13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quinze

— IMAGINO QUE SEJA DEMAIS TORCER PARA QUE TENHAMOS CAÍDO perto de algum tipo de civilização — disse Thorne, inclinando a cabeça para o lado.
Cress andou pelos destroços até a janela mais próxima.
— Não sei se queremos estar perto da civilização. Você é um criminoso procurado em três países terráqueos e um dos homens mais reconhecíveis do planeta.
— Estou bem famoso, não estou? — Sorrindo, ele balançou a mão para ela. — Acho que não importa o que queremos. O que você vê lá fora?
Na ponta dos pés, Cress espiou a claridade. Conforme seus olhos foram se ajustando à luz, eles foram se arregalando, tentando absorver tudo.
Imediatamente, ela se deu conta. Estava na Terra. Na Terra.
Já tinha visto fotos, claro. Milhares e milhares de fotos e vídeos, de cidades e lagos e florestas e montanhas, de todas as paisagens imagináveis. Mas nunca tinha pensado que o céu podia ser tão impossivelmente azul, nem que a terra podia ter tantos tons de dourado, nem que pudesse brilhar como um mar de diamantes, nem pudesse ondular e inchar como uma criatura viva.
Por um momento, a realidade de tudo invadiu seu corpo e transbordou.
— Cress?
— É lindo lá fora.
Um momento de hesitação.
— Você poderia ser mais específica?
— O céu é de um azul lindo e intenso.
Ela encostou os dedos no vidro e acompanhou as colinas onduladas no horizonte.
— Ah, que ótimo. Você explicou muito bem.
— Me desculpe, é que... — Ela tentou sufocar a onda de emoção. — Acho que estamos em um deserto.
— Com cactos e bolas de palha rolando?
— Não. Só um monte de areia. É meio que laranja-dourado, com pontinhos cor-de-rosa, e consigo ver pequenas nuvens de areia flutuando acima do chão, como... como fumaça.
— Empilhada em um monte de morros?
— Sim, exatamente! E é lindo.
Thorne riu com deboche.
— Se é isso que você acha do deserto, mal posso esperar para você ver a primeira árvore de verdade. Sua mente vai explodir.
Ela sorriu para o mundo. Árvores.
— Isso explica o calor, então — falou Thorne. Cress, com seu vestido fino de algodão, não tinha reparado, mas a temperatura parecia mesmo estar aumentando. Os controles deviam ter se reiniciado na queda ou talvez quebrado. — Um deserto não teria sido minha primeira escolha. Você está vendo alguma coisa útil? Palmeiras? Lagos? Um par de camelos passeando?
Ela olhou de novo e reparou em um desenho ondulado marcado na paisagem, repetido infinitamente.
— Não. Não tem mais nada.
— Tudo bem, preciso que você faça o seguinte. — Thorne foi contando com os dedos. — Primeiro, encontre um jeito de fazer contato com a Rampion. Quanto mais rápido pudermos voltar para minha nave, melhor. Segundo, vamos ver se conseguimos abrir aquela porta. Vamos cozinhar aqui dentro se a temperatura continuar subindo assim.
Cress observou a confusão de telas e fios no chão.
— Nunca foi instalada comunicação externa no satélite. A única chance que tínhamos de fazer contato com sua tripulação era o chip D-COMM que Sybil levou. E, mesmo que tivéssemos um jeito de fazer contato, não conseguiríamos dar coordenadas exatas a não ser que o sistema de posicionamento do satélite esteja funcionando, e mesmo assim...
Thorne levantou a mão.
— Uma coisa de cada vez. Precisamos avisar que não estamos mortos e ver se eles estão bem. Acho que são capazes de lidar com dois lunares malditos, mas eu ficaria mais calmo se tivesse certeza. — Ele deu de ombros. — Quando eles souberem que devem nos procurar, talvez Cinder arrume um detector de metais gigantesco, sei lá.
Cress observou o satélite destruído.
