7 de dezembro de 2018

CAPÍTULO Quarenta e Um

— LOBO! LOBO! — AO VIRAR O PESCOÇO, SCARLET VIU UM HOMEM e uma mulher correndo na direção dela, o luar refletindo na arma da mulher. O pavor de Scarlet não se prolongou; eles não eram lunares malucos. Ela voltou a atenção para Lobo e procurou o dardo enfiado em seu pescoço. — Lobo! — gritou de novo enquanto arrancava o dardo e o largava no chão.
— Você está bem? — gritou a mulher quando chegou mais perto. Scarlet a ignorou até seu próprio nome atravessar a sensação de pânico. — Scarlet? Scarlet Benoit?
Ela ergueu o olhar quando a mulher parou... mas não, não era uma mulher. Uma garota, com cabelo bagunçado e traços delicados e levemente familiares. Scarlet franziu a testa, com a certeza de já ter visto a garota antes.
O homem a alcançou, ofegando para respirar.
— Quem é você? — perguntou Scarlet, passando os braços ao redor de Lobo quando os dois se abaixaram para puxá-lo para longe dela. — O que fez com ele?
— Venha — disse o homem, puxando Lobo. Ele tentou afastar o corpo pesado, mas ela continuou segurando-o com força. — Temos que sair daqui.
— Pare! Não toque nele! Lobo!
Ela segurou as laterais do rosto dele e o inclinou para trás. Se não fosse pelos dentes e pelo sangue no queixo, ele pareceria até tranquilo.
— O que você fez com ele?
— Scarlet, onde está sua avó? Ela está com você? — perguntou a garota.
Isso fez Scarlet voltar a prestar atenção nela.
— Minha avó?
A garota se ajoelhou ao seu lado.
— Michelle Benoit? Sabe onde ela está? — As palavras da garota saíram tão apressadas que se misturaram.
Scarlet olhou sem entender. Sua memória trabalhou. Conhecia essa garota. Uma luz se refletiu nos dedos da garota, e Scarlet percebeu que o que tinha visto antes não era uma arma; era a mão dela.
— Linh Cinder — sussurrou.
— Não se preocupe — disse o homem. — Somos os bonzinhos.
— Scarlet — chamou Cinder, segurando Lobo pelos ombros para tirar um pouco do peso de cima dela. — Sei qual foi a impressão passada pelas telas, mas juro que não estamos aqui para machucar você. Só preciso saber onde está sua avó. Ela está em perigo?
Scarlet engoliu em seco. Aquela era a princesa Selene. Aquela era a garota que estavam procurando, a garota por quem a avó foi interrogada.
A garota que a avó deu tudo para proteger.
Juntas, ela e o homem afastaram Lobo e o largaram no concreto.
— Por favor — disse Cinder. — Sua avó?
— Ela está no teatro da ópera — respondeu. — Morta.
A garota olhou para ela boquiaberta; Scarlet não conseguiu identificar se com pena ou decepção. Depois de se sentar, ela colocou a mão aberta no peito de Lobo, aliviada ao senti-lo subir e descer sob o toque.
— Estavam procurando você.
A surpresa destruiu rapidamente a solidariedade da garota.
— Venha — disse o homem ao lado dela, se inclinando e passando o braço por baixo da axila de Scarlet. — Hora de ir.
— Não! Não vou abandoná-lo! — Ela se soltou, rastejou até o corpo inconsciente de Lobo e envolveu a cabeça dele com os braços. Os estranhos olharam para ela como se fosse louca. — Ele não é como os outros.
— Ele é exatamente como os outros! — discutiu o homem. — Estava tentando comer você.
— Ele salvou minha vida!
Os estranhos trocaram olhares incrédulos, e a garota deu de ombros sem entender.
— Tudo bem — disse o homem. — Você vai na frente.
Ele afastou Scarlet de Lobo, e a garota segurou-o pelos pulsos e os colocou por cima do ombro, gemendo pelo esforço.
O homem foi para trás e segurou as pernas de Lobo.
— Minha nossa — murmurou, já sem fôlego. — Do que esses caras são feitos?
Cinder começou a andar na direção do teatro da ópera em um ritmo que parecia quase de passeio. Scarlet se agachou entre eles e sustentou o abdome de Lobo da melhor maneira que conseguiu enquanto seguiam com dificuldade pela praça.
Depois da mulher, a forma brilhante de uma nave de carga militar surgiu na rua seguinte.
Um uivo quase fez Scarlet largar o corpo de Lobo com o susto. Não conseguia imaginar se sentir mais vulnerável, com os braços ao redor do tórax de Lobo, deixando a própria barriga e o peito expostos, se deslocando a ritmo de lesma, suando, exausta, com dor. Com sangue escorrendo pela barriga.
— É melhor você estar com os tranquilizantes prontos — disse o homem.
— Só consigo... botar... um de cada vez...
O homem xingou baixinho e quase gritou.
