3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quinze

CINDER TEVE QUE BAIXAR UM MAPA DA ALA DE PESQUISA DO PALÁCIO para achar o caminho até a saída. Seus nervos estavam no limite, com o príncipe, com Peony, com tudo. Sentia-se uma impostora perambulando pelos lustrosos corredores brancos de cabeça baixa, evitando contato visual com os cientistas e com os androides brancos. Mesmo que agora ela fosse realmente voluntária. Uma voluntária valiosa.
Ela passou por uma sala de espera — decorada com dois netscreens e três poltronas — e congelou, seu olhar preso na janela.
A vista.
A cidade.
Ao nível do chão, Nova Pequim era uma bagunça: edifícios demais amontoados em um espaço muito pequeno, as ruas descuidadas, cabos de energia e varais atravessando cada beco, vinhas intrometidas escalando as paredes de concreto.
Mas daqui, no topo do penhasco e três andares acima, a cidade era linda. O sol estava alto, e sua luz reluzia em arranha-céus de vidro e telhados de ouro matizado. Cinder podia ver o movimento constante de netscreens gigantes e aerodeslizadores piscando enquanto corriam por entre os prédios. Daqui, a cidade fervilhava de vida, mas sem todo o chiado tecnológico.
Cinder procurou o grupo de edifícios cromados e com vidro azul fino que ficava de sentinela sobre a praça do mercado e em seguida tentou traçar a rota para o norte, procurando os apartamentos da Torre Fênix, mas eles estavam escondidos atrás da cidade lotada e suas sombras.
Seu assombro se esvaiu.
Ela tinha que voltar. Voltar para o apartamento. Voltar para sua prisão. Precisava consertar o androide de Kai. Precisava proteger Iko, que não duraria uma semana até Adri decidir desmantelá-la para vender a sucata, ou pior, substituir seu chip de personalidade “defeituoso”. Ela se queixava do androide ser teimoso demais desde o dia em que Cinder foi morar com ela.
Além disso, ela não tinha outro lugar para ir. Até que o dr. Erland conseguisse descobrir como depositar o pagamento na conta de Cinder sem que Adri descobrisse, ela não tinha dinheiro, nem aerodeslizador, e sua única amiga humana também era prisioneira na quarentena.
Ela fechou os punhos.
Precisava voltar. Mas não ficaria muito tempo. Adri tinha deixado bem claro que via Cinder como um fardo inútil. Não teve problema algum em se livrar dela quando encontrou uma maneira lucrativa de fazê-lo, uma maneira que a manteria livre de culpa pois, afinal, precisavam encontrar um antídoto. Peony precisava de um antídoto.
E talvez estivesse certa em fazer aquilo. Talvez fosse o dever de Cinder como ciborgue sacrificar-se para que todos os seres humanos normais pudessem ser curados. Talvez fizesse sentido usar os humanos que já haviam sido adulterados. Mas Cinder sabia que nunca perdoaria Adri pelo que fizera. Aquela mulher supostamente deveria protegê-laajudá-la. Se Adri e Pearl eram o que restara de sua família, ela estava melhor sozinha.
Ela tinha que ir embora. E sabia exatamente como o faria.


A EXPRESSÃO NO ROSTO DE ADRI QUANDO CINDER ENTROU no apartamento quase fez toda a experiência medonha valer a pena.
Ela estava sentada no sofá, lendo em seu tablet. Pearl estava no outro lado da sala, jogando um jogo de tabuleiro holográfico em que as peças eram modeladas a partir das celebridades favoritas das meninas, incluindo três sósias do príncipe Kai. Havia muito tinha sido o jogo favorito dela e de Peony, mas agora Pearl estava jogando contra estranhos na internet e parecia entediada e infeliz. Quando Cinder entrou, tanto Pearl quanto Adri ficaram boquiabertas, e uma versão em miniatura do príncipe caiu sobre a espada de seu oponente virtual. Pearl pausou o jogo tarde demais.
— Cinder — disse Adri, apoiando o tablet em uma mesinha lateral. — Como você…?
— Eles fizeram alguns testes e decidiram que eu não era o que queriam. Então, me mandaram de volta. — Cinder deu um sorrisinho com a boca fechada. — Não se preocupe, tenho certeza de que ainda vão reconhecer seu nobre sacrifício. Talvez lhe enviem um comunicado de agradecimento.
Olhando Cinder com descrença, Adri se levantou.
— Eles não podem mandá-la de volta!
Cinder tirou as luvas e as enfiou no bolso.
— Acho que terá que fazer uma reclamação oficial. Então, desculpe interromper. Posso ver que você estava muito ocupada gerindo seu lar. Se me der licença, é melhor eu tentar ganhar meu sustento, para que você pense duas vezes na próxima vez que encontrar uma maneira conveniente de se livrar de mim.
