3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatro

PEONY DEU UM TAPA NO OMBRO DE CINDER, QUASE A EMPURRANDO em cima de uma pilha de rodas velhas de androides.
— Como você pode ter esperado tanto tempo para me contar? Você já está em casa, o quê, há quatro horas?
— Eu sei, eu sei, me desculpe — disse Cinder, esfregando o ombro. — Não era uma boa hora, e não queria que a Adri soubesse. Não quero que ela tente tirar vantagem disso.
— Quem se importa com o que a mamãe pensa? Eu quero tirar vantagem disso. Pelas estrelas, o príncipe. No seu estande. Não acredito que eu não estava lá. Por que eu não estava lá?
— Você estava ocupada provando seda e brocado.
— Ugh. — Peony chutou um farol quebrado que estava no caminho. — Você devia ter me chamado. Eu teria chegado lá em dois segundos, com vestido de baile inacabado e tudo. Ugh. Eu odeio você. É oficial, eu odeio você. Você vai vê-lo de novo? Quero dizer, terá que vê-lo de novo, né? Talvez eu possa parar de odiá-la se prometer me levar com você, tudo bem? Combinado?
— Achei um! — gritou Iko de uma distância de quase dez metros à frente delas. Seu refletor mirou a carcaça de um aerodeslizador enferrujado, deixando as pilhas de restos e escombros atrás dela na escuridão.
— Então? Como ele é? — perguntou Peony, acompanhando o passo apressado de Cinder na direção do veículo, como se estar perto dela agora fosse o mesmo que estar perto da própria Alteza Imperial.
— Não sei — respondeu Cinder, abrindo o capô e o apoiando no suporte apropriado. — Que bom, ele não foi futucado.
Iko saiu rapidamente do caminho de Cinder.
— Ele foi educado o bastante para não apontar a enorme mancha de graxa na testa dela.
Peony deu um suspiro.
— Ah, não, você não fez isso!
— O quê? Sou mecânica. Eu me sujo. Se ele me quisesse toda enfeitada, deveria ter avisado que viria. Iko, um pouco de luz aqui seria uma boa.
Iko inclinou a cabeça para a frente, iluminando o compartimento do motor.
Do outro lado de Cinder, Peony estalou a língua.
— Será que ele achou que era uma verruga?
— Isso faz com que eu me sinta muito melhor. — Cinder tirou um alicate da bolsa. O céu noturno estava límpido e, embora as luzes da cidade bloqueassem qualquer estrela, a lua crescente pontuda ocultava-se próxima ao horizonte, um olho adormecido observando através da neblina.
— Ele é tão bonito na vida real quanto parece nos netscreens?
— Sim — disse Iko. — Até mais bonito. E terrivelmente alto.
— Todos são altos para você. — Peony se encostou no para-choque dianteiro com os braços cruzados. — E quero ouvir a opinião de Cinder.
Cinder parou de cutucar o motor com o alicate quando a lembrança do sorriso fácil dele lhe veio à mente. Embora o príncipe Kai fosse havia muito tempo um dos assuntos favoritos de Peony — ela provavelmente fazia parte de todos os fã-clubes dele —, Cinder nunca imaginara que pudesse compartilhar dessa admiração. Na verdade, sempre pensara que a queda de Peony por celebridades era um pouco tola, um pouco pré-adolescente. Príncipe Kai isso, príncipe Kai aquilo. Uma fantasia impossível.
Mas agora…
Algo em sua expressão deve ter falado por si só, porque Peony de repente soltou um gritinho agudo e se agarrou nela, envolvendo a cintura de Cinder com os braços e pulando.
— Eu sabia! Eu sabia que você tinha gostado dele também! Não posso acreditar que você realmente o conheceu! Não é justo. Eu já disse o quanto odeio você?
— Sim, sim, eu sei — disse Cinder, desvencilhando-se dos braços de Peony. — Agora vá ser bobinha em outro lugar. Estou tentando trabalhar.
Peony fez uma careta e deu um pulinho, girando ao redor das pilhas de tralhas.
— O que mais? Conte tudo. O que ele disse? O que ele fez?
