20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta

Cinder enfiou o dedo dobrado na boca e o mordeu com força para não gritar. Ela sentiu os olhares dos companheiros, mas não ousou encará-los.
— Você não pode ir lá para fora. — O sussurro de Scarlet foi ríspido, sem dúvida porque viu a indecisão no rosto de Cinder.
— Não posso deixar que morram por mim — respondeu ela.
Uma certa mão a segurou e a puxou para longe da janela. Lobo olhou com irritação para ela. O doce e feroz Lobo, cuja mãe estava lá embaixo, com eles.
Ela até esperava que ele a entregasse, mas ele só segurou os ombros de Cinder e apertou com firmeza.
— Ninguém vai morrer por você. Se alguém morrer hoje, vai ser porque finalmente tem alguma coisa em que acreditar. Nem pense em tirar isso deles.
— Mas não posso…
— Cinder, controle-se — disse Thorne. — Você é o coração dessa revolução. Caso se entregue agora, acabou. E quer saber? Ela provavelmente vai matar todas aquelas pessoas de qualquer jeito, só para garantir que isso não volte a acontecer.
Um tiro a fez dar um gritinho. Lobo colocou a mão em cima da boca de Cinder, mas ela se soltou e correu para a janela.
Pontos brancos surgiram em sua visão. Em seguida, vermelhos, quando a fúria a cegou. Na praça abaixo, o corpo de um homem estava caído aos pés de Aimery, sangue espalhado no chão. Cinder não sabia quem era, mas não importava. Alguém estava morto.
Alguém estava morto por causa dela.
Aimery observou os rostos abalados dos mais próximos com um sorriso agradável.
— Vou perguntar de novo. Onde está Linh Cinder?
Todos mantiveram os olhares grudados no chão. Ninguém olhou para Aimery. Ninguém olhou para a poça crescente de sangue. Ninguém falou.
Dentro da cabeça, Cinder estava gritando. O tiro ainda ecoava em seu crânio, sua interface de áudio o repetia sem parar. Ela apertou as mãos nos ouvidos, tremendo, furiosa.
Ela mataria Aimery. Ela o destruiria.
Um corpo se encostou nela por trás. Scarlet abraçou Cinder e escondeu o rosto na curva do pescoço dela. Para segurá-la e também para consolá-la.
Ela não se afastou, mas não se sentiu consolada.
Abaixo, Aimery fez sinal para uma mulher sete fileiras atrás, uma escolha estrategicamente aleatória que garantiria que ninguém se sentiria seguro. Mais um tiro foi disparado por um dos guardas. A mulher tremeu e caiu em cima da pessoa ao lado.
Um tremor percorreu a multidão.
Cinder chorou. Scarlet a abraçou com mais força.
Por quanto tempo isso se prolongaria? Quantos ele mataria? Quanto tempo ela aguentaria ficar ali esperando sem fazer nada?
— Basta uma pessoa me dizer o paradeiro dela para isto acabar — disse Aimery. — Vamos deixar vocês seguirem suas vidas pacíficas.
Cinder sentiu uma umidade no pescoço. Scarlet estava chorando, tremendo tanto quanto ela. Mas seus braços não afrouxaram.
Ela queria afastar o olhar, mas se obrigou a não fazer isso. A coragem das pessoas a deixou ao mesmo tempo sem palavras e horrorizada. Ela se viu querendo que alguém a traísse para que aquilo terminasse. Para que a escolha não fosse mais dela.
Thorne segurou a mão dela e apertou. Lobo formou uma barreira do outro lado, os três agindo ao mesmo tempo como carcereiros e botes salva-vidas. Ela sabia que eles compartilhavam do horror, mas nenhum deles era capaz de entender a responsabilidade que ela sentia a corroê-la por dentro. Aquelas pessoas acreditavam que ela lutaria com elas, que lhes daria o futuro melhor que ela prometeu.
Importava o fato de estarem dispostas a morrer pela causa dela? Importava que sacrificariam as próprias vidas para ela ter sucesso?
Ela não sabia.
Ela não sabia.
