20 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e um

— Estão vindo — disse Scarlet, rosnando enquanto se afastava da janela.
O primeiro disparo dela foi baixo e acertou a coxa de Aimery, apesar de estar mirando na cabeça. O segundo disparo acertou o chafariz, foi inútil, mas a multidão estava densa demais para que continuasse atirando. Ela tinha ouvido pelo menos três tiros vindos de Thorne, mas não sabia se ele foi mais bem-sucedido.
Cinder e Lobo eram como porcos em um abatedouro lá embaixo, e ela e Thorne iriam logo atrás se não saíssem, e logo.
Thorne pegou o capacete que tinha roubado do guarda e colocou na cabeça, se transformando de amigo em inimigo. Ela torcia para que a transformação fosse convincente para os lunares.
— Me dê sua arma — disse ele.
Ela hesitou brevemente, mas a entregou. Thorne colocou a arma no bolso e segurou o cotovelo dela, depois a levou até a escada.
Eles estavam no primeiro patamar quando passos soaram embaixo.
— Encontrei uma! — gritou Thorne, fazendo-a pular. Ele segurou a arma apontada para a cabeça de Scarlet enquanto a arrastou para o pé da escada. Quatro guardas os cercaram.
— Havia dois atiradores. O outro pode ter fugido, mas verifiquem os andares superiores para ter certeza. Eu cuido dessa.
Scarlet fingiu se debater enquanto Thorne a arrastava pelos guardas, exalando autoridade. Os guardas subiram correndo a escada. Assim que sumiram, Thorne se virou e a soltou. Eles correram para a porta dos fundos e saíram no beco atrás da fábrica.
A confusão já tinha acabado, a julgar pelo silêncio terrível que se espalhava pelo domo.
Thorne deu as costas para a fábrica, mas Scarlet segurou o braço dele.
— Espere.
Ele olhou para trás com expressão dura, mas talvez fosse só o efeito da máscara sobre o rosto.
— Nós temos que tentar ajudá-los — disse ela.
Ele franziu a testa.
— Você viu como eles pegaram Lobo e Cinder com facilidade e acha que nós podemos fazer alguma coisa para ajudar?
Ela não achava. Não achava mesmo.
Mas se nem tentasse…
— Me dê minha arma — disse ela, esticando a mão.
Thorne a encarou.
— Me dê minha arma.
Com uma bufada, ele puxou a arma da cintura e colocou na mão dela. Scarlet se virou, sem saber se ele ia junto. Ele foi.
Quando dobraram a primeira esquina, ela viu a praça. Os cidadãos que tinham se preparado para atacar Cinder e Lobo estavam ajoelhados de novo, plácidos, como se a briga nem tivesse acontecido.
Scarlet se perguntou quanto tempo demoraria para aqueles guardas revistarem a fábrica. Ela se perguntou se era louca de não dar as costas e sair correndo.
A arma estava quente em sua mão, o cabo deixava marcas na pele. Houve uma época em que segurar uma arma oferecia sensação de proteção, mas esse conforto fora afetado por saber que os lunares podiam virar a arma contra ela com facilidade.
Mesmo assim, se chegasse perto o bastante, faria um disparo ou dois, e desta vez não erraria.
O quanto podia chegar perto sem que a detectassem? O tamanho da multidão ajudaria a escondê-la, ou ela seria capturada pelo mesmo truque de lavagem cerebral quando chegasse perto demais? Ela não sabia como funcionava nem o quanto estaria vulnerável.
Desejava ter perguntado mais a Cinder sobre aquilo tudo quando teve chance.
Eles se moveram furtivamente, Thorne bem quieto atrás dela.
Ela parou quando identificou Lobo e Cinder no meio dos inimigos. Os dois estavam com as mãos amarradas. Os ombros de Lobo estavam murchos. Ele olhava para o chão.
Não, ela percebeu com um tremor. Ele olhava para Maha.
Um fogo se acendeu nas entranhas dela. Eles tiraram tudo de Lobo. A liberdade, a infância, a família toda, e ele não fez nada, nada, para merecer isso.
Ela queria vingá-lo. Tirá-lo daquele lugar horrível, coberto de poeira. Oferecer a ele céu azul, tomates e paz.
Scarlet apertou mais a arma, sentindo o contato familiar do gatilho.
Mas estava muito longe. Ela tinha mais chance de atingir um aliado do que um inimigo dali.
