13 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e um

CRESS SEGUIU O GUARDA PELA ESCADA DO HOTEL. THORNE ESTAVA atrás dela, com uma das mãos em seu ombro e a outra segurando a bengala. Ela o avisou do último degrau ao virar-se no corredor escuro. O dr. Erland estava atrás, já fazendo barulhos de cansaço por carregar o valioso equipamento de laboratório escada abaixo.
Era difícil para Cress se concentrar. Ela nem sabia para onde estavam indo. Para a nave, Cinder disse? Na hora, Cress tinha sido tomada de horror por ver o agente lunar surtar. Os uivos ainda ecoavam nos tímpanos dela.
O guarda abriu a porta do hotel, e todos saíram para a rua coberta de areia. Dois passos depois, ele parou e esticou os braços para impedir Cress, Thorne e o doutor de se chocarem contra ele.
Choramingando, Cress tremeu junto de Thorne e observou a rua.
Dezenas de homens e mulheres de uniformes oficiais de militares da Comunidade os cercavam com as armas erguidas. Ocupavam as ruas e os espaços entre os prédios, olhavam de cima de telhados e por trás de naves cobertas de ferrugem.
— Cress? — sussurrou Thorne ao sentir a tensão no ar tenso.
— Militares — murmurou ela. — Um monte. — O olhar dela pousou em uma garota de cabelo azul, e um ódio imediato surgiu dentro do peito dela. — O que ela está fazendo aqui?
— O quê? Quem?
— Aquela... aquela garota da outra cidade.
Thorne inclinou a cabeça.
— É Darla. A androide-acompanhante? Por que você e Cinder ficam tão confusas com isso?
Os olhos dela se arregalaram. Ela era uma androide-acompanhante?
A garota os observava sem emoções, de pé entre dois soldados e com as mãos inertes ao lado do corpo.
— Me desculpe, mestre — disse ela, com a voz se espalhando pelo silêncio. — Eu teria avisado, mas seria ilegal, e minha programação me impede de violar leis humanas.
— É, essa vai ser a primeira coisa que vamos consertar — fala Thorne antes de sussurrar para Cress. — Eu tive que achar uma brecha para ela me ajudar a roubar aquele carro.
Uma voz soou alto, e Cress demorou um momento para ver o homem segurando um tablet e um amplificador em frente à boca.
— Vocês estão presos por abrigarem e ajudarem fugitivos procurados. Deitem-se de barriga para baixo e coloquem as mãos na cabeça, e ninguém vai se machucar.
Tremendo, Cress esperou para ver o que o guarda faria. A arma que ele tinha tirado de Thorne ainda se encontrava presa no cinto, mas as mãos estavam cheias de coisas do doutor.
— Vocês estão cercados — prosseguiu o homem, uma vez que ninguém se mexeu. — Não há para onde ir. Deitem-se agora.
O guarda se moveu primeiro, ficou de joelhos e colocou a bolsa de suprimentos médicos e a máquina estranha no chão antes de se deitar na terra.
Engolindo em seco, Cress fez o mesmo e foi para o chão. Thorne se abaixou ao lado dela.
— Estrelas do céu — gemeu o doutor, resmungando ao se juntar a eles no chão. — Sou velho demais para isso.
Com calor e desconforto e pedras ásperas apertando a barriga, Cress colocou as palmas das mãos na cabeça.
O militar esperou até que todos estivessem no chão para voltar a falar:
— Linh Cinder. Você está cercada. Venha para a frente imediatamente com as mãos na cabeça e ninguém ficará ferido.


CINDER SOLTOU UMA SÉRIE DOS PALAVRÕES MAIS CRIATIVOS EM que conseguiu pensar quando a voz do homem sumiu. Deixou Lobo no corredor, onde ele não estava reagindo aos lembretes de que um colapso mental não teria a menor utilidade para ajudar Scarlet. Só ficou sentado encolhido, a cabeça encostada nos joelhos, sem dizer nada.
Cinder entrou abaixada no quarto de hotel do doutor e se aproximou da janela para espiar.
O telhado do outro lado da viela estava com dois militares com as armas apontadas para ela.
Ela soltou a persiana e falou outro palavrão enquanto se grudava à parede.
Uma mensagem de Iko apareceu em sua visão. Ela a abriu, já temendo o que diria.
O RADAR ESTÁ CAPTANDO NAVES MILITARES DA COMUNIDADE. ACHO QUE FOMOS ENCONTRADOS.
— Você acha? — murmurou ela.
Ela fechou os olhos e elaborou uma mensagem rápida, vendo as palavras nas pálpebras enquanto pensava nelas.
