7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta

RAN FICOU DE PÉ, E ELE E LOBO SE SEPARARAM, CADA UM LUTANDO contra a energia acumulada. Scarlet quase conseguia vê-la fervendo e borbulhando sob a pele deles. Lobo estava coberto de cortes e sangue, mas não parecia se importar e permaneceu um pouco curvado, flexionando as mãos.
Ran mostrou os dentes.
— Volte ao seu posto, Ran — disse Lobo com um rosnado. — Essa é minha.
Ran riu com deboche e nojo.
— E deixar você me constranger... constranger nossa família... com toda a sua recém-descoberta solidariedade? Você é uma desgraça. — Ele cuspiu uma bola de sangue no concreto quebrado. — Nossa missão é matar. Agora afaste-se para eu poder matá-la, se não está disposto a fazer isso você mesmo.
Scarlet olhou para trás. A escada era baixa o bastante para ela conseguir subir por cima do corrimão, mas seu corpo doía só de pensar. Tentou afastar a inutilidade e lutou para rastejar até a beira do chafariz.
— Ela é minha — repetiu Lobo, com a voz vibrando em um rosnado baixo.
— Não quero lutar com você por causa de uma humana, irmão — disse Ran, embora o ódio em seu rosto fizesse o termo parecer uma piada.
— Então, deixe-a em paz.
— Ela foi deixada sob meus cuidados. Você não devia ter abandonado seu posto para vir atrás dela.
— Ela é minha! — A raiva de Lobo aumentou, e ele puxou o candelabro mais próximo, arrancando-o da parede. Scarlet se abaixou quando o metal caiu no chão, espalhando velas pela bacia do chafariz.
Os dois permaneceram em posição de ataque. Ofegando. Olhando com raiva.
Por fim, Ran rosnou:
— Então você fez sua escolha.
Ele atacou.
Lobo o derrubou com a mão aberta, empurrando-o na lateral do chafariz.
Ran caiu com um gemido, mas logo rolou e ficou de pé. Lobo atacou e afundou os dentes no antebraço do irmão.
Com um grito de dor, Ran passou as unhas afiadas pelo peito de Lobo, deixando marcas vermelhas. Lobo abriu a boca e deu um tapa na sua cara, que o fez voar na estátua do chafariz.
Scarlet gritou e cambaleou para trás, até bater em uma coluna na base da escada.
Ran atacou de novo, e Lobo, já esperando o golpe, o segurou pelo pescoço e usou o impulso para jogá-lo por cima da cabeça. Ran rolou graciosamente e se levantou. Os dois estavam ofegantes, com sangue escorrendo pelas roupas rasgadas. Andaram de um lado para o outro, esperando, procurando fraquezas de seu oponente.
Mais uma vez, Ran atacou primeiro. Jogou todo o peso em Lobo, prendendo-o no chão. Seu maxilar foi na direção do pescoço, se fechando, mas Lobo o afastou, com as mãos ao redor do seu pescoço. Gemeu sob o peso de Ran, lutando para evitar as presas que se aproximavam, quando levou um soco no ombro, bem no ferimento de bala da arma de Scarlet.
Uivando, Lobo encolheu as pernas para pegar impulso e empurrou Ran para longe com um chute na barriga.
Ran rolou para o lado e os dois ficaram de pé. Scarlet conseguia ver a energia se dissolvendo quando se levantaram, cambaleantes, com olhares assassinos. Nenhum dos dois se moveu para proteger os ferimentos.
Ran passou o braço pela boca, manchando o queixo de sangue.
Lobo se agachou e pulou, empurrou Ran para trás e caiu em cima dele. Uma garra o atacou. Lobo desviou, e Ran acertou sua orelha.
Apertando o oponente no piso de mármore, Lobo ergueu o rosto para o teto e uivou.
Scarlet pressionou as costas à coluna, apavorada. O uivo ressoou pelas paredes, pelo crânio e pelas juntas dela, preenchendo cada espaço vazio em seu corpo.
Quando parou de uivar, Lobo se agachou e fechou os dentes na garganta de Ran.
Scarlet se escondeu atrás dos braços, mas não conseguiu deixar de olhar. O sangue borbulhou, cobrindo o queixo e o pescoço de Lobo, pingando no mosaico do chão.
Ran tremeu e se debateu, mas logo parou de lutar. Um momento depois, Lobo o soltou, deixando o corpo morto cair no chão.
Esticando a mão além da coluna, Scarlet segurou o corrimão e se levantou. Correu e mancou pelos degraus.
O saguão ainda estava deserto. Ela pisou na poça no meio do aposento ao correr em direção às portas. Portas que a levariam à rua. À liberdade.
Então, ouviu Lobo a caçando.
Scarlet empurrou a porta de saída. O ar fresco do anoitecer a envolveu quando desceu pelos degraus até a rua vazia, já procurando ajuda na praça.
Mas não havia ninguém.
Ninguém.
A porta se abriu atrás dela antes de ter tempo de a fechar, e ela cambaleou cegamente pela rua. Ao longe, viu uma mulher correndo para uma ruela ali perto. Scarlet se encheu de esperança e mandou os pés se moverem mais rápido, voarem. De repente, sentiu que poderia decolar e voar acima do concreto. Se ao menos conseguisse alcançar a mulher, usar o tablet dela para pedir ajuda...
