7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quinze

CINDER DESLIGOU O CHUVEIRO E SE APOIOU NA DIVISÓRIA DE fibra de vidro enquanto o bocal pingava na cabeça dela. Gostaria de ficar mais, porém estava com medo de acabar com o suprimento de água, e a julgar pelo banho de meia hora que Thorne tinha tomado, ficou claro que não podia contar com ele para economizar.
De qualquer modo, estava limpa. O cheiro de esgoto tinha sido removido, junto com o suor salgado. Ao sair do chuveiro comunitário, passou uma toalha áspera no cabelo e gastou um momento secando todos os cantinhos e juntas das próteses para protegê-las da ferrugem. Era um hábito, apesar de os novos membros já terem uma camada protetora. Parecia que o dr. Erland não tinha economizado em nada.
Seu imundo uniforme de prisão estava enrolado em um canto do piso de azulejos. Tinha encontrado um uniforme militar no alojamento da tripulação: uma calça cinza-carvão grande demais, que tinha que ser presa com cinto, e uma camiseta branca lisa, não muito diferente das calças cargo e camisetas que costumava usar antes de virar uma fugitiva da lei. Tudo que faltava eram as luvas sempre presentes. Ela se sentia nua sem elas.
Cinder jogou a toalha e o uniforme da prisão no buraco da lavanderia e abriu a porta do banheiro. Após um corredor estreito havia uma passagem aberta à direita, e o compartimento de carga cheio de caixas de plástico à esquerda.
— Lar, doce lar — murmurou ela, sacudindo a água do cabelo enquanto andava até o compartimento de carga.
Não havia sinal do suposto capitão. Só as luzes fracas de emergência estavam acesas. E a escuridão, o silêncio e a certeza de tanto espaço vazio ao redor da nave, seguindo até a eternidade, deram a Cinder a sensação peculiar de ser um fantasma assombrando um navio abandonado. Passou pelo caminho cheio de obstáculos compostos de caixas e afundou no assento do piloto no cockpit.
Pela janela, via a Terra: os limites da República da América e a maior parte da União Africana estavam visíveis por baixo da cobertura de nuvens. E além, estrelas, muitas estrelas piscando e se misturando a incontáveis galáxias. Eram tão lindas quanto apavorantes, a bilhões de anos-luz de distância, mas ao mesmo tempo tão iluminadas e próximas que era quase sufocante.
Tudo o que Cinder sempre quis foi liberdade. Liberdade da madrasta e de suas regras dominadoras. Liberdade de uma vida de trabalho constante sem nenhum reconhecimento. Liberdade dos olhares de desprezo e palavras de ódio de estranhos que não confiavam na garota ciborgue — que era forte demais e inteligente demais e boa demais com máquinas para ser considerada normal.
Agora, conquistara a liberdade, mas não era nem um pouco como tinha imaginado.
Suspirando, Cinder puxou o pé esquerdo até o joelho, levantou a calça e abriu o compartimento oco na panturrilha. Tinha sido revistado e esvaziado quando chegara na prisão, apenas mais uma invasão de privacidade, mas os conteúdos mais valiosos haviam sido ignorados.
Sem dúvida o guarda que fez a busca pensou que os chips em meio à fiação eram parte da programação de Cinder.
Três chips. Ela os puxou um a um e os colocou no braço da cadeira.
Havia o reluzente chip branco D-COMM. Um chip lunar, feito de algum material que Cinder nunca tinha visto antes. Levana ordenara que fosse instalado em Nainsi, o androide de Kai, e usado para obter informações confidenciais. A garota que programou o chip, supostamente programadora pessoal da rainha, usou-o depois para fazer contato com Cinder e revelar que Levana estava planejando se casar com Kai... e, depois, matá-lo e usar o poder da Confederação das Nações Orientais para invadir o resto da União Terráquea. Foi essa informação que fez Cinder sair correndo para o baile poucos dias antes, tempo que mais parecia uma vida.
Ela não se arrependia. Sabia que faria tudo de novo, apesar da confusão que sua vida tinha virado desde que tomara aquela decisão apressada.
Havia também o chip de personalidade de Iko. Era o maior e mais gasto dos três. Um lado tinha uma distinta marca de polegar sujo de graxa, provavelmente de Cinder, e um canto tinha uma rachadura fina. Ainda assim, estava confiante de que funcionaria. Iko, um androide servo que pertencera à madrasta de Cinder, era uma de suas melhores amigas fazia tempo. Mas, em um ataque de raiva e desespero, Adri havia desmontado Iko e vendido as partes dela, deixando só as peças mais inúteis para trás. Incluindo o chip de personalidade.
Ao pegar o terceiro chip, o coração de Cinder se apertou.
O chip de identificação de Peony.
Sua meia-irmã mais nova tinha morrido quase duas semanas antes. A peste a tinha matado porque Cinder não conseguira o antídoto para ela a tempo. Porque Cinder demorou demais.
O que Peony pensaria agora? Agora que Cinder era lunar. Que Cinder era a princesa Selene. Que Cinder tinha dançado com Kai, beijado Kai...
