7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatro

O CATIVEIRO DE CARSWELL THORNE COMEÇOU COMPLICADO, considerando a catastrófica rebelião do sabonete e tudo. Mas, desde que foi transferido para a solitária, ele se tornou a personificação de um cavalheiro educado, e depois de seis meses de comportamento tão louvável, ele persuadiu a única guarda de serviço a emprestar-lhe um tablet.
Ele tinha certeza de que isso não teria dado certo se a guarda não estivesse convencida de que ele era um idiota incapaz de fazer qualquer coisa além de contar os dias e procurar fotos indecentes de moças que ele conhecera e imaginava.
E ela estava certa, é claro. Thorne ficava intrigado com tecnologia e não seria capaz de fazer nada de útil com o tablet mesmo se tivesse um manual com instruções passo a passo de “Como escapar da prisão usando um tablet”. Ele não obteve sucesso ao tentar acessar suas mensagens, se conectar às notícias nem conseguir informações sobre a prisão e a cidade de Nova Pequim.
Mas gostou muito das fotos sugestivamente indecentes, mesmo que altamente filtradas.
Ele estava verificando seu portfólio no 228º dia de confinamento, se perguntando se a señora Santiago ainda era casada com aquele homem que fedia à cebola, quando um terrível chiado agudo interrompeu a paz da cela.
Ele olhou para o alto e observou o teto branco liso e reluzente.
O chiado parou e foi seguido por um som de passos. Alguns baques. Mais arrastar.
Thorne cruzou as pernas em cima da cama e esperou enquanto o barulho ficava mais alto e mais próximo, parava e prosseguia. Ele demorou um tempo para identificar o ruído estranho, mas depois de ouvir bem e de refletir, ficou convencido de que era o som de uma furadeira.
Talvez um dos outros prisioneiros estivesse redecorando a cela.
O som parou, mas permaneceu em sua memória, vibrando nas paredes. Thorne olhou ao redor. Sua cela era um cubo perfeito com painéis brancos lisos e brilhosos em todas as seis direções. Lá dentro havia uma cama toda branca, um penico que surgia e desaparecia da parede com o apertar de um botão, e ele, vestindo um uniforme branco.
Se alguém estava fazendo redecoração da cela, ele torcia para que a dele fosse a próxima.
O som recomeçou, agora mais como um rangido, e um longo parafuso perfurou o teto e caiu no meio do piso da cela. Outros três caíram em seguida.
Thorne inclinou a cabeça para ver um dos parafusos que rolou para debaixo de sua cama. Um momento depois, um azulejo quadrado caiu do teto fazendo um estrondo e duas pernas penduradas surgiram, seguidas por um grito assustado. As pernas usavam um macacão branco de algodão igual ao de Thorne, mas, diferentemente dos sapatos brancos e simples dele, aqueles pés estavam descalços.
Um tinha pele.
O outro, uma cobertura de metal brilhante.
Com um grunhido, a garota se soltou do teto e caiu agachada no meio da cela.
Apoiando os cotovelos nos joelhos, Thorne se inclinou para a frente a fim de tentar vê-la melhor sem sair de sua posição segura recostado na parede. A garota tinha o corpo magro, a pele bronzeada e cabelo liso e castanho. Assim como o pé esquerdo, a mão esquerda também era de metal.
Tentando se equilibrar, ela ficou de pé e limpou o macacão.
— Com licença — disse Thorne.
Ela se virou subitamente.
— Parece que você caiu na cela errada. Precisa de ajuda para voltar para a sua?
Ela piscou, confusa.
Thorne sorriu.
A garota franziu a testa.
A irritação dela a deixou mais bonita, e Thorne apoiou o queixo na mão enquanto a avaliava. Nunca tinha visto uma ciborgue, muito menos flertado com uma, mas havia uma primeira vez para tudo.
— Essas celas não deveriam estar ocupadas — disse ela.
— Circunstâncias especiais.
Ela o observou por um tempo, franzindo as sobrancelhas.
— Assassinato?
O sorriso dele aumentou.