— Nada — respondeu Cinder. — Ele só me pediu para consertar o androide dele. — Ela removeu as teias de aranha do que uma vez fora o gerador solar do aerodeslizador, mas agora não passava de uma casca plástica. Uma nuvem de poeira voou no seu rosto e ela recuou, tossindo. — Catraca?
Iko puxou a catraca de seu torso e a entregou a Cinder.
— Que tipo de androide é? — perguntou Peony.
Cinder ergueu o gerador do compartimento com um grunhido e o pousou no chão ao lado do aerodeslizador.
— Um velho.
— Tutor 8.6 — respondeu Iko. — Mais velho do que eu. E ele disse que voltará ao mercado no próximo fim de semana para buscá-la.
Peony chutou uma lata de óleo enferrujada de seu caminho antes de se encurvar sobre o motor.
— Os noticiários dizem que o mercado ficará fechado durante a próxima semana por causa do surto.
— Ah, eu não tinha ouvido isso. — Cinder limpou as mãos na calça, estudando com atenção o compartimento inferior do motor. — Acho que teremos que entregá-lo no palácio, então.
— Sim! — Peony dançou sem sair do lugar. — Vamos juntas e você pode me apresentar e… e…
— A-rá! — Cinder sorriu, radiante. — Correia magnética.
Peony botou as mãos em forma de concha na frente da boca, aumentando a voz.
— E então ele vai me reconhecer no baile, e eu vou dançar com ele e… Pearl vai morrer de raiva! — Ela riu, como se irritar a irmã mais velha fosse a maior realização em sua vida.
— Se o androide estiver pronto antes do baile. — Cinder escolheu uma chave inglesa do cinto de ferramentas que estava pendurado ao redor de seus quadris. Ela não queria dizer a Peony que o príncipe Kai provavelmente não seria o responsável por receber as entregas ao palácio.
Peony fez um aceno rápido com a mão.
— Bem, seja quando for.
— Eu quero ir ao baile — disse Iko, olhando para o horizonte. — É preconceito não permitir a entrada de androides.
— Faça uma petição ao governo, então. Tenho certeza de que Peony ficará feliz em levar seu caso diretamente ao príncipe em pessoa. — Cinder segurou a cabeça esférica de Iko e forçou-a a mirar novamente a luz no capô. — Agora fique parada. Estou quase conseguindo desencaixar essa terminação.
Cinder prendeu a chave inglesa em Iko, depois ergueu a correia magnética de seu suporte, deixando-a cair no chão com um retinir.
— Um lado já foi, agora só falta o outro.
Ela andou ao redor do aerodeslizador, abrindo o caminho pelas quinquilharias de forma que as rodas de Iko não ficassem presas.
Peony foi atrás e subiu no porta-malas do veículo, cruzando as pernas.
— Sabe, dizem por aí que ele vai procurar uma noiva no baile.
— Uma noiva — disse Iko. — Que romântico!
Cinder se abaixou para o lado, atrás do para-choque traseiro do aerodeslizador, e pegou uma pequena lanterna do cinto de ferramentas.
— Me passa a chave inglesa de novo?
— Você não me ouviu? Uma noiva, Cinder. Como uma princesa.
— Como… não vai acontecer. Ele tem só, o quê? Dezenove anos? — Segurando a lanterna entre os dentes, Cinder pegou a chave inglesa da mão de Iko. Os parafusos da parte traseira estavam menos enferrujados, pois eram melhor protegidos pelo porta-malas suspenso, e foram necessárias apenas algumas torções rápidas para afrouxá-los.
— Dezoito e meio — disse Peony. — E é verdade. Todos os links de fofoca dizem isso.
Cinder grunhiu.
— Eu me casaria com o príncipe Kai sem hesitar.
— Eu também — disse Iko.
Cinder tirou a lanterna da boca e mudou-a de posição.
— Vocês e todas as garotas da Comunidade.
— Como se você não — disse Peony.
Cinder não respondeu enquanto afrouxava o último parafuso da correia magnética, que se soltou e caiu no chão com estrépito.
— Aqui vamos nós. — Ela saiu de debaixo do carro e pôs a chave inglesa e a lanterna no compartimento da panturrilha antes de se levantar. — Vê outros aerodeslizadores que valham a pena darmos uma olhada enquanto estamos aqui? — Puxando a correia magnética de debaixo do aerodeslizador, ela dobrou-a pelas dobradiças, formando um bastão de metal mais fácil de segurar.
