13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatorze

CINDER SEGUIU O PROGRESSO DA RAMPION NO VISOR DA RETINA E viu, sem fôlego, quando entraram na atmosfera da Terra sobre o norte da África e seguiram na direção de Farafrah, um pequeno oásis que já tinha sido posto de comércio para caravanas viajando entre as províncias da África central e o mar Mediterrâneo. Caíra na pobreza desde que a peste atacara, uma década antes, motivando as caravanas de comércio a se deslocarem para o leste.
Ela não saiu do lado de Lobo. Cuidou dos ferimentos da melhor forma que pôde, usando as ataduras e pomadas que o guarda jogou da parte superior da nave. Já tinha precisado trocar as ataduras uma vez, e mesmo assim o sangue continuava encharcando-as. O rosto dele estava pálido e grudento, os batimentos ficavam mais fracos, cada respiração era uma luta.
Por favor, por favor, que o dr. Erland esteja aqui.
Até o momento, pelo menos o guarda se mostrou de confiança. Voou direto e rápido, muito rápido, para o alívio de Cinder. Era um risco entrar na órbita da Terra, mas um risco necessário. Ela só esperava que esse oásis fosse o abrigo seguro que o doutor acreditava ser.
— Cinder — disse Iko —, o lunar está perguntando onde devemos pousar.
Ela tremeu. Já estava esperando a pergunta. Seria mais seguro e prudente pousar fora da cidade, no deserto implacável. Mas ela jamais conseguiria carregar Lobo, e eles não podiam se dar ao luxo de ser prudentes.
— Diga para ele pousar na rua principal. No mapa, parece que só tem uma espécie de praça da cidade. E diga para não se preocupar em ser furtivo.
Se eles não podiam se esconder, então ela atrairia o máximo de atenção possível.
Talvez, se eles fizessem um show, isso fizesse o dr. Erland sair de onde quer que estivesse escondido. Ela torcia para que os civis ficassem tão distraídos pela ousadia deles que não se dariam ao trabalho de alertar a polícia até ser tarde demais.
Não era um bom plano, mas não havia tempo para pensar em nada melhor.
A nave desceu. Normalmente, essa era a parte tranquila do pouso, quando a força do motor era trocada por levitação magnética, mas parecia que o guarda estava pretendendo fazer tudo manualmente.
Talvez a cidade fosse tão rural que não tivesse ruas magnéticas.
Por fim, a nave estalou com o impacto. Apesar de ser um pouso delicado, o choque ainda fez Cinder dar um pulo. Lobo gemeu.
Cinder se inclinou e aninhou o rosto dele em suas mãos.
— Lobo, vou buscar ajuda. Só fique conosco, tá? Aguente firme.
Ela ficou de pé e digitou o código da doca das naves de passeio.
A doca era uma visão e tanto: tinha sangue e destruição por toda parte. Mas ela passou pela nave que sobrou e tentou afastar tudo dos pensamentos.
— Iko, abrir porta.
Assim que a porta se abriu o bastante para Cinder conseguir passar, ela se agachou na beirada e pulou na rua.
Uma nuvem de poeira rodopiou ao seu redor quando os pés bateram no chão duro e seco. Os prédios à volta eram estruturas de um único andar feitas de pedra ou barro ou grandes tijolos bege. Algumas janelas tinham sido pintadas de azul ou rosa e desenhos enfeitavam as portas, mas as cores estavam desbotadas pelo sol e arranhadas pela areia impiedosa. A rua descia na direção de um lago de oásis algumas quadras à direita de Cinder, com os dois lados cheios de palmeiras vibrantes; eram árvores que pareciam vivas demais para uma cidade tomada de deserção. Algumas quadras à esquerda havia um muro de pedra com mais árvores e, depois dele, platôs avermelhados que desapareciam na névoa de areia.
