13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta

CINDER ESTAVA SEGURANDO O CABELO COM AS MÃOS E OLHANDO a planta do palácio na tela em frente. Tinha passado o dia olhando para aquilo, mas o cérebro ficava dando voltas.
— Tudo bem. E se... se o doutor e eu conseguíssemos convites e entrássemos como convidados... e aí Jacin poderia criar uma distração... ou, não, se você criasse uma distração e Jacin fosse como um dos funcionários... mas o doutor é tão conhecido. Talvez Jacin e eu pudéssemos entrar como convidados e o doutor... mas aí como nós... ugh. — Ela jogou a cabeça para trás e olhou com raiva para o teto de metal da nave, com fios e dutos de ar entrecruzados. — Acho que posso estar complicando demais tudo isso. Talvez eu devesse ir sozinha.
— Sim, porque você não é nada reconhecível — disse Iko, pontuando a declaração inserindo a foto de Cinder da prisão no canto da planta.
Cinder gemeu. Isso nunca ia dar certo.
— Ah! Cinder!
Ela levou um susto.
— O quê?
— Isso acabou de aparecer no noticiário local.
Iko tirou a planta da tela e substituiu por um mapa do deserto do Saara. Um jornalista estava falando no fundo, e, enquanto elas assistiam, um círculo foi desenhado em algumas cidades próximas, com linhas e setas ligando-as. Uma legenda dizia: CRIMINOSO PROCURADO CARSWELL THORNE VISTO EM CIDADE MERCADORA DO SAARA. FUGIU DA CAPTURA. Conforme o jornalista prosseguiu falando, a foto de Thorne da prisão surgiu na tela, seguida das palavras luminosas e em negrito: ARMADO E PERIGOSO. COMUNIQUE AS AUTORIDADES IMEDIATAMENTE SE TIVER INFORMAÇÕES.
O estômago de Cinder deu um nó, primeiro de remorso e depois de pânico.
Era alarme falso. Thorne... Thorne estava morto. Alguém devia ter visto um sósia e tirado conclusões. Não era a primeira vez. De acordo com a imprensa, Cinder tinha sido vista várias vezes em todos os países da Terra, às vezes em vários locais ao mesmo tempo.
Mas isso não importava. Se as pessoas acreditavam que tinham visto a pessoa de verdade, eles viriam. Os guardas. Os militares. Caçadores de recompensas.
O deserto estava prestes a ser invadido por pessoas os procurando, e a Rampion ainda permanecia parada, óbvia e enorme, no meio de uma pequena cidade oásis.
— Não podemos ficar aqui — disse, colocando as botas. — Vou buscar os outros. Iko, passe o diagnóstico do sistema. Certifique-se de estarmos prontos para viagem espacial de novo.
Cinder desceu pela rampa antes de Iko responder e foi correndo até o hotel. Esperava que não demorasse para o doutor fazer as malas, e Lobo...
Ela torcia para os ferimentos dele terem cicatrizado o bastante para não haver problema em deslocá-lo. O doutor tinha começado a diminuir as doses. Será que seria seguro acordá-lo?
Quando contornou a esquina do hotel, viu uma garota encostada em um veículo elétrico; o carro era velho o suficiente para ser surrado e maltratado, mas não o bastante para ter qualquer apelo vintage. Por outro lado, a garota devia estar no fim da adolescência e era linda, com pele marrom-clara e tranças pintadas em tons de azul.
Cinder diminuiu a velocidade e se preparou para lutar. Não reconheceu a garota como alguém da cidade, e algo parecia errado nela, embora não identificasse o quê. Seria caçadora de recompensas? Detetive disfarçada?
A expressão da garota permaneceu vazia e entediada quando Cinder se aproximou.
Nenhuma expressão de reconhecimento. Isso era bom.
Mas aí ela sorriu e enrolou uma das tranças sedosas no dedo.
— Linh Cinder. É um prazer. Meu mestre falou tão bem de você.
Cinder fez uma pausa e a observou de novo.
— Quem é você?