— Eca, isso é um chip de identificação?
Ela deu um pulo e escondeu o chip na mão quando Thorne se sentou na outra cadeira.
— Não me dê um susto assim.
— Por que você está com um chip de identificação? — perguntou ele, olhando com desconfiança para os outros dois no braço da cadeira. — É melhor não ser o seu, depois de você me obrigar a tirar o meu.
Ela fez que não com a cabeça.
— É da minha irmã. — Engolindo em seco, ela abriu a mão. Um pouco de sangue seco tinha se espalhado na palma.
— Não me diga que ela é condenada fugitiva também. Ela não precisa dele?
Cinder prendeu a respiração, esperou que a dor no peito diminuísse e lançou um olhar raivoso.
Ao ver o olhar dela, a percepção se espalhou pouco a pouco pelo rosto de Thorne.
— Ah. Sinto muito.
Ela remexeu o chip, passando-o de um dedo de metal ao outro.
— Há quanto tempo?
— Duas semanas. — Cinder fechou a mão sobre o chip. — Ela só tinha catorze anos.
— Foi a peste?
Cinder assentiu.
— Os androides que cuidam das quarentenas tiram os chips de identificação dos mortos. Acho que os levam para condenados e lunares fugitivos... Pessoas que querem uma nova identidade. — Ela colocou o chip ao lado dos outros. — Não pude deixar que levassem o dela.
Thorne se acomodou na cadeira. Tinha se limpado bem: o cabelo estava bem aparado; a barba, feita; e ele cheirava a sabonete caro. Usava uma jaqueta de couro gasta com um único escudo preso à gola: a patente de capitão.
— Os androides que trabalham nas quarentenas não são propriedade do governo? — perguntou ele, olhando para a Terra pela janela.
— É, acho que são. — Cinder franziu a testa. Nunca tinha pensado no assunto antes, mas falar em voz alta despertou uma onda de desconfiança.
Thorne expressou o pensamento primeiro.
— Por que o governo programaria androides para pegarem chips de identificação?
— Talvez não seja para serem vendidos no mercado negro — disse Cinder, apertando o chip de Peony no braço da cadeira. — Talvez os apaguem e os reutilizem.
Mas não acreditava nisso. Chips de identificação eram baratos de produzir, e se o público descobrisse que as identidades de seus entes queridos estavam sendo apagadas, haveria um alvoroço.
Ela mordeu o lábio. Então havia outro motivo? Outra coisa para a qual o governo estaria usando os chips? Ou será que alguém tinha conseguido reprogramar os androides das quarentenas sem o governo saber?
Sentiu um nó no estômago. Como queria poder falar com Kai...
— O que são os outros dois?
Ela baixou os olhos.
— Um chip de comunicação direta e um chip de personalidade que era de uma androide amiga minha.
— Você é colecionadora de chips, por acaso?
Ela amarrou a cara.
— Só estou guardando até descobrir o que fazer com eles. Vou precisar encontrar um corpo novo para Iko, alguma coisa que ela possa... — Ela parou de falar e sufocou um gritinho. — Isso!
Enfiou rapidamente os dois outros chips na panturrilha. Segurando o chip de personalidade de Iko, saiu correndo para o compartimento de carga. Thorne a seguiu, pelo corredor, pela escotilha para o nível inferior, até a sala de máquinas, e ficou na porta enquanto Cinder se arrastava por baixo dos fios até aparecer ao lado do computador central.
— Precisamos de um novo sistema de controle automático — disse ela, abrindo um painel e passando o dedo pelas etiquetas. — Iko é um sistema de controle automático. Todos androides são! É verdade que ela está acostumada a lidar com um corpo bem menor, mas... o quão diferente pode ser?
— Vou supor que muito?
Ela balançou a cabeça e enfiou o chip no computador central.
— Não, não, isso vai dar certo. Só preciso de um adaptador. — Ela trabalhava enquanto falava, soltando fios, rearrumando, religando.
— E temos um adaptador?
— Vamos ter.
Virando, ela analisou o painel de controle atrás de si.
— Nunca vamos usar o módulo de aspirador de pó, vamos?
— Aspirador de quê?
Ela soltou o cabo do painel e enfiou uma ponta no computador principal, a outra na entrada do sistema de controle automático, o mesmo que quase fez o circuito dela fritar.
— Agora vai! — disse ela, se sentando nos calcanhares.
O sistema se iluminou, e Cinder ouviu o som familiar da verificação diagnóstica interna. Seu coração estava acelerado só de pensar que não estaria mais sozinha, que poderia salvar ao menos uma pessoa que importava para ela...
O computador principal ficou em silêncio de novo.
Thorne olhou para o teto da nave, como se esperasse que fosse desmoronar na sua cabeça.
— Iko? — chamou Cinder, olhando para o computador. Os alto-falantes estavam ligados? As configurações de entrada de som e dados estavam corretas? Tinha conseguido se comunicar com Thorne direitinho quando eles estavam no depósito, mas...
— Cinder?
Quase caiu pra trás e suspirou, aliviada.