— Não sei se dá para salvar alguma coisa. As telas estão todas destruídas, e, a julgar pela perda de controle de temperatura, o gerador está... ah, não. Pequena Cress! — Ela gritou e foi chutando coisas até chegar à placa de dados principal que abrigava seu eu mais novo. Estava caída de lado, com pedaços de fios e plástico pendurados em volta. — Ah, Pequena Cress...
— Hum, quem é Pequena Cress?
Ela fungou.
— Eu. Quando tinha dez anos. Ela morava no computador e me fazia companhia, mas agora está morta. — Ela apertou a placa contra o peito. — Pobre e doce Pequena Cress.
Depois de um longo silêncio, Thorne limpou a garganta.
— Scarlet me avisou sobre isso. Precisamos enterrar a Pequena Cress antes de irmos em frente? Quer que eu diga algumas palavras para ela?
Cress olhou-o e, apesar de encontrar uma expressão solidária, achou que ele devia estar debochando dela.
— Não sou maluca. Sei que ela era só um computador. É que... eu mesma a programei, e ela era a única amiga que eu tinha. Só isso.
— Ei, não estou julgando você. Estou familiarizado com relacionamentos TI. Espere só até conhecer nossa espaçonave. Ela é demais. — A expressão dele ficou pensativa. — Falando em espaçonaves, e aquela outra nave, aquela com a qual o guarda atracou?
— Ah, eu tinha me esquecido disso!
Ela colocou a placa atrás da mesa caída e tropeçou até chegar à outra entrada. O satélite estava torto, e a segunda entrada estava perto da parte mais baixa de inclinação, e ela precisou tirar incontáveis pedaços de plástico e equipamento quebrado até chegar à tela de controle. A tela em si estava quebrada, ela não conseguiu nem fazê-la piscar, então abriu o painel que guardava os comandos manuais para desabilitar as trancas. Uma série de mecanismos e alavancas tinha sido colocada na parede acima da porta, e, apesar de Cress saber onde estava havia anos, nunca tinha pensado muito nisso.
Os mecanismos estavam emperrados depois de anos de negligência, e ela precisou usar toda a força para puxar a alavanca, apoiando um dos pés na parede para pegar impulso. A alavanca finalmente estalou e a porta se abriu um pouquinho.
Ao ouvir o esforço dela, Thorne se levantou e andou até lá, chutando com cuidado os destroços no caminho. Ele manteve as mãos esticadas até esbarrar nela e juntos eles puxaram a porta.
O compartimento de pouso estava pior do que o satélite. Uma parede quase inteira tinha sido afetada, e pilhas de areia já começavam a entrar pelas rachaduras. Fios e hastes pendiam de painéis quebrados nas paredes, e Cress sentia cheiro de fumaça e o aroma acre de plástico queimado. A nave foi jogada no corredor e amassou a extremidade do compartimento como um acordeão. A haste de pouso entrou no painel de controle do cockpit da nave, enchendo o vidro de rachaduras.
— Me diga que a aparência está melhor do que o cheiro — disse Thorne, segurando-se na moldura da porta.
— Não exatamente. A nave está destruída, e parece que todos os instrumentos também.
Cress desceu, segurando-se na parede para manter o equilíbrio. Experimentou alguns botões para trazer a nave de volta à vida, mas foi inútil.
— Tudo bem. Próximo plano. — Thorne esfregou os olhos. — Não temos como fazer contato com a Rampion, e eles não têm como saber que estamos vivos. Não vai nos ajudar muito ficar aqui e esperar que alguém passe. Vamos ter que tentar encontrar algum tipo de civilização.
Ela envolveu o próprio corpo com os braços, uma mistura de nervosismo e euforia invadindo as entranhas. Estava prestes a sair do satélite.
— Acho que o sol está se ponto — disse ela. — Então pelo menos não vamos caminhar no calor.
Thorne franziu os lábios enquanto pensava.
— Nesta época do ano, as noites não devem ser frias demais, independentemente do hemisfério em que pousamos. Precisamos reunir todos os suprimentos que pudermos carregar. Você tem mais algum cobertor? E é melhor colocar um casaco.
Cress passou as mãos pelo vestido fino.
— Não tenho casaco. Nunca precisei.
