7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatorze

— VOSSA MAJESTADE.
Kai se afastou da janela onde ficara olhando durante metade da manhã, ouvindo o tagarelar dos âncoras do noticiário e dos oficiais militares relatando a fuga da presidiária mais procurada da Comunidade das Nações Orientais. O Chefe Huy estava na porta, com Torin ao lado. Os dois pareciam incrivelmente infelizes.
Ele engoliu em seco.
— E aí?
Huy deu um passo à frente.
— Eles escaparam.
O coração de Kai deu um salto. Ele deu um passo hesitante em direção à mesa do pai e segurou o encosto da cadeira.
— Dei a ordem de convocar nossas frotas de reserva imediatamente. Estou confiante de que encontraremos os fugitivos e os prenderemos antes do pôr do sol.
— Com todo o respeito, chefe, você não parece particularmente confiante.
Embora Huy estivesse com o peito estufado, seu rosto ficou ligeiramente rosado.
— Estou, majestade. Podemos encontrá-los. É só que... é complicado por ser uma nave roubada. Todo o equipamento de rastreio foi retirado.
Torin deu um suspiro irritado.
— A garota se provou mais inteligente do que eu imaginava.
Kai passou a mão pelo cabelo, escondendo um brilho inesperado de orgulho.
— Tem também a questão de ela ser lunar — acrescentou Huy.
— Quem a capturar tem que estar alerta — disse Kai. — Todos precisam saber que ela vai tentar manipulá-los.
— Com certeza, mas não era a isso que eu estava me referindo. No passado, tivemos dificuldade para rastrear naves lunares. Parece que eles aprenderam a desarmar nossos sistemas de radar. Infelizmente, não sabemos direito como eles fazem isso.
— Desarmar nossos sistemas de radar? — Kai olhou para Torin. — Você sabia disso?
— Ouvi boatos — disse Torin. — Seu pai e eu preferimos acreditar que eram apenas isso.
— Nem todos os meus colegas concordam comigo nessa questão — disse Huy. — Mas estou convencido de que são os lunares que desarmam nossos equipamentos. Se é pelas habilidades mentais ou por algum outro talento, não sei. Independentemente disso, Linh Cinder não irá muito longe. Vamos mobilizar todos os recursos para capturá-la.
Sufocando a tormenta interior, Kai forçou o rosto a ficar imóvel como uma pedra.
— Me mantenham informado.
— Claro, Vossa Majestade. Tem mais uma coisa que achei que o senhor poderia querer ver. Terminamos de examinar as filmagens da prisão. — Huy apontou para a tela embutida na mesa de Kai.
Kai contornou a cadeira, repuxou as mangas compridas por sentir um calor repentino e se sentou. Uma mensagem do conselho de segurança nacional girava no canto.
— Aceitar mensagem.
A tela se iluminou com a filmagem da prisão, as paredes brancas e reluzentes. Via-se um longo corredor com portas acolchoadas e escâneres de identificação. Um guarda de prisão apareceu e apontou para uma porta. Foi seguido por um senhor baixo usando um boné cinza.
Kai deu um pulo. Era o dr. Erland.
— Aumentar volume.
A voz familiar do dr. Erland surgiu na tela.
— Sou o cientista responsável pela equipe real de pesquisa da letumose, e essa garota é minha cobaia principal. Preciso de amostras de sangue dela antes que saia do planeta. — Com uma expressão mal-humorada, ele enfiou a mão em uma bolsa e tirou uma coisa; uma seringa, mas a bolsa ainda estava cheia. Ainda havia outros objetos lá dentro.
— Tenho minhas ordens, senhor — disse o guarda. — Precisa de uma ordem oficial do imperador para poder entrar.
Kai franziu a testa quando o doutor colocou a seringa de volta na bolsa, sabendo que o dr. Erland não tinha feito esse pedido.
— Tudo bem. Se é o protocolo, eu entendo — disse o dr. Erland. E ficou ali de pé, sereno e paciente. Depois de alguns segundos, Kai viu o doutor sorrindo. — Pronto, está vendo? Consegui a autorização necessária do imperador. Pode abrir a porta.
O queixo de Kai caiu quando, incrivelmente, o guarda virou para a porta da cela, passou o pulso pelo escâner e digitou uma senha. Uma luz verde piscou e a porta se abriu.
— Muito obrigado — disse o dr. Erland e passou pelo guarda. — Peço que nos dê um pouco de privacidade. Só vou demorar um minuto.
