3 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quatorze

UMA LUZ VERMELHA ATRAVESSOU SUAS PÁLPEBRAS. ENTRANDO em pane, seu visor de retina enviava uma sequência de rabiscos em verde contra o fundo de suas pálpebras. Algo estava errado com a sua fiação. Seus dedos esquerdos se contraíam, pulsando descontroladamente.
— Acalme-se, srta. Linh. Você está perfeitamente bem. — Esta voz, calma e insensível, com seu sotaque estranho, foi seguida por uma muito mais nervosa.
— Perfeitamente bem? Você está louco? O que aconteceu com ela?
Cinder gemeu.
— Apenas um pequeno experimento. Ela vai ficar bem, Vossa Alteza. Viu? Ela já está acordando.
Soltou outro protesto engasgado antes que pudesse abrir os olhos. A brancura do laboratório cegou Cinder, exceto pelas duas sombras que a cortavam. Seus olhos focaram as formas ao olharem para o boné de lã e para os olhos azul-celeste do dr. Erland, e para o príncipe Kai e seus fios de cabelo preto despenteados sobre a testa.
Quando o visor de retina começou a executar o teste básico de diagnóstico pela segunda vez naquele dia, ela fechou os olhos novamente, um pouco preocupada que o príncipe Kai notasse a luz verde no fundo de sua pupila.
Pelo menos ela estava de luvas.
— Você está viva? — disse Kai, tirando o cabelo despenteado da testa dela.
Cinder sentiu os dedos quentes e úmidos contra sua pele, antes de perceber que ela é quem estava febril.
Isso não deveria ser possível. Ela não podia enrubescer, não podia ter febre. Não podia superaquecer.
O que o médico tinha feito nela?
— Ela bateu a cabeça? — perguntou Kai.
Os espasmos pararam. Cinder apertou as mãos contra o corpo num esforço instintivo de escondê-las.
— Ah, ela está bem — repetiu o dr. Erland. — Foi só um susto, mas não se machucou. Lamento, srta. Linh. Não sabia que você seria tão sensível.
— O que você fez? — disse ela, tomando cuidado para não embolar as palavras.
Kai passou o braço por baixo dela e a ajudou a se sentar. Cinder se encolheu contra ele e abaixou a perna da calça, caso o brilho do metal de sua canela estivesse aparecendo.
— Eu estava apenas ajustando sua coluna.
Cinder olhou para o médico, sem precisar da luz laranja para saber que ele estava mentindo, mas a luz apareceu mesmo assim.
— O que há de errado com a coluna dela? — A mão de Kai deslizou para sua lombar.
Cinder prendeu a respiração, um arrepio percorrendo sua pele. Ela temia que a dor voltasse, que o toque do príncipe de alguma forma anulasse seu sistema como o dr. Erland tinha feito, mas nada aconteceu, e em seguida Kai diminuiu a pressão do toque.
— Não há nada errado com ela — disse o dr. Erland. — Mas a região da coluna vertebral é o lugar em que muitos dos nossos nervos se reúnem antes de enviar mensagens ao cérebro.
Cinder mirou o dr. Erland com olhos ferozes. Ela já podia imaginar o quão rapidamente Kai se afastaria dela quando o médico lhe dissesse que ele estava apoiando um ciborgue.
— A srta. Linh estava se queixando de uma dor incômoda no pescoço… — Ela fechou a mão, apertando com força até que seus dedos começaram a doer. — … e então ajustei sua coluna. Chama-se quiropraxia, uma prática muito antiga que ainda é incrivelmente eficaz. Ela devia estar mais desalinhada do que pensei, por isso o súbito realinhamento das vértebras criou um choque temporário em seu sistema. — Ele sorriu para o príncipe, um olhar despreocupado.
A luz laranja persistiu.
Cinder ficou boquiaberta, esperando o médico continuar, parar com suas mentiras insanas e começar a contar ao príncipe todos os segredos dela. Ela era um ciborgue, era imune à peste e sua nova cobaia favorita.
Mas o dr. Erland não disse mais nada, apenas sorriu para ela com olhos brincalhões que a encheram de desconfiança.
Sentindo o olhar de Kai sobre si, Cinder virou-se para ele, querendo dar de ombros, como se a explicação do dr. Erland fizesse tanto sentido para ela quanto para ele, mas a intensidade do olhar do príncipe arrebatou suas palavras.
— Espero que ele esteja me dizendo a verdade, porque seria uma pena você morrer quando acabamos de ter o prazer de nos conhecer. — Seus olhos brilhavam, como se compartilhassem uma piada secreta, e ela forçou a risada mais falsa que já ouvira sair de seus lábios. — Você está bem? — disse ele, pegando a mão dela na sua, um braço ainda nas suas costas. — Consegue ficar de pé?
— Acho que sim.
Ele a ajudou a ficar de pé. Nenhum sinal da dor excruciante restava.
— Obrigada. — Ela se afastou dele, se limpando, apesar do chão do laboratório estar impecável. Sua coxa bateu na mesa de exame.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ele, deixando as mãos caírem e se movimentarem sem jeito por um segundo antes de encontrarem os bolsos.
Cinder abriu a boca, mas foi interrompida pelo pigarro do dr. Erland.
— Vocês dois se conhecem? — perguntou, suas sobrancelhas espessas desaparecendo sob o chapéu.
Kai respondeu:
— Nós nos conhecemos ontem. No mercado.
Cinder enfiou as mãos nos bolsos, imitando Kai, e descobriu a chave inglesa.