— Cinder! Dez ho...
Houve um estalo, e um dardo penetrou no peito de um homem na calçada em frente ao teatro. Ele caiu no chão antes mesmo de Scarlet perceber que estava lá.
— Vamos pegar esse aí — disse o homem atrás dela. — Quantos mais você tem?
— Só três — disse a garota, ofegando.
— Vamos ter que repor.
— Certo. Vou... até... a loja de conveniência e... — Ela não terminou, pois o esforço era muito.
Cinder tropeçou e todos caíram, e o corpo de Lobo bateu no chão com um baque surdo.
Scarlet saiu de baixo dele, e seu coração deu um pulo quando viu sangue escorrendo dos ferimentos, que tinham piorado na caminhada.
— Lobo!
Um uivo apavorante surgiu ao redor deles. Bem mais perto do que antes.
— Abra a rampa! — gritou a garota, assustando o homem.
— Precisamos de curativos — disse Scarlet.
A garota ficou de pé e segurou os pulsos de Lobo de novo.
— Temos ataduras na nave. Venha.
O homem correu à frente, gritando:
— Iko! Abra a escotilha!
Scarlet ouviu o clique de mecanismos e o zumbir de eletricidade quando a escotilha começou a se abrir, revelando o interior aconchegante da nave. Depois de ficar de pé, ela segurou os tornozelos de Lobo, mas logo viu um homem disparado na direção deles, com as narinas dilatadas, os lábios repuxados por cima dos dentes. Era um dos homens que a levaram para a cela.
Houve um zumbido, um baque, e um dardo afundou no antebraço dele. O homem rugiu e aumentou a velocidade, até que a raiva sumisse, e caiu para a frente, a cara batendo direto na calçada.
— Quase lá — disse Cinder por entre dentes, pegando os pulsos de Lobo de novo.
Mais uivos soaram nas ruas e becos e sombras, e grandes figuras galopantes surgiram da escuridão.
As costas e as pernas de Scarlet doíam, e as palmas das mãos estavam escorregadias enquanto lutava para continuar segurando os tornozelos de Lobo.
— Eles estão chegando!
— Eu reparei!
Scarlet caiu de joelhos. Olhou para o rosto inconsciente de Lobo, para a garota em pânico, e a frustração cresceu dentro dela. Forçou-se a ficar de pé, mas suas pernas estavam moles como massa de pão.
O homem voltou e a empurrou em direção à nave.
— Venha! — gritou ele, pegando os tornozelos de Lobo.
— Thorne! Você tem que pilotar a nave, seu lerdo!
Scarlet virou para a escotilha aberta da nave.
— Eu sei pilotar! Tragam-no para dentro!
Correu, embora sua mente gritasse por deixar Lobo para trás. Os músculos queimavam, a cabeça latejava com o fluxo de sangue. Só conseguia se concentrar em colocar um pé na frente do outro. Em ignorar a queimação e a dor aguda no lado do corpo. Em piscar para tirar o suor dos olhos. Mais. Um. Passo.
Alguma coisa voou até suas costas. Ela ouviu tecido rasgando, um baque alto, e algo agarrou seu tornozelo. Ela gritou e caiu no pé da rampa. Unhas se afundaram na pele de sua panturrilha, e ela gritou de dor.
Um sibilar. Um baque.
A mão a soltou.
Scarlet chutou o queixo do homem antes de subir o restante da rampa, entrando pela abertura da nave. Saiu correndo para dentro e cambaleou até a cadeira do piloto. Os motores não haviam desligado, e a nave zumbia e ronronava ao redor. Seus movimentos foram automáticos. Mal conseguia enxergar através do suor salgado que escorria pelos olhos. Os batimentos pareciam cascos de cavalo em seu peito.
Mas seus dedos sabiam o que fazer ao passearem pelo painel.
— Capitão? Cinder?
Ela virou assustada para olhar para a porta, mas não havia ninguém lá.
— Quem está aí?
Um breve silêncio.
— Quem é você?
Scarlet limpou o suor da testa. A nave. A nave estava falando com ela.
— Sou Scarlet. Precisamos nos preparar para decolar. Você pode...?
— Onde estão Thorne e Cinder?
— Logo atrás de mim. Esta nave é equipada com elevação automática?
Uma série de luzes se acendeu no painel.
— Elevação e estabilizadores magnéticos automáticos.
— Que bom. — Esticou a mão para o controle dos propulsores e esperou até ouvir o som de passos na rampa.
Uma gota de suor escorreu pela testa. Ela engoliu em seco com força e falhou na tentativa de umedecer a garganta.
— Por que estão demorando tanto? — Scarlet girou a cadeira, foi até a entrada do cockpit e olhou para além do compartimento de carga.
O rosto inerte de Lobo estava a menos de dez passos do fim da rampa, e ali estavam Linh Cinder e o amigo, um de costas para o outro.
Estavam cercados por sete agentes lunares e pelo taumaturgo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!