NO HOTEL, CERCADA DE MILITARES DA C.N.O., PREPARE-SE PARA DECOLAGEM IMEDIATA. NÃO VAMOS DEMORAR... EU ESPERO.
Ela soltou a respiração devagar e voltou a abrir os olhos. Como poderia passar um agente lobo em crise, um cego e um médico idoso por todos esses soldados sem ninguém ser morto?
Ela duvidava que a garota fosse ajudar muito. Cress não parecia o tipo ousado e que corre riscos, e Cinder duvidava que tivesse muita experiência em lutas para sair de situações assim.
Ela podia abandonar os amigos e tentar fugir sozinha. Podia tentar controlar Lobo e usá-lo como arma, mas nem ele era capaz de matar tantos soldados de uma vez, e eles não hesitariam em matá-lo. Podia tentar fazer lavagem cerebral nos soldados para que os deixassem passar, mas teria que abandonar Lobo se ele não fosse junto por vontade própria.
Do lado de fora, o oficial repetiu as ordens várias vezes, como um robô.
Empertigando os ombros, ela se virou para Lobo no corredor.
— Lobo — disse ela, agachando-se ao lado dele. — Preciso que você me ajude aqui.
Ele se mexeu o bastante para olhar para ela por cima do braço. Os olhos verdes pareciam apagados e sem vida.
— Lobo, por favor. Precisamos chegar à nave, e há muitas pessoas com armas lá fora. Vamos lá... O que Scarlet iria querer que você fizesse?
Seus dedos se dobraram e as unhas afundaram nas coxas. Mas ele continuou sem dizer nada, não fez nenhum gesto de que ia se levantar.
A voz do militar soou de novo. Você está presa. Saia com as mãos na cabeça. Você está cercada.
— Tudo bem. Você não me deixa escolha.
Ela ficou de pé e obrigou os ombros a relaxar. O mundo mudou ao redor quando ela desligou o pânico e o desespero e procurou a energia que estalava ao redor de Lobo.
Só que, dessa vez, não estava em chamas. Não como era de costume.
Dessa vez, foi como controlar um cadáver.


ELES CHEGARAM À PORTA JUNTOS.
Pelo menos sessenta armas foram apontadas para eles, que ela pudesse ver. Sem dúvida havia mais escondidas entre prédios e veículos.
Jacin, Thorne, dr. Erland e Cress estavam deitados no chão.
Duas ruas os separavam da nave.
Ela ficava alimentando Lobo com mentiras como medicação intravenosa gotejando.
Scarlet vai ficar bem. Nós vamos encontrá-la. Nós vamos salvá-la. Mas primeiro temos que sair dessa confusão. Temos que chegar à nave.
Com o canto do olho, ela viu os dedos dele tremerem, mas não sabia se ele reconhecia que ainda havia esperança lá fora ou se só estava com raiva dela por usá-lo assim. Por transformá-lo em uma marionete, como a taumaturga o transfigurara em um monstro.
Nos degraus do hotel, com sessenta armas apontadas para ela, Cinder percebeu que não era melhor do que aquela taumaturga. Isso era uma guerra, e ela estava mesmo no meio dela.
Se tivesse que fazer sacrifícios, faria.
O que isso fazia dela? Uma criminosa de verdade? Uma ameaça de verdade? Uma lunar de verdade?
— Coloquem as mãos na cabeça e se afastem do prédio. Não façam movimentos repentinos. Estamos autorizados a matar se necessário.
Cinder fez Lobo ficar ao seu lado. Os dois andaram juntos. O ar poeirento os envolvia e grudava na pele. Uma dor cega se espalhava pela cabeça dela, mas não era tão difícil controlar Lobo como antigamente. Na verdade, a facilidade a deixou enjoada. Ele não estava nem tentando resistir.
— Já estava na hora — murmurou Thorne quando ela passou.
— Cinder... salve-se — sibilou o dr. Erland.
Ela fez o melhor possível para não mover os lábios quando falou:
— Você consegue usar o glamour nesses?
— Pare aí mesmo!
Ela obedeceu.
— De joelhos, agora. Fique com as mãos levantadas.
— Só alguns — disse o dr. Erland. — Talvez juntos...
Ela balançou a cabeça.
— Estou com Lobo. Fora isso... consigo controlar um terráqueo, talvez dois.
Ela trincou os dentes. Apesar do que o doutor disse, ela não podia simplesmente se salvar. Não era apenas lealdade e amizade que fazia cada fibra do corpo dela se rebelar contra a noção de que podia abandoná-los todos.