O guarda concordou sem discutir, fechou a porta e seguiu na direção de onde veio, deixando a tela vazia.
Kai ergueu o olhar para Huy.
— Esse guarda foi interrogado?
— Foi, senhor, e tudo o que ele declarou foi que se lembra de negar acesso à garota, e depois o doutor foi embora. Ele ficou confuso quando mostramos a filmagem. Alega não se lembrar de nada.
— Como isso é possível?
Huy ocupou as mãos abotoando o paletó.
— Parece, Vossa Majestade, que o dr. Dmitri Erland usou glamour no guarda para que ele permitisse o acesso à cela da prisioneira.
Com os pelos se eriçando debaixo do colarinho, Kai se recostou na cadeira.
— Usou glamour? Você acha que ele é lunar?
— Essa é nossa teoria.
Kai olhou para o teto. Cinder, lunar. O dr. Erland, lunar.
— É uma conspiração?
Torin limpou a garganta, como fazia sempre que Kai mencionava alguma teoria louca, embora para Kai parecesse ser uma pergunta perfeitamente legítima.
— Estamos investigando todas as possibilidades — disse Torin. — Pelo menos agora sabemos como ela fugiu.
— Temos outro vídeo que mostra a prisioneira usando glamour no guarda do turno seguinte — disse Huy — e sendo levada para outra cela. Nessa filmagem, ela está com dois pés e com uma mão esquerda diferente da que tinha quando entrou na prisão.
Kai se levantou da cadeira.
— A bolsa — disse, andando na direção da janela.
— Sim. O dr. Erland levou essas ferramentas para ela, e temos que supor que foi com a intenção de ajudar na fuga.
— Por isso que ele foi embora. — Kai balançou a cabeça, se perguntando como Cinder conhecera o dr. Erland, o que eles estavam realmente fazendo todas as vezes que ela foi vê-lo no hospital. Planejando, tramando, conspirando? — Pensei que ela estivesse só consertando um medidroide — murmurou ele. — Nem questionei... Pelas estrelas, fui tão burro.
— Vossa Majestade — disse Huy — os poucos recursos que não estão concentrados na busca de Linh Cinder estão se dedicando a encontrar Dmitri Erland. Ele será preso como traidor da coroa.
— Por favor, desculpem a interrupção — disse Nainsi, o androide que deu aulas para Kai quando ele era criança, mas que agora tinha um papel mais significativo de assistente pessoal. O androide que tivera problemas (menos de quatro semanas antes, não?) e o levou ao primeiro encontro com Linh Cinder, quando ela não passava de uma renomada mecânica. — Sua Majestade, a rainha lunar Levana pediu uma reunião imediat...
— Não serei anunciada por um androide!
Huy e Torin viraram quando a rainha Levana entrou e deu um tapa em Nainsi no sensor azul, o olhar flamejante. O androide sem dúvida teria caído de costas se o equipamento hidráulico estabilizador não tivesse entrado em ação bem na hora.
O grupo que costumava acompanhar a rainha entrou atrás: primeiro, Sybil Mira, taumaturgachefe, cujo papel na corte lunar parecia ser um cruzamento entre cachorrinho fiel e criada
satisfeita que tinha prazer em atender aos pedidos mais cruéis de Levana. Kai uma vez a viu
atacar e quase cegar um criado inocente a pedido da rainha, sem um sinal de hesitação.
Atrás dela entrou outro taumaturgo, uma graduação abaixo de Sybil, que tinha pele escura, olhos penetrantes e propósito nenhum, pareceu a Kai, a não ser ficar de pé atrás da rainha com uma expressão arrogante.
O guarda pessoal de Sybil entrou atrás, um homem louro que segurou Cinder no baile, quando Levana ameaçou a vida dela pela primeira vez. Mesmo depois de um mês como hóspede em seu palácio, Kai não sabia o nome dele. O segundo guarda, com os cabelos ruivos flamejantes, foi quem pulou entre uma bala e Levana no baile, recebendo um tiro diretamente no ombro. Ao que parecia, ferimentos não eram o bastante para tirar alguém da guarda real, embora se visse apenas o calombo do curativo por debaixo do uniforme.
— Vossa Majestade — disse Kai, se dirigindo à rainha com o que pensou ser uma admirável falta de desprezo. — Que surpresa agradável.
— Mais um comentário condescendente e vou mandar arrancar sua língua e prender no portão do palácio.
Kai empalideceu. A voz de Levana, normalmente tão melodiosa e doce, estava dura como aço, e apesar de tê-la visto com raiva muitas vezes antes, nunca o bastante para que deixasse de lado a leve aparência de diplomacia.