— Eu vi algo ali. — Iko passou a luz pelas pilhas. — Não sei ao certo qual modelo.
— Ótimo. Vá na frente. — Cinder cutucou o androide com o bastão. Iko foi andando, resmungando por ter que ficar em meio à sucata enquanto Adri estava toda limpinha e confortável em casa.
— Além disso — disse Peony, saltando de cima do porta-malas —, o rumor de que ele estaria procurando uma noiva no baile é bem melhor do que o que os outros boatos estão dizendo.
— Deixe eu adivinhar. O príncipe Kai, na verdade, é um marciano? Ou não, não… ele teve um filho bastardo com um androide-acompanhante, não teve?
— Androides-acompanhantes podem ter filhos?
— Não.
Peony bufou, soprando um cacho de cima da sobrancelha.
— Bem, isso é ainda pior. Dizem que há uma conversa de ele se casar… — ela baixou a voz até um sussurro grave — com a rainha Levana.
— Rainha — Cinder congelou e pôs a mão enluvada sobre a boca, olhando em volta como se alguém pudesse estar espreitando em meio às pilhas de lixo, ouvindo. Ela tirou a mão, mas manteve a voz baixa. — Sinceramente, Peony. Esses tabloides vão apodrecer o seu cérebro.
— Eu também não quero acreditar, mas todos estão dizendo isso. Esse seria o motivo pelo qual a perversa embaixadora da rainha estaria hospedada no palácio, para que ela possa garantir uma aliança. É tudo politicagem.
— Eu não acredito. O príncipe Kai nunca se casaria com ela.
— Você não sabe.
Mas ela sabia. Cinder podia não saber muito sobre política intergalática, mas sabia que o príncipe Kai seria um tolo se se casasse com a rainha Levana.
A lua vagarosa chamou a atenção de Cinder, e uma onda de arrepios cobriu seus braços. A lua sempre lhe causara certa paranoia, como se as pessoas que morassem lá pudessem estar observando-a, e tinha medo de que, se olhasse por muito tempo, pudesse atrair a atenção delas. Uma superstição sem sentido, mas tudo a respeito dos lunares era misterioso e envolto em superstições.
Os lunares eram uma sociedade que evoluíra de uma colônia terrestre na lua séculos atrás, mas não eram mais humanos. Dizia-se que podiam modificar o cérebro de uma pessoa — fazer você ver, sentir e fazer coisas que não devia. O poder anormal deles os tornara uma raça gananciosa e violenta, e a rainha Levana era a pior deles.
Havia boatos de que ela sabia quando as pessoas estavam falando dela, mesmo a milhares de quilômetros de distância. Mesmo aqui embaixo, na Terra.
Dizia-se também que ela assassinara a irmã mais velha, a rainha Channary, para que pudesse assumir o trono. E que mandara matar o próprio marido também, com o propósito de ficar livre para conseguir um casamento melhor.
Havia rumores de que forçara sua enteada a mutilar o próprio rosto porque, em seus doces treze anos, tornara-se mais bonita do que a invejosa rainha podia suportar.
Os boatos também a acusavam de ter matado a sobrinha, única ameaça ao trono. A princesa Selene tinha apenas três anos quando um incêndio destruiu seu quartinho, matando a criança e sua babá. Algumas teorias conspiratórias diziam que a princesa sobrevivera e ainda vivia em algum lugar, esperando pela hora certa para reivindicar a coroa e acabar com o reinado tirânico de Levana, mas Cinder sabia que apenas o desespero alimentava tais rumores. Afinal, encontraram traços da carne da criança em meio às cinzas.
— Aqui. — Iko ergueu a mão e bateu em uma lâmina de metal que se destacava de um enorme monte de sucata, surpreendendo Cinder.
Ela afastou os pensamentos. O príncipe Kai nunca se casaria com aquela bruxa. Ele nunca se casaria com uma lunar.
Cinder empurrou algumas latas enferrujadas de aerossol e um colchão velho para longe, antes de poder ver com clareza a frente do aerodeslizador.
— Bom olho.