Ela marchou para o corredor. Iko estava com a cabecinha brilhante aparecendo na cozinha, seu sensor azul brilhando com espanto. Cinder se surpreendeu com a rapidez com que suas emoções mudaram de amargura para alívio. Por um momento, ela pensou que nunca mais veria Iko.
A alegria momentânea desvaneceu-se quando Adri apressou-se no corredor atrás dela.
— Cinder, pare.
Embora estivesse tentada a ignorá-la, Cinder parou e se virou para enfrentar sua guardiã.
Elas se encararam, e a boca de Adri se mexia enquanto tentava ultrapassar sua surpresa. Ela estava envelhecida. Anos mais velha do que parecia antes.
— Vou entrar em contato com o centro de pesquisa para confirmar essa história e ter certeza de que não está mentindo — disse ela. — Se você fez alguma coisa… se arruinou a única chance que eu tinha de ajudar a minha filha… — A raiva na voz de Adri diminuiu, depois subiu para um grito estridente. Cinder podia ouvir as lágrimas escondidas debaixo das palavras. — Você não pode ser tão inútil assim! — Ela esticou os ombros para trás, segurando o batente.
— O que mais você quer que eu faça? — Cinder gritou de volta, agitando as mãos. — Tudo bem, ligue para os pesquisadores! Eu não fiz nada de errado. Fui lá, eles fizeram alguns testes e não me quiseram. Sinto muito se não me enviaram para casa em uma caixa de papelão, se era isso que você estava esperando.
Adri apertou os lábios.
— Sua posição nesta casa não mudou, e eu não gosto de ser tratada de forma desrespeitosa pela órfã que recebi no meu lar.
— É mesmo? — disse Cinder. — Gostaria que eu listasse todas as coisas que me fizeram hoje de que eu não gostei? Enfiaram agulhas em mim, prenderam pinos na minha cabeça, e micróbios venenosos… — Ela se conteve, não querendo que Adri soubesse a verdade. Seu verdadeiro valor. — Sinceramente, não me importo com o que você gosta ou não agora. Você é a pessoa que me traiu, quando eu nunca fiz nada para você.
— Já basta. Você sabe muito bem o que você me fez. O que fez a esta família.
— A morte de Garan não foi minha culpa. — Ela virou a cabeça, com manchas brancas de fúria encobrindo sua visão.
— Tudo bem — disse Adri, sem perder o tom de superioridade. — Então, você voltou. Bem-vinda ao lar, Cinder. Mas, enquanto ainda morar na minha casa, vai continuar a obedecer às minhas ordens. Você entendeu?
Cinder apoiou a mão mecânica na parede, dedos espalhados, se equilibrando.
— Obedecer às suas ordens. Certo. Como: “Faça suas tarefas, Cinder. Arrume um emprego para que eu possa pagar as minhas contas, Cinder. Vá brincar de cobaia para cientistas loucos, Cinder.” Sim, eu entendo perfeitamente. — Ela olhou por cima do ombro, mas Iko tinha voltado para a cozinha. — Como tenho certeza que você vai entender que acabei de perder meio dia de trabalho, é melhor eu pegar o seu Serv 9.2 emprestado para me ajudar. Você não se importa, não é? — Sem esperar por uma resposta, ela avançou para seu quartinho e bateu a porta atrás de si.
Ficou parada com as costas apoiadas na porta até o texto de advertência em sua retina desaparecer e as mãos pararem de tremer. Quando abriu os olhos, viu que o netscreen velho, aquele que Adri tinha arrancado da parede, fora empilhado no monte de cobertores que ela chamava de cama. Pedaços de plástico caíram sobre seu travesseiro.
Ela não tinha notado se Adri já havia comprado uma nova tela ou se a parede da sala estava vazia.
Suspirando, ela se trocou, ansiosa para se livrar do cheiro de antisséptico que aderira a suas roupas. Empurrou as peças para a caixa de ferramentas e enfiou a tela debaixo do braço antes de se aventurar de volta ao apartamento. Iko não tinha se mexido, meio escondida na porta da cozinha. Cinder fez um gesto com a cabeça para a frente do apartamento, e o androide a seguiu.
Ela não olhou para a sala enquanto passava, mas achou ter ouvido o som abafado do príncipe Kai morrendo no jogo da Pearl.
Mal tinham entrado no corredor principal — bem calmo, para variar, pois os filhos do vizinho estavam na escola — quando Iko colocou seus braços desengonçados ao redor das pernas de Cinder.
— Como é possível? Eu tinha certeza de que você estava morta. O que aconteceu?
Cinder entregou a caixa de ferramentas para o robô e se dirigiu para os elevadores.
