20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatro

Cinder estava deitada no chão, olhando para o motor enorme da Rampion, para a tubulação e para o módulo rotativo de sustentação de vida. As plantas do sistema que ela havia baixado algumas semanas antes estavam sobrepostas em sua visão, um truque ciborgue que se mostrou útil incontáveis vezes, quando ela estava trabalhando como mecânica em Nova Pequim. Ela expandiu a imagem e deu zoom em um cilindro do tamanho do braço. Estava preso perto da parede da sala de máquinas. Tubos em espiral surgiam dos dois lados.
— Só pode ser isso — murmurou ela, fechando a imagem da planta.
Ela se mexeu debaixo do módulo rotativo, com bolinhas de poeira se prendendo aos ombros, e voltou a sentar. Havia espaço suficiente só para se espremer entre o labirinto de fios e molas, canos e tubos.
Segurando a respiração, encostou o ouvido no cilindro. O metal parecia gelo contra sua pele.
Ela esperou. Prestou atenção. Ajustou o volume dos sensores de áudio.
O que ouviu foi a porta da sala de máquinas sendo aberta.
Ao olhar para trás, viu a calça cinza de um uniforme militar na luz amarelada do corredor. Poderia ser qualquer pessoa na nave, mas os sapatos sociais pretos e brilhantes…
— Olá? — disse Kai.
O coração dela disparou. Sempre disparava.
— Aqui atrás.
Kai fechou a porta e se agachou do outro lado da sala, entre o amontoado de pistões subindo e descendo e de ventiladores girando.
— O que você está fazendo?
— Verificando os filtros de oxigênio. Um minuto.
Ela colocou o ouvido no cilindro de novo. Ali, um leve estalo, como uma pedrinha batendo lá dentro.
— Arrá.
Ela tirou uma chave-inglesa do bolso e começou a soltar as porcas dos dois lados do cilindro. Assim que foi solto, a nave ficou estranhamente silenciosa, como um zumbido que só era notado depois que parava. As sobrancelhas de Kai se ergueram até o alto da testa.
Cinder espiou dentro do cilindro, enfiou os dedos e puxou um filtro complexo. Era feito de pequenos canais e fissuras, tudo coberto por um filme cinza fino.
— Não é surpresa as decolagens estarem sendo agitadas.
— Imagino que você não precise de ajuda.
— Não. A não ser que você queira procurar uma vassoura.
— Uma vassoura?
Cinder levantou o filtro e bateu com a ponta em um dos canos acima. Uma nuvem de poeira explodiu ao redor dela, cobrindo seu cabelo e seus braços. Tossindo, Cinder enfiou o nariz na dobra do cotovelo e continuou batendo até os pedaços maiores serem retirados.
— Ah. Uma vassoura. Certo. Será que tem uma na cozinha?
Piscando para tirar a poeira dos cílios, Cinder sorriu para ele. Ele costumava ser tão seguro que, nos raros momentos em que ficava confuso, as entranhas dela se contorciam e ficavam de cabeça para baixo. E ele ficava confuso com frequência ultimamente. Desde o momento em que acordou a bordo da Rampion, ficou claro que Kai estava a doze mil quilômetros de seu ambiente, mas se adaptou bem nas últimas semanas. Aprendeu a terminologia, comeu as refeições enlatadas e congeladas sem reclamar, trocou as roupas chiques de casamento pelo uniforme militar comum que todos usavam. Insistia em ajudar quando podia, até cozinhando algumas dessas refeições sem graça, apesar de Iko ter observado que, como ele era o convidado real, eles é que deveriam estar lhe servindo.
Mas Thorne riu, e a sugestão pareceu deixar Kai ainda menos à vontade.
Apesar de Cinder não o imaginar abdicando do trono e partindo em uma vida de viagens espaciais e aventura, era adorável vê-lo tentando fazer parte do ambiente.
— Eu estava brincando — disse ela. — Salas de máquina devem ser sujas.
Ela examinou o filtro de novo, achou que estava satisfatório, enroscou de volta no cilindro e prendeu em todas as partes. O zumbido recomeçou, mas a batida da pedrinha, não.
