20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quinze

O link de comunicação demorou séculos para ser estabelecido, enquanto Kai ficava de pé na frente do netscreen com as mãos unidas nas costas e o coração batendo mais alto do que o motor da Rampion. Ele não se deu ao trabalho de tirar a camisa branca de seda do casamento que estava usando quando foi sequestrado, apesar de estar amassada e ter um buraquinho onde o dardo tranquilizador de Cinder a perfurou. Achava que Levana poderia apreciar o fato de que fazer contato com ela era prioridade absoluta, acima da troca de roupa, acima até de alertar a imprensa terráquea sobre sua volta.
Ele ia usar todas as táticas em que conseguisse pensar para cair nas graças dela de novo. Qualquer coisa para tornar o plano crível.
Finalmente, finalmente o pequeno globo no canto parou de girar e o netscreen se acendeu, revelando Levana com o fino véu branco.
— É possível que seja meu querido jovem imperador? — sussurrou ela. — Eu tinha praticamente dado você como perdido. Quanto tempo tem, mais de um mês, eu acho? Achei que seus captores o tinham assassinado e desmembrado a essas alturas.
Kai sorriu, fingindo que ela tinha feito uma piada divertida.
— Sofri uns galos e arranhões aqui e ali, mas nada tão horrível assim.
— Entendo — refletiu Levana, inclinando a cabeça. — Esse hematoma na bochecha parece recente.
— Mais recente do que alguns dos outros, é — disse Kai. Fingir que o tempo que passou a bordo da Rampion foi uma provação que ele quase não aguentou era o primeiro passo da estratégia. — Linh Cinder deixou claro desde o começo que eu era um prisioneiro na nave dela, não convidado. Cá entre nós, acho que ela ainda estava aborrecida porque mandei prendê-la no baile.
— Que selvagem.
— Estou me considerando um cara de sorte. Finalmente consegui negociar minha liberdade. Acabei de voltar a Nova Pequim. Informá-la da minha volta era minha maior prioridade.
— E a que devemos essa ocasião feliz? Desconfio que as negociações devam ter sido desagradáveis.
— Meus sequestradores tinham muitas exigências. Um pagamento em dinheiro, claro, e também que eu cancelasse a busca pelos fugitivos, tanto Linh Cinder quanto Carswell Thorne.
O véu tremeu quando Levana ajustou as mãos no colo.
— Eles devem ter achado que a captura deles era iminente — disse ela, com tom de quem não estava impressionada. — Se bem que não vejo como seria possível, considerando que você não conseguiu capturá-los quando eles estavam no seu próprio palácio.
O sorriso de Kai permaneceu no lugar.
— Mesmo assim, eu concordei com tudo. Mas não dei garantias quanto ao resto da União ou a Luna. Espero que esses criminosos sejam encontrados e julgados pelos crimes deles, inclusive o ataque a mim e o sequestro.
— Espero que sim — disse Levana, e ele sabia que ela estava debochando dele, mas, pela primeira vez, saber disso não provocou um arrepio na pele.
— Eles fizeram uma exigência adicional. — Nas costas, Kai apertou as mãos, depositando toda a energia nervosa nelas. — Insistiram para que eu me recusasse a seguir em frente com os termos da aliança sobre os quais eu e você concordamos. Pediram que o casamento não tivesse permissão de acontecer.
— Ah — disse a rainha, com uma gargalhada perversa —, agora chegamos ao motivo pelo qual fazer contato comigo era uma prioridade tão grande. Tenho certeza de que você ficou arrasado de concordar com termos tão ofensivos.
— Na verdade, não — retrucou ele, na cara de pau.
Levana se encostou, e ele viu os ombros dela tremendo.
— E por que esses criminosos se preocupariam com política intergaláctica? Eles não estão cientes de que já são responsáveis por iniciarem uma guerra entre nossas nações? Não acreditam que vou encontrar um jeito de me sentar no trono da Comunidade das Nações Orientais, independentemente da sua barganha egoísta?
Kai engoliu em seco com dificuldade.
— Talvez o interesse deles tenha a ver com a alegação de Linh Cinder de que ela é a princesa perdida Selene.
Um silêncio estalou entre ele e o netscreen, estático como gelo em um lago.
