20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatorze

Kai esperou até a nave de Thorne ser um brilho ao longe para pegar o tablet que Cinder lhe deu. Sem chip de identificação oficial para confirmar sua identidade, a mensagem para o conselheiro real Konn Torin foi interceptada pelo mainframe de comunicações do palácio. O rosto de uma jovem estagiária apareceu.
— Palácio de Nova Pequim. Como posso… direcionar… — Os olhos dela se arregalaram.
Kai sorriu.
— Imperador Kaito para o conselheiro real Konn Torin, por favor.
— S-Sim, Vossa Majestade. Claro. Agora mesmo. — As bochechas dela ficaram vermelhas enquanto se enrolava para redirecionar a mensagem. Em pouco tempo, a imagem foi substituída pela de Torin.
— Vossa Majestade! É… você está… um momento. Estou saindo de uma reunião com o gabinete… você está bem?
— Estou ótimo, Torin. Mas pronto para ir para casa.
Ele ouviu o estalo de uma porta.
— Onde você está? Está em segurança? Precisa…?
— Vou contar tudo quando voltar. Agora, estou em nosso esconderijo nos terraços de Taihang, e estou sozinho. Se você puder alertar a guarda do palácio…
— Agora mesmo, Vossa Majestade. Vamos estar aí muito em breve.
Torin sugeriu que eles deixassem a linha aberta, com medo de mais alguém ir pegar Kai antes que a equipe de segurança chegasse. Apesar de Cinder ter garantido que o tablet em si era impossível de ser rastreado, o link não foi preparado como comunicação direta, e era possível que lunares estivessem ouvindo. Mas Kai sabia que Luna tinha perdido seu melhor método de observação quando perdeu Cress, então insistiu que estava bem, que ficaria bem, antes de encerrar a comunicação.
Ele precisava de um momento para pensar antes que a galáxia toda saísse de controle de novo.
Prendendo o tablet no cinto, Kai subiu em uma das pedras grandes com vista para o vale. Cruzou as pernas, surpreso com o quanto se sentia calmo olhando para os terraços, platôs que envolviam as montanhas exuberantes, o brilho provocador de um rio que serpenteava aos pés delas. Ele poderia ter entrado na casa para esperar, mas o tempo estava quente e havia uma brisa com cheiro de jasmim, e fazia tempo demais que ele não admirava o belo país no qual nasceu.
Depois de semanas a bordo da Rampion, com o ar reciclado e água processada, ele estava feliz de estar em casa.
E, apesar de nunca ter visto Luna nem seus biodomos cheios de florestas artificiais e lagos feitos pelo homem, ele estava começando a entender por que Levana podia querer enfiar as garras na Terra também.
Pouco tempo tinha se passado quando Kai ouviu o zumbido de motores. Ele fixou o olhar no horizonte, esperando as naves. Quando chegaram, chegaram com tudo, doze naves militares cercando a casa, muitas com armas em riste e uma grande quantidade de pessoas verificando os arredores em busca de sinais de ameaça.
Semicerrando os olhos por causa do sol, Kai tirou o cabelo da testa quando a maior nave pousou não muito longe da casa. Policiais uniformizados saíram, ocuparam a área e verificaram se havia a presença de formas de vida próximas, todos falando nos fones e segurando armas ameaçadoras.
— Vossa Alteza Imperial — gritou um homem de cabelo grisalho, liderando uma equipe de quatro homens até Kai. — Estamos felizes em vê-lo, senhor. Permissão para conduzir uma avaliação de segurança?
Kai desceu da pedra e entregou o tablet para um dos policiais, que o colocou em um saco de evidências. Então, esticou os braços enquanto outro policial passava um escâner pelos membros dele.
— Está limpo. Bem-vindo de volta, Vossa Majestade.
— Obrigado. Onde está Konn…
Um estrondo fez cinco ou seis homens se virarem na direção da casa, gritando e apontando as armas para a porta que tinha se aberto.
Konn Torin saiu mais atormentado do que Kai já o tinha visto.
— Conselheiro real Konn Torin — gritou, levantando as mãos.
Ele olhou uma vez para as armas, depois olhou para Kai perto da beirada do platô. Os ombros murcharam de alívio e, assim que um dos policiais verificou o pulso dele e confirmou sua identidade, Torin fez uma coisa que nunca tinha feito antes.
Correu na direção de Kai e o abraçou.
O abraço foi tão rápido quanto inesperado, e Torin se afastou, segurou Kai com os braços esticados e o examinou. Kai ficou surpreso de ver que era um pouco mais alto do que Torin. Isso não podia ter acontecido nas últimas semanas. Talvez ele fosse mais alto havia meses e não tivesse reparado. Como conhecia Torin desde que era criança, era difícil mudar a percepção que tinha dele.
Cinder disse a ele que Torin a informou do segundo chip de Kai. Talvez ele fosse mais cheio de surpresas do que Kai lhe dava crédito.