— Obrigado, mas não. Iniciei uma rebelião no pátio. — Ele ajustou a gola antes de acrescentar: — Estávamos protestando contra o sabonete.
Ela pareceu ainda mais confusa, e Thorne reparou que ela ainda estava na defensiva.
— O sabonete — disse ele de novo, se perguntando se ela o tinha escutado. — Resseca demais.
A garota não disse nada.
— Tenho pele sensível.
Ela abriu a boca, e ele esperava um pouco de solidariedade, mas tudo que saiu foi uma expressão de desinteresse.
— Ah.
De pé, ela chutou o azulejo caído do teto de debaixo dos pés e deu uma volta completa, observando a cela. Seus lábios assumiram uma curvatura de irritação.
— Burrice! — exclamou ela, chegando perto da parede à esquerda de Thorne e apoiando nela a palma da mão. — Errei por uma cela.
Os cílios dela tremeram de repente como se houvesse poeira grudada neles. Resmungando, ela bateu com a palma da mão na testa algumas vezes.
— Você está fugindo.
— Não neste exato momento — disse ela entredentes, balançando de leve a cabeça. — Mas, sim, essa era a ideia. — Seu rosto se iluminou quando ela viu o tablet no colo dele. — Que modelo de tablet é esse?
— Não tenho a menor ideia. — Thorne ergueu o aparelho para que ela visse. — Estou montando um portfólio das mulheres que amei.
Ela se afastou da parede, pegou o tablet e o virou. Uma ponta do dedo robótico se abriu e exibiu uma pequena chave de fenda. Não demorou até ela conseguir tirar a cobertura da parte de trás do tablet.
— O que você está fazendo?
— Pegando seu cabo de vídeo.
— Por quê?
— O meu estragou.
Ela puxou um fio amarelo do tablet e o largou no colo dele, depois sentou de pernas cruzadas no chão. Perplexo, Thorne a viu jogar o cabelo para o lado e abrir um painel na base do crânio. No momento seguinte, seus dedos surgiram com um fio similar ao que ela tinha acabado de roubar do tablet, mas com uma ponta enegrecida. O rosto da garota se contorceu de concentração enquanto ela instalava o novo cabo.
Com um suspiro satisfeito, ela fechou o painel e jogou o fio velho ao lado de Thorne.
— Obrigada.
Ele deu um sorriso envergonhado e se afastou do fio.
— Você tem um tablet na cabeça?
— Algo do tipo. — A garota ficou de pé e passou a mão pela parede de novo. — Ah, bem melhor. Agora, como é que eu... — Ela parou de falar e apertou o botão no canto. Um painel branco brilhoso deslizou para dentro da parede e o penico foi ejetado com precisão. Os dedos dela procuravam algo no espaço entre o dispositivo e a parede.
Afastando-se ainda mais do cabo largado sobre a cama, Thorne tirou da mente a imagem da garota abrindo o painel no crânio, mais uma vez incorporando o cavalheiro, e tentou conversar sobre trivialidades enquanto ela trabalhava. Perguntou por que ela estava ali e a parabenizou pelo belo trabalho das extremidades de metal, mas ela o ignorou, fazendo-o se questionar brevemente se tinha estado separado da população feminina por tanto tempo que talvez estivesse perdendo o charme.
Mas isso era improvável.
Alguns minutos depois, a garota pareceu encontrar o que estava procurando, e Thorne ouviu o som da furadeira de novo.
— Quando prenderam você — disse Thorne —, não consideraram que essa prisão poderia ter algumas fraquezas na segurança?
— Não tinha na época. Esta mão é meio que um novo acréscimo. — Ela fez uma pausa e olhou para o canto da cela, como se tentando ver através da parede.
Talvez ela tivesse visão de raios X. Isso ele conseguia pensar em boas formas de usar.
— Me deixa adivinhar — disse Thorne. — Invasão de propriedade privada?
Depois de um longo silêncio examinando o mecanismo de retração, a garota franziu o nariz.
— Duas acusações de traição, se quer saber. E resistência à prisão, e uso ilegal de bioeletricidade. Ah, e imigração ilegal, mas, sinceramente, achei que foi um pouco de exagero.
