aqui, Cinder. Esperava receber outra mensagem do sistema de comunicação, dizendo-me que meu pertence também havia sido levado. — Adri jogou os ombros para trás, ergueu o olhar. A fraqueza passara, seus olhos escuros se tornaram mais duros. — Estes medidroides testaram a mim e a Pearl. Nenhuma de nós foi contaminada pela peste.
Cinder começou a assentir, aliviada, mas Adri continuou.
— Diga-me, Cinder. Se Pearl e eu não somos portadoras da doença, de onde Peony a contraiu?
— Eu não sei.
— Você não sabe? Mas você sabe, com certeza, do surto no mercado hoje.
Os lábios de Cinder se abriram. É claro. As toalhas. Os medidroides. Elas achavam que Cinder estava infectada.
— Não entendo você, Cinder. Como pôde ser tão egoísta?
Ela sacudiu a cabeça em negativa.
— Eles fizeram o teste em mim também, no ferro-velho. Eu não tenho a doença. Não sei como ela foi contaminada. — Ela estendeu o braço, mostrando a ferida inchada na parte de dentro do cotovelo. — Eles podem repetir o exame, se você quiser.
Um dos medidroides deu seu primeiro sinal de vida, jogando luz sobre o pequeno ponto vermelho em que a agulha a havia picado. Mas eles não se moveram, e Adri não os encorajou. Em vez disso, voltou sua atenção para um pequeno porta-retratos digital na cornija da lareira, que exibia fotos de Peony e Pearl na infância. Imagens de sua antiga casa, aquela com o jardim. Fotos com Adri, antes que ela perdesse seu sorriso. Fotos com o pai delas.
— Eu sinto tanto — disse Cinder. — Eu também amo Peony.
Adri apertou a moldura.
— Não me insulte — disse ela, trazendo o dispositivo para junto de si. — Sua espécie ao menos sabe o que é amor? Você pode sentir qualquer coisa, ou é só… programada?
Ela estava falando consigo mesma, mas as palavras feriram. Cinder arriscou um olhar para Pearl, que estava sentada no sofá com o rosto meio escondido atrás dos joelhos, mas não segurava mais a toalha para proteger-se. Quando viu que Cinder olhava para ela, desviou o olhar para o chão.
Cinder flexionou os dedos que seguravam a correia magnética.
— É claro que sei o que é amor. — E tristeza também. Ela desejava poder chorar para provar.
— Bom. Então você entenderá que estou fazendo o que mães fazem para proteger as filhas. — Adri devolveu o porta-retratos digital à cornija da lareira, mas com a tela voltada para baixo. No sofá, Pearl virou o rosto, pressionando a bochecha contra os joelhos.
Um fio de medo se enrolou no estômago de Cinder.
— Adri?
— Há cinco anos você faz parte desta família, Cinder. Cinco anos desde que Garan deixou você para mim. Ainda não sei por que ele o fez, não sei por que se sentiu obrigado a viajar para a Europa, de todos os lugares, para encontrar alguma… mutante de quem cuidar. Ele nunca me explicou a razão. Talvez explicasse algum dia. Mas eu nunca quis você. Você sabe disso.
Cinder torceu os lábios. Os medidroides sem expressão olhavam para ela.
Ela sabia, mas nunca pensara que Adri seria tão objetiva.
— Garan queria que eu cuidasse de você, portanto fiz meu melhor. Mesmo quando ele morreu, mesmo quando o dinheiro acabou, mesmo quando… tudo desmoronou. — A voz dela falhou, e ela pressionou a palma da mão firmemente na boca. Cinder viu os ombros dela tremerem, ouviu os curtos arquejos enquanto tentava engolir os soluços. — Mas Garan concordaria. Peony vem primeiro. Nossas meninas vêm primeiro.
Cinder se sobressaltou por causa de sua voz exaltada. Podia ouvir a justificativa no tom de Adri. A determinação.
Não me deixe com essa coisa.
Ela encolheu os ombros.
— Adri…
— Se não fosse por você, Garan ainda estaria vivo. E Peony…
— Não, não é culpa minha. — Cinder viu de relance algo branco: Iko vagava lentamente no corredor, incerta. Seu sensor estava quase preto.
Cinder procurou por sua voz. Seu pulso estava latejando, pontos brancos sumiam e apareciam em sua visão. Um alerta vermelho piscou no canto de seu olho — era uma recomendação para que se acalmasse.
— Eu não pedi para ser feita assim. Não pedi nem a você, nem a ninguém que me adotasse. Isso não é culpa minha!
— Também não é culpa minha! — atacou Adri, dando um tapa no netscreen, que se soltou do suporte. Ele caiu e se quebrou, levando duas placas em homenagem aos feitos de seu marido junto. Lascas de plástico ricochetearam pelo tapete gasto.