— Vou lhe contar tudo, mas temos trabalho a fazer.
Ela esperou até que estivessem sozinhas e a caminho do porão antes de contar a Iko tudo o que tinha acontecido, deixando de fora apenas a parte sobre o príncipe Kai encontrá-la inconsciente no chão.
— Quer dizer que você tem que voltar? — disse Iko ao chegarem no porão.
— Sim, mas está tudo bem. O médico disse que não estou em perigo agora. Além disso, eles vão me pagar, e a Adri não vai ficar sabendo disso.
— Quanto?
— Não tenho certeza, mas muito, acho.
Iko segurou o pulso de Cinder no momento em que ela abriu a porta de arame da oficina.
— Você está entendendo o que isso significa?
Cinder segurou a porta aberta com o pé.
— Qual parte?
— Significa que você pode comprar um belo vestido, mais bonito do que o da Pearl! Você pode ir ao baile, e Adri não poderá fazer nada para impedi-la!
Cinder apertou os lábios como se acabasse de morder um limão e puxou o pulso das garras de Iko.
— É mesmo, Iko? — disse ela, examinando a confusão de ferramentas e peças de reposição. — Você acha mesmo que a Adri vai me deixar ir só porque agora posso comprar meu próprio vestido? Ela provavelmente o arrancaria de mim para tentar revender os botões.
— Bem… que seja, não contaremos a ela sobre o vestido nem sobre ir ao baile. Você não tem que ir com elas. Você é melhor do que elas. Você é valiosa. — A ventoinha de Iko estava rodando feito louca, como se seu processador mal conseguisse acompanhar todas aquelas revelações. — Imune à letumose. Nossa, você poderia ser uma celebridade por causa disso!
Cinder a ignorou, inclinando-se para apoiar o netscreen na estante. Seu olhar havia pousado sobre uma pilha de tecido prateado amassado no canto, quase cintilante à luz empoeirada.
— O que é isso?
A ventoinha de Iko reduziu o ritmo a um zumbido lento.
— O vestido de baile da Peony. Eu… Eu não tive coragem de jogá-lo fora. Não achei que alguém viria aqui de novo, já que você… então pensei em guardá-lo. Para mim.
— Isso não foi bom, Iko. Poderia estar infectado. — Cinder hesitou apenas um momento antes de ir até o vestido e pegá-lo pelas mangas crivadas de pérolas. Estava manchado de sujeira e todo amassado, e havia a chance de ter sido exposto a letumose, mas o médico tinha dito que a doença não sobreviveria por muito tempo em roupas.
Além disso, ninguém nunca iria usá-lo.
Ela deitou o vestido sobre o soldador e se virou.
— Não vamos usar esse dinheiro em um vestido — disse ela. — Nós não vamos ao baile.
— Por que não? — disse Iko, com um gemido evidente em sua voz robótica.
Aproximando-se da mesa, Cinder apoiou a perna no alto e começou a descarregar as ferramentas escondidas em sua panturrilha.
— Lembra o carro que vimos no ferro-velho? Aquele velho, movido a gasolina?
Os alto-falantes de Iko fizeram um resmungo grosseiro, o mais próximo que conseguia chegar de um gemido de exasperação.
— O que é que tem?
— Vamos precisar de todo o tempo e dinheiro para consertá-lo.
— Não. Cinder! Diga que você está brincando.
Cinder estava gravando uma lista mental enquanto fechava o compartimento em sua perna e ajeitava a calça. As palavras rolavam em seus olhos: PEGAR O CARRO; AVALIAR SEU ESTADO; ENCONTRAR PEÇAS; FAZER DOWNLOAD DO PROJETO DE FIAÇÃO; COMPRAR GASOLINA.
Então reparou no androide de Kai em sua bancada. CONSERTAR ANDROIDE.
— Estou falando sério.
Ela puxou o cabelo para trás em um rabo de cavalo, estranhamente animada.
Marchando para o gabinete de ferramentas no canto, começou a procurar coisas que poderiam ser úteis — cordas e correntes, trapos e geradores, tudo para ajudar a limpar o carro e deixá-lo pronto para ser consertado.
— Vamos voltar hoje à noite. Levá-lo para a garagem se pudermos. Caso contrário, teremos que consertá-lo no quintal. Bom, eu preciso voltar ao palácio amanhã de manhã e dar uma olhada no androide do príncipe na parte da tarde, mas, se formos diligentes, acho que consigo consertar o carro em duas semanas, talvez menos. Dependendo do que for necessário, é claro.
— Mas por quê? Por que vamos consertá-lo?
Cinder enfiou as ferramentas na bolsa.
— Porque aquele carro vai nos tirar daqui.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!