Com o coração disparado, Scarlet observou o beco estreito, estimando quantos passos podia dar continuando escondida. Havia uma porta na parede da fábrica na qual ela podia se encostar, mas ser vista não era sua maior preocupação, não com os lunares sendo capazes de senti-la.
Soltando o ar bem devagar, levantou a arma e mirou na direção do coração de Aimery.
Ela sustentou a mira por três respirações antes de bufar e baixar a arma. Estava certa antes. Longe demais.
Mais uma vez, pensou em chegar mais perto. Mais uma vez, hesitou.
Então, percebeu uma mudança na postura de Lobo. Ele virou a cabeça na direção dela.
Foi uma mudança sutil, quase imperceptível. Ele não olhou para ela. Não fez nenhum movimento que sugerisse que captou o aroma dela no meio de todas aquelas pessoas, mas Scarlet sabia que tinha sido exatamente isso. Havia uma tensão nos ombros dele que não estava lá momentos antes.
O coração dela pulou. Ela se imaginou sendo pega. Lobo vendo quando levassem uma arma à cabeça dela. Lobo, impotente quando dessem outra machadinha para ela. Lobo, cuja mãe tinha acabado de ser morta na frente dele, sem que pudesse fazer nada para impedir.
O corpo de Scarlet tremeu quando a lembrança da avó a atingiu como um martelo no crânio. O desespero que tomou conta dela. Toda a fúria e o ódio e a certeza a lembrando repetidamente de que ela devia ter sido capaz de impedir.
Mas não podia ter impedido.
Assim como Lobo não podia ter protegido Maha. Como não vai poder protegê-la.
Ela não podia fazer isso com ele.
Scarlet contraiu o rosto e engoliu um grito violento.
Não reaja, Scarlet, disse a si mesma. Não reaja.
Ela baixou a arma e recuou. Olhou para Thorne, e, apesar de haver dor estampada na testa dele também, ele assentiu em compreensão.
A voz calma de Aimery chegou até eles:
— Linh Cinder vai ser julgada e, sem dúvida, executada por seus crimes contra a coroa. É só pela misericórdia da rainha que vou poupar as vidas do resto de vocês. Mas saibam que qualquer pessoa pega falando da ciborgue e dos planos de traição dela ou conduzindo qualquer tipo de atividade rebelde vai receber punição veloz.
Scarlet olhou para trás a tempo de ver um guarda empurrar Lobo com força entre as omoplatas, e ele e Cinder foram levados.


— Princesa! — disse Iko, mantendo o volume no tom mais alto que ousava falar, e ainda assim não era tão alto. — Princesa, onde você está? — Ela andou pela casa e foi vasculhando cada aposento pela terceira vez. Winter não estava em nenhum armário. Não estava debaixo da cama de Maha. Não estava no pequeno chuveiro nem…
Bem, isso era tudo. Aqueles eram os únicos esconderijos.
Era uma casa bem pequena, e Winter não estava lá.
Iko voltou para a sala, sentindo o barulho do cooler no peito, com ar escapando pelas fibras porosas nas costas. Ela ainda estava superaquecida por ter corrido pelo setor, entrando e saindo de casas abandonadas em uma tentativa de ser discreta.
Winter tinha sido encontrada? Iko chegou tarde demais?
Não tinha respostas. Obrigou-se a fazer uma pausa e organizar as informações que tinha.
Os asseclas de Levana estavam em MR-9. Haviam reunido todos os cidadãos, e ela estava relativamente certa de que não era para dar uma festa.
Cinder e os outros ainda estavam naquela fábrica, pelo que ela sabia, e ela não tinha como saber se eles estavam em segurança enquanto não os visse.
Ela não sabia onde a princesa Winter estava.
Ela considerou suas opções. Voltar escondida para a fábrica para se juntar a Cinder parecia o próximo passo lógico, mas ela estaria se colocando em perigo. Essa perspectiva não a incomodava tanto quanto o medo de cair nas mãos inimigas. Os lunares não pareciam saber muito sobre sistemas de dados de androides, mas, se dissecassem a programação dela, encontrariam muitas informações confidenciais sobre Cinder e suas estratégias.
Podia esperar que os amigos voltassem sãos e salvos, mas essa opção ia contra sua programação mais básica. Ela desprezava ser inútil.
Ainda estava em dúvida quando ouviu passos pesados em frente à porta. Levou um susto, correu para a cozinha e entrou embaixo de uma bancada.
A porta foi aberta. Uma pessoa entrou, e Iko captou a leve diferença auditiva nos passos. Havia três invasores na casa.
Eles pararam na sala.