Thorne suspirou.
— Faz sentido.
— Mas tenho outro vestido que não está tão gasto quanto este.
— Uma calça seria melhor.
Ela olhou para as pernas nuas. Nunca tinha colocado uma calça.
— Esses vestidos são tudo o que Sybil trouxe para mim. Eu... também não tenho sapatos.
— Não tem sapatos? — Thorne massageou a testa. — Tudo bem. Passei por treinamento de sobrevivência quando era militar. Posso resolver isso.
— Mas tenho algumas garrafas que podemos encher de água. E vários kits de alimento.
— É um começo. Água é nossa prioridade. A desidratação vai ser uma ameaça bem maior do que a fome. Você tem alguma toalha?
— Duas.
— Ótimo. Pegue as duas e alguma coisa que possamos usar como corda. — Ele levantou o pé esquerdo. — E, já que estamos falando nisso, você tem alguma ideia de onde foi parar minha bota?


— TEM CERTEZA DE QUE NÃO QUER QUE EU FAÇA ISSO?
Thorne fez expressão de desdém e dirigiu o olhar para a área do joelho dela.
— Posso estar temporariamente cego, mas não sou incapaz. Ainda sei dar bons nós.
Cress coçou a orelha e sufocou mais um comentário. Estava sentada na beirada da cama, trançando uma mecha cortada de cabelo para usar como corda enquanto Thorne estava ajoelhado na frente dela. O rosto dele franzia de concentração enquanto envolvia o pé dela com uma toalha, depois passou a “corda” ao redor do tornozelo e no peito do pé algumas vezes antes de prender com um nó elaborado.
— Queremos que fique bem apertado. Se o tecido ficar frouxo demais, vai haver fricção e você vai ter bolhas. Como está?
Ela mexeu os dedos.
— Bom — disse ela, e esperou até Thorne terminar o outro pé para ajeitar as dobras do tecido sem ele perceber para que ficasse mais confortável.
Quando ela ficou de pé, a sensação foi estranha, como a de andar sobre travesseiros cheios de caroços, mas Thorne parecia pensar que ela ficaria grata pelos sapatos improvisados quando estivessem no deserto.
Juntos, eles fizeram uma trouxa usando um dos cobertores e encheram de água, comida, lençóis e um pequeno kit de primeiros socorros do qual Cress raramente precisava. A faca estava guardada na bota de Thorne, e eles desmontaram parte da cabeceira da cama para ele usar como bengala. Os dois beberam o máximo de água que aguentaram, e depois que Cress deu uma última olhada no satélite e não conseguiu pensar em mais nada que valesse a pena levar, pisou na doca e puxou a alavanca de destrancamento manual. Com um estalo, os mecanismos internos da porta se soltaram.
A parte hidráulica assoviou. Uma abertura surgiu no meio da porta dupla de metal, permitindo que Thorne enfiasse os dedos e empurrasse um dos lados para dentro da parede.
Uma brisa de ar seco soprou para dentro do satélite, um aroma o qual Cress não tem com o que comparar. Não era nada como o satélite nem as máquinas nem o perfume de Sybil.
Terra, ela supôs, memorizando o aroma. Ou deserto.
Thorne colocou a trouxa improvisada sobre o ombro. Depois de chutar alguns destroços do caminho, esticou a mão para Cress.
— Vá na frente.
A mão dele envolveu a dela, e ela queria saborear o momento, a sensação de toque e calor e esse cheiro perfeito de liberdade, mas Thorne a estava cutucando antes de o momento ser absorvido.
No final da área de atracamento havia uma grade e dois degraus que levavam para o local onde uma nave normalmente se acoplava, mas só havia areia, tingida de lilás com a aproximação das sombras da noite. Já tinha começado a chegar ao segundo degrau quando Cress teve uma visão do satélite sendo lentamente enterrado pela areia e desaparecendo para sempre no deserto.
Ela olhou para fora, para além da grade e das dunas, na direção do horizonte. O céu estava com um tom violeta, e, mais acima, havia azul e preto e estrelas. As mesmas estrelas que ela conhecera a vida toda, mas espalhadas como um cobertor acima dela.