Pessoas saíam das construções e de esquinas, civis de todas as idades, a maioria usando shorts e camisas leves para combater o calor do deserto, embora alguns poucos usassem túnicas mais fechadas para afastar o sol ardente. Muitos cobriam a boca e o nariz. Primeiro, Cinder pensou que estivessem se protegendo da peste, mas então percebeu que só estavam irritados pelo tanto de poeira que o pouso da nave levantara. A nuvem já se afastava na direção de uma das ruas laterais.
Cinder os observou em busca de um rosto enrugado e um boné cinza familiar. O dr. Erland era mais claro do que a maioria dos habitantes, embora os tons de pele variassem dos marrons mais escuros a bronzeados cor de mel. Mesmo assim, ela desconfiava que um homenzinho velho com olhos azuis intensos teria atraído um pouco de atenção nas últimas semanas.
Ela abriu as mãos para mostrar que não tinha armas e deu um passo na direção das pessoas. Sua mão ciborgue estava à vista, e os habitantes da cidade perceberam. Estavam todos olhando abertamente, embora ninguém tenha se afastado quando ela se aproximou.
— Me desculpem pela poeira — disse ela, indicando a nuvem. — Mas isso é uma emergência. Preciso encontrar uma pessoa. Um homem. É dessa altura, velho, usa óculos e chapéu. Algum de vocês...?
— Eu a vi primeiro! — gritou uma garota.
Ela saiu correndo do meio das pessoas, com os chinelos batendo na poeira, e agarrou o braço de Cinder. Assustada, Cinder tentou se soltar, mas a garota segurou com firmeza.
Logo havia dois garotos, com no máximo nove ou dez anos, saindo da multidão e discutindo sobre quem viu a nave surgir no céu, quem a viu pousar, quem viu a porta se abrir e quem viu a ciborgue primeiro.
— Afastem-se da srta. Linh, seus abutrezinhos gananciosos.
Cinder se virou.
O dr. Erland estava caminhando depressa na direção deles, embora ela quase não o tivesse reconhecido. Estava descalço e sem chapéu e usava um short cáqui e uma camisa listrada meio torta, como se tivesse errado uma casa de botão e o resto estivesse todo errado. O cabelo grisalho se eriçava por trás da careca como se ele tivesse acabado de ser eletrocutado.
Nada disso importava. Ela o tinha encontrado.
— Acho que vocês todos podem compartilhar o prêmio por terem encontrado a moça, embora o acordo fosse levá-la a mim, não me fazer vir até aqui nesse calor de núcleo do sol.
Ele tirou um saco de jujubas do bolso e balançou sobre a cabeça das crianças, obrigando-as a prometer dividir antes de entregar. Elas agarraram o doce e saíram correndo e gritando.
O resto das pessoas ficou onde estava.
O dr. Erland colocou as mãos nos quadris e olhou com irritação para Cinder.
— Você tem muita coisa a explicar. Por acaso sabe há quanto tempo eu espero você, vendo o...
— Preciso da sua ajuda! — disse ela, cambaleando na direção dele. — Meu amigo... ele está morrendo... precisa de um médico... não sei o que fazer.
Ele olhou com irritação, mas uma coisa chamou a sua atenção atrás de Cinder. O guarda lunar surgiu na porta da nave, sem camisa e coberto de sangue e fazendo esforço para sustentar o corpo de Lobo.
— O que... ele...
— É um guarda lunar — contou Cinder. — E Lobo é um dos soldados dela. É uma longa história e vou explicar tudo depois, mas você pode ajudá-lo? Ele levou dois tiros, perdeu muito sangue...
O dr. Erland ergueu uma sobrancelha. Cinder percebeu que ele não estava animado pelo tipo de companhia que ela trazia.
— Por favor.
Ele resmungou, fez sinal para alguns dos observadores e chamou alguns nomes. Três homens se adiantaram.
— Levem-no para o hotel — disse ele. — Delicadamente. — Com um suspiro, começou a ajeitar os botões da camisa. — Siga-me, srta. Linh. Você pode me ajudar a preparar os instrumentos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!