Juntas elas tiraram bastante sucata do caminho, para que toda a frente do veículo pudesse ser vista.
— Nunca vi nenhum como esse — disse Cinder, passando a mão sobre a insígnia cromada esburacada.
— É horroroso — disse Peony com desdém. — Que cor horrível.
— Deve ser realmente velho. — Cinder encontrou o trinco e abriu o capô. Chegou a recuar, surpresa pela bagunça de metal e plástico que viu. — Realmente velho. — Ela semicerrou os olhos na frente do motor, mas o chassi ocultava os suportes da correia magnética. — Hum… você pode direcionar a luz para cá, por favor?
Cinder se abaixou e se debruçou na sujeira. Apertou o rabo de cavalo antes de se contorcer embaixo do aerodeslizador, arremessando para o lado o amontoado de partes velhas deixadas para enferrujar em meio às ervas daninhas embaixo dele.
— Pelas estrelas — murmurou quando conseguiu olhar bem seu interior. A luz de Iko oscilava para cima e para baixo, exibindo cabos e fios, tubos e coletores, porcas e parafusos. — Esta coisa é uma relíquia.
— Está em um ferro-velho — disse Peony.
— Estou falando sério. Nunca vi nada igual. — Cinder correu a mão por um cabo de borracha.
A luz piscava para a frente e para trás conforme o sensor de Iko escaneava o motor.
— Alguma peça útil?
— Boa pergunta. — A visão de Cinder tornou-se azul conforme se conectava à sua rede. — Você poderia me ditar o número de identificação do veículo que está no para-brisa? — Ela procurou o número enquanto Peony lia para ela e fez o download do projeto em minutos, a tela criando uma imagem sobre o motor acima dela. — Parece estar praticamente intacto — murmurou, correndo as pontas dos dedos por um grupo de fios acima dela. Seguiu com os olhos, inclinando a cabeça para traçar o caminho das mangueiras para as polias, e delas para os eixos, tentando decifrar como combinavam entre si. Como tudo funcionava.
— Que legal.
— Estou entediada — disse Peony.
Suspirando, Cinder pesquisou no projeto onde ficava a correia magnética, mas uma mensagem verde de erro piscou no seu campo de visão. Ela tentou apenas magnética, e depois apenas correia, recebendo finalmente um resultado.
O projeto iluminou-se em uma correia que envolvia uma série de engrenagens, encapsulada por uma cobertura de metal — algo chamado correia sincronizadora.
Franzindo o cenho, Cinder esticou a mão e procurou os parafusos e arruelas que prendiam a cobertura ao bloco de motor.
Ela achava que arruelas não fossem usadas desde que o motor de combustão interna havia se tornado obsoleto.
Arfando, ela estendeu o pescoço para o lado. Na escuridão embaixo do veículo, podia distinguir algo redondo ao seu lado, conectado às barras acima de sua cabeça. Uma roda.
— Não é um aerodeslizador. É um carro. Um carro movido a gasolina.
— Sério? — disse Peony. — Pensei que carros de verdade deviam ser… não sei. Elegantes.
Indignação desabrochou no peito de Cinder.
— Tem personalidade — respondeu ela, tateando o padrão dos pneus.
— Então — disse Iko um segundo depois —, isso significa que não podemos aproveitar nenhuma das peças?
Ignorando a pergunta, Cinder analisou avidamente o desenho diante dela. Cárter, injetores de combustível, canos de escape.
— É da segunda era.
— Fascinante. Ou não. — disse Peony. Subitamente gritou, pulando para longe do carro.
Cinder se sobressaltou e bateu a cabeça na suspensão dianteira.
— O que foi, Peony?
— Um rato acabou de sair da janela! Um bem grande e peludo. Ai, que nojo.
Resmungando, Cinder acomodou novamente a cabeça na sujeira, massageando a testa. Já eram duas lesões na cabeça em um dia. Nesse ritmo, teria que comprar um novo painel de controle também.
— Ele deve ter feito ninho no estofamento. Provavelmente o assustamos.
— Nós assustamos o rato? — A voz de Peony estava abalada. — Podemos ir agora, por favor?
Cinder suspirou.
— Tá bom.
