13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatro

SCARLET PRESSIONOU UM PEDAÇO DE ALGODÃO NO CANTO DA boca de Lobo enquanto balançava a cabeça.
— Ela pode não acertar muitos golpes, mas, quando acerta, arrasa.
Apesar do hematoma surgindo no maxilar, Lobo estava sorrindo, os olhos radiantes sob as luzes da enfermaria.
— Você viu como ela me fez tropeçar antes de atacar? Ela me pegou de surpresa. — Ele esfregou as mãos nas coxas com empolgação, chutando a lateral da mesa de exames. — Acho que estamos finalmente progredindo.
— Bem, fico feliz de você sentir orgulho dela, mas acho que seria bom se na próxima vez ela batesse em você com a mão que não é de metal. — Scarlet afastou o algodão. O ferimento ainda estava sangrando no local em que o canino superior cortou o lábio, mas não tanto quanto antes. Ela pegou um tubo de pomada cicatrizante. — Talvez você acrescente uma cicatriz nova à sua coleção, mas ela combina com a que tem deste lado da boca, então pelo menos elas vão ficar simétricas.
— Não ligo para as cicatrizes. — Ele deu de ombros, e seus olhos assumiram um brilho malicioso. — Elas trazem lembranças melhores do que traziam antigamente.
Scarlet parou com um pouco de pomada na ponta do dedo. A atenção de Lobo estava voltada para suas mãos unidas, e havia uma leve cor nas bochechas dele. Em segundos, ela estava se sentindo mais quente do que antes, lembrando-se da noite que eles passaram clandestinos a bordo de um trem de levitação magnética. Da forma como ela passara os dedos pela cicatriz pálida do braço dele, roçara os lábios pelas marcas leves no rosto, fora tomada em seus braços...
Ela o empurrou no ombro.
— Pare de sorrir tanto — disse, passando mais pomada no ferimento. — Está piorando o machucado.
Ele logo recompôs o rosto, mas o brilho permanecia nos olhos sempre que ousava olhar para ela.
Aquela noite no trem continuava sendo a única vez que tinham se beijado. Scarlet não podia contar a vez que ele a beijou enquanto ela estava como sua prisioneira e do resto da “matilha” de agentes especiais. Ele usou aquela oportunidade para dar-lhe um chip de identificação que a ajudou a fugir, mas não houve sentimento naquele beijo, e, na época, ela o desprezava.
Mas aqueles momentos a bordo do trem de levitação magnética provocaram mais do que uma noite insone desde que foram para a Rampion. Quando ela ficava deitada, acordada, imaginava sair da cama. Seguir pelo corredor até o quarto de Lobo. Sem dizer nada, agarrá-lo quando ele abrisse a porta. Passar as mãos no cabelo dele. Envolver-se no tipo de segurança que só havia encontrado nos braços dele.
Mas ela nunca o fizera. Não por medo de rejeição; Lobo não tentava esconder os olhares demorados nem o quanto apreciava cada toque dela, por mais trivial que fosse. E nunca retirou o que dissera depois do ataque. Você é a única, Scarlet. Sempre será.
Scarlet sabia que ele estava esperando que ela desse o primeiro passo.
Mas, toda vez que se sentia tentada, via a tatuagem no braço dele, a que o marcava para sempre como agente especial lunar. O coração dela ainda estava partido pela perda da avó e por saber que Lobo poderia tê-la salvado. Tê-la protegido. Ter impedido que tudo acontecesse.
E não era justo com ele. Isso foi antes de conhecer Scarlet, antes de se importar. E se ele tivesse tentado salvar a avó dela, os outros agentes especiais o teriam matado também. E então Scarlet ficaria verdadeiramente sozinha.
Talvez ela estivesse hesitante porque, para ser honesta consigo mesma, ainda sentia um pouco de medo de Lobo. Quando ele estava feliz e paquerador e, às vezes, adoravelmente constrangido, era fácil esquecer que havia outro lado nele. Mas Scarlet viu-o lutar vezes demais para esquecer. Não como as brigas controladas que ele tinha com Cinder, mas lutas em que quebrava o pescoço de um homem com crueldade ou arrancava a carne de um oponente usando apenas os dentes afiados.
As lembranças ainda a deixavam trêmula.
— Scarlet?
Ela deu um pulo. Lobo a estava observando com a testa franzida.
— O que foi?
— Nada.
Ela conseguiu dar um sorriso, aliviada por não parecer tensa.
Sim, havia alguma coisa sombria dentro dele, mas o monstro que ela vira antes não era o mesmo que o homem sentado à sua frente. Fosse lá o que aqueles cientistas lunares tivessem feito com ele, Lobo tinha demonstrado repetidas vezes que era capaz de fazer as próprias escolhas. Que podia ser diferente.
— Eu só estava pensando em cicatrizes — respondeu ela, enquanto fechava a tampa do tubo de pomada.