— Seu rosto! — disse Torin. — O que fizeram com você? Ela me prometeu
— Eu estou bem — respondeu Kai, apertando o braço de Torin. — É só um hematoma. Não se preocupe.
— Não se preocupe…!
— Vossa Majestade — interrompeu o homem grisalho —, para evitar a atenção da mídia pode ser bom você voltar pelos subníveis do esconderijo. Vamos mandar uma equipe para escoltá-lo.
Kai olhou ao redor. Vários guardas do palácio surgiram para acompanhar os militares.
— Se eu soubesse que isso era uma opção, teria evitado essa confusão toda.
O policial não reagiu.
— Ah, certo. Obrigado pela meticulosidade. Vamos.
Torin o acompanhou junto com demais guardas pelas portas do porão.
— Nainsi vai ter chá pronto esperando você, e os chefs receberam a ordem de preparar um lanche para sua volta — disse Torin. — O secretário de imprensa está rascunhando uma declaração para a imprensa, mas você vai precisar ser informado da posição oficial do palácio sobre a falha de segurança e o sequestro antes de liberarmos qualquer coisa.
Kai teve que baixar a cabeça ao entrar no porão da casa. Estava arrumado, apesar de umas poucas teias de aranha nos cantos, e, quando eles seguiram para as passagens embaixo das montanhas, elas foram ficando mais claras e limpas.
— Qual é o estado do palácio? — perguntou Kai.
— Os soldados inimigos ainda não atravessaram os muros. Nossos analistas táticos acreditam que, se entrarem no palácio e descobrirem que não há pessoas para matar, vão redirecionar a atenção para outro lugar. Até agora, descobrimos que esses soldados não parecem interessados em destruição geral nem em roubo, só em matar.
— A não ser que Levana esteja usando o palácio para fazer uma declaração. Sugeriria que eles estão vencendo.
— É uma possibilidade.
Eles dobraram uma esquina, e, ao longe, Kai identificou atividade: falas e passos e o zumbido de máquinas. Sua equipe toda estava espremida naquele labirinto de salas e corredores. Ele quase desejou ter ficado no terraço.
— Torin, e as famílias de todas essas pessoas? Elas estão em segurança?
— Sim, senhor. Os familiares de todos os oficiais do governo foram realocados para o palácio quarenta e oito horas depois dos primeiros ataques. Estão todos aqui.
— E todas as pessoas que não são oficiais do governo? Os chefs? Os… os empregados?
— Infelizmente, não tínhamos espaço para todo mundo. Teríamos trazido a cidade inteira se pudéssemos.
As entranhas de Kai se contraíram. Ele teria levado o país todo com ele se pudesse.
— Claro — disse ele, se obrigando a não pensar nas coisas que não poderia mudar. — Eu tenho um escritório aqui? Preciso que Nainsi organize uma reunião. Esta tarde, se possível.
— Sim, Vossa Majestade. Também há aposentos particulares separados para a família real. Mandei prepará-los agora.
— Bem, eu sou um só e preciso apenas de um quarto. Podemos encontrar alguma coisa mais útil para fazer com os outros.
— Claro. Quem Nainsi deve chamar para a reunião?
Ele inspirou fundo.
— Minha noiva.
Torin reduziu a velocidade dos passos, e Kai achou que ele pararia, mas apenas empertigou os ombros e continuou andando pelo corredor. Um dos guardas à frente estava gritando: “Abram caminho! Abram caminho!”, enquanto funcionários e oficiais curiosos apareciam nas portas. Os boatos estavam se espalhando rápido e, quando Kai olhava nos olhos de quem via enquanto passava, enxergava alegria e alívio nos rostos das pessoas.
Ele engoliu em seco. Era estranho pensar em quanta gente estava preocupada com ele, não só as pessoas que via todos os dias, mas os cidadãos por toda a Comunidade, esperando para saber se os sequestradores iam devolver o imperador em segurança, sem ter ideia de que Linh Cinder era a última pessoa no mundo que lhe faria mal. Ele sentiu um pouco de culpa por ter apreciado o tempo que passou a bordo da Rampion.
— Vossa Majestade — disse Torin, baixando a voz ao alcançá-lo novamente —, devo aconselhá-lo a reconsiderar seu acordo com a rainha Levana. Deveríamos ao menos discutir o melhor caminho antes de tomarmos decisões precipitadas.
Kai deu uma olhada no conselheiro.
— Nosso governo está sendo conduzido de um enorme abrigo antibombas e tem mutantes lunares batendo nas portas do meu palácio. Não estou tomando decisões precipitadas. Estou fazendo o que tem que ser feito.
— O que as pessoas vão pensar quando souberem que você pretende ir adiante com um casamento com a mulher que é responsável por centenas de milhares de mortes?