Então, outra pessoa apareceu. Outro homem, com andar sobrenaturalmente rápido. Ele correu para a ruela, e, um momento depois, o grito apavorado da mulher soou pela praça, mas logo foi interrompido.
Um uivo surgiu da mesma viela escura.
Ao longe, outro uivo soou em resposta, e outro, e mais outro, preenchendo o crepúsculo com gritos sedentos de sangue.
Pavor e desesperança dominaram Scarlet, que caiu imediatamente, areia e concreto marcando as palmas das mãos. Ofegante, coberta de suor, deitou de costas. Lobo tinha parado de correr, mas continuava seguindo na direção dela. Avançando com passos medidos, pacientes.
Estava quase tão ofegante quanto ela.
Em algum lugar da cidade, outro coral de uivos começou.
Lobo não se juntou a eles.
Sua atenção estava toda em Scarlet, fria, intensa e faminta. A dor dele era evidente. A fúria, mais ainda.
Ela se arrastou para trás com as palmas das mãos ardendo.
Lobo fez uma pausa ao chegar no cruzamento. A luz da lua evidenciava sua silhueta, com olhos dourados, verdes, pretos e furiosos.
Ela o viu passar a língua pelos dentes. Abrir e fechar os dedos. Seu maxilar trabalhava como se quisesse inspirar uma quantidade maior de ar.
Scarlet conseguia ver a luta dele. O esforço. Tão claramente quanto conseguia ver o animal, o lobo dentro dele. Tão claramente quanto ainda conseguia ver o homem.
— Lobo. — A língua dela estava seca. Tentou molhar os lábios e sentiu gosto de sangue. — O que fizeram com você?
— Você. — Cuspiu a palavra, cheia de ódio. — O que você fez comigo?
Lobo deu outro passo inseguro naquela direção enquanto ela se arrastava para trás com os calcanhares, mas era inútil. Em um piscar de olhos, ele se agachou em cima dela, derrubando-a nos cotovelos sem nem precisar tocá-la. Lobo apoiou as mãos no chão uma de cada lado da cabeça de Scarlet.
Scarlet observou olhos que agora pareciam brilhar no escuro. A boca de Lobo estava vermelho-rubi, e a frente da camisa estava preta. Sentiu o cheiro de sangue, nas roupas, no cabelo, na pele dele.
Se o cheiro era tão intenso para ela, não conseguia imaginar como deveria ser para Lobo.
Ele rosnou e baixou o nariz até o pescoço dela.
Farejando.
— Sei que você não quer me machucar, Lobo.
O nariz dele esbarrou no maxilar dela. Seu hálito acariciou a omoplata.
— Você me ajudou. Você me salvou.
Uma lágrima quente escorreu pela bochecha dela.
As pontas dos cabelos, desgrenhadas e emaranhadas de novo, roçaram nos lábios dela.
— As coisas mudaram.
O coração dela tremeu como um vaga-lume sem uma das asas. A pulsação latejava nas veias, esperando os dentes se fecharem em seu pescoço a qualquer momento. Mas alguma coisa o estava segurando. Já poderia tê-la matado, mas não matou.
Ela engoliu em seco.
— Você me protegeu de Ran. Não foi para poder me matar agora.
— Você não sabe o que se passa na minha cabeça.
— Sei que você é diferente deles. — Ela fixou o olhar na lua enorme no céu. Lembrou a si mesma que ele não era um monstro. Era Lobo, o homem que a abraçou com tanto carinho no trem. O homem que lhe deu o chip de identificação, para ajudá-la a fugir. — Você disse que nunca queria me assustar. Bem, está me assustando.
Um grunhido vibrou no corpo dela. Scarlet tremeu, mas forçou o corpo a não se encolher. Em vez disso, engoliu em seco e levou as mãos ao rosto dele. Depois de passar os polegares pelas bochechas, ela deu um beijo em sua testa.
O corpo dele ficou tenso, e ela conseguiu inclinar a cabeça para trás o bastante para conseguir ver seus olhos dele. Os lábios estavam curvados em um rosnado, mas ela sustentou o olhar.
— Pare com isso, Lobo. Você não é mais um deles.
As sobrancelhas dele tremeram, mas o ressentimento pareceu desaparecer. A expressão demonstrava dor e desespero e raiva muda, mas não direcionados a ela.
— Ele está na minha cabeça — disse Lobo, com a voz reduzida a um grunhido. — Scarlet. Não posso...
Ele afastou o olhar, contraindo o rosto.
Scarlet passou os dedos pelo rosto dele. O mesmo maxilar, as mesmas bochechas, as mesmas cicatrizes, tudo manchado de sangue. Passou os dedos pelo cabelo desgrenhado.
— Apenas fique comigo. Me proteja, como você disse que faria.
Alguma coisa voou pelo ouvido dela e acertou o pescoço de Lobo.
Lobo ficou rígido. Ele ergueu o rosto, com os olhos arregalados e já ficando acesos de sede de sangue, mas logo se turvaram. Com um gorgolejar estrangulado na garganta, perdeu as forças e caiu em cima dela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!