O lábio de Lobo tinha parado de sangrar, mas o hematoma permaneceria por alguns dias.
Scarlet colocou a mão no queixo dele, virou o rosto de Lobo para o lado e deu um beijo no ferimento. Ele inspirou fundo, mas, fora isso, permaneceu imóvel como uma pedra, um feito incomum para ele.
— Acho que você vai sobreviver — disse ela, afastando-se e jogando o curativo na canaleta de lixo.
— Scarlet? Lobo? — A voz de Iko estalou pelos alto-falantes na parede. — Vocês podem ir até o compartimento de carga? Tem uma coisa no noticiário que vocês talvez queiram ver.
— Estamos indo — prontificou-se Scarlet, guardando o resto dos medicamentos enquanto Lobo pulava da mesa de exames.
Quando ela olhou-o, ele estava sorrindo, passando o dedo no corte.
No compartimento de carga, Thorne e Cinder estavam sentados em uma das caixas, inclinados sobre um baralho de papel. O cabelo de Cinder ainda estava desgrenhado devido à recente semivitória contra Lobo.
— Ah, que bom — disse Thorne ao olhar para cima. — Scarlet, diga para Cinder que ela está roubando.
— Eu não estou roubando.
— Você acabou de jogar cartas idênticas, uma atrás da outra. Você não pode fazer isso.
Cinder cruzou os braços.
— Thorne, eu acabei de fazer o download do livro oficial de regras na minha cabeça. Sei o que posso e o que não posso fazer.
— Ahá! — Ele estalou os dedos. — Está vendo, você não pode fazer downloads no meio de um jogo de Royals. É regra da casa. Você está roubando.
Cinder lançou as mãos para o alto, espalhando as cartas pelo compartimento de carga.
Scarlet pegou um três ainda no ar.
— Eu também aprendi que não é permitido jogar cartas repetidas seguidamente. Mas talvez fosse assim que minha avó jogasse.
— Ou talvez Cinder esteja roubando.
— Eu não estou... — Cinder trincou os dentes e grunhiu.
— Iko nos chamou aqui para alguma coisa? — perguntou Scarlet, devolvendo a carta à pilha na mesa.
— Oui, mademoiselle — disse Iko, fazendo o sotaque que Thorne imitava com frequência quando falava com Scarlet, embora o de Iko parecesse bem mais autêntico. — Há notícias recentes sobre os agentes especiais lunares. — O monitor na parede piscou quando Iko escondeu o relógio e a planta do palácio, substituindo-os por uma série de vídeos: repórteres e filmagens de baixa qualidade de militares armados levando seis homens musculosos para um aerodeslizador protegido. — Parece que, desde o ataque, a República Americana vem conduzindo investigações sobre os agentes, e uma operação de flagrante está acontecendo nas três cidades da República que foram atacadas: Nova York, Cidade do México e São Paulo. Já capturaram cinquenta e nove agentes e quatro taumaturgos, que serão mantidos como prisioneiros de guerra.
Scarlet chegou mais perto da tela, que mostrava cenas da ilha de Manhattan. Parecia que aquela matilha estava escondida em uma linha de metrô abandonada. Os agentes estavam com as mãos e tornozelos presos, e cada um era alvo de pelo menos duas armas das tropas que os cercavam, mas todos pareciam tão tranquilos quanto se estivessem colhendo flores no campo. Um até deu um sorriso divertido para a câmera quando passou.
— Você conhece algum deles?
Lobo grunhiu.
— Não muito bem. As diferentes matilhas não costumavam se socializar, mas eu os via no refeitório e às vezes no treinamento.
— Eles não parecem incomodados — disse Thorne. — Está claro que nunca experimentaram comida de prisão.
Cinder se aproximou de Scarlet.
— Não vão ficar lá muito tempo. O casamento é em duas semanas, e eles serão soltos e enviados de volta a Luna.
Thorne passou os dedos pelos passadores de cinto da calça.
— Nesse caso, parece um grande desperdício de tempo e recursos.
— Eu discordo — retrucou Scarlet. — As pessoas não podem ficar vivendo com medo. O governo está tentando mostrar que está fazendo alguma coisa para impedir que os massacres aconteçam de novo. Dessa forma, eles podem sentir que têm algum tipo de controle sobre a situação.
Cinder balançou a cabeça.
— Mas o que vai acontecer quando Levana retaliar? A questão toda da aliança de casamento era para controlar o temperamento dela.
— Ela não vai retaliar — falou Lobo. — Duvido que se importe.
Scarlet olhou para a tatuagem no antebraço dele.
— Depois de todo o trabalho que ela teve para criar vocês... eles?