— Milhões. Ela é responsável por milhões de mortes. Mas isso não muda nada. Nós ainda precisamos do antídoto dela para a letumose, e estou torcendo para que ela aceite os termos de um novo cessar-fogo quando confirmarmos os detalhes da aliança.
Um dos guardas indicou uma porta aberta.
— Seu escritório, Vossa Majestade.
— Obrigado. Eu gostaria de um momento de privacidade com Konn-dàren, mas, se uma androide chegar com chá, pode mandar entrar.
— Sim, senhor.
Ele entrou no escritório. Era menos luxuoso do que o escritório no palácio, mas não desconfortável. Sem janelas, a sala era preenchida por luz artificial, mas a cobertura de bambu nas paredes dava ao espaço um certo calor e ajudava a amortecer o som dos passos de Kai no piso de concreto. Uma mesa grande com um netscreen e seis cadeiras ocupavam o resto do espaço.
Kai congelou quando seus olhos pousaram na mesa, e começou a rir. No canto, havia um pequeno pé ciborgue todo sujo.
— Você está de brincadeira — disse ele, pegando o pé.
— Achei que estava se tornando um sinal de boa sorte — comentou Torin. — Se bem que, em retrospecto, não consigo imaginar o que me levou a pensar isso.
Sorrindo, Kai colocou o pé abandonado de Cinder no lugar.
— Vossa Majestade — continuou Torin —, o que você quis dizer quando falou que Levana já é responsável por milhões de mortes?
Kai se encostou na mesa.
— Nós achávamos que essa guerra tinha começado quando os soldados especiais dela atacaram aquelas primeiras quinze cidades, mas estávamos enganados. Essa guerra começou quando a letumose foi fabricada em um laboratório lunar e trazida para a Terra pela primeira vez. Todos esses anos, ela estava travando uma guerra biológica conosco, e nós nem tínhamos ideia.
Apesar de ser habilidoso em esconder as emoções, Torin não conseguiu esconder o horror crescente.
— Você tem certeza?
— Tenho. Ela queria nos enfraquecer, tanto em população quanto em recursos, antes de atacar. Também desconfio que a manobra de oferecer um antídoto como moeda de barganha tenha sido elaborada para criar uma dependência imediata de Luna… quando ela se tornasse imperatriz.
— E você não acha que isso muda nada? Você sabe que tudo foi uma estratégia para coagi-lo a entrar nessa aliança e ainda planeja ir em frente? Vossa Majestade, deve haver outro jeito. Alguma coisa que ainda não consideramos. — A expressão de Torin ficou tensa. — Devo informar que, na sua ausência, designamos uma equipe concentrada em criar uma nova classe de armas militares que vão penetrar até os biodomos de Luna.
Kai sustentou o olhar dele.
— Estamos construindo bombas.
— Estamos. É um processo lento. Nenhuma força militar da Terra constrói armas assim desde o final da Quarta Guerra Mundial, e há modificações únicas exigidas para enfraquecer Luna. Mas acreditamos que, com os recursos limitados de Luna e a dependência dos domos para protegê-los… o sucesso de algumas bombas poderia significar um fim rápido para a guerra.
Kai olhou para a mesa. Toda a população de Luna vivia embaixo de biodomos particularmente criados para oferecer uma atmosfera respirável, uma gravidade artificial e a capacidade de plantar árvores e lavoura. Destruir uma dessas barreiras protetoras mataria todo mundo lá dentro.
— Quanto tempo até essas armas ficarem prontas? — perguntou ele.
— Terminamos o primeiro protótipo e torcemos para ter a primeira leva pronta entre quatro e seis semanas. A frota de espaçonaves necessária para transportar essas armas está pronta.
Kai fez uma careta. Não queria dizer, mas desprezava a ideia de reduzir as cidades lunares a escombros. Ele já tinha começado a pensar em Luna como pertencente a Cinder, e não queria destruir o reino que poderia um dia ser dela. Mas, se pudesse terminar a guerra e proteger a Terra…
— Mantenha-me informado de qualquer desenvolvimento — disse ele. — E deixe a frota espacial pronta para partir a qualquer momento. Isso é um último recurso. Primeiro, vamos tentar chegar a uma solução pacífica. Infelizmente, isso começa acalmando Levana.
— Vossa Majestade, imploro para que você reconsidere. Nós não estamos perdendo essa guerra. Ainda não.
— Mas também não estamos ganhando. — Os lábios de Kai se retorceram. — E uma coisa mudou. Até agora, Levana está dando todas as cartas, mas, pela primeira vez, posso estar um passo à frente.
Semicerrando os olhos, Torin deu um passo para mais perto.
— Isso não é relacionado a uma aliança, é?
— Ah, eu realmente pretendo formar uma aliança com Luna. — Kai olhou para o pé ciborgue de novo. — Só pretendo botar uma rainha diferente no trono.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!