— Me chamo Darla. Sou a amante do capitão Thorne.
Cinder piscou, sem entender.
— Como?
— Ele me pediu para ficar tomando conta do veículo — disse ela. — Ele acabou de entrar para ser heroico. Tenho certeza de que vai ficar feliz de saber que você está aqui. Acho que acredita que você está em algum lugar do espaço.
Cinder olhou para a garota e para o hotel. Quando pareceu que a garota não tinha intenção nenhuma de pegar uma arma nem algemas e nem de deixar a posição ao lado do carro, Cinder abriu a porta. Correu escada acima com as palavras da garota girando na mente. Era brincadeira, armadilha ou truque. Não era possível que ela estivesse... que Thorne estivesse...
Seu pé bateu no patamar com tanta força que ela quase ficou surpresa de não ter quebrado o piso. Ao se virar para o corredor, viu Jacin em frente ao quarto de Lobo com os braços cruzados.
— Jacin... tem uma garota lá embaixo... ela disse... ela...
Ele deu de ombros e indicou o quarto.
— Veja você mesma.
Usando a parede como apoio, Cinder se juntou a ele em frente à porta.
O dr. Erland estava lá com um hematoma enorme no queixo.
E Lobo estava acordado.
E... estrelas do céu.
Ele estava imundo. As roupas, rasgadas e cobertas de sujeira, e o cabelo estava tão desgrenhado quanto no dia em que o conheceu na cela da prisão. O rosto estava machucado, a barba por fazer ocupava o queixo, e ele usava, absurdamente, uma bandana vermelha sobre os olhos.
Mas estava sorrindo e com o braço ao redor da cintura de uma loura baixinha, e não havia dúvida de que era ele.
Cinder demorou alguns segundos para encontrar a voz e precisou segurar na moldura da porta para ficar de pé.
— Thorne?
Ele virou a cabeça.
— Cinder?
— O q... que você... como? Onde você estava? O que está acontecendo? Por que você está usando essa bandana horrível?
Ele riu. Pegou a bengala de madeira e cambaleou na direção dela, balançando a mão até encostar no ombro. Logo ele a estava abraçando, sufocando contra o peito.
— Também senti saudade.
— Seu imbecil — sussurrou ela, mas retribuindo o abraço. — Pensamos que você estivesse morto!
— Ah, por favor. Seria preciso muito mais do que um satélite que cai na Terra para me matar. Mas admito que Cress pode ter nos salvado dessa vez.
Cinder o empurrou.
— Qual é o problema com seus olhos?
— Estou cego. É uma longa história.
A língua dela hesitou com todas as perguntas lutando para sair, e ela finalmente elaborou uma:
— Quando você conseguiu tempo para arrumar uma amante?
O sorriso dele oscilou.
— Não fale de Cress assim.
— O quê?
— Ah... espere! Você está falando de Darla. Eu a ganhei em um jogo de cartas.
Cinder olhou para ele com assombro.
— Achei que ela seria um bom presente para Iko.
— Você... o quê?
— Como corpo substituto?
— Hum.
— Porque Darla é uma androide-acompanhante.
A compreensão foi lenta e gradual. Uma androide-acompanhante. Isso explicaria a simetria perfeita da garota e os cílios ridiculamente longos. E o fato de a presença parecer desligada, porque não havia bioeletricidade sendo emitida por ela.
— Sinceramente, Cinder, quem escuta você pensaria que sou um paquerador convicto. — Balançando-se nos calcanhares, Thorne indicou a garota loura. — Aliás, você se lembra de Cress?
A garota deu um sorriso desconfortável. Só nesse momento, Cinder a reconheceu, com bochechas queimadas de sol e descascando e o cabelo cortado curto e irregular.
— Oi — disse Cinder, apesar de a garota ter se escondido depressa atrás de Thorne e olhado com nervosismo para todas as pessoas no quarto.
Cinder limpou a garganta.
— E, Lobo, você está acordado. Isso é... eu... er, escute, Thorne. Você foi visto em uma cidade próxima. Já estão montando equipes de busca. Essa área toda vai ficar lotada de pessoas nos procurando. — Ela olhou para o doutor. — Nós precisamos sair daqui. Já.