Havia um céu inteiro e um mundo inteiro prontos para envolvê-la.
Sua cabeça girou. Tonta de repente, Cress cambaleou para trás e colidiu com Thorne.
— O quê? O que foi?
Ela tentou engolir o pânico que surgia, a sensação de que sua existência era tão pequena e tão importante quanto a do menor grão de poeira que batia em suas canelas.
Havia um mundo inteiro, um planeta inteiro. E ela estava presa em algum lugar no meio dele, longe de tudo. Não havia paredes, nem limites, nada atrás do que se esconder. Um tremor percorreu seu corpo e arrepios surgiram em seus braços nus.
— Cress. O que aconteceu? O que você está vendo?
Os dedos de Thorne apertaram os braços dela, e ela percebeu que ele estava tremendo.
Ela gaguejou duas vezes antes de expressar o pensamento.
— É... é tão grande.
— O que é tão grande?
— Tudo. A Terra. O céu. Não parecia tão grande do espaço.
Seu coração pulsava como um tambor, trovejando por todas as artérias. Ela nem inspirava direito e precisou cobrir o rosto e se virar para poder conseguir respirar de novo. Mesmo assim, a sensação foi dolorosa.
De repente, ela estava chorando, sem nem saber de onde tinham vindo as lágrimas.
As mãos de Thorne encontraram seus cotovelos, delicadas e gentis. Houve um momento em que ela esperou ser tomada nos braços dele, apertada e calorosamente contra o peito, em segurança. Ela desejava isso.
Mas ele só a sacudiu, e com força.
— Pare!
Cress soluçou.
— Qual é a principal causa de morte no deserto?
Ela piscou, e outra lágrima quente escorreu pela bochecha.
— O q-quê?
— A causa número um de mortes. Qual é?
— De-desidratação? — disse ela, lembrando-se da palestra de sobrevivência básica que ele lhe dera enquanto enchia as garrafas de água.
— E chorar faz o quê?
Ela demorou um momento.
— Desidrata?
— Exatamente. — Ele relaxou o aperto. — Não tem problema estar com medo. Entendo que até agora a maior parte de sua existência foi confinada a duzentos metros quadrados. Na verdade, até agora você se mostrou mais sã do que eu esperava.
Ela fungou, sem saber se ele a tinha elogiado ou insultado.
— Mas preciso que você se controle. Você pode ter reparado que não estou em plena forma agora, e preciso que você esteja alerta e observe tudo e nos ajude a encontrar um jeito de sair disso, porque senão... Não sei você, mas eu não gosto da ideia de ficar preso aqui e ser comido vivo por gaviões. Então posso contar com você para se controlar? Por nós dois?
— Sim — sussurrou ela, embora seu peito estivesse prestes a explodir com tantas dúvidas amontoadas nele.
Thorne apertou os olhos, e ela achou que ele não estava acreditando nela.
— Não estou convencido de que você esteja entendendo bem a situação aqui, Cress. Vamos ser comidos. Vivos. Por gaviões. Você consegue visualizar isso por um segundo?
— S-Sim. Gaviões. Entendi.
— Que bom. Porque eu preciso de você. E essas não são palavras que eu digo todo dia. Você vai ficar bem?
— Vou. Só me dê... Eu só preciso de um momento.
Ela respirou mais fundo e fechou os olhos e procurou uma fantasia, qualquer fantasia...
— Sou uma exploradora — sussurrou ela — partindo com coragem para o desconhecido. — Não era uma fantasia que tivesse pensado antes, mas ela sentiu o consolo familiar da imaginação envolvendo-a. Ela era arqueóloga, cientista, caçadora de tesouros. Era mestra da terra e do mar. — Minha vida é uma aventura — declarou, ficando mais confiante ao abrir os olhos. — Não vou mais ficar presa a esse satélite.
Thorne inclinou a cabeça para o lado. Esperou três segundos antes de colocar a mão na dela.
— Não faço ideia do que você está falando — disse ele. — Mas vamos em frente.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!