Só via pontos brilhantes. Só ouvia tiros latejando pela cabeça.
Aimery apontou para outra vítima, e os joelhos de Cinder ficaram fracos. Era o garotinho que ficou tão encantado por Iko.
Cinder inspirou, preparada para gritar, para acabar com aquilo, para berrar
— Não!
Aimery levantou a mão.
— Quem falou isso?
Uma garota algumas fileiras atrás do garoto começou a gritar histericamente.
— Não, por favor. Por favor, o deixem em paz. — Ela era mais ou menos da idade de Cinder. Irmã, supôs.
Uma nova tensão se espalhou pela multidão. Algumas pessoas por perto lançaram à garota olhares traídos, mas Cinder sabia que não era justo. Aquela garota não conhecia Cinder. Por que deveria protegê-la e não a uma pessoa que ela amava?
Aimery levantou a sobrancelha.
— Você está preparada para revelar o paradeiro da ciborgue?
— Maha Kesley — gaguejou a garota. — A ciborgue estava sendo abrigada por Maha Kesley.
Com um estalo dos dedos de Aimery, o guarda que estava ameaçando o garoto baixou a arma.
— Onde está essa Maha Kesley?
Maha se levantou antes que alguém fosse obrigado a traí-la, um pilar no meio da multidão ajoelhada.
— Estou aqui.
Lobo inspirou, tremendo.
— Venha para a frente — disse Aimery.
Os ombros magros de Maha estavam empertigados enquanto ela caminhava entre os amigos e vizinhos. Uma mudança aconteceu no pouco tempo que se passou desde que Cinder a conheceu. Naquele primeiro dia, ela pareceu derrotada, com ombros pesados, medo. A mulher que se posicionou com desafio em frente ao taumaturgo-chefe da rainha era uma pessoa nova.
O que fez Cinder ficar ainda mais apavorada por ela.
— Qual é o número da sua residência? — perguntou Aimery.
Maha respondeu com voz firme.
Aimery fez um gesto para o capitão da guarda e para uma taumaturga. Eles saíram andando e fizeram sinal para mais um guarda se juntar aos dois a caminho da casa de Maha.
A atenção de Aimery voltou para Maha.
— Você estava abrigando a ciborgue Linh Cinder?
— Não conheço esse nome — disse Maha. — A ciborgue que eu conheço se chama princesa Selene Blackburn, e é a verdadeira rainha de Luna.
A multidão se agitou. Queixos foram erguidos. Ombros se empertigaram. Se alguém tinha esquecido por que estava arriscando a vida por uma estranha, a declaração de Maha lembrou a todos.
Aimery deu um sorrisinho. O sangue de Cinder gelou.
Enquanto ela olhava, Maha levantou as mãos acima da cabeça para que todos vissem. Em seguida, segurou o polegar direito e o puxou para trás, com força.
Cinder ouviu o estalo mesmo dali, seguido do grito de Maha. Ela não sabia se Aimery a tinha obrigado a quebrar o próprio polegar ou só a deslocá-lo, mas não se importava. Ela tomou uma decisão.
Num segundo, ela entrou na mente dos amigos e os obrigou a se afastarem dela. Cinder se virou. Scarlet, Thorne e Lobo olharam para ela, consternados.
Lobo se recuperou primeiro.
— Cinder, não…
— A revolução é do povo agora, não minha. Lobo, você vem comigo. Vou manter sua mente sob controle, mas não seu corpo, como fizemos em Artemísia. Thorne, Scarlet, fiquem aqui e mirem em Aimery e nos outros taumaturgos, mas só atirem se tiverem mira direta, senão só vão entregar sua localização.
— Cinder, não — sibilou Scarlet, mas Cinder já estava deixando ela e Thorne para trás, obrigando Lobo a segui-la.
Ele rosnou.
— Eu tenho que fazer isso, Lobo — disse ela enquanto eles desciam a escada até o segundo patamar. Lá fora, abafado pelas paredes grossas, ela ouviu outro grito de dor de Maha. — Não posso não fazer nada.
— Ele vai matar você.