Os pés de Cinder foram os primeiros a aparecer quando ela se espremeu para sair de baixo do módulo e da tubulação. Ainda agachado, Kai deu uma espiada e abriu um sorrisinho.
— Iko está certa. Você não consegue mesmo ficar limpa por mais de cinco minutos.
— É uma das exigências desse trabalho. — Ela se sentou e uma cascata de poeira caiu de seus ombros.
Kai limpou os pedaços maiores do cabelo dela.
— Onde você aprendeu a fazer tudo isso, afinal?
— O quê, isso? Qualquer pessoa consegue limpar um filtro de oxigênio.
— Acredite, nem todas. — Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e correu os olhos por toda a sala de máquinas. — Você sabe o que isso tudo faz?
Ela acompanhou o olhar a cada fio, cada coletor, cada bobina de compressão, e deu de ombros.
— Quase tudo. Menos aquela coisa grande giratória no canto. Não consigo descobrir. Mas que importância poderia ter?
Kai revirou os olhos.
Segurando-se em uma tubulação, Cinder se levantou e colocou a chave-inglesa no bolso.
— Eu não aprendi em lugar nenhum. Eu só olho para as coisas e entendo como funcionam. Quando você sabe como uma coisa funciona, consegue descobrir como consertar.
Ela tentou tirar o resto de poeira do cabelo, mas parecia não acabar nunca.
— Ah, você só olha para uma coisa e entende como funciona — repetiu Kai, de pé ao lado dela. — Só isso?
Cinder ajeitou o rabo de cavalo e deu de ombros, constrangida de repente.
— É só mecânica.
Kai passou o braço pela cintura dela e a puxou para perto.
— Não, é impressionante — disse ele, usando o polegar para tirar uma sujeira da bochecha de Cinder. — Sem mencionar estranhamente atraente — disse ele antes de tomar os lábios dela.
Cinder ficou brevemente tensa, mas acabou derretendo no beijo. A emoção era sempre a mesma, acompanhada de surpresa e uma onda de euforia. Era o décimo sétimo beijo deles (a interface do cérebro dela estava contando, meio contra sua vontade), e ela se perguntou se algum dia se acostumaria com a sensação. Ser desejada, embora tenha passado a vida toda acreditando que ninguém a veria como qualquer coisa além de um experimento científico bizarro.
Principalmente um garoto.
Principalmente Kai, que era inteligente e honrado e gentil, além de poder ter a garota que quisesse. Qualquer garota.
Ela suspirou durante o beijo e se entregou ao abraço. Kai esticou a mão para uma tubulação acima e encostou Cinder no console do computador principal. Ela não ofereceu resistência. Embora o corpo não lhe permitisse corar, havia um calor nada familiar que inundava cada centímetro dela quando ele estava tão perto. Cada terminação nervosa explodia e batucava, e ela sabia que ele poderia beijá-la mais dezessete mil vezes e ela nunca se cansaria.
Ela enroscou os braços no pescoço dele e uniu seus corpos. O calor do peito de Kai se infiltrava pelas roupas dela. Tudo parecia certo. Perfeito.
Mas havia aquele sentimento, sempre se esgueirando, sempre pronto para encobrir a alegria dela. A certeza de que aquilo não podia durar.
Não enquanto Kai estivesse noivo de Levana.
Furiosa com a invasão do pensamento, ela beijou Kai com mais força, mas sua imaginação continuou a se rebelar. Mesmo que tivessem sucesso e Cinder recuperasse o trono, seria esperado que ela ficasse em Luna como a nova rainha. Ela não era especialista, mas parecia problemático dar continuidade a um relacionamento em dois planetas diferentes…
Er... um planeta e uma lua.
Não importava.
A questão era que haveria trezentos e oitenta e quatro mil quilômetros de espaço entre ela e Kai, o que era muito espaço, e…
Kai sorriu e interrompeu o beijo.
— O que foi? — murmurou ele, ainda encostado nos lábios de Cinder.
Ela se afastou para observá-lo. O cabelo dele estava ficando mais comprido, quase com ar descuidado. Como príncipe, ele sempre foi impecável, beirando a perfeição. Mas então se tornou imperador. As semanas depois da coroação foram passadas tentando impedir a guerra, caçando uma fugitiva procurada, evitando o casamento e vivenciando o próprio sequestro. Como resultado, cortes de cabelo se tornaram um luxo dispensável.