— Vossa Majestade...
— Você a deixou fugir! Minha prisioneira!
— Garanto que estamos fazendo tudo que podemos...
— Aimery, silencie-o.
A língua de Kai ficou flácida. Com olhos arregalados, ele levou a mão aos lábios e percebeu que não era apenas a língua, mas a garganta, o maxilar. Os músculos tinham ficado inúteis. O que talvez fosse melhor do que prenderem sua língua ao portão do palácio, mas ainda assim...
Seu olhar se desviou para o taumaturgo com a jaqueta vermelha impecável, que abriu um sorriso perverso em resposta. A ira cresceu dentro dele.
— Você está fazendo tudo que pode? — Levana apoiou as mãos na mesa de Kai. Os olhares se confrontaram por cima da tela que ainda mostrava o corredor vazio da prisão, congelado no tempo. — Está me dizendo, jovem imperador, que não ajudou na fuga dela? Que sua intenção desde o começo não foi de me humilhar em seu território?
Kai sentiu que a rainha queria que ele caísse de joelhos e silenciosamente pedisse perdão, prometesse mover os céus e a terra para satisfazê-la... mas sua raiva suplantou o medo. Com a capacidade de falar sufocada, ele cruzou os braços nas costas da cadeira e esperou.
Com o canto do olho, ele conseguia ver Torin e Huy, ainda imóveis como duas estátuas, mas com expressões sombrias de desprezo. Sybil Mira, com as mãos inocentemente enfiadas nas mangas marfim, devia estar segurando-os com a magia mental lunar.
Nainsi, o único ser que os lunares não conseguiam controlar com os truques mentais, estava sendo fisicamente segurada pelo guarda louro, virada de forma que o sensor com câmera embutida não pudesse capturar os acontecimentos.
As pontas dos dedos da rainha ficaram brancas em cima da mesa.
— Espera que eu acredite que você não encorajou essa fuga? Que não teve nada a ver com ela? — A expressão dela ficou mais tensa. — Você não parece muito aborrecido com isso, Vossa Majestade.
A perplexidade cresceu nas entranhas de Kai, mas seu rosto permaneceu neutro. Anos de boatos e superstições circularam em seus pensamentos, boatos de que Levana sempre sabia quando alguém falava dela, em qualquer lugar de Luna e até mesmo na Terra, mas ele desconfiava de uma razão muito mais plausível para sua habilidade incrível de saber o que não devia.
Ela o espionava, e também ao pai dele antes. Sabia que era verdade, só não sabia como. Ao perceber que ela estava esperando resposta, Kai ergueu uma sobrancelha e gesticulou na direção da boca.
Levana fervilhou de raiva e se afastou da mesa. Esticou o pescoço até estar olhando para ele de cima.
— Fale.
Kai voltou a sentir sua língua e deu um sorriso mal-agradecido para Aimery. Em seguida, fez a coisa mais desrespeitosa em que conseguiu pensar: puxou a cadeira e se sentou. Em seguida, se inclinou para trás e cruzou as mãos sobre a barriga.
A raiva ferveu por trás dos olhos cor de carvão de Levana até ela ficar quase feia, por um segundo.
— Não — disse Kai. — Eu não encorajei a fugitiva a escapar nem a ajudei de maneira nenhuma.
— Que motivo tenho para acreditar nisso depois de ver você tão encantado com ela no baile?
A sobrancelha dele tremeu.
— Se vai se recusar a aceitar minha palavra, por que não força uma confissão minha e acaba logo com isso?
— Ah, eu poderia, Majestade. Poderia colocar quaisquer palavras que quisesse nessa sua boca. Mas infelizmente não somos leitores de mentes, e estou preocupada apenas com a verdade.
— Então me permita dizê-la. — Kai esperava parecer mais complacente do que irritado. — Nossa investigação preliminar revelou que ela usou tanto suas habilidades lunares quanto as de ciborgue para fugir da cela, e apesar de poder ter tido assistência interna, foi sem meu conhecimento. Infelizmente, não estávamos equipados para ter uma prisioneira que é ao mesmo tempo ciborgue e lunar. É certo que vamos trabalhar para fortalecer nosso sistema de encarceramento para o futuro. Enquanto isso, estamos fazendo tudo que podemos para encontrar a fugitiva e capturá-la. Fiz um acordo com você, Majestade, e pretendo cumprir minha parte.