— Ela não colocaria a aliança em risco. Não pelos agentes, que só tinham um propósito desde o começo: executar o primeiro ataque e lembrar a Terra de que os lunares podem ser qualquer um, em qualquer lugar. Para fazer com que fiquem com medo de nós. — Ele começou a se mexer, inquieto. — Ela não precisa mais de nós agora.
— Espero que você esteja certo — disse Iko —, porque, agora que descobriram como encontrar os agentes, espera-se que o resto da União faça o mesmo.
— Como foi que os encontraram? — perguntou Cinder, ajeitando o rabo de cavalo.
Um suspiro saiu pelo sistema de ventilação.
— Parece que os lunares reprogramaram alguns medidroides localizados em quarentenas da peste em todo o mundo. Eles estavam coletando chips de identificação dos mortos e mandando para esses agentes, para serem reprogramados e inseridos nos corpos deles, a fim de que pudessem se misturar na sociedade. Quando o governo descobriu a ligação, só precisou procurar os chips de identificação, e logo foram levados direto para as bases de operação dos agentes.
— Peony... — Cinder se aproximou da tela. — Era por isso que o androide queria o chip dela. Você está me dizendo que ele teria ido parar dentro de um deles?
— Dito com verdadeiro desprezo por nossos amigos caninos — disse Thorne.
Cinder massageou a testa.
— Me desculpe, Lobo. Eu não estava falando de você. — Ela hesitou. — Só que... estou, sim. Qualquer pessoa. Ela era minha irmãzinha. Quantas pessoas morreram dessa doença e tiveram suas identidades violadas assim? Mais uma vez, sem querer ofender.
— Tudo bem — disse Lobo. — Você a amava. Eu sentiria a mesma coisa se alguém quisesse apagar a identidade de Scarlet e dar para o exército de Levana.
Scarlet enrijeceu e suas bochechas ficaram quentes. Ele não estava insinuando...
— Aaaaw! — gritou Iko. — Lobo acabou de dizer que ama Scarlet? Que fofo!
Scarlet se encolheu.
— Ele não... não foi isso... — Ela apertou as mãos contra os lados do corpo. — Podemos voltar para os soldados que estão sendo capturados, por favor?
— Ela está ficando vermelha? Pela voz, parece que está ficando mesmo.
— Ela está vermelha — confirmou Thorne, embaralhando as cartas. — Na verdade, Lobo também está meio coradinho...
— Foco, por favor — pediu Cinder, e Scarlet teve vontade de dar um beijo nela. — Então eles estavam pegando chips de identificação das vítimas da peste. E agora?
As luzes diminuíram, assim como a empolgação de Iko.
— Bem, não vai acontecer mais. Todos os androides americanos que trabalham nas quarentenas estão sendo avaliados e reprogramados agora mesmo, o que sem dúvida vai se repetir por toda a União.
Na tela, o último agente encontrado em Manhattan estava sendo colocado no aerodeslizador militar. A porta estalou e se fechou depois que ele entrou.
— Isso resolve uma ameaça, ao menos — disse Scarlet, pensando na matilha que a manteve prisioneira. Que matara sua avó. — Espero que a Europa os cace também. Espero que os mate.
— Espero que não pensem que o trabalho acabou depois disso — falou Cinder. — Como Lobo mencionou, a verdadeira guerra nem começou ainda. A Terra deveria estar em alerta total agora, se preparando para qualquer coisa.
— E nós deveríamos estar nos preparando para impedir esse casamento e colocar você no trono — acrescentou Scarlet, reparando como Cinder fazia cara de desgosto à menção de se tornar rainha. — Se fizer isso, a guerra pode não ir além do que já foi.
— Tenho uma sugestão — contrapôs Iko, substituindo o noticiário dos agentes lunares por um relatório em tempo real do casamento. — Se vamos entrar escondidos no palácio de Nova Pequim com Levana lá dentro, por que não a assassinamos? Sem querer parecer assassina a sangue-frio demais, mas isso não resolveria muitos dos nossos problemas?
— Não é tão fácil — retrucou Cinder. — Lembre-se de quem estamos falando aqui. Ela é capaz de fazer lavagem cerebral em centenas de pessoas ao mesmo tempo.
— Ela não é capaz de fazer lavagem cerebral em mim — disse Iko. — Nem em você.
Lobo balançou a cabeça.
— Seria preciso ter um exército para chegar perto o bastante. Ela vai ter incontáveis guardas e taumaturgos por perto. Sem mencionar todos os terráqueos que poderia usar como escudo, ou mesmo transformar em armas.
— Inclusive Kai — disse Cinder.
O motor da nave engasgou, fazendo as paredes tremerem.
— Vocês têm razão. Não podemos correr esse risco.
— Não, mas podemos contar para o mundo que ela é uma fraude e uma assassina. — Cinder colocou as mãos na cintura. — Todos já sabem que ela é um monstro. Só precisamos mostrar que ninguém estará seguro se ela se tornar imperatriz.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!