Ela hesitou antes de perguntar:
— Você pensa no futuro?
A expressão dele se tornou cautelosa.
— Claro que penso.
— E… ele me inclui?
Seu olhar suavizou. Soltando a tubulação, ele prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha dela.
— Depende se estou pensando no futuro bom ou no ruim.
Cinder aninhou a cabeça debaixo do queixo dele.
— Se um deles incluir…
— Vai dar tudo certo — disse Kai, falando com a boca enterrada nos cabelos de Cinder. — Nós vamos vencer.
Ela assentiu, feliz por saber que ele não conseguia ver o rosto dela.
Derrotar Levana e se tornar rainha de Luna era só o começo de uma galáxia inteira de preocupações. Ela queria tanto ficar assim, abrigada na espaçonave, junto e segura e sozinha com ele… mas era o oposto do que ia acontecer. Quando tirassem Levana do trono, Kai voltaria a ser o imperador da Comunidade das Nações Orientais e, um dia, ia precisar de uma imperatriz.
Ela até podia ter o direito de nascença para governar Luna, além da esperança de que o povo escolheria qualquer pessoa no lugar de Levana, mesmo uma adolescente politicamente inepta que era feita de 36,28 por cento de cibernética e materiais manufaturados. Mas ela viu o preconceito das pessoas na Comunidade. Alguma coisa dizia que não seriam tão receptivas a ela como governante.
Ela nem sabia se queria ser imperatriz. Ainda estava se acostumando com a ideia de ser princesa.
— Uma coisa de cada vez — sussurrou ela, tentando sossegar os pensamentos agitados.
Kai beijou a têmpora dela (o que seu cérebro não contou como o número dezoito) e se afastou.
— Como está indo seu treinamento?
— Bem. — Ela se soltou dos braços dele e olhou para o motor. — Ah, já que você está aqui, pode me ajudar com isso? — Cinder deu a volta ao redor dele e abriu um painel na parede, revelando um monte de fios embolados.
— Isso é que é mudar de assunto.
— Eu não estou mudando de assunto — disse ela, mas limpou a garganta de forma forçada, o que a contradisse. — Estou refazendo a fiação dos padrões orbitais para que os sistemas da nave funcionem de forma mais eficiente enquanto estivermos em cabotagem. Essas naves de carga são feitas para pousos e decolagens frequentes, não para o constante…
— Cinder.
Ela franziu os lábios e soltou alguns fios.
— O treinamento está indo bem — repetiu. — Você pode me entregar os cortadores de fios no chão?
Kai examinou o chão e pegou duas ferramentas.
— Mão esquerda — disse Cinder. Ele entregou para ela. — Lutar com Lobo está ficando bem mais fácil. Mas é difícil saber se é porque eu estou ficando mais forte ou porque ele… você sabe.
Ela não tinha uma palavra para descrever aquilo. Lobo era uma sombra de quem foi antes de Scarlet ser capturada. A única coisa que o mantinha vivo era a determinação de ir a Luna resgatá-la o mais rápido possível.
— Seja como for — acrescentou ela —, acho que ele me ensinou tanto sobre o uso do meu dom lunar quanto pôde. De agora em diante, vou ter que me virar. — Ela examinou a confusão de fios e alinhou com o diagrama no display da retina. — Não que essa não tenha sido minha tática principal esse tempo todo. — Franziu a testa e fez alguns cortes. — Aqui, segure esses fios e não deixe que se toquem.
Encostando-se nela, Kai segurou os fios que ela indicou.
— O que vai acontecer se eles se tocarem?
— Ah, provavelmente nada, mas tem uma pequena chance de a nave se autodestruir.
Puxando dois fios recém-cortados, ela começou a girá-los juntos em uma nova sequência.
Kai quase não conseguiu respirar até ela ter tirado um dos fios ameaçadores da mão dele.
— Por que você não treina comigo? — perguntou ele.
— Treino o quê?
— Você sabe. Sua coisa de manipular mentes.
Ela fez uma pausa com o cortador parado acima de um fio azul.
— De jeito nenhum.
— Por quê?