Era a certeza de que, sem eles, ela era inútil. Precisava deles para impedir o casamento e salvar Kai. Precisava deles para levarem-na a Luna. Precisava deles para ajudarem-na a salvar o mundo.
— Jacin? Você consegue controlar algum deles?
— Ah, claro. — Ela praticamente o ouviu revirando os olhos. — A única forma de encarar isso é lutando.
Thorne resmungou:
— Falando nisso, alguém viu minha arma?
— Está comigo — disse Jacin.
— Pode me devolver?
— Não.
— Eu ordeno que vocês parem de falar! — gritou o homem. — Se eu vir mais lábios se mexendo, a pessoa vai levar uma bala na cabeça, entenderam? No chão!
Cinder fez questão de olhar com raiva para o homem enquanto dava outro passo à frente.
Como dominós empurrados, ela ouviu o destravar de sessenta mecanismos de segurança ao redor.
Cress choramingou. A mão de Thorne tateou pelo chão até segurar a dela.
— Tenho seis tranquilizantes — falou Cinder. — Vamos torcer para bastar.
— Não vai — murmurou Jacin.
— É o último aviso...
Cinder ergueu o queixo e grudou o olhar no homem. Ao lado dela, Lobo assumiu postura de luta, com os dedos encolhidos e prontos, tudo por sugestão de Cinder. Pela primeira vez, ela sentiu uma pontada de nova emoção vinda dele. Ódio, pensou ela. Dela.
Ela ignorou o sentimento.
— Esse é seu primeiro aviso — disse ela.
Ela deixou Lobo pronto, selecionou uma dentre os soldados terráqueos que estavam na linha de frente e usou toda a força de vontade. A jovem se virou e apontou a arma para o homem que estava no comando. Os olhos da mulher se arregalaram de choque enquanto olhavam para as próprias mãos rebeldes.
Ao redor dela, mais seis soldados mudaram os alvos e miraram nos colegas, e Cinder soube que estavam sob o controle do dr. Erland.
E isso era tudo o que eles tinham. Sete soldados terráqueos à sua disposição. A arma de Jacin. A fúria de Lobo.
Seria um banho de sangue.
— Abaixem as armas e nos deixem passar — declarou Cinder —, e ninguém vai se machucar.
O homem apertou os olhos para ela e fez questão de não olhar para a colega que o mantinha sob a mira da arma.
— Você não tem como vencer isso.
— Eu não disse que tinha — disse Cinder. — Mas podemos provocar muitos danos tentando.
Ela abriu a ponta do dedo e carregou um tranquilizador do cartucho na palma da mão quando uma onda de tontura a atingiu. Sua força estava falhando. Não poderia segurar Lobo por muito tempo. Se perdesse o controle e ele surtasse de novo... ela não sabia o que Lobo faria. Entraria em coma de novo, sairia em um surto louco ou viraria a raiva para ela e para o resto dos amigos?
Ao lado dela, Lobo rosnou.
— Na verdade, podemos vencer — disse uma voz de mulher.
Cinder ficou tensa. Havia uma vibração no ar. Uma onda de incerteza. O homem com o tablet se virou quando silhuetas começaram a surgir dos prédios ao redor, chegando por vielas, se materializando em janelas e portas.
Homens e mulheres, jovens e velhos. Vestidos com as calças jeans surradas e camisas frouxas de algodão, com lenços nas cabeças e chapéus de algodão, tênis e botas.
Cinder engoliu em seco e reconheceu quase todos da breve estada em Farafrah. Os que levaram comida para ela. Os que a ajudaram a pintar a nave. Os que fizeram desenhos ciborgues nos corpos.
O coração dela inflou por um momento, mas despencou na barriga.
Isso não terminaria bem.
— Isso é uma questão de segurança internacional — avisou o homem. — Estou mandando que todos voltem para suas casas. Qualquer pessoa que contrarie essa ordem vai ser presa por obstrução da justiça pelas leis da União Terráquea.
— Então nos prenda por obstrução. Depois de deixá-los passar.
Cinder apertou os olhos contra o brilho do sol em busca da fonte da voz. Ela viu a mulher da loja de remédios. A lunar cujo filho se matou para não entrar na guarda de Levana.
Alguns dos soldados mudaram as miras das armas, afastando de Cinder e apontando para a multidão, mas o homem com o amplificador levantou um dos braços.
— Essas pessoas são criminosos procurados! Não queremos usar força letal para apreendê-las, mas faremos isso se necessário. Peço que se afastem e voltem para suas casas.