Cinder pulou para trás, mas a agitação se desfez tão rápido quanto aflorou. A respiração furiosa de Adri já estava se acalmando. Ela era sempre tão cuidadosa em não perturbar os vizinhos… Em não ser notada. Em não causar uma comoção. Em não fazer nada que pudesse arruinar sua reputação. Mesmo agora.
— Cinder — disse Adri, esfregando os dedos na toalha como se pudesse apagar a perda momentânea de controle. — Você irá com esses medidroides. Não faça cena.
Ela perdeu o chão.
— O quê? Por quê?
— Porque todos temos a missão de fazer o que pudermos, e você sabe que a demanda por… sua espécie é alta. Especialmente agora. — Ela parou. Seu rosto ficou vermelho e manchado. — Ainda podemos ajudar Peony. Eles só precisam de ciborgues para encontrar a cura.
— Você me inscreveu como voluntária na pesquisa da peste? — Sua boca mal podia formular as palavras.
— O que mais eu poderia fazer?
A boca de Cinder se abriu tanto que seu maxilar parecia pendurado. Ela sacudiu a cabeça, estupefata, enquanto os três sensores amarelos se focavam nela.
— Mas… ninguém sobrevive aos testes. Como você pôde…
— Ninguém sobrevive à peste. Se você se importa com Peony tanto quanto diz, fará o que digo. Se não fosse tão egoísta, teria se tornado voluntária depois de deixar a feira hoje, antes de vir para cá e arruinar minha família. De novo.
— Mas…
— Levem-na. Ela é toda sua.
Cinder estava chocada demais para se mover quando o androide mais próximo ergueu um escâner para o pulso dela. Ele bipou e ela se encolheu.
— Linh Cinder — disse o androide em uma voz metálica —, seu sacrifício voluntário é admirado e apreciado por todos os cidadãos da Comunidade Oriental. Um pagamento será feito a seus entes queridos como demonstração de gratidão por sua contribuição para nossos estudos em andamento.
Sua mão segurou ainda mais firme a correia magnética.
— Então é disso que realmente se trata, não é? Você não se importa com Peony nem comigo. Só quer seu pagamento absurdo.
Os olhos de Adri se arregalaram, as têmporas esticando-se no crânio. Ela cruzou a sala com dois passos e estapeou o rosto de Cinder. Ela se chocou contra o batente da porta e pôs uma das mãos na bochecha.
— Levem-na — disse Adri. — Tirem-na da minha frente.
— Eu não sou voluntária. Vocês não podem me levar contra minha vontade.
O androide não se perturbou.
— Fomos autorizados por sua guardiã legal a levá-la sob custódia, usando a força, se necessário.
Cinder dobrou os dedos, pressionando o punho contra o ouvido.
— Você não pode me forçar a ser cobaia dos testes.
— Sim — disse Adri, com respiração entrecortada. — Eu posso. Desde que você esteja sob minha guarda.
— Você não acha realmente que isso salvará Peony, então não finja que é por causa dela. Ela tem dias. As chances de eles encontrarem a cura antes…
— Então meu único erro foi ter esperado tempo demais para me livrar de você — disse Adri, correndo a toalha por entre os dedos. — Acredite em mim, Cinder. Você é um sacrifício do qual nunca me arrependerei.
As rodas de um dos medidroides se arrastaram sobre o carpete.
— Você está preparada para nos acompanhar?
Cinder apertou os lábios e baixou a mão. Lançou um olhar para Adri, mas não encontrou solidariedade nos olhos da madrasta. Um novo ódio crescia dentro dela. Alertas piscaram em seu visor.
— Não, não estou.
Cinder girou a correia magnética, golpeando com força o crânio do androide. O robô caiu no chão, as rodas girando no ar.
— Eu não vou. Os cientistas já fizeram o suficiente por mim.
Um segundo androide veio em sua direção.
— Iniciando procedimento 240B: remoção forçada de ciborgue para cobaia de testes.
Cinder sorriu com desdém e acertou o sensor do androide com a ponta da correia magnética, estilhaçando as lentes e empurrando-o pelas costas.
Ela se virou para encarar o último androide, já pensando em como fugiria do apartamento. Perguntava-se se seria muito arriscado chamar um aerodeslizador. Imaginava onde poderia encontrar uma faca para remover seu chip identificador, porque, de outra forma, com certeza seria rastreada. Será que Iko seria rápida o bastante para segui-la? Será que suas pernas poderiam levá-la até a Europa?
O medidroide se aproximou muito rápido. Ela cambaleou, mudando a trajetória da correia magnética, mas as mãos metálicas em forma de pinça do androide agarraram o seu pulso antes. Eletrodos foram ligados. Eletricidade percorreu o sistema nervoso de Cinder. A voltagem sobrecarregou sua instalação elétrica. Os lábios de Cinder se abriram, mas o grito ficou preso no fundo da garganta.
Ela largou a correia magnética e despencou no chão. Alertas vermelhos piscaram por todo o seu visor até que, em um ato de autopreservação de ciborgue, seu cérebro a forçou a se desligar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!