— Não se o matarmos primeiro. — Ela correu pelo último lance de escadas e se preparou. Verificou se estava mesmo controlando a bioeletricidade de Lobo, para que nenhum taumaturgo pudesse tomá-lo, e abriu a porta da fábrica. Um terceiro grito de Maha pareceu uma facada no peito de Cinder. Uma olhada deixou claro que os primeiros três dedos de Maha estavam quebrados em ângulos horrendos. Lágrimas cobriam o rosto tomado de dor.
— Estou aqui — gritou Cinder. — Vocês me encontraram. Deixem-na em paz.
Em um movimento uniforme, todos os guardas se viraram, voltando as armas para Cinder. Ela inspirou, preparada para levar uma saraivada de balas, mas ninguém disparou.
Do outro lado do mar de trabalhadores prostrados, Aimery sorriu.
— Então a impostora finalmente nos agracia com sua presença.
Ela apertou os punhos e começou a andar na direção dele. As armas a acompanharam.
Lobo também, com sua energia estalando.
— Você sabe muito bem que minhas reivindicações são verdadeiras — disse ela. — É o único motivo para Levana estar tão determinada a me matar.
Ela esticou o pensamento para as pessoas ao redor, mas nenhuma das mentes estava disponível. Já esperava por isso.
Ela tinha um assassino treinado ao lado e dois atiradores talentosos a cobrindo. Teria que bastar.
Ela chegou à primeira fileira de civis.
— Vocês vieram aqui me buscar, e eu estou aqui. Deixem essas pessoas em paz.
Aimery inclinou a cabeça. Avaliou Cinder com o olhar, da cabeça aos pés e de volta à cabeça, fazendo-a se sentir uma presa fácil. Ela sabia a aparência que tinha com as roupas simples, a mão de metal e as botas pesadas, o rabo de cavalo desgrenhado e provavelmente um monte de poeira espalhado no rosto. Ela sabia que não parecia uma rainha.
— Imagine como isso poderia ter sido diferente se você tivesse escolhido tomar as mentes dessas pessoas antes da nossa chegada — disse ele, descendo da beirada da fonte. — Mas você as deixou à deriva no oceano das fraquezas delas. Você as transformou em alvo e não fez nada para protegê-las. Você não é adequada para ser governante de Luna.
— Porque prefiro que meu povo conheça a liberdade no lugar da manipulação constante?
— Porque você não é capaz de tomar as decisões que uma rainha precisa tomar para o bem de todo o povo.
Ela trincou os dentes.
— As únicas pessoas que se beneficiaram do regime de Levana foram os aristocratas gananciosos de Artemísia. Levana não é rainha. É tirana.
Aimery baixou a cabeça, quase como se estivesse concordando.
— E você não é ninguém — sussurrou ele.
— Eu sou a verdadeira governante de Luna.
Embora ela tivesse colocado o máximo de convicção nas palavras, elas saíram secas. Em momentos, a chegada do taumaturgo-chefe da rainha desfez todo o progresso conquistado naquele setor. Com um estalo de dedos, Aimery tirou todo o poder dela e prostrou o povo à sua frente.
— Você é uma criança brincando de jogos de guerra — declarou Aimery. — E é ingênua demais para perceber que já perdeu.
— Estou me rendendo a você — disse ela. — E se isso quer dizer que preciso perder para essas pessoas ficarem em liberdade, que seja. O que você não parece perceber é que o problema aqui não sou eu. São as pessoas que viveram em opressão por tempo demais. O reinado de Levana está chegando ao fim.
O sorriso de Aimery cresceu. Atrás dele, o chafariz jorrava e borrifava água.
A energia de Lobo cresceu atrás dela, com os pelos eriçados.
Aimery abriu os braços para a multidão.
— Que fique sabido que, neste dia, a princesa impostora se rendeu à Sua Majestade, a rainha. Os crimes dela serão julgados de forma rápida e justa. — Os olhos dele brilharam. — No entanto, prometi que suas vidas seriam poupadas se algum de vocês revelasse a localização da ciborgue. — Ele estalou a língua. — É uma pena ninguém ter se adiantado antes. Não gosto de ficar esperando.