— Estou, hum, aqui… porque…
— Um dos medidroides estava dando problemas, Vossa Alteza — interrompeu o dr. Erland. — Eu pedi que ela viesse dar uma olhada. A oficina mecânica dela faz muito sucesso.
Kai começou a assentir, mas parou e estudou a sala.
— Qual medidroide?
— Não está mais aqui, é claro — disse o dr. Erland, sua voz alegre, como se mentir fosse uma brincadeira divertida. — Provavelmente está lá fora, retirando sangue de algum paciente.
— I-isso — disse Cinder, forçando a boca a não ficar aberta, como uma idiota. — Eu já consertei o droide. Novinho em folha. — Ela tirou a chave do bolso e girou-a entre os dedos como prova concreta.
Embora Kai parecesse confuso, ele assentiu como se não valesse a pena questionar a história. Cinder ficou grata pelo médico ter inventado uma história tão facilmente, mas isso também a deixou aflita. Que motivo ele teria para manter segredos do príncipe herdeiro, especialmente quando poderia estar próximo de um avanço na pesquisa da peste? Será que Kai não merecia saber disso? Todos não mereciam?
— Acho que você não teve chance de examinar Nainsi — disse Kai.
Cinder parou de girar a chave inglesa e segurou-a com as duas mãos para evitar que tremesse.
— Não, ainda não. Sinto muito. Tem sido… as últimas vinte e quatro horas…
Ele deu de ombros, com rigidez.
— Você provavelmente tem uma lista enorme de clientes. Eu não deveria contar com um tratamento especial. — Torceu os lábios. — Acho que mesmo assim vou esperar.
O coração de Cinder saltou quando o sorriso dele a pegou de surpresa, tão encantador e inesperado quanto tinha sido no mercado. Então seus olhos repararam no holograma atrás dele, ainda exibindo o seu funcionamento interno.
Das vértebras de metal a seus fios esmaltados e seus ovários perfeitamente intactos. Ela desviou o olhar de volta para Kai, seu pulso acelerado.
— Prometo dar uma olhada nela assim que puder. Antes do festival. Definitivamente.
Kai virou, seguindo seu olhar para o holograma. Cinder apertou os punhos, seus nervos se contorcendo no fundo do estômago, quando Kai se afastou da imagem. Uma garota. Uma máquina. Uma aberração.
Ela mordeu o lábio, resignando-se a nunca mais receber outro sorriso do príncipe, quando o dr. Erland aproximou-se do holograma e desligou a tela com um toque.
— Minhas desculpas, Vossa Alteza, sigilo do paciente. É de uma cobaia do recrutamento de hoje.
Outra mentira.
Cinder apertou a chave inglesa, partes iguais de gratidão e desconfiança crescendo dentro dela.
Kai deixou a surpresa de lado.
— É por isso mesmo que vim aqui. Eu queria saber se fez algum progresso.
— Difícil dizer neste momento, Vossa Alteza, mas talvez tenhamos encontrado uma pista promissora. Eu obviamente irei mantê-lo informado sobre quaisquer avanços. — Ele sorriu de modo inocente, primeiro para Kai, depois para Cinder.
O olhar era claro: ele não contaria nada a Kai.
Ela simplesmente não conseguia entender o porquê.
Limpando a garganta, Cinder se afastou em direção à saída.
— É melhor eu ir, deixá-lo voltar ao trabalho — disse, batendo a chave inglesa contra a palma da mão. — Acho que… hum… voltarei para garantir que o med está funcionando adequadamente. Digamos… amanhã?
— Perfeito — disse o médico. — Eu também tenho o seu número de ID, caso precise encontrá-la. — Seu sorriso tornou-se só um pouco sombrio, como se quisesse dizer que o status de “voluntária” de Cinder só duraria se ela voltasse por livre e espontânea vontade. Agora, ela era valiosa. Ele não tinha intenção de deixá-la ir embora para sempre.
— Eu acompanho você — disse o príncipe, passando o pulso no escâner. A porta abriu sem problemas.
Cinder ergueu as mãos enluvadas, apertando a chave inglesa.
— Não, não, obrigada. Eu consigo achar a saída.
— Tem certeza? Não é nenhum problema.
— Sim, tenho. Tenho certeza de que você tem coisas muito importantes… reais… governamentais… de pesquisas… para discutir. Mas obrigada. Vossa Alteza. — Ela tentou fazer uma reverência, contente que pelo menos desta vez estivesse com os dois pés bem presos.
— Tudo bem. Foi bom ver você de novo. Uma surpresa agradável.
Ela riu com ironia, surpresa pela expressão séria dele. Seus olhos calorosos mantinham-se sobre ela, um pouco curiosos.
— V-você também. — Ela saiu. Sorrindo. Tremendo. Rezando para que não tivesse manchas de graxa no rosto. — Eu aviso, então. Quando o seu androide estiver pronto.
— Obrigado, Linh-mèi.
— Pode me chamar de Cin… — A porta se fechou entre eles. — … der. Cinder. Seria ótimo. Vossa Alteza. — Ela se apoiou contra a parede do corredor, batendo os nós dos dedos na testa. — Eu aviso. Você pode me chamar de Cinder — imitou, e em seguida mordeu o lábio. — Não ligue para a menina balbuciante.
Ele era o sonho de todas as garotas no país. Estava tão longe de seu alcance, de seu mundo, que ela deveria ter parado de pensar nele no instante em que a porta se fechou. Devia parar de pensar nele imediatamente. Nunca deveria pensar nele de novo, exceto talvez como cliente — e seu príncipe.
E, no entanto, a lembrança dos dedos dele em sua pele se recusou a desaparecer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!