— Você já falhou em cumprir a sua parte do acordo — disse ela com desprezo, mas sua expressão se suavizou. — Jovem imperador, espero que não tenha imaginado estar apaixonado por essa garota.
Kai apertou as mãos até os nós dos dedos gritarem de dor.
— Qualquer sentimento que eu possa ter imaginado por Linh Cinder obviamente não passou de um truque lunar.
— Obviamente. Fico feliz por você reconhecer isso. — Levana cruzou as mãos discretamente na frente do corpo. — Cansei dessa palhaçada e voltarei de imediato para Luna. Você tem três dias para encontrar a garota e entregá-la a mim. Se falhar, vou mandar o meu exército encontrá-la, e eles vão revirar todas as naves, todas as estações de lançamento e todas as casas deste planeta patético até que ela seja encontrada.
Pontos brancos piscaram na visão de Kai ao ficar de pé rápido demais.
— Por que não diz o que quer dizer? Você estava esperando um motivo para invadir a Terra há dez anos, e agora vai usar essa lunar fugitiva, essa ninguém, para fazer o que quer.
Os cantos dos lábios de Levana se ergueram.
— Você parece entender mal meus motivos, então vou falar precisamente o que quero dizer. Algum dia, vou governar a Comunidade das Nações Orientais, e a decisão é sua se farei isso por guerra ou por uma união pacífica ou diplomática de casamento. Mas isso não tem nada a ver com guerra e política. Quero essa garota ou o cadáver dela. Vou queimar seu país até não sobrar nada em busca dela se for preciso.
Levana se afastou da mesa e saiu do escritório, seu grupo a seguindo um passo atrás sem expressão ou comentário.
Quando todos foram embora, Huy e Torin despencaram na frente de Kai, como se não tivessem respirado desde a entrada da rainha. E talvez não tivessem respirado mesmo. Kai não sabia o que Sybil havia feito com eles, mas podia imaginar que não fora nada confortável.
Nainsi girou sobre as rodinhas.
— Sinto muito, Vossa Majestade. Eu jamais a teria deixado entrar, mas a porta já estava aberta.
Kai silenciou-o com um gesto.
— Sim, e que coincidência que ela tenha escolhido a hora em que a porta não estava fechada e trancada por código para invadir a sala, não é?
O processador de Nainsi chiou, sem dúvida calculando as probabilidades.
Kai passou a mão pelo rosto.
— Não importa. Saiam todos. Por favor.
Nainsi sumiu pela porta, mas Huy e Torin ficaram.
— Vossa Majestade — disse Huy. — Com todo respeito, preciso de sua permissão...
— Sim, tudo bem, o que você precisar. Preciso de um momento. Por favor.
Huy bateu os calcanhares.
— É claro, Vossa Majestade. — Apesar de Torin estar com cara de quem queria discutir, não o fez, e logo a porta chiou e se fechou atrás dos dois.
Com o estalo da tranca, Kai se permitiu desmoronar na cadeira. Seu corpo todo tremia. Ficou claro, de repente, que não estava pronto para isso. Não era forte o bastante nem inteligente o bastante para ocupar o lugar do pai. Não conseguia nem manter Levana fora de seu escritório. Como ia proteger um país inteiro dela, um planeta inteiro?
Ele girou a cadeira e passou as mãos pelo cabelo. Dirigiu a atenção para a cidade abaixo, mas logo olhou para o céu azul-intenso, sem nuvens. Em algum lugar lá em cima estavam a lua, as estrelas e dezenas de milhares de naves de carga, naves de passageiros, naves militares, naves de entrega, competindo por espaço além do ozônio. E Cinder estava em uma delas.
Ele não conseguia evitar, mas uma parte dele, talvez uma parte bem grande, torcia para que Cinder desaparecesse como a cauda de um cometa. Só para contrariar a rainha, para impedi-la de ter aquilo que queria tão desesperadamente. Afinal, tinha sido apenas sua vaidade que causara essa loucura. Porque Cinder fez um comentário tolo no baile, dando a entender que Levana, no fim das contas, não era bonita.
Kai massageou a testa, sabendo que tinha que parar de pensar essas coisas. Cinder tinha que ser encontrada, e logo, antes que milhões fossem assassinados em seu lugar.
Era tudo uma questão de política agora. Prós e contras, toma lá dá cá, trocas e acordos. Cinder tinha que ser encontrada; Levana, apaziguada; e Kai precisava parar de agir como traído e indignado e começar a agir como um imperador.
O que sentira por Cinder, ou pensara ter sentido, tinha acabado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!