Thorne apertou os olhos enquanto observava a nuca dela, com um tremor surgindo no olho esquerdo.
— Quantos anos você tem?
— Dezesseis.
A chave de fenda no dedo dela começou a girar de novo. Thorne esperou até haver uma pausa no ruído.
— Qual é seu nome?
— Cinder — respondeu ela, e logo depois o barulho aumentou.
Quando o barulho sumiu, ele continuou:
— Sou o capitão Carswell Thorne. Mas as pessoas costumam me chamar só de...
Mais barulho.
— Thorne. Ou capitão. Ou capitão Thorne.
Sem responder, ela enfiou a mão de novo no buraco. Parecia que estava tentando girar alguma coisa, mas, o que quer que fosse, não devia ter se movido, pois um segundo depois ela sentou e bufou de frustração.
— Estou vendo que você precisa de um cúmplice — completou Thorne, ajeitando o macacão. — E, para sua sorte, por acaso sou um gênio do crime.
Ela olhou para ele com raiva.
— Vá embora.
— É um pedido difícil, nesta situação.
Cinder suspirou e limpou pedaços de plástico da chave de fenda.
— O que você vai fazer quando sair? — perguntou Thorne.
Cinder se virou de novo para a parede. O barulho retornou por um tempo antes de ela parar para massagear o pescoço.
— A rota mais direta para sair da cidade é pelo norte.
— Ah, minha ingênua presidiária. Você não acha que é isso que eles estarão esperando que você faça?
Ela enfiou a chave de fenda no buraco.
— Quer parar de me distrair, por favor?
— Só estou dizendo que talvez possamos ajudar um ao outro.
— Me deixa em paz.
— Tenho uma nave.
O olhar dela se desviou para ele por um segundo; um olhar de aviso.
— Uma nave espacial.
— Uma nave espacial — repetiu ela.
— Ela pode nos levar até a metade do caminho até as estrelas em menos de dois minutos e está logo depois do limite da cidade. Fácil de alcançar. O que você acha?
— Acho que, se não parar de falar e me deixar trabalhar, não vamos chegar até a metade do caminho para lugar nenhum.
— Faz sentido — disse Thorne, levantando as mãos em gesto de rendição. — Mas pense bem nisso com essa sua cabecinha linda.
Ela ficou tensa, mas continuou a trabalhar.
— Agora que estou pensando bem, havia um ótimo restaurante de dim sum a uma quadra de distância. Tinha bolinhos de carne de porco sensacionais. Saborosos e suculentos. — Ele juntou os dedos, salivando com a lembrança.
Com o rosto contraído, Cinder começou a massagear a nuca.
— Se tivermos tempo, podemos parar e comprar um lanche para comer no caminho. Eu adoraria provar uma coisa gostosa depois de sofrer comendo esse lixo sem gosto que chamam de comida aqui. — Ele lambeu os lábios, mas, quando voltou a olhar para a garota, a dor nas feições dela tinha aumentado. Havia suor cobrindo sua testa.
— Você está bem? — perguntou ele, esticando a mão na direção dela. — Precisa de uma massagem?
Ela bateu na mão dele.
— Me poupe! — disse ela, as mãos erguidas entre os dois. Ela lutava para respirar.
Sob o olhar de Thorne, a imagem dela tremeu, como calor subindo dos trilhos do trem de levitação magnética. Ele cambaleou para trás. Sua pulsação se acelerou. Um formigar dominou seu cérebro e percorreu seus nervos.
Ela era... linda.
Não, divina.
Não, perfeita.
Sua pulsação disparou, com pensamentos de idolatria e devoção invadindo a mente. Pensamentos de rendição. Pensamentos de obediência.
— Por favor — repetiu Cinder, se escondendo atrás da mão de metal. Seu tom era desesperado quando caiu contra a parede. — Só pare de falar. Só... me deixe em paz.
— Tudo bem. — A confusão reinava: ciborgue, colega de prisão, deusa. — É claro. Como você quiser. — Com olhos lacrimosos, ele cambaleou para trás e afundou cegamente na cama.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!