Descartando o desenho, ela se contorceu para sair de debaixo do carro, aceitando a ajuda das mãos em forma de pinça de Iko para se levantar.
— Pensei que todos os carros a gasolina sobreviventes estivessem em museus — disse ela, tirando as teias de aranha dos cabelos.
— Eu não o chamaria de “sobrevivente” — disse Iko, seu sensor se escurecendo com repulsa. — Parece mais uma abóbora podre.
Cinder fechou o capô com um baque, lançando uma impressionante nuvem de poeira sobre o androide.
— Vocês precisam de um pouco mais de imaginação? Com alguma atenção e uma boa limpeza, poderíamos devolvê-lo à sua antiga glória.
Ela acariciou o capô. O carro em forma de domo tinha um tom amarelo-alaranjado que parecia doentio sob a luz de Iko — era uma cor que ninguém nos tempos modernos escolheria —, mas com o estilo antigo do veículo beirava o encantador. A ferrugem vinha do buraco sob os faróis despedaçados, descendo sobre os para-lamas amassados. Faltava uma das janelas traseiras, mas os assentos estavam intactos, embora cobertos por mofo e rasgados, e provavelmente servissem como lar para mais do que roedores. O volante e o painel pareciam ter sofrido apenas pequenos danos ao longo dos anos.
— Talvez pudesse ser nosso carro de fuga.
Peony deu uma olhada pela janela do passageiro.
— Fuga de quê?
— De Adri. De Nova Pequim. Podíamos sair todas juntas da Comunidade. Podíamos ir para a Europa! — Cinder deu a volta para o lado do motorista e tirou a sujeira do vidro com a luva. No chão, no interior do veículo, três pedais piscavam para ela. Embora todos os aerodeslizadores fossem controlados por sistemas de computação, ela lera o suficiente sobre a antiga tecnologia para saber o que era uma embreagem e até mesmo ter uma ideia básica de como acioná-la.
— Esse bloco de metal não nos levaria nem até os limites da cidade — disse Peony.
Dando um passo para trás, Cinder tirou a poeira das mãos. Provavelmente elas estavam certas. Talvez aquele não fosse o veículo ideal, talvez não fosse a chave para a salvação delas, mas de alguma forma, algum dia, ela deixaria Nova Pequim. Encontraria um lugar onde ninguém soubesse quem ela era — ou o que era.
— Além disso, não podemos pagar a gasolina — continuou Iko. — Poderíamos vender seu novo pé e mesmo assim não teríamos dinheiro o bastante para pagar a gasolina necessária para sairmos daqui. Sem contar as multas por poluição. E eu não vou entrar nessa coisa. É provável que tenha cocô de rato se acumulando por décadas sob esses assentos.
Peony se contraiu de nojo.
— Eca.
Cinder deu uma risada.
— Tudo bem, já entendi. Não conseguirei convencê-las a levar o carro pra casa.
— Ainda bem. Você me deixou preocupada — disse Peony. Ela sorriu, porque não se preocupara de fato, e tirou o cabelo do ombro.
O olhar de Cinder captou algo — um ponto preto abaixo da clavícula de Peony, visível bem acima da gola de sua camisa.
— Fique parada — disse ela, esticando a mão para a frente.
Peony fez exatamente o contrário, entrando em pânico e espanando com as mãos os fantasmas em seu peito.
— O quê? O que é? Um bicho? Uma aranha?
— Eu já disse, fique parada! — Cinder agarrou Peony pelo pulso, passou a mão no ponto preto e ficou paralisada.
Soltando o braço de Peony, ela cambaleou para trás.
— O quê? O que é? — Peony puxou a camisa, tentando ver, mas então notou outro ponto na parte de trás da mão.
Ela olhou para Cinder, o rosto pálido.
— Uma… uma alergia? — disse ela. — Ao carro?
Cinder engoliu em seco e se aproximou dela com passos hesitantes, segurando a respiração. Esticou novamente a mão até a clavícula de Peony e puxou a gola de sua blusa para baixo, revelando toda a mancha sob a luz da lua.
Uma nódoa vermelha, envolta com um roxo típico de hematomas.
Seus dedos tremeram. Ela se afastou, encontrando o olhar de Peony.
Peony deu um berro.

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