Uma voz masculina disse:
— A base de dados confirma esta como sendo a residência de Maha Kesley.
Um breve silêncio foi seguido de uma voz feminina:
— Estou sentindo alguém, mas a energia é leve. Talvez esteja abafada atrás de alguma barreira.
Iko franziu a testa. Não era possível que eles pudessem senti-la. Cinder sempre insistiu que Iko não podia ser detectada pelo dom lunar, considerando que ela não produzia bioeletricidade.
— Na minha experiência com a ciborgue, ela nem sempre reage como se espera a controle mental e manipulação — disse uma terceira voz, também masculina. — Será que também é capaz de disfarçar sua energia?
— É possível — disse a mulher, embora parecesse em dúvida. — Kinney, procure ao redor e nas casas vizinhas. Jerrico, verifique os quartos.
— Sim, mestra Pereira.
Os passos se espalharam. A porta da frente se fechou de novo.
Era uma casa pequena. Poucos momentos se passaram até a mulher entrar na cozinha pequena e Iko ver as mangas de um casaco vermelho de taumaturga. Ela ficou de pé no meio da cozinha do tamanho de um armário, tão perto que Iko podia tocá-la. Mas ela não olhou para baixo nem se deu ao trabalho de abrir nenhum dos armários.
De sua posição agachada, Iko observou o perfil da mulher. O cabelo grisalho estava cortado acima dos ombros, e, apesar de ela ser uma das taumaturgas mais velhas que Iko tinha visto, ainda era bonita, com maçãs do rosto fortes e lábios carnudos. As mãos estavam enfiadas nas mangas.
Ela ficou imóvel por um longo momento, com a testa franzida. Iko desconfiava que estava procurando mais rastros de bioeletricidade, e ficou claro que não ia reparar em Iko ali, perto dela.
Iko ficou imóvel, feliz de não precisar sufocar a respiração; pelas boas estrelas do céu, quando ficou presa no armário da espaçonave com Cinder e os outros, o barulho da respiração deles foi de romper o tímpano.
Mas então o cooler dela foi acionado de novo.
A mulher olhou para baixo e levou um susto.
Iko levantou a mão em cumprimento.
A taumaturga a observou por um longo momento, até gaguejar:
— Uma cascuda?
— Quase.
Iko pegou um pano de prato na bancada e partiu para cima da mulher. Um gritinho escapou antes de Iko apertar o pano no rosto dela, sufocando o grito. A taumaturga se debateu, mas Iko a segurou com firmeza contra a parede, sufocando o pedido de desculpas instintivo enquanto via o rosto da mulher empalidecer e os olhos se arregalarem de pânico.
— É só desmaiar que vou deixar você em paz — disse Iko, tentando parecer reconfortante.
— Ei!
Ela virou a cabeça quando o guarda real as viu pela janela da cozinha. Ele correu para a porta de trás e a abriu e…
Santas estrelas do céu.
Ela sempre achou que Kai fosse o humano mais atraente que já tinha visto, mas aquele homem era arrasadoramente lindo, com pele bronzeada e cabelo ondulado desgrenhado, e estava…
Ele estava…
Apontando uma arma para ela.
Iko puxou a taumaturga para a frente de si na mesma hora em que ele puxou o gatilho.
A bala acertou a mulher no tronco e ela desabou, já fraca pela sufocação de Iko. Iko largou a mulher e se jogou por cima do corpo, tentando pegar a arma do guarda. Ele a girou e bateu com as costas dela na bancada. O impacto reverberou pelos membros de Iko. O guarda puxou a arma e bateu com o outro punho em seu rosto. A cabeça dela foi jogada para trás e ela cambaleou dois, três passos antes de colidir com o fogão. O guarda falou um palavrão e balançou a mão.
Iko estava pensando que deveria ter instalado algum programa de artes marciais quando um segundo tiro soou por seus receptores de áudio. Ela se encolheu e colocou as mãos em cima das orelhas, baixando o volume apesar de ser tarde demais.
Quando seus pensamentos clarearam, ela viu os guardas a encarando com as bocas abertas e olhos arregalados, as mãos ainda segurando a arma.
— O que… o que você é?
Ela olhou para baixo. Havia um buraco em seu peito, deixando à mostra fios soltando fagulhas e tecido de pele sintética rasgado. Ela gemeu.
— Isso acabou de ser trocado!