— Ela parece pensar que, se prosseguíssemos com o casamento e a coroação, isso enfraqueceria a reivindicação dela pelo trono lunar — continuou Kai.
— Entendo. — Levana tinha recuperado a compostura e o tom frívolo e extravagante. — Eu me perguntei se ela encheria sua cabeça de mentiras. Imagino que você tenha sido uma plateia fascinada.
Ele deu de ombros.
— Era uma espaçonave bem pequena.
— Você acredita que essas alegações dela sejam verdade?
— Sinceramente? — Ele se preparou. — Não ligo se são ou não. Tenho mais de cinco bilhões de pessoas vivendo sob minha proteção e, nesse último mês, cada uma delas foi para a cama se perguntando se essa era a noite em que sua casa seria atacada. Se essa era a noite em que suas janelas seriam quebradas, seus filhos seriam arrancados da cama, seus vizinhos seriam mutilados nas ruas, tudo por seus… por esses monstros que você criou. Eu não posso… — Ele fez uma careta. Essa dor, pelo menos, não precisava ser fingida. — Eu não posso deixar isso continuar, e Linh Cinder, quer ela seja ou não a princesa perdida, não é quem está no comando da força militar lunar. Não ligo para política lunar e dinâmica familiar e teorias da conspiração. Quero que isso termine. E é você quem tem o poder de terminar.
— Um discurso comovente, jovem imperador. Mas nossa aliança acabou.
— Acabou? Você parece convencida de que eu cederia às vontades de criminosos e sequestradores.
Ela não disse nada.
— Você tinha minha palavra muito antes de eu dá-la a Linh Cinder. Portanto, sinto que meu acordo com você tem precedência. Você não concorda?
O véu tremeu nas mãos dela, como se estivesse mexendo em alguma coisa.
— Estou vendo que o tempo fora não diminuiu seu talento impressionante para a diplomacia.
— Espero que não.
— Você está me dizendo que quer ir em frente com nossa combinação anterior?
— Estou, e com os mesmos termos. Nós dois concordamos com um cessar-fogo em todos os territórios terráqueos no espaço e no solo, efetivo imediatamente. Com sua coroação como imperatriz da Comunidade das Nações Orientais, todos os soldados lunares serão removidos do solo terrestre, e você vai nos permitir fabricar e distribuir seu antídoto contra a letumose.
— E que segurança você pode me dar de que nosso casamento não vai ser sujeitado ao mesmo espetáculo vergonhoso da última vez? Sua ciborgue e os amigos dela não vão ficar satisfeitos quando souberem que você ignorou as exigências.
— Infelizmente, não tive tempo de desenvolver um plano. Vamos aumentar a segurança, claro. Trazer reforços militares. Sei o quanto você admira isso.
Levana riu com deboche.
— Mas Linh Cinder provou que é criativa. Uma opção seria fazer a cerimônia em segredo e não soltar prova do casamento até a coro…
— Não. Não vou deixar nenhuma dúvida na mente do povo terráqueo de que sou sua esposa e imperatriz deles.
Kai trincou os dentes para não vomitar com as palavras. Sua esposa. Imperatriz deles.
— Entendo. Podemos considerar outros locais para fazer a cerimônia, algum lugar mais remoto ou seguro. Uma espaçonave, talvez? Ou até…
Ele hesitou, tentando parecer assustado com o pensamento não pronunciado.
— Ou até o quê?
— Eu só estava… Duvido que você vá gostar. Exigiria muito trabalho, e não sei nem se é plausível… mas por que não fazer o casamento em Luna? Seria impossível Linh Cinder interferir, nesse caso.
Ele fez uma pausa e tentou não demonstrar que estava prendendo a respiração.
O silêncio ficou denso. O coração de Kai disparou.
Foi demais. Ele a deixou desconfiada.
Kai começou a rir e balançou a cabeça.
— Deixe pra lá, foi uma ideia idiota. — A mente dele girou em busca de outro ângulo de abordagem. — Tenho certeza de que encontraremos uma localização adequada na Terra. Só preciso de um tempo para…
— Você é mesmo inteligente, não é?
O coração dele pulou.
— Como?
A rainha riu.