A ameaça foi seguida de um impasse, embora os poucos rostos civis que Cinder conseguia ver não parecessem assustados. Só determinados.
— Essas pessoas são nossos amigos — disse a vendedora. — Elas vieram para cá procurando abrigo, e não vamos deixar que as levem daqui.
O que eles estavam pensando? O que podiam fazer? Eles podiam estar em número maior do que os soldados, mas se encontravam desarmados e não eram treinados. Se ficassem no caminho, seriam massacrados.
— Vocês não estão me dando escolha — falou o homem, os dedos apertando o tablet. Uma gota de suor escorreu pelo lado do rosto dele.
O tom da vendedora assumiu um novo veneno.
— Você não faz ideia do que é não ter escolha.
Os dedos dela tremeram, um gesto imperceptível, mas o efeito passou como uma onda de choque pela multidão. Cinder se encolheu. Ao olhar ao redor, viu que muitas das pessoas da cidade pareciam tensas de repente, com as testas franzidas e os membros tremendo.
E ao redor deles os soldados começaram a se mexer. A redirecionar a mira, assim como fizeram os controlados por Cinder e pelo dr. Erland, até que todos os soldados apontavam para o que estava ao lado, até que todos os soldados tinham uma arma apontada para a cabeça.
Os olhos perplexos se encheram primeiro de descrença e depois de terror.
Só o líder ficou de pé no meio, olhando boquiaberto para a própria tropa.
— É assim — disse a mulher. — Ter seu corpo usado contra você. Saber que seu cérebro se tornou um traidor. Nós viemos para a Terra a fim de fugir disso, mas estamos todos perdidos se Levana conseguir o que ela quer. Eu não sei se essa moça pode impedi-la, mas parece que é a única em quem vale a pena botar fé agora, então é isso que nós vamos fazer.
Cinder deu um grito repentino quando a dor explodiu na cabeça. Seu poder sobre Lobo e a soldado ruiu. Seus joelhos se dobraram, mas de repente havia um braço na cintura dela segurando-a.
Ofegando pelo esforço mental, ela olhou para o rosto de Lobo. Os olhos dele estavam verdes e cintilantes de novo. Normais.
— Lobo...
Ele afastou o olhar quando uma arma caiu no chão. Cinder deu um pulo. A mulher que ela controlava estava olhando para os colegas e tremendo. Sem saber para onde olhar. Sem saber o que fazer. Ela levantou as mãos com nervosismo em sinal de rendição.
Vermelho de raiva, o homem com o tablet baixou o amplificador. Ele encarou Cinder de novo com os olhos cheios de ódio. Em seguida, jogou o tablet no chão.
Lobo virou a cabeça de um lado para outro.
— Hã, alguém pode me explicar...
— Mais tarde — disse Cinder, deixando o peso ser sustentado por Lobo. — Levantem-se. Está na hora de a gente ir.
— Eu que não vou discutir — falou Thorne quando ficou de pé junto com os outros. — Mas alguém acha que pode pegar minha androide-acompanhante? Eu passei por muita coisa pra consegui-la e...
— Thorne.
Cinder sentiu-se tonta e fraca quando seguiram por entre as pessoas. A sensação era de andar por um labirinto de esculturas de pedra, esculturas com armas grandes que os acompanhavam com os olhos, contorcendo-se por dentro de raiva e desconfiança.
Cinder tentou olhar nos olhos das pessoas da cidade, mas muitas delas estavam com olhos fechados e tremiam de concentração. Não segurariam os soldados para sempre.
Só os óbvios terráqueos olharam nos olhos dela e assentiram com sorrisos assustados e fugidios. Não com medo dos vizinhos lunares, pensou ela, mas do que aconteceria se Levana assumisse o controle da Terra. Do que aconteceria se os lunares comandassem tudo. Do que aconteceria se Cinder falhasse.
Jacin segurou o pulso da androide-acompanhante e a puxou junto com eles.
— Aquela mulher está certa — disse Lobo quando se afastaram da multidão, e a Rampion, a liberdade deles, surgiu na rua à frente. — Não tem nada pior do que ter seu corpo usado contra você.
Cinder tropeçou, mas Lobo a segurou e a arrastou por alguns passos até ela se equilibrar de novo.
— Me desculpe, Lobo. Mas eu precisei. Não podia deixar você aqui.
— Eu sei. Entendo. — Ele esticou a mão e pegou uma bolsa que estava com o doutor para diminuir a carga dele enquanto seguiam para a nave. — Mas não muda o fato de que ninguém devia ter esse tipo de poder.

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