— Cinder?
Ela ficou tensa. A voz de Lobo estava rouca e desesperada. Ela ousou olhar nos olhos dele. A testa, molhada de suor, as pupilas, dilatadas.
— Eu tive um sonho em que você dizia... você me contava que Scarlet...
Cinder engoliu em seco e desejou poder evitar o inevitável.
— Lobo...
Ele ficou pálido ao ver no rosto dela antes mesmo de ela falar.
— Não foi sonho — murmurou ela. — Ela foi levada.
— Espere, o quê? — Thorne inclinou a cabeça. — O que aconteceu?
— Scarlet foi levada pela taumaturga depois que fomos atacados.
Thorne falou um palavrão. Lobo se apoiou na parede com expressão vazia. O silêncio dominou o quarto, até que Cinder se obrigou a ficar mais ereta, a ser otimista, a não perder a esperança.
— Acreditamos que tenha sido levada para Luna — disse —, e tenho uma ideia. De como podemos chegar a Luna sem sermos vistos e como podemos encontrá-la e salvá-la. E, agora que estamos todos juntos de novo, acredito que pode dar certo. Vocês só precisam confiar em mim. E, neste momento, não podemos ficar aqui. Temos que ir embora.
— Ela está morta — sussurrou Lobo. — Eu falhei com ela.
— Lobo. Ela não está morta. Você não sabe.
— Nem você.
Ele se encolheu e afundou o rosto nas mãos. Os ombros começaram a tremer, e foi como antes. A forma como a sua energia escureceu e ficou densa ao redor dele. A forma como ele pareceu vazio, ausente.
Cinder deu um passo na direção dele.
— Ela não está morta. Eles vão querer ficar com ela como... como isca. Para terem informações. Não a matariam, simplesmente. Então ainda há tempo, há tempo para...
A raiva dele se acendeu como uma explosão. Em um momento, não havia nada. Em seguida, uma fagulha, e, de repente, ele estava fervendo, irado e furioso.
Ele esticou as mãos para Cinder, virou-se e prendeu-a contra a parede com tanta força que a tela tremeu e ameaçou cair no chão. Cinder ofegou e apertou o pulso de Lobo com as mãos enquanto ele a mantinha suspensa pelo pescoço, com os pés longe do chão. Os avisos no display da retina dela foram instantâneos: aumento na pulsação e na adrenalina e na temperatura e respiração irregular e...
— Você acha que eu quero isso? — rosnou ele. — Que eles tenham ficado com ela viva? Você não sabe o que vão fazer com ela... mas eu sei. — Em outro momento, a fúria sumiu e foi afundada embaixo do terror e da infelicidade. — Scarlet...
Ele a soltou, e Cinder caiu no chão, massageando o pescoço. Em meio ao tumulto em seus pensamentos, ela ouviu Lobo se virar e sair correndo, com os passos estalando no chão, até o quarto do dr. Erland.
Quando pararam, houve um silêncio curto que ocupou todo o hotel. E então, um uivo.
Um uivo horrível, doloroso e sofrido, que penetrou nos ossos de Cinder e fez seu estômago revirar.
— Maravilha — comentou o dr. Erland. — Fico feliz de ver que você estava bem mais preparada dessa vez.
Sibilando de dor, Cinder usou a parede para se apoiar e se levantar, e olhou ao redor para seus amigos, seus aliados. Cress ainda se escondia atrás de Thorne, os olhos arregalados de choque. Jacin estava com os dedos no cabo da faca. O dr. Erland, com o cabelo grisalho desgrenhado e os óculos na ponta do nariz, não podia parecer menos impressionado.
— É melhor vocês irem — disse ela. Sua garganta ardia. — Carreguem a nave. Cuidem para que Iko esteja pronta para partir.
Outro uivo longo de partir o coração fez o hotel tremer, e Cinder se preparou da melhor forma que pôde.
— Vou buscar Lobo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!