Um tiro foi disparado. Uma onda de choque pulsou pelo corpo de Cinder.
Ela não sabia de onde tinha vindo. Viu sangue, mas não sabia quem foi atingido. Então, as pernas de Maha falharam e ela caiu de cara no chão. Os três dedos deformados ficaram esticados acima da cabeça.
Ainda tonta com o abalo do tiro, Cinder ficou olhando para o corpo de Maha, sem conseguir respirar. Sem conseguir se mexer.
Ela ouviu Lobo inspirar. A energia dele se cristalizou em uma coisa imóvel e frágil.
O mundo parou e se equilibrou na ponta de uma agulha. Silencioso. Incompreensível.
Outra arma disparou, esse tiro vindo de bem mais longe, e o barulho tirou o mundo de seu eixo. Aimery gemeu e cambaleou para trás quando um ponto em sua coxa se encheu de sangue. O olhar se virou para a fábrica. Outro tiro acertou o chafariz atrás dele.
Lobo rugiu e deu um pulo. O guarda mais próximo bloqueou o caminho, mas foi lento demais no disparo. Lobo o jogou longe como se fosse um mosquito irritante, e correu para Aimery com os dentes à mostra.
Uma cacofonia de barulho e corpos explodiu. Todos os cidadãos que deveriam estar do lado de Cinder se levantaram e foram para cima dela e de Lobo. O corpo de Cinder foi derrubado no chão. Ela perdeu Lobo de vista. Houve mais disparos.
Depois de dar um soco no maxilar de alguém, ela rolou uma vez e se levantou. Cinder viu um casaco vermelho, levantou a mão e disparou. Esperou o bastante para ver o taumaturgo cambalear e procurou outro alvo, mas não conseguiu dar outro disparo porque dezenas de mãos a seguraram, puxaram, empurraram para o chão.
Cinder se debateu para se soltar, soprando um cacho de cabelo do rosto. Ela viu Lobo. Ele também estava sendo segurado no chão, embora fossem necessários mais de dez homens para isso. Todos os membros estavam seguros, a bochecha encostada na poeira.
Os corpos de dois guardas e uma mineira estavam caídos não muito longe.
Aimery estava de pé ao lado dele, ofegando, sem o sorriso constante no rosto. Uma das mãos apertava o ferimento na perna.
— Os disparos estão vindo daquela fábrica. Enviem uma equipe para procurar, e prendam esses dois antes que tentem qualquer coisa.
Cinder lutou contra as mãos que a seguravam. Se pudesse levantar o braço, dar um disparo direto…
Os braços foram movidos para trás e os pulsos amarrados. Ela gritou quando o ombro foi puxado quase a ponto de se deslocar. Cinder foi colocada de pé, engasgada com poeira, o corpo todo latejando.
Ela olhou ao redor em busca de um aliado, mas só rostos vazios a observavam. Cinder sorriu com escárnio e desafio quando ela e Lobo foram obrigados a se ajoelhar na frente do rosto lívido de Aimery. Ela estava tonta com o ódio que sentia, mas, quando seus pensamentos se acalmaram, foi atingida com força total pelo sofrimento de Lobo ao seu lado.
Ele estava em agonia, com as emoções fragilizadas, e Cinder lembrou que o corpo da mineira ao lado era da mãe dele.
Cinder tremeu e teve que afastar o olhar. Ela viu que o taumaturgo de casaco vermelho em quem atirou estava imóvel e que outro, de uniforme preto, estava caído não muito longe.
Aquilo era tudo. Dois taumaturgos e dois guardas mortos, Aimery ferido. Foi tudo o que ela conseguiu pelo preço do sacrifício de Maha e as mortes corajosas de dois outros civis inocentes.
Cinder estava com mais raiva do que medo, alimentando-se da dor de Lobo e do horror das expressões vazias ao redor, todas aquelas pessoas usadas como marionetes.
Ela acreditava no que tinha dito antes. Levana poderia matá-la, mas Cinder tinha que acreditar que sua morte não seria o fim. Aquela revolução não pertencia mais a ela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!