— Você é… — O guarda deu um passo para trás. — Eu tinha ouvido falar de máquinas terráqueas capazes de… que eram… mas você…
O rosto dele se contorceu, e Iko já tinha passado tempo suficiente analisando músculos faciais para reconhecer a expressão como repulsa total, desenfreada. A indignação ardeu no peito dela e devia até estar escorrendo pelo novo buraco no peito.
— Não é educado ficar olhando, sabiam!
Uma forma apareceu na porta que levava até a sala. Era outro guarda, que Iko reconheceu do grupo pessoal de Levana. Ele era parte da equipe que os abordou no telhado de Nova Pequim.
— O que aconteceu? — gritou ele, observando a taumaturga caída, a arma abaixada do guarda bonito e Iko.
Seus olhos demonstraram reconhecimento, e ele sorriu.
— Que bela descoberta, Kinney. Acho que essa vinda até aqui não foi tão sem sentido quanto achei. — Ele passou por cima do corpo da taumaturga.
Iko levantou os punhos, tentando relembrar todas as dicas de luta que Lobo deu a Cinder.
— Onde está a ciborgue? — perguntou o guarda.
Iko rosnou para ele.
— Vá se ferrar.
Ele levantou uma das sobrancelhas.
— Não me provoque.
— Sir Solis — disse o outro guarda, Kinney. — Ela não é… essa coisa não é humana.
— Obviamente — disse ele, olhando para o buraco de bala na cavidade peitoral. — Acho que vamos ter que ser criativos na forma de extrair informações dela. Quer dizer, disso.
Ele tentou pegá-la. Iko desviou e fugiu, mas ele a encurralou com facilidade. Antes que seu processador entendesse, ele estava segurando as mãos dela presas nas costas. Iko lutou e tentou pisar em seu pé, mas ele desviou de todas as tentativas. Ele estava rindo quando amarrou as mãos dela e a virou para ele.
— Tanta tecnologia terráquea — disse ele, afastando para o lado o tecido da blusa para mexer nas fibras de pele destruídas —, mas você ainda é uma coisa inútil.
Raiva quente deixou sua visão vermelha.
— Vou mostrar o que é inútil!
Mas, antes que ela mostrasse qualquer coisa a ele, um grito demoníaco soou pela cozinha, e uma faca atacou o ombro de Jerrico. Ele ofegou e desviou. A lâmina rasgou a manga da roupa dele e deixou uma ferida vermelha. Iko cambaleou para trás.
Jerrico se virou e jogou a pessoa contra a parede, segurando o pescoço com uma das mãos enquanto com a outra segurava o pulso, impedindo que a mão com a faca se movimentasse.
Winter não soltou a faca, e seu ódio enlouquecido não passou. Ela levantou o joelho bem entre as pernas dele. Jerrico grunhiu e a puxou da parede, mas só para jogá-la de novo. Desta vez, Winter chiou quando o ar foi forçado para fora dos pulmões.
— Kinney, vigie a androide — disse Jerrico entredentes.
Iko desviou a atenção da princesa Winter para o guarda bonito demais para ser um imbecil, mas Kinney não se importava mais com ela. O rosto dele estava horrorizado enquanto Jerrico segurava a princesa pelo pescoço.
— É a princesa Winter! Solte-a!
Uma gargalhada sem humor surgiu da boca de Jerrico.
— Eu sei quem é, idiota. Assim como sei que ela deveria estar morta.
— Eu também ouvi falar que ela estava morta, mas está claro que não está. Solte-a.
Revirando os olhos, Jerrico se virou e arrastou Winter para longe da parede.
— Não, ela deveria estar morta. A rainha ordenou que ela fosse morta, mas está na cara que alguém não teve estômago para ir até o fim. — Winter caiu para a frente, mas ele a segurou e a prendeu junto ao peito. — Que sorte, essa. Ando esperando para ficar sozinho com você há anos, mas aquele Sir Clay irritante sempre estava por perto, como um abutre em volta de carniça. — Jerrico passou o polegar pelo maxilar da princesa. — Parece que ele não está aqui agora, não é, princesa?
Os cílios de Winter tremeram. Ela olhou para Kinney com uma expressão atordoada.
— Você…
— Ei. — Jerrico forçou o queixo dela para que o encarasse. — Você é meu prêmio, princesa. Que recompensa acha que vou ganhar por levar seu corpo morto para a rainha? Acho que ela não vai ligar para o estado em que vai estar, e, como bônus, posso provar que seu namorado é traidor, afinal.
Iko puxou as mãos, tentando desconectar os polegares dos encaixes e se soltar das cordas, mas não conseguiu impulso suficiente com os braços tão amarrados.