— Eu disse que nunca manipularia você e vou manter minha palavra.
— Não é manipulação se eu sei que você está fazendo. — Ele hesitou. — Pelo menos, acho que não. Poderíamos usar uma senha para eu saber quando você está me controlando. Tipo… como se chama isso aí mesmo?
— Cortador de fios?
— Como cortador de fios.
— Não.
— Ou outra coisa.
— Eu não vou treinar em você. — Ela colocou o cortador no bolso, terminou de prender o resto dos fios e liberou Kai do trabalho dele. — Pronto, vamos ver como vai ficar.
— Cinder, eu não tenho nada melhor para fazer. Literalmente, nada melhor para fazer. Meu tempo nesta nave me ensinou que tenho zero habilidade prática. Não sei cozinhar. Não sei consertar nada. Não consigo ajudar Cress com a vigilância. Não sei nada sobre armas e lutas e… De modo geral, só sou bom em falar, e isso só é útil na política.
— Não vamos deixar de mencionar sua capacidade de fazer todas as garotas desmaiarem com apenas um sorriso.
Kai demorou um momento para ouvi-la em meio à sua própria frustração, mas sua expressão se abriu num sorriso.
— É — disse ela, fechando o painel. — É esse mesmo.
— Estou falando sério, Cinder. Quero ser útil. Quero ajudar.
Ela se virou para encará-lo. Franziu a testa. Pensou.
— Cortador de fios — disse ela.
Ele ficou tenso, e um traço de dúvida perpassou sua expressão. Mas depois ergueu o queixo. Confiante.
Com um pequeno cutucão na vontade de Kai, ela fez o braço dele ir até as costas dela para tirar a chave-inglesa do bolso. Não era mais difícil do que controlar seus próprios membros ciborgues. Um mero pensamento e ela podia fazê-lo realizar qualquer coisa.
Kai olhou para a ferramenta, piscando.
— Não foi tão ruim.
— Ah, Kai.
Ele olhou para ela e depois para a chave-inglesa, enquanto a mão levantava a ferramenta até a altura dos olhos, e os dedos, não mais sob seu controle, começaram a girá-la: por cima de um dedo, por baixo do outro. Devagar no começo, depois mais rápido, até o brilho do metal parecer um truque de mágica.
Kai ficou boquiaberto e perplexo, mas havia um leve desconforto nisso.
— Eu sempre me perguntei como você fazia isso.
— Kai.
Ele olhou-a de novo, com a chave-inglesa ainda dançando por cima dos dedos.
Ela deu de ombros.
— É muito fácil. Eu poderia fazer isso escalando uma montanha ou… resolvendo equações matemáticas complexas.
Ele apertou os olhos.
— Você tem uma calculadora na cabeça.
Rindo, ela liberou o controle da mão de Kai. Ele pulou para trás e a chave-inglesa caiu no chão. Ao perceber que estava controlando a mão de novo, ele se agachou para pegar.
— Essa não é a questão — disse Cinder. — Com Lobo, há um certo desafio, um certo foco é necessário, mas, com terráqueos…
— Tudo bem, entendi. Mas o que eu posso fazer? Me sinto tão inútil andando pela nave enquanto a guerra está acontecendo e você está fazendo todos os planos e eu só fico esperando.
Ela fez uma careta ao notar a frustração no tom dele. Kai era responsável por bilhões de pessoas, e ela sabia que ele sentia que as tinha abandonado, mesmo não tendo tido escolha. Porque ela não lhe deu escolha.
Ele era gentil com ela. Desde aquela primeira discussão depois que ele acordou a bordo da Rampion, Kai tomou o cuidado de não a culpar por suas frustrações. Mas era culpa dela. Ele sabia e ela sabia, e às vezes parecia que eles estavam presos em uma dança cujos passos Cinder não conseguia aprender. Cada um evitava essa verdade óbvia para não abalar o terreno em comum que tinham descoberto. A felicidade incerta demais que descobriram.
— A única chance que temos de sucesso é você persuadir Levana a fazer o casamento em Luna — disse ela. — Então agora você pode começar a pensar em como vai fazer isso. — Ela se inclinou e deu um leve beijo nos lábios dele. (Dezoito.) — Que bom que você fala tão bem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!