— Iko! Sou eu, Cinder! — Ela segurou um duto de resfriamento acima, parte do motor, parte da nave.
E Iko era parte de tudo.
— Cinder. Tem alguma coisa errada com meu sensor de visão. Não consigo te ver e me sinto meio estranha.
Com a língua para fora, Cinder se inclinou para analisar o orifício em que o chip de personalidade de Iko encontrara um novo lar. Parecia se encaixar perfeitamente, estar protegido e funcionando direito. Não havia sinal de qualquer problema de compatibilidade. O sorriso dela se abriu de orelha a orelha.
— Eu sei, Iko. As coisas vão ficar um pouco diferentes por um tempo. Tive que instalar você como o sistema de controle automático de uma nave. Uma Rampion 214, classe 11.3. Você tem conexão de rede? Deve poder baixar as especificações.
— Uma Rampion? Uma nave?
Cinder se abaixou. Embora só houvesse um alto-falante na casa de máquinas, a voz de Iko ecoou em todos os cantos.
— O que estamos fazendo em uma nave?
— É uma história muito longa, mas foi o que consegui pensar em fazer com seu...
— Ah, Cinder! Cinder! — A voz de Iko saiu como um choro, que provocou um arrepio na coluna de Cinder. — Onde você esteve o dia todo? Adri está furiosa, e Peony... Peony.
As palavras de Cinder ficaram secas.
— Ela morreu, Cinder. Adri recebeu um comunicado da quarentena.
Cinder olhou cegamente para a parede.
— Eu sei, Iko. Isso foi duas semanas atrás. Tem duas semanas que Adri desativou você. Este é o primeiro... corpo... que consegui encontrar.
Iko ficou em silêncio. Cinder olhou ao redor, sentindo Iko em todo lugar. O motor girou mais rápido por um momento, depois se reduziu à velocidade normal. A temperatura nem caiu muito.
Uma luz piscou no corredor atrás de Thorne, que estava rígido e desconfortável na porta, com cara de quem achava que um poltergeist tinha possuído sua amada Rampion.
— Cinder — disse Iko após alguns minutos silenciosos de exploração. — Eu sou enorme. — Havia um choramingo distinto na voz metálica.
— Você é uma nave, Iko.
— Mas eu... como posso... sem mãos, sem sensor de visão, com um trem de pouso gigantesco... Isso é pra ser meus pés?
— Bem, não. É pra ser um trem de pouso.
— Ah, o que aconteceu comigo? Estou horrenda!
— Iko, é apenas temporár...
— Pera lá, senhorita voz incorpórea. — Thorne entrou na casa de máquinas e cruzou os braços sobre o peito. — O que você quer dizer com “horrenda”?
Então, a temperatura foi lá no alto.
— Quem é esse? Quem está falando?
— Sou o capitão Carswell Thorne, o dono desta bela nave, e não vou deixar que você a insulte na minha presença!
Cinder revirou os olhos.
— Capitão Carswell Thorne?
— Isso mesmo.
Um breve silêncio.
— Minha rede só encontra um cadete Carswell Thorne, da República da América, detido na prisão de Nova Pequim em...
— É ele mesmo — disse Cinder, ignorando a expressão de raiva de Thorne.
Mais silêncio enquanto o calor da sala de máquinas crescia a um ponto que passava ligeiramente do confortável. E então:
— Você é... bem bonito, capitão Thorne.
Cinder gemeu.
— E você, minha bela dama, é a nave mais bonita dos céus, e não deixe que ninguém diga o contrário.
A temperatura subiu ainda mais, até que Cinder deixou os braços penderem e suspirou.
— Iko, você está corando intencionalmente?
A temperatura voltou a ficar agradável.
— Não — disse Iko. — Mas sou mesmo bonita? Mesmo sendo uma nave?
— A mais bonita — disse Thorne.
— Você tem uma moça nua pintada na sua lateral esquerda — acrescentou Cinder.
— Eu mesmo desenhei.
Uma série de pequenas luzes de teto piscou e emitiu um brilho suave.
— Olha, Iko, isso é apenas temporário. Vamos conseguir um novo sistema de controle automático e vamos arrumar um corpo novo pra você. Em algum momento. Mas preciso que você cuide da nave, verifique os relatórios, talvez faça um diagnóstico...
— A bateria está quase acabando.
Cinder assentiu.
— Certo. Eu já sabia dessa parte. Mais alguma coisa?
O motor zumbiu ao redor dela.
— Bom, acho que eu poderia fazer uma verificação completa do sistema...
Abrindo um grande sorriso, Cinder rastejou em direção à porta e, ao ficar de pé, encontrou Thorne muito satisfeito.
— Obrigada, Iko.
As luzes piscaram de novo quando Iko desviou a energia.
— Mas por que estamos mesmo nesta nave? E com um criminoso condenado? Sem querer ofender, capitão Thorne.
Cinder deu um leve sorriso, exausta demais para contar a história, mas sabendo que não podia escondê-la de seus companheiros para sempre.
— Ok — disse ela, passando por Thorne e entrando no corredor. — Vamos voltar para o cockpit. É melhor estarmos bem instalados.

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