Ela estava prestes a se jogar para a frente e se chocar com a coluna de Jerrico com toda a força de seu crânio de metal quando Winter desabou, inerte como uma boneca de pano.
Jerrico levou um susto e mal conseguiu segurá-la. No mesmo momento, Winter enfiou a faca esquecida na lateral do corpo dele.
Jerrico gritou e a soltou. Winter cambaleou para longe das mãos do guarda, mas ele segurou seu pulso e a puxou de volta, depois deu um tapa na cara dela com as costas da mão. Winter caiu. A cabeça bateu na beirada da bancada.
Iko gritou quando o corpo da princesa desabou no chão.
Com uma série de xingamentos, Jerrico fechou a mão no cabo da faca, mas não puxou do ferimento. O rosto estava tão vermelho quanto o cabelo, e ele rosnou para a princesa:
— Essa estúpida, maluca…
Ele puxou o pé para chutá-la, mas Kinney levantou a arma e disparou. O tiro derrubou Jerrico contra a parede.
Iko se encolheu. Independentemente de quantas lutas e confusões participasse, ela sempre ficava perplexa com o quanto a realidade era mais horrenda do que as novelas.
Até a morte de um guarda tão desprezível, seu rosto contorcido de descrença enquanto a vida se esvaía, a levou a fazer uma careta.
O silêncio que veio em seguida parecia ter tomado o setor inteiro, e Iko se perguntou se o último tiro tinha danificado permanentemente seu áudio.
O guarda estava olhando para a arma na mão como se nunca a tivesse visto.
— Foi a primeira vez que puxei o gatilho por vontade própria.
Inspirando fundo, ele colocou a arma na bancada e se agachou por cima da princesa Winter. Esticou a mão para inspecionar a cabeça. Os dedos ficaram sujos de sangue.
— Ela está respirando — disse ele. — Mas talvez tenha sofrido uma concussão.
O processador de Iko hesitou.
— De que lado você está?
Ele levantou o rosto. Seu nariz tremeu quando ele olhou de novo para o buraco de bala, mas o olhar não permaneceu lá.
— Disseram que a princesa estava morta. Achei que outro guarda a tinha matado.
Iko ajeitou as dobras da blusa para cobrirem o ferimento.
— Um guarda chamado Jacin recebeu ordens da rainha de matá-la, mas a ajudou a fugir em vez de fazer isso.
— Jacin Clay.
Ela apertou os olhos.
— Por que você nos ajudou?
Com a testa contraída, Kinney colocou a princesa no chão de novo. Havia sangue para todo o lado. Da taumaturga. De Jerrico. De Winter.
— Eu ajudei — disse Kinney, como se a distinção fosse importante. Ele encontrou o pano de prato que Iko usou para sufocar a mestra Pereira e amarrou ao redor da cabeça de Winter, fazendo o melhor curativo que podia para o ferimento. Quando terminou, se levantou e pegou a faca ensanguentada.
Iko recuou.
Ele fez uma pausa.
— Você quer que eu corte a corda ou não?
Ela observou o rosto dele, desejando não se sentir tão compelida a ficar olhando.
— Sim, por favor.
Ela se virou, e ele trabalhou rápido para soltá-la. Ela até esperava encontrar fragmentos cortados de pele quando levantou as mãos, mas a lâmina nem a tocou.
— O que vai acontecer é o seguinte — disse Kinney, indicando a arma na bancada. Iko percebeu que ele não gostava de olhar para ela. Ficava procurando motivos para afastar o rosto. — Vou inventar um relatório dizendo que você arrancou a arma de mim e matou a mestra Pereira e Sir Solis, depois fugiu. Não vou contar nada sobre a princesa. Ninguém nem sabe que ela está viva. — Ele apontou para o nariz dela, ousando sustentar o olhar por mais de meio segundo. — E você vai levá-la para o mais longe daqui possível. Vai deixá-la escondida.
Ela firmou as mãos nos quadris.
— E nós só a enfiamos em uma casinha num setor mineiro completamente aleatório. Por que não passou pela nossa cabeça a ideia de deixá-la escondida?
O rosto de Kinney ficou ilegível por um longo momento, até ele perguntar:
— Você entende sarcasmo?
— Claro que entendo sarcasmo — disse ela. — Não é física teórica, né?
O maxilar do guarda trabalhou por um momento, mas ele balançou a cabeça e afastou o olhar.
— Só cuide dela.
Ele verificou a princesa mais uma vez e foi embora.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!