— Um lugar remoto, um lugar seguro. Meu querido imperador, é claro que deveríamos fazer o casamento em Luna.
Kai fez uma pausa, esperou e expirou devagar, mantendo a expressão neutra. Mais um momento e ele se lembrou de até ser meio incrédulo.
— Tem certeza? Já temos tudo preparado na Terra. Todos os transportes e acomodações, o bufê, os convites…
— Não seja ridículo. — Ela balançou os dedos atrás do véu. — Não sei por que não pensei nisso antes. Vamos fazer a cerimônia aqui em Artemísia. Tenho espaço suficiente para as acomodações, e não tenho dúvida de que você vai ficar satisfeito com a hospitalidade que podemos oferecer.
Kai repuxou os lábios, com medo de dissuadi-la da ideia e ao mesmo tempo de parecer entusiasmado demais.
— Isso é um problema, Vossa Majestade Imperial?
— Não duvido que Artemísia seja… linda. Mas, agora que estou pensando melhor, tenho medo de isso alienar os convidados que teriam o privilégio de vir ao casamento aqui na Terra. Particularmente, os líderes da União Terráquea.
— Mas é claro que o convite vai ser estendido a todos os diplomatas terráqueos. Eu ficaria decepcionada se eles não viessem. Afinal, nossa união será um símbolo de paz, não só entre Luna e a Comunidade das Nações Orientais, mas também entre Luna e todas as nações terráqueas. Posso fazer o convite a cada convidado terráqueo pessoalmente se você achar que é apropriado.
Ele coçou atrás da orelha.
— Com todo o respeito, talvez haja uma certa… hesitação dos líderes da União. Se posso ser direto, como você pode garantir que nós… eles não vão cair em uma armadilha? Você não fez nenhuma tentativa de disfarçar suas ameaças contra a Terra, e há desconfianças de que ainda pode estar usando seu status de imperatriz como plataforma de lançamento para, bem…
— A dominação mundial?
— Precisamente.
Levana riu.
— E de que você tem medo exatamente? Que eu possa assassinar os chefes da União Europeia enquanto eles estiverem aqui, como forma de trilhar um caminho mais fácil para tomar o controle dos paisinhos idiotas deles?
— Precisamente.
Outra risadinha eufórica.
— Meu querido imperador, isso é uma oferta de paz. Quero ganhar a confiança da União, não terminar por aliená-la. Você tem minha palavra de que todos os convidados terráqueos serão tratados com a máxima cortesia e respeito.
Kai permitiu muito lentamente que seus ombros relaxassem. Não que acreditasse nela por sequer um minuto, mas não importava. Ela agiu como ele esperava que agisse.
— Na verdade, como prova da minha boa vontade, vou aceitar seu pedido de um cessar-fogo imediato em toda a União — continuou Levana. — Esse cessar-fogo vai valer para todos os territórios terráqueos cujos líderes aceitarem nosso convite de vir ao casamento aqui em Artemísia.
Kai fez uma careta.
Era um jeito de aumentar a lista de comparecimentos.
Ele esfregou as palmas das mãos no tecido amassado da camisa.
— Não posso discutir com o fato de que Artemísia é mais segura do que qualquer lugar que pudéssemos escolher na Terra. Vou discutir isso com os líderes da União Terráquea agora mesmo.
— Faça isso, Vossa Majestade. Tenho certeza de que a mudança de local não vai ser problema. Vou começar a fazer os preparativos para sua visita e para nossas cerimônias de matrimônio e coroação.
— Certo e… quanto a isso. Quando você gostaria…
— Sugiro o dia oito de novembro para nosso casamento e festa de celebração, seguidos das duas coroações no dia seguinte à lua nova. Podemos marcar para coincidir com o nascer do sol… é uma hora linda aqui em Luna.
Kai piscou.
— Isso é… posso estar meio confuso com os dias, com essa coisa de ter ficado de refém e tal, mas… isso não é só daqui a uma semana?
— Dez dias, Vossa Majestade. Essa aliança está sendo adiada há tempo demais. Não acredito que ninguém queira ver minha paciência testada mais do que já foi. E estou mesmo ansiosa para receber você e seus convidados. — Ela inclinou a cabeça em uma despedida cortês. — Meus